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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O presente artigo se propõe a investigar a arquitetura e sua dimensão poética do ponto de vista existencial segundo a teoria e crítica arquitetônica formulada pelo teórico fenomenólogo Christian Norberg-Schulz.

english
The present article proposes to investigate architecture and its poetic dimension from an existential point of view according to the architectural theory and criticism of the phenomenologist theorist Christian Norberg-Schulz.

español
El presente artículo se propone investigar la arquitectura y su dimensión poética desde un punto de vista existencial según la teoría y crítica arquitectónica del teórico fenomenólogo Christian Norberg-Schulz.


how to quote

MELO, Jonathan; VICTAL, Jane. Por uma arquitetura do lugar. Arquitextos, São Paulo, ano 24, n. 280.03, Vitruvius, set. 2023 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/24.280/8910>.

O espaço, assim como o tempo, propriedade da existência humana, é passível de ganhar qualidades subjetivas em função da forma como o confrontamos. A arquitetura, diferente dessa propriedade onipresente, existe no espaço e no tempo e suas qualidades não dependem apenas da maneira como nos direcionamos a ela, mas também de como ela se apresenta a nós, isto é, uma relação recíproca entre ser humano e entorno.

No final do século 19 uma nova maneira de pensar essa relação (sujeito e coisas) é fundada e denominada fenomenologia. Esse fundamento filosófico propõe olharmos para o que nos cerca de outro modo, diferente do que estamos habituados, para que possamos descobrir a essência ou Ser das coisas e deixarmos a superfície da vida. Logo, quando olhamos para a arquitetura com esse olhar fenomenológico existências são desencobertas, as quais estavam encobertas pelas abstrações do pensamento científico.

A fenomenologia foi definida por Edmund Husserl (1859–1938) como estudo da consciência e teve Martin Heidegger (1889–1976) como um de seus continuadores. Heidegger desenvolveu um “método” de retorno às coisas em si e formulou posteriormente o “Construir, habitar, pensar” que se tornou um texto fundamental para o entendimento de como a arquitetura pode contribuir para a fenomenologia do lugar. As obras do teórico norueguês Christian Norberg-Schulz (1926–2000), aqui em evidência, demonstram pela fenomenologia interesse que se aprofundou ao longo de sua obra teórica, onde o conceito do habitar heideggeriano extravasa da filosofia e adentra o campo da produção do ambiente construído, proporcionando a experiência do lugar.

Dessa forma, no âmbito da arquitetura, o exercício do olhar fenomenológico pode ser examinado principalmente por meio das obras teóricas de Norberg-Schulz, que criou uma conexão entre a fenomenologia e a arquitetura por meio da interpretação das ideias do filósofo alemão Martin Heidegger.

Norberg-Schulz iniciou sua produção teórica na década de 1960, quando publicou sua primeira obra Intentions in Architecture em 1965 e, desde então, buscou desenvolver uma teoria da arquitetura que, no contexto das críticas aos ideais da arquitetura moderna, construiu uma nova maneira de compreendermos e vivenciarmos a arquitetura.

Entretanto, uma tarefa ainda se encontra em aberta para arquitetos e urbanistas, não tendo sido ainda tratada suficientemente: para que se coloque em operação o habitar como categoria espacial, dentro de uma fenomenologia do lugar, há que se transitar do “espaço” ao “lugar”, porém, fazendo isso por meio do movimento do pensamento. Isto nos oferece Norberg-Schulz ao refletir sobre aspectos sensíveis da arquitetura. O presente artigo se propõe a percorrer alguns apontamentos que fornecem pistas para esta reflexão.

O conceito de espaço

Certamente, o projeto arquitetônico é um exercício espacial e a sua materialização pode possibilitar a formação de lugares. No entanto, para a compreensão integral dessa afirmação, antes é preciso esclarecer o conceito de espaço e de lugar e suas implicações no campo da arquitetura.

Antes do espaço ser tema de reflexão para a arquitetura, muito já havia sido investigado sobre esse conceito, principalmente sob as óticas filosófica e físico-matemática. Não obstante, os conceitos de espaço na arquitetura são influenciados por essas reflexões e, dessa forma, antes de pensarmos o espaço na teoria da arquitetura, uma breve trajetória acerca do conceito será traçada.

Iniciando com os filósofos gregos, Platão escreve sobre o espaço como sendo um componente elementar da realidade, infinito, abstrato, onipresente a tudo que detém uma posição e define a geometria como a ciência do espaço. Já para Aristóteles, ao introduzir o conceito de lugar (topos), o espaço é a soma de todos os lugares e, desse modo, atribui ao espaço limite e sentido empírico. Teorias posteriores, como as formuladas por René Descartes no século 17 e Isaac Newton no século 18, baseando-se na geometria de Euclides, definem o espaço como sendo ilimitado, homogêneo e isotrópico. Até o início do século 20, a definição de espaço era regida pelas leis de Newton. Nesse mesmo século, Albert Einstein, por meio da Teoria da Relatividade, demonstrou as limitações do espaço cartesiano e newtoniano, substituindo a ideia de corpos materiais situados em um espaço tridimensional por uma série de acontecimentos em um espaço-tempo de quatro dimensões.

