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MAHFUZ, Edson. O projeto de arquitetura e sua inserção na pós-graduação. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 022.03, Vitruvius, mar. 2002 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.022/800>.

Em artigo publicado em 1999 na Internet, o arquiteto espanhol Josep Quetglas afirmava que “qualquer instituição educacional tem como alternativas seguir um dos dois grandes modelos de formação inventados até agora pela humanidade: o serviço militar ou as escolas de idiomas. Não há outro” (1). Não obstante o radicalismo da observação, é interessante acompanhar seu raciocínio.

No serviço militar, o que importa é o título obtido ao final de um longo período. Ninguém busca uma relação entre o que se faz no quartel e o que se fará mais tarde na vida. Na escola de idiomas, o título vale pouco, talvez não seja nem necessário. O importante é o aumento gradual do conhecimento de quem a freqüenta, o qual é comprovável e imediatamente aplicável.

O objetivo do ensino em qualquer universidade, especialmente as públicas, não deveria ser a mera obtenção de títulos, mas a formação de uma profissão. O ensino de arquitetura sempre teve esse objetivo, durante o tempo em que era exclusivo das universidades públicas. Nada contra as universidades privadas, mas é um fato que nos últimos vinte anos o número de escolas de arquitetura saltou de pouco mais de trinta para mais de cento e trinta. Na grande maioria dessas escolas o ensino de arquitetura tem se afastado da formação profissional e cada vez mais visa a mera concessão de títulos.

As escolas públicas não ficaram imunes a esse vírus e até a pós-graduação se viu afetada, pois a exigência feita pelo MEC de que os professores universitários devam ter pelo menos grau de mestre detonou uma verdadeira corrida à titulação.

Embora possam parecer deslocadas, as considerações iniciais são pertinentes ao tema deste seminário, pois há pelo menos duas maneiras de integrar o projeto à pós-graduação. Uma leva ao aperfeiçoamento da formação, o outro à obtenção de um título.

Para os professores do Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PROPAR/UFRGS) este tema não chega a ser uma novidade, pois tem sido essencial para nós desde a criação do programa. Pode-se dizer que o projeto de arquitetura é o fio condutor da maioria das atividades desenvolvidas no PROPAR. Todas as abordagens teóricas, históricas e críticas de um determinado assunto tem por objetivo ampliar o conhecimento projetual. É crença geral entre nós que teoria, história e crítica são dimensões extremamente importantes do processo projetual.

As últimas décadas do século XX se caracterizaram pelo desaparecimento dos discursos hegemônicos em todas as áreas do conhecimento e das atividades humanas. Se algo caracteriza o artista moderno –incluindo o arquiteto— é a consciência de seu trabalho sempre poderia ser diferente (2). O seu inimigo, e nosso por consequência, é a arbitrariedade. O que se espera do processo de aprendizado ao longo de um curso de pós-graduação em arquitetura centrado no projeto é que o conhecimento adquirido através da prática projetual, entrelaçada com atividades de teoria, história e crítica, possa contribuir para evitar a Arbitrariedade e resultar na Forma Pertinente que nos escapa com tanta facilidade.

Embora o nosso interesse sempre tenha sido centrado no projeto, até recentemente a prática de projetos tinha ficado restrita às atividades relacionadas à obtenção de créditos, não sendo permitido que substituísse a elaboração de uma dissertação como trabalho de conclusão de um curso de mestrado ou doutorado. Recentemente, começamos a estudar essa possibilidade, muito provavelmente levados pela constatação da baixa qualidade do entorno construído brasileiro e pela conclusão de que o ensino de graduação não está sendo capaz de formar profissionais com a qualificação necessária para projetar os edifícios e a cidade que desejamos. E, sendo assim, passa a ser também atribuição da pós-graduação tentar contribuir para a elevação da qualidade da produção profissional brasileira.

