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my city ISSN 1982-9922

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O novo prefeito de São Paulo coloca à frente de sua atuação uma estratégia midiática de confronto e uma política urbana caquética, buscada no porão da história, onde práticas higienistas passam por cima de princípios básicos da cidadania.

how to quote

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.



No dia 03 de janeiro de 2017, terça-feira, ando rumo ao meu escritório e me surpreendo com a movimentação nos baixios do viaduto da Praça 14 Bis, essa excrecência urbanística legada pela visão rodoviarista que habitou e habita o ideário de tantos prefeitos de nossa infeliz cidade. Caminhões da prefeitura estão estacionados junto ao meio fio, do lado esquerdo das ruas, e diversos funcionários limpam a área. O que me chama a atenção, contudo, é a presença de barracas de acampamento dentro de uma zona fechada com uma lona verde, presa sobre o antigo gradil de ferro que protegia a quadra esportiva construída por meninos do Bexiga. Alguém me informa que os moradores de rua que habitavam diversos pontos da grande estrutura haviam sido deslocados para aquela área, convertida em uma espécie de campo de refugiados.

O novo alcaide da cidade seleciona essa área para exemplificar sua ação na área central, que há alguns dias ele havia descrito como lugar do lixo, englobando logradouros e pessoas. Recém-empossado, sem política habitacional devidamente implantada, a decisão tem óbvia finalidade midiática, como se confirmou nos dias seguintes, quando se deixa fotografar várias vezes com uniforme de gari, com vassoura às mãos, resgatando a imagem deprimente de Jânio Quadros, um dos piores políticos da história desse país especializado em mandatários de péssima estirpe.

Nos dias recentes, realçando a visão de uma cidade limpa do caos e degenerescência petistas, o político artificialmente jovem e sorridente reativa uma de suas últimas ações antes das eleições, quando apareceu paramentado de limpador de paredes de filme de Hollywood para salvar a cidade dos pichadores de monumentos – e de nada adiantou diversos especialistas denunciarem que a tintinha cor-de-rosa não era coisa de pichador que se preze e que era no mínimo estranho que o candidato e toda sua equipe de filmagem estivessem a postos logo depois do ocorrido para gravar a matéria que seria veiculada com sucesso no horário político gratuito; a grande imprensa, vergonha das vergonhas para quem ainda tem vergonha na cara, silenciou sobre o óbvio oportunismo da situação.

Assim, demonstrando que é capaz de colocar em prática suas promessas eleitorais, o jovem-velho prefeito paulistano, como um invertido Batman diurno, arranca o terno de executivo e exibe novamente seu uniforme de super-herói das camadas conservadoras de nossa cidade, agora sem vassoura, mas com pinceis e sprays para apagar as inscrições dos inimigos públicos da grande metrópole, os grafiteiros e, em especial, os pichadores. Como todos sabem, ou deveriam saber, vivemos em uma sociedade democrática de inclusão universal de seus cidadãos, todos sem exceção com acesso farto aos bens de consumo e serviços sociais produzidos e disponibilizados coletivamente. Portanto, não apenas é inaceitável a agressão ao patrimônio público e privado, como todos os membros das gangues de bandidos merecem ser trancafiados em prisões, lugar de gente perigosa como eles, morada adequada para aqueles que não sabem viver em coletividade.

Baboseiras como essa são ditas a torto e direito por aí, me obrigando a dizer que faço ironia, que nossa sociedade é atravessada por desigualdades abissais, que os jovens da periferia, que formam a maioria da população, não têm acesso aos bens de consumo e serviços sociais produzidos e disponibilizados coletivamente, que a vida deles é uma merda, pois estão condenados a servirem como quase escravos, por toda a vida, os poucos abastados de uma sociedade racista e excludente. Que eles gritem através das inscrições que eles existem, que eles pensam, que eles sentem, que eles querem, é uma dádiva para todos nós membros das camadas médias e altas, pois eles têm motivos mais do que justificáveis para atos mais bárbaros e radicais.

Na verdade, são criadores, meninos inteligentes, que ao largo da educação formal, educados pela rua, são capazes de intuir o sentido extremo da arte desde que ela existe: uma mistura de vontade de comunicação, de manifestação de demandas existenciais, de dúvidas filosóficas acerca da existência, de desejo usar o corpo como móvel da sensibilidade e da expressão da beleza, da conquista de suportes para inscrever sua mensagem para o presente e para o futuro.

O que é mais triste não é ver o novo-velho prefeito resgatar práticas tão antigas e obsoletas – no mínimo, serão ineficazes, pois ele apenas está oferecendo aos pichadores paredes brancas para que exerçam seu ofício –, mas ver tanta gente boa e inteligente sendo levada de roldão pelo marketing político e pelo press-release que nos oferta hoje a grande imprensa. Essas pessoas pararam de pensar? Ou apenas se venderam por uma promessa de cidade mais limpa, higienizada e harmônica?

Por fim, resta dizer que o jovem-velho prefeito não resgata apenas JQ e sua vassoura, mas algo tão ruim ou pior, mas seguramente muito mais antigo: as ações urbanísticas de base higienista colocada em prática na segunda metade do século 19 na Europa, que previam a expulsão de moradores pobres de áreas escolhidas pela burguesia europeia para morar e desenvolver suas práticas de consumo e lazer. Com a ajuda da polícia, prefeitos das grandes cidades brasileiras adotaram as medidas tardiamente no início do século 20, tendo a frente como estandarte Pereira Passos, o “modernizador” da capital Rio de Janeiro. Gentrificação da boa, quando o conceito não existia sequer para os sociólogos.

Nas últimas eleições nós paulistanos descartamos um prefeito com práticas do século 21 e colocamos no lugar um jovem-velho prefeito do século 19. Com tanta coisa a ser feita, com tantas injustiças a ser corrigidas, perdemos tempo em disfarçar os sintomas – escondendo moradores de rua e apagando as reclamações dos deserdados – ao invés de termos a coragem de estarmos à altura do desafio histórico que um dia terá que ser enfrentado, sob a pena mergulharmos para sempre na condição de cidade e sociedade fracassadas. Locomotiva coisa nenhuma! Somos a âncora que segura o país.

[17 de janeiro de 2017]

nota

NA – Décima primeira publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183.01, Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 < www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Do choro – entre lágrimas e música. Crônicas de andarilho 17. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 212.04, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.212/6923>.

GUERRA, Abilio. Da cavalaria de hoje e de antigamente. Crônicas de andarilho 18. Drops, São Paulo, ano 18, n. 126.06, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.126/6926>.

GUERRA, Abilio. Da inveja infame: a trajetória histórica de Lula e a viagem pela metrópole de um casal qualquer. Crônicas de andarilho 19. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.133/6953>.

GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.

GUERRA, Abilio. Da dobradura. Crônicas de andarilho 21. Drops, São Paulo, ano 18, n. 129.05, Vitruvius, jun. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.129/7033>.

GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.

GUERRA, Abilio. Da ilha longínqua. Crônicas de andarilho 23. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 137.05, Vitruvius, ago. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.137/7079>.

GUERRA, Abilio. Dos sem teto. Crônicas de andarilho 24. Drops, São Paulo, ano 19, n. 134.02, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.134/7164>.

GUERRA, Abilio. Da casa prototípica. Crônicas de andarilho 25. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 140.05, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.140/7165>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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