Sendo assim, ao longo do tempo, houve maior adesão ao conceito platônico e, com efeito, a sobreposição do conceito de espaço aristotélico. Não raro, no século 20, uma das bases conceituais que funda o Movimento Moderno na Arquitetura será o espaço contínuo, infinito e autônomo, e Bruno Zevi o definirá (vazio, para o autor) como a essência da arquitetura. Tais pensamentos estavam atrelados a uma lógica funcionalista de pensar o mundo, inseridos em uma sociedade regida pela ideia do ilimitado progresso através da ciência, em que o espaço estava sempre pronto para ser modelado pelo homem por meio da técnica. Contudo, esse conceito de espaço é enfraquecido à medida que foram sendo percebidas as fragilidades dos ideais tecnocientíficos como solução. Logo, reformulações acerca do espaço na arquitetura são elaboradas e, ao lado delas, o conceito de lugar é estruturado. Nesse sentido, escreve Christian Norberg-Schulz:

“O conceito de ‘espaço’ certamente não é novo na teoria da arquitetura, mas pode ter muitos significados. A literatura corrente distingue dois usos: o espaço como geometria tridimensional, e o espaço como campo perceptual. Entretanto, nenhum deles é satisfatório, porque são abstrações a partir da totalidade intuitiva tridimensional da experiência cotidiana, que podemos chamar de ‘espaço concreto’. Na realidade, as ações concretas das pessoas não têm lugar num espaço isotrópico homogêneo, mas ocorrem em um espaço que se caracteriza por diferenças qualitativas, como ‘em cima’ e ‘embaixo’” (1).

Para o teórico da arquitetura, apesar das tentativas em substituir na arquitetura o espaço quantitativo por um conceito de espaço mais empírico, os estudos tendem a desconsiderar o homem e discutir geometria abstrata ou, ainda, ao incluir o homem, reduzir o espaço e a arquitetura às impressões, sensações ou relações de afeto. Disto emergem fartas teorias da percepção do espaço sensível e toda uma lógica da fruição estética que colocam o campo da arquitetura dentro do espectro das diversas formas de arte. Visando contrapor esta tendência por meio do conceito de espaço existencial, Norberg-Schulz busca interpretar o espaço mais como uma dimensão da existência humana do que uma dimensão do pensamento ou da percepção. Para isso, elabora uma teoria da arquitetura que determina as relações do ser humano com o meio que o cerca a partir de estruturas ontológicas e culturais. Em outras palavras, o teórico busca descrever a estrutura do espaço do ponto de vista fenomenológico (2).

Segundo o autor, a existência humana necessita de uma imagem ambiental estável, significativa e coerente que possibilite orientação e identificação (3). Orientação e identificação são duas funções psicológicas que, para conquistar uma base de apoio existencial e desenvolver o sentimento profundo de pertencimento em relação ao lugar, o ser humano deve ser capaz de orientar-se no ambiente, ou seja, de saber onde está, e identificar-se com ele, isto é, saber como está em determinado lugar (seja dentro de uma cidade ou de uma edificação, uma vez que a lógica se mantém independente da escala) (4).

“Sem dúvida, uma pessoa é capaz de orientar-se bem sem se sentir profundamente identificada; ela se safa sem sentir-se ‘em casa’. E é possível sentir-se ‘em casa’ sem conhecer a fundo a estrutura espacial do lugar, isto é, o lugar é percebido por ter um caráter genericamente agradável. O sentimento profundo de ser do lugar pressupõe que as duas funções psicológicas estejam plenamente desenvolvidas” (5).

Além disso, ser do lugar implica dizer que a identidade do ser humano não está ameaçada, uma vez que a imagem ambiental ajuda a compor e sustentar sua identidade pessoal. Nesse sentido, para podermos progredir satisfatoriamente, necessitamos de uma estruturada imagem ambiental, a qual começa a ser tecida nos primeiros anos de idade (6).

Baseando-se nas teorias de Jean Piaget, Norberg-Schulz afirma que ao longo da infância, o ser humano estrutura seu mundo gradativamente: primeiro por meio de um sistema de coisas similares (a criança aprende a reconhecer), depois relaciona as coisas reconhecidas aos lugares. Consequentemente, começa a organizar essas coisas e lugares em uma totalidade mais ampla, um campo espacial. O conjunto desses campos espaciais constitui o espaço da criança, dentro do qual cada campo é dedicado a apenas uma atividade, onde as primeiras relações que conferem ordem a esses espaços são de natureza topológica, ou seja, relações de proximidade, separação, continuidade, sucessão e contenção. Neste sentido, ao longo da vida desenvolvemos esquemas espaciais e Norberg-Schulz define os elementos dos esquemas básicos de orientação do ser humano no mundo em: centros ou lugares (proximidade), direções ou caminhos (continuidade) e áreas ou regiões (contenção ou encerramento) (7).

