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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
O que um corpo de indigente enrolado em cobertor e disposto em calçada da metrópole pode ter a ver com a arte conceitual do século 20?

how to quote

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a relação entre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.



Do apagamento

Assim como a audição ampara a música, as artes plásticas se apoiam no sentido do olhar. É sua substância, sua própria essência, ao menos tem assim se comportado na tradição ocidental, mesmo quando a provocação conceitual das vanguardas questionam a noção de belo e transferem para a intelecção parte significativa dos atributos estéticos. Não é possível afirmar que um industrializado mictório masculino seja belo, mas dentro do contexto engendrado por Duchamp é inequívoco o interesse artístico que suscita. Mas se o cérebro passa a dar o veredito, os olhos continuam a ter papel importante ao permitir a inteligibilidade.

Contudo, algo de novo surge quando os artistas começam a embrulhar e empacotar os objetos, sequestrando-os da contemplação do observador. A obra precursora foi “O enigma de Isidore Ducasse”, de Man Ray, escultura premonitória realizada em 1920, ainda no período vanguardista. Nessa obra, onde o vácuo deixado pelo belo é ocupado pelo desconforto, objetos cobertos por uma lona emaranhada em cordas pouco ou nada revelam de suas formas. Tal apagamento tenciona o sistema convencional da arte ao convocar a imaginação para completar a ausência quase completa do assunto, tendo como chave de interpretação o título da obra, que evoca a obra literária do escritor Conde de Lautréamont. Em seu livro Os Cantos de Maldoror, o falso nobre – na realidade, pseudônimo literário de Isidore Ducasse – compara a beleza de um rapaz ao “encontro fortuito, sobre uma mesa de dissecção, de uma máquina de costura e um guarda-chuva”. Seriam esses os objetos ocultos embaixo da lona? Creio estar em vigência aqui, avant la lettre, o princípio do suspense de Alfred Hitchcock, que confessou a François Truffaut esconder de forma premeditada a entidade que provoca o medo, pois a imaginação do público é infinitamente maior do que as feras, demônios ou fantasmas que ele poderia inventar.

Tais questões me ocorrem ao presenciar durante caminhada um corpo deitado sobre a calçada de rua próxima à Praça da República. Protegendo-se do frio que chegou um pouco mais cedo esse ano, o corpo desaparece por completo enrolado em um cobertor. Se estivesse em um museu ou galeria de arte, talvez o corpo empacotado provocasse alguma solidariedade do público frente a injustiça social crônica de um país que se recusa a dar certo. Inerte no espaço público, opera curiosa adulteração da proposta da arte conceitual, apagando nossa consciência diante da ignomínia. Assim, a maioria absoluta dos transeuntes passa ao lado do pacote com a única preocupação de não tropeçar.

[11 de maio de 2017]

Da manipulação

Manifestação na Avenida Paulista contra o governo Temer
Foto Abilio Guerra

Dizem amigos e alunos de Vilanova Artigas que ele adorava dizer que cabe ao arquiteto “fazer cantar os pontos de apoio”. Parece que a frase não é dele e sim do arquiteto francês Auguste Perret, mas para além da autoria o que mais causa controvérsia é o seu real significado. Conversando hoje com meus alunos do mestrado, que apresentaram seminário sobre o arquiteto, palpitei que a frase se refere à essência da arquitetura – ao menos na definição de Schopenhauer em seu livro O mundo como arte e representação – de estar fadada a se enfrentar com as forças e leis da natureza, como a gravidade, rigidez, fluidez, luz etc. Assim, à arquitetura na visão do mestre da Escola Paulista caberia o papel estético de contrariar a lei da gravidade fazendo com que o pesado flutue ou se equilibre em apoio estreito e reduzido.

