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drops ISSN 2175-6716

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O poeta Ferreira Gullar, que esteve no olho do furacão da disputa entre concretistas e neoconcretistas nos anos 1950, deixa um legado artístico e crítico para a cultura brasileira.

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(ALMANDRADE), Antônio Luiz M. de Andrade. Ferreira Gullar e os 60 anos do Concretismo. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.01, Vitruvius, jan. 2017 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6367>.


No final de 2016, Ferreira Gullar nos surpreende com seu último adeus; sai de cena sorrateiramente, mas deixa um legado. A coincidência da morte de Gullar com os sessenta anos da poesia concreta poderia ser um momento para refletir sobre os desdobramentos do Concretismo e Neoconcretismo na arte e na literatura pós-vanguarda.

Gullar foi um dos protagonistas da exposição concretista de 1956, lançamento da primeira vanguarda brasileira. Era também o ano da posse do presidente Juscelino Kubitschek com seu projeto desenvolvimentista. Finalmente o Brasil respirava o desejo de ser um “país moderno”, a cultura respondeu à altura com uma produção rica capaz de competir no cenário internacional. Bossa Nova, Brasília, Cinema Novo eram alguns exemplos. O Concretismo foi um marco e Gullar esteve à frente nesse primeiro momento; se abandonou mais adiante, não importa agora, o que importa é que ele deixou um rastro na transformação da cultura brasileira; poeta, crítico de arte, líder do Neoconcretismo, se não me engano, movimento trampolim para a nossa contemporaneidade.

Sua “Teoria do não objeto” é um texto clássico. Gullar foi um crítico brilhante principalmente quando esteve próximo daquele que incentivou a vanguarda brasileira, Mário Pedrosa, lamentavelmente outro personagem pouco lembrado, a quem a arte brasileira deve muito. Pedrosa era favorável às manifestações de vanguarda; diretor do Museu de Arte Moderna da São Paulo, abriu espaço para os concretistas e em dezembro de 1956 foi realizada a 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta. Participaram da exposição os artistas plásticos Geraldo Barros, Aluísio Carvão, Lygia Clark, Waldemar Cordeiro, João S. Costa, Hermelindo Fiaminghi, Judith Lauand, Maurício Nogueira Lima, Rubem M. Ludolf, César Oiticica, Hélio Oiticica, Luis Sacilotto, Décio Vieira, Alfredo Volpi, Alexandre Wollner, Lothar Charoux, Lygia Pape, Amílcar de Castro, Kasmer Fejer, Franz J. Weissmann, Ivan Serpa e os poetas: Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo, Ferreira Gullar e Waldemir Dias Pino.

Com a pouca repercussão em São Paulo, foi planejada para fevereiro do ano seguinte uma segunda exposição no Rio de Janeiro no saguão do Ministério de Educação e Cultura, que contou com ampla cobertura da imprensa, principalmente do Jornal do Brasil, cujo suplemento cultural foi reformulado graficamente pelo neoconcretista Amílcar de Castro e tinha como crítico de arte o próprio Gullar, articulador da mostra.

Com a exposição do Rio de Janeiro veio à tona também a diferença e a polêmica entre os artistas cariocas e os paulistas. O grupo de São Paulo, liderado por Waldemar Cordeiro, se define como representantes legítimos do Concretismo no Brasil. Influenciados por Max Bill, Mondrian, Malevitch, defendem uma arte racional, gerada por um saber específico contra uma arte representacional, romântica e subjetiva, calcada em princípios teóricos; como defendia Max Bill, pretendiam ser designers de formas, aproximando o trabalho artístico do industrial.

O grupo carioca, com a designação Neoconcretismo, liderado pelo poeta Ferreira Gullar, reagiu à visão racionalista do concretismo paulista e resgataram a expressão, a subjetividade e a espontaneidade. A recuperação de certo humanismo tendo como base de apoio, os postulados fenomenológicos do filósofo francês Merleau-Ponty. Nega as atitudes cientificistas e positivistas na arte e repõe o sensorial. Em artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark, o espectador foi induzido a participar do próprio processo de criação da obra, afastando-se do Construtivismo em direção à outra vertente da modernidade: Dadá, Duchamp.

Mas diante de tantos acontecimentos no cenário político que não merecem nossa atenção aqui, o País deu as costas à cultura, vive sua quarta-feira de cinzas. Pode-se dizer que os sessenta anos do Concretismo passou quase despercebido, no silêncio indiferente de um meio de arte sufocado pela ausência de pensamento. Em setembro passado, organizei na galeria Baró, em São Paulo, uma mostra de artistas / poetas visuais contemporâneos para lembrar os 60 anos da poesia concreta. Agora, em 1 de dezembro, a Casa das Rosas também em São Paulo inaugurou a exposição “Ideias Concretas” com poemas visuais de históricos da exposição de 1956 e de descendentes surgidos nas décadas posteriores, entre os quais estou entre os coadjuvantes.

Com o Concretismo e o Neoconcretismo, desde a Semana de 1922, a arte brasileira assume uma postura definitivamente moderna. Momentos de rupturas e de esgotamento do projeto moderno no país que levou Mário Pedrosa a chamar as experiências de Oiticica e Lygia Clark, de arte “Pós-Moderna”. Entre 1956, ano da posse de JK, e 1964, ano da revolução militar, a nossa produção artística e literária foi impulsionada dentro de uma realidade onde as ideias circulavam livremente, com a atuação pública de artistas e intelectuais.

nota

Publicação original do artigo: ALMANDRADE. Ferreira Gullar e os 60 anos do Concretismo. A Tarde, Salvador, 14 dez. 2016.

sobre o autor

Almandrade é artista plástico, poeta e arquiteto.

 

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