Hoje fala-se muito na existência de duas espécies de mestrado oferecidos pelas universidades brasileiras:

– Mestrados acadêmicos os quais, ainda que voltados para a formação de quadros docentes e pesquisadores, são o lugar onde acontece a produção de conhecimento arquitetônico. A duração de um mestrado acadêmico na UFRGS é, no máximo, trinta meses;
– Mestrados profissionais, concebidos como cursos voltado para profissionais que não tem interesse na vida acadêmica, e estão em busca de reciclagem e aperfeiçoamento para a prática da arquitetura. Estes seriam o âmbito em que ocorreria a difusão daquele conhecimento. Outra característica desta espécie de curso é o fato de poder ser mais curto que o acadêmico. Julga-se que dezoito meses seja a duração mínima necessária para se obter os resultados esperados.

As discussões iniciais levadas a efeito no PROPAR nos dirigiram a duas maneiras de inserir o projeto arquitetônico na pós-graduação.

O projeto no mestrado acadêmico

Trata-se de desenvolver a prática de projeto no currículo existente do mestrado acadêmico, de três maneiras:

Como disciplina regular, como temos desenvolvido desde 1990, abordando temas ligados às pesquisas dos professores do curso;

Como oficinas de projeto ministradas por professores visitantes e /ou locais sobre temas tópicos da cidade. Um bom exemplo foram as várias oficinas desenvolvidas por professores estrangeiros (Nuno Portas, Manuel Solá-Morales, Jonathan Barnett, Philipe Panerai, Cristián Boza, Jean-François Lejeune, Roberto Behar/ Rosário Marquardt) desde 1992, tratando de áreas urbanas de interesse da Prefeitura de Porto Alegre;

Possibilidade de substituir a dissertação por um projeto. Neste caso, o projeto é concebido como uma reflexão a respeito de um tema relevante. O trabalho final consiste de um projeto arquitetônico fundamentado, isto é, os elementos gráficos habituais são acompanhados por um texto alentado que trata dos aspectos teóricos, históricos e críticos do problema e de sua solução. Pode até ter o formato final de uma dissertação, com a diferença de que texto e ilustrações são da mesma autoria e se referem ao mesmo tema.

O projeto no mestrado profissional

Aqui nos defrontamos com com um fato importante da vida atual, que é a obsessão com o chamado mercado. Tudo deve estar subordinado ao mercado, talvez a verdadeira representação do espírito da época.

Nossa profissão não poderia escapar disso e há muitos que hoje identificam sua prática com prestação de serviços, atrelada ao mercado e seguindo modas e tendências internacionais. Nada mais natural, então, que surjam sugestões no sentido de criar cursos de pós-graduação que supram as "necessidades arquitetônicas" do mercado. Uma conseqüência disso é o entendimento de que a estrutura mais apropriada para aquele fim é a dos mestrados profissionais. Dois grandes equívocos.

Do mesmo modo, é equivocado pensar que os mestrados acadêmicos se dedicam a especulações sem aplicação imediata ou que os mestrados profissionais se dediquem a formar profissionais dotados de conhecimentos “de ponta” e atualizados para atuar no mercado. Em ambas modalidades de atividades de pós-graduação tratamos de temas relevantes à prática e à reflexão sobre a mesma. A diferença se coloca em termos de grau de intensidade com que os aspectos prático e reflexivo são tratados em cada um.

O mais importante é que o mestrado profissional não tenha como objetivo atender o mercado. Pelo contrário, deve formar profissionais capazes de se adequar e definir seu papel frente a qualquer circunstância, por mais inesperada e mutante que ela seja. Os Proprietários de um título de arquiteto ou os Adestrados em repetir respostas padrão atualizadas ou “de moda” perdem a sua qualificação à primeira mudança de condições. E no mundo atual as condições não param de mudar!

Uma boa formação profissional exige que se investigue e ensine o projeto não como é praticado habitualmente, mas como não se o pratica. A formação profissional não deve ser atual; devemos ensinar como já não mais se exerce a profissão, e também como ainda não a exercemos. O conteúdo desse ensino deve ser, ao mesmo tempo, anacrônico e vanguardista. Deve estar à margem, quando não à frente, do mundo da eficácia, da aplicabilidade, da rentabilidade e do mercado.

“Uma escola de arquitetura que não queira ser um escritório de expedição de títulos ou um centro de adestramento deverá manter os níveis de prática que constituiam a sabedoria do ofício de gerações anteriores, para encontrar aí, em face do conhecimento presente, as formas do ofício de um tempo futuro” (3).