A seguir, me lembrei de filme que assisti há décadas, quando fazia graduação, e que atribuí erroneamente a Marcel Duchámp, mas que pude constatar ao chegar em casa tratar-se de René Clair. Em Entr'Acte, filme de 1924 onde as imagens são associadas de forma onírica, o cineasta modernista francês apresenta uma bailarina com tomadas de baixo. O ballet, que se vende ao público como o universo da leveza e agilidade, é subvertido com o domínio real do peso, revelado pelo impacto doloroso do corpo no solo, pelos músculos retesados, pela carne convulsionada. De forma insidiosa invadiu meu pensamento o depoimento de Alfred Hitchcock a François Truffaut – que comentei na última crônica aqui publicada (ver no texto acima) – que escondia de “forma premeditada a entidade que provoca o medo, pois a imaginação do público é infinitamente maior do que as feras, demônios ou fantasmas que ele poderia inventar”. E, como último elo na cadeia de insights, me ocorreu o quanto os grandes compositores nos enlevam, nos empolgam ou nos entristecem segundo suas próprias conveniências ao escolher o andamento moderato, vivace ou allegro ma non troppo.

A livre associação feita diante dos alunos desaguou em uma sentença desabonadora: a essência da arte é manipular nossos sentidos e nossa apreensão da realidade. O artista nos faz ver e sentir o que ele quer, criando um mundo alternativo onde a ilusão é a regra e a realidade se evapora como éter. Nesse interim, quando professor e alunos conversavam animadamente sobre a natureza escusa da arte, nos chega as últimas notícias da ficção alucinada que se tornou a vida política nacional: o presidente golpista e o candidato derrotado da última eleição presidencial, igualmente golpista, estavam sendo escalpelados pelo Jornal Nacional da Globo.

Voltando para casa, eis que vejo pela janela do coletivo uma multidão se formando diante do Masp pedindo o impedimento do presidente, reagindo com extrema rapidez ao comando dado pela rede de televisão, que seguramente já tinha as informações e as divulgou na hora do seu interesse privado. Não pude deixar de pensar que a vida imita a arte e, como um mágico fazendo sua prestidigitação com dedos ligeiros, a mídia golpista nos mostra com uma mão mais dois corpos no cadafalso enquanto com a outra nos surrupia algo na surdina da noite. Não sabemos ainda o quê, mas não tardará.

[18 de maio de 2017]

Da foto que jamais tirei

“O som do silêncio”, instalação de Alfredo Jaar, exposição na Galeria Luiza Strina
Foto Abilio Guerra

Quando apresentou a exposição “Brasil dos viajantes” no projeto Marieta, Ana Belluzzo mostrou uma série de representações do Brasil produzidas por europeus do século 16 ao 19, que suscitaram várias questões. Após os registros fabulosos do primeiro momento de ocupação – com monstros e canibais habitando gravuras e mapas da terra ignota –, a chegada dos holandeses no século 17 aporta uma visão mais pedestre, própria de negociantes, que se materializa em paisagens da nossa natureza e da nossa gente.

Os passos seguintes foram dados pelos cientistas, preocupados com o escrutínio minucioso de nossa flora e de nossa fauna, tendo como base uma taxonomia estática fundada nos princípios estabelecidos pelo naturalista Linnaeus, que resulta em precisos desenhos de espécimes animais e vegetais. Uma segunda leva de estudiosos contaminados pelas ideias revolucionárias da evolução e seleção natural vai retratar as múltiplas relações entre as espécies em sua perene luta pela sobrevivência. Em excursões, organizadas por instituições científicas e governos estrangeiros, especialistas diversos percorreram o país de cabo a rabo e legaram pinturas e gravuras não só da natureza luxuriante prenhe de bichos de todo tipo, mas também os hábitos e costumes das diversas etnias que compõem nosso perfil racial.

