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arquiteturismo ISSN 1982-9930

Forte de São João, Bertioga SP. Foto Victor Hugo Mori

sinopses

português
Festas populares, enraizadas na tradição, são sempre passíveis de ser apropriadas por camadas sociais mais altas, avessas ao convívio democrático.


como citar

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.


Nestes tristes trópicos a sociedade de sangue escravocrata se manifesta de forma espontânea, sem a necessidade de ser convocada. Durante a juventude acompanhei de perto nos anos sucessivos que passei o carnaval em Salvador o surgimento e difusão dos trios elétricos ambulantes. Na origem eram caminhões adaptados com engenho para abrigar em sua carroceria músicos e cantores, uma gambiarra inventiva, macunaímica, antropofágica, oswaldiana, a cara do Brasil dos suados em dia festivo. Mas na cidade negra, onde o batuque africano é a base das variações musicais, a novidade foi aos poucos se transformando, os caminhões viraram um mix sofisticado e complexo de camarins, sala de descanso, palco e aparato sonoro.

Os endinheirados – de forma paulatina no começo, mas na base das cotoveladas reais e metafísicas logo a seguir – tomaram conta do pedaço, transformaram o chão ao redor do trio em espaço de branco, garantido por cordão de isolamento sustentada com vigor por seguranças privados truculentos e carrancudos. Os de “dentro” – identificados pelos “abadás”, uma camiseta sumária pintada de forma extravagante, que as moças metiam a tesoura para ampliar o decote e deixar à mostra umbigo e ventre – passaram a ter um espaço privado em pleno asfalto público, com área suficiente para dançar, beber, comer, namorar, ostentar e desprezar os que estavam de “fora”. Em odienta inversão dos valores simbólicos, os populares – detentores por direito do carnaval de rua, expressão profunda do seu modo de ser – passam a ser vistos pelos arrivistas como beneficiários indevidos da festa, afinal o valor absurdo cobrado pelo abadá garantia o show privado em pleno espaço público.

Curioso constatar que não deixa de ser uma invenção este espaço privado ambulante, demarcado pelo cordão de isolamento, que se movimenta em sintonia com o caminhão. Uma procissão da propriedade privada preenchida de foliões barulhentos e embriagados penetrando noite adentro pelas ruas de Campo Grande com destino à Praça Castro Alves.

Tais lembranças me ocorreram nesta madrugada, quando acompanhado por amigos e familiares vou ver os fogos da passagem de ano na Avenida Paulista. Em uma transversal, a meia quadra de nosso destino, nos deparamos com um cercadinho feito com grades metálicas de isolamento diante de um hotel metido a luxuoso. Os indefectíveis seguranças negros e mulatos, altos e fortes, verdadeiros armários, de ternos pretos, afinal estamos em São Paulo, aparelhos de comunicação ajustados aos ouvidos, garantem a inviolabilidade do espaço privado sobre a calçada pública, algo inaceitável em uma sociedade e em uma cidade democráticas. Turistas brancos se aglomeram no cercadinho, esfuziantes em sua certeza de exclusividade, de superioridade diante da plebe que caminha apressada para chegar à Avenida Paulista.

Contudo, é na mais importante avenida da cidade que acontece a festa de verdade, milhares de pessoas se confraternizam trocando beijos e abraços em infinitas combinações de gênero, idade e classe social. Ao retornarmos passamos diante do cercadinho agora melancolicamente vazio. Os turistas brancos pagaram provavelmente uma grana alta para uma festa ridícula, de poucos minutos, fora do campo de visão da festa verdadeira. Que papelão! A elite soteropolitana é muito mais sabida.

notas

NA – Décima sexta publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>. 

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora. 

comentários

129.06 eu estive lá!
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original: português

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129

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