Com essa preocupação em mente, podemos armar uma estrutura curricular para um mestrado profissional que realmente possa qualificar arquitetos para a prática contemporânea. Mais do que nunca essa estrutura deverá ser centrada no projeto arquitetônico, certamente em sua prática mas igualmente na reflexão sobre essa prática. A espinha dorsal do curso que estamos criando no PROPAR será um ateliê de prática de projeto que abordará temas projetuais que nos parecerem relevantes em cada momento (exemplos: intervenções em áreas problemáticas e polêmicas de Porto Alegre, como o setor portuário, alvo de vários concursos; programa de interesse atual e coletivo, como o Museu Iberê Camargo; programas ligados a projetos de pesquisa em curso, como o edifício híbrido ou multifuncional urbano).

Concomitante ao exercício projetual, dentro do ateliê acontecerão atividades teóricas (a busca do entendimento e da aplicabilidade de teorias pertinentes ao tema estudado), históricas (a contextualização arquitetônica, cultural e socioeconômica do tema), críticas (análise de exemplos pertinentes) que servirão como fundamentação da proposta projetual específica.

Estima-se que metade dos créditos será obtida em atividades prático/teórico/histórico/críticas ou, mais simplesmente, o ateliê de projeto como o entendemos. A outra metade poderá ser obtida cursando um elenco de disciplinas que inclui tanto as já existentes no mestrado acadêmico quanto novas disciplinas criadas para o mestrado profissional. Essas novas disciplinas tratarão de temas estreitamente ligados à aspectos técnicos da prática como, por exemplo, soluções estruturais avançadas, conforto ambiental, economia da construção, iluminação natural e artificial, gerenciamento de obras, informática como instrumento projetual, revestimentos, e até mesmo marketing aplicado à arquitetura.

No entanto, a inclusão de qualquer uma dessas disciplinas voltadas especialmente para o arquiteto praticante será sempre baseada no objetivo de formar um profissional reflexivo, apto a responder com responsabilidade a qualquer problema projetual.

O trabalho de conclusão será um projeto arquitetônico fundamentado semelhante ao que seria aceito no mestrado acadêmico em substituição à dissertação. Mas o real produto do curso de pós-graduação em projeto arquitetônico que almejamos é um profissional que, além de dominar o conhecimento disciplinar, possa tratar o seu trabalho como produto cultural, que possa resistir à transformação da arquitetura em objeto de consumo e a sua inserção como ramo da publicidade.

Sobre as ilustrações

As ilustrações ao lado se referem a um exercício realizado em um módulo da disciplina Projeto Arquitetônico, do curso de mestrado do PROPAR/UFRGS – Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura –, turma especial para professores do curso de arquitetura das Faculdades Integradas Ritter dos Reis. Em termos temáticos, o exercício consistiu no projeto de uma livraria de aproximadamente 100 m2 no entorno do edifício das Faculdades Ritter dos Reis, podendo ser locada no seu interior ou no seu exterior. O único pré-requisito era que o objeto proposto possuísse um interior e um exterior. Mas isso deveria ser feito a partir de um programa teórico relacionado a alguns aspectos da modernidade arquitetônica. Isso significa entender o projeto como uma atividade totalizadora que sintetiza na forma os requisitos do programa, as sugestões do lugar e a disciplina da construção. Além disso, procuramos enfatizar a noção de forma como sistema de relações, ao invés de pensá-la em relação aos aspectos fisionômicos de um objeto. Por último, foi solicitado aos estudantes que utilizassem como critérios de projeto e verificação os seguintes conceitos: economia de meios, rigor, precisão e universalidade.

notas

1
“Escuelas de arquitetura. De arquitetos, modelos de formação e empresas”.

2
HARRIES, Karsten. “Thoughts on non-arbitrary architecture”, em Perspecta 20, 1983, citado em PEREZ, Fernando; ARAVENA, Alejandro; QUINTANILLA, Jose. Los hechos de la arquitectura. Santiago, Ediciones ARQ, 1999, p. 26.

3
idem, ibidem.

sobre o autor

Edson da Cunha Mahfuz é arquiteto, AADipl (1980), PhD (U. Penn, 1983), professor titular de Projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS

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