Assim, as representações do Brasil ao longo do tempo aparecem diante de nossos olhos não apenas como o retrato do que fomos, mas fundamentalmente como materializações das visões de mundo dos colonizadores brancos europeus. Narrativas, cartografia, elaborações artísticas e científicas sinalizam como modos e maneiras de registrar trazem em seu bojo uma dimensão ideológica inevitável. O ato de olhar o Outro se revela, a partir dessa pesquisa atenta, como ânsia de registrar, controlar e dominar. Por detrás de uma operação aparentemente neutra, que se desdobra em obras artísticas e científicas, surge inesperadamente profundas motivações políticas.

Após apresentação e discussão, parte do grupo sai do Marieta e caminha pelo centro da cidade, come fogazzas no Bexiga e é conduzida pela palestrante até a Galeria Luiza Strina para ver a exposição do artista plástico chileno Alfredo Jaar. Pequena, com apenas quatro obras, forte e provocativa, a exposição discute a “criação, distribuição e circulação de imagens na esfera pública”, como diz o texto presente no folheto disponível na entrada. Não restam dúvidas acerca do motivo de Ana Belluzzo nos levar até lá. A instalação “O som do silêncio” é especialmente interessante, na verdade é inesquecível. No interior de um cubo escuro, a história trágica do fotojornalista sul-africano Kevin Carter (1960-1994) vai se revelando em texto projetado linha após linha, com frases curtas e objetivas. A solidariedade aos negros durante o apartheid, o desconforto no exército, o sofrimento diante da pobreza e fome extremas em países africanos, o horror impotente diante das mazelas sociais, a fotografia que lhe deu a fama e o prêmio Pulitzer, uma segunda tentativa de suicídio, dessa vez bem sucedida, que lhe garantiu a paz buscada, agora eterna.

Além do texto que narra suas peripécias infelizes, apenas uma imagem é projetada no breu da sala – a foto famosa tirada no Sudão em 1993, herdada por sua filha Patricia Megan Carter, representada desde então pela Corbis, a maior agência de imagens do mundo com seus cem milhões de fotografias, propriedade de Bill Gates. A foto em questão – uma criança, em estado de inanição, abandonada sobre o chão de terra batida, é observada por um abutre sorrateiro – tem provocado ao longo do tempo reações antagônicas que vão do elogio ao repúdio. Denúncia corajosa do abandono criminoso? Oportunismo infame diante da ignomínia?

O espectador, seja qual for sua leitura e interpretação, não fica imune à mensagem. Jaar nos obriga a pensar o que se esconde por detrás da imagem, tanto os mecanismos sociais e econômicos que engendram a cena trágica, como as motivações que levam Carter a produzir seu registro. Diferentemente da frase de Confúcio, tantas vezes lembrada por Décio Pignatari – “uma imagem vale mais do que mil palavras” –, algumas imagens precisam de mil palavras para ter sua essência revelada. Isoladas do mundo, descontextualizadas, ficam inertes, silenciosas.

Hoje, induzido pelas andanças do corpo pela cidade e do espírito pelas reflexões sugeridas por Ana Belluzo, pude finalmente entender a fundo o que eu mesmo escrevi há mais de duas décadas:

“Na porta da Basílica de São Petrônio, em Bolonha, em certa tarde podia se ver uma mulher sentada na escadaria. Vestida em andrajos, tinha a cabeça recoberta por um pano enegrecido pela sujeira. Do rosto pouco podia se ver, mas pressentia-se uma grande resignação. Um dos braços acalentava um bebê. O outro, erguia-se na direção dos fiéis que entravam na enorme construção, que lembra por sua vastidão interna a magnífica catedral Santa Maria del Fiore. Um turista mais sensível poderia tomar aquela figura como a verdadeira Madona e poderia ser tentado a registrá-la em sua câmara automática. A vergonha, certamente, o impediria e só restaria a ele a lembrança da mais bela foto que jamais conseguira tirar” (1).

[01 de abril de 2017]

notas

NA – Décima quarta publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

1
GUERRA, Abilio. Centro e periferia. Óculum, n. 5/6, Campinas, jan./dez. 1994, p. 5.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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