Esses esquemas, desenvolvidos a partir da interação homem-entorno, são a base do espaço existencial e este, como conceito psicológico, possui como correspondência concreta o espaço arquitetônico. Em outras palavras, o espaço arquitetônico é a corporificação do espaço existencial. Além disso, esses esquemas estão inseridos em diferentes níveis desses espaços e em ambos formam um todo integrado (8).

Os primeiros pontos de referência do ser humano no mundo possuem relações com o lar, o qual na infância é estabelecido como um ponto central do mundo individual e é a partir dele que o mundo da criança começa a ser estruturado (9). Basicamente como um círculo, forma centralizada, o lugar possui um centro e um limite anelar bem definidos, onde vivenciamos o mundo como um “interior conhecido” em contraste com o entorno do limite, para além do qual encontra-se o desconhecido e temido pelo indivíduo. Gradativamente a criança se sente capaz de cruzar essa fronteira e durante seu crescimento os centros dos esquemas espaciais se multiplicam, ou seja, soma-se ao lar a casa de amigos e familiares, por exemplo. Desse modo, o lar é o primeiro lugar estabelecido para descobrirmos outros lugares e esses são os pontos de partida para nos apoderarmos do ambiente circundante (10).

Os lugares situam-se inseridos dentro de um campo amplo e não podem ser compreendidos isoladamente. Sendo assim, todo lugar contém direções, como “direita” e “esquerda” ou “em cima” e “embaixo”, e para nos movermos de um lugar ao outro necessitamos de um caminho. “Em cima” e “embaixo” como diferenças qualitativas do espaço existencial expressam a direção vertical, a qual sempre foi considerada como a direção sagrada do espaço, que vai além do mundo real, uma vez que revela uma rota que pode ser “mais alta” (céu) ou “mais baixa” (inferno) do que a vida cotidiana que se estabelece na horizontalidade. Além disso, essa direção no sentido vertical também carrega um significado mais concreto: a capacidade do ser humano erigir construindo, ou seja, “vencer a natureza”. Já a direção horizontal expressa o mundo da vida cotidiana, onde o ser humano age e, nesse sentido, onde “avançamos para frente” ou “retrocedemos para trás”. Dessa forma, se apoderar do entorno significa sempre se afastar de um lugar partindo, peregrinar sobre um caminho, em uma direção determinada por um propósito e uma imagem ambiental, e retornar ao lugar de origem. Não obstante, os caminhos possuem uma tensão entre o conhecido ou interior (onde há a casa e a pátria) e o desconhecido ou exterior (11).

Estar em um caminho ou em um lugar também é estar em uma região. Qualitativamente definidas, as regiões contêm os lugares e caminhos e são áreas cercadas por um mundo parcialmente desconhecido que se desvela ou ser percorrido. Para o indivíduo se apoderar do entorno é necessário estruturá-lo em regiões por meio de caminhos e lugares. “A região tem função unificadora no espaço existencial. ‘Preenche’ a imagem e a converte em um espaço coerente.” Dessa maneira, as regiões são conhecidas pelo ser humano e definidas por sua contenção, proximidade e semelhança dos elementos que contém, além de revelarem a necessidade humana de imaginar o mundo de forma ordenada para não se sentir perdido e desamparado (12).

Logo, lugares, caminhos e regiões formam um todo integrado dentro do espaço existencial concretizado (ou corporificado) pelo arquitetônico e estruturam os esquemas espaciais que compõem nossa imagem ambiental. Segundo Norberg-Schulz (13), esses esquemas pertencem a níveis espaciais distintos também determinados pela relação do ser humano com o entorno que o rodeia (ser-no-mundo heideggeriano), como o nível dos objetos determinado pelas mãos, o nível dos mobiliários determinado pelas dimensões do corpo, o nível da casa pelo movimento do corpo, o nível urbano pela interação social e o nível da paisagem natural pela relação do ser humano e o ambiente natural. Esses níveis coexistem e se relacionam de forma hierárquica: os mais baixos, como o nível dos objetos e dos mobiliários são os menos extensos e mais definidos, diferente dos mais altos, como o da cidade e da paisagem natural, mais extensos e menos definidos.

“Os níveis mais altos estão ‘concretizados’ pelos níveis mais baixos. Em outras palavras, o entorno é ‘recebido’ e convertido em foco, em edifícios e coisas concretas. As coisas ‘articulam’, em consequência disso, o entorno e fazem com que seu caráter seja mais preciso. Esta é a função básica do detalhe que nos rodeia. Os detalhes ‘explicam’ o caráter periférico e os emprestam significado” (14).

Assim, sobre uma paisagem natural construíram-se coisas concretas, como edifícios, ruas e praças que juntas fundaram uma cidade, igualmente concreta. Os níveis se influenciam reciprocamente, se contêm — como a existência de vários centros e lugares dentro de uma cidade que também é um centro e lugar dentro do espaço existencial — e tecem um sistema espacial. Os sistemas se entranham e constituem uma complexa e dinâmica totalidade (espaço existencial) passível de contradições e conflitos. Dessa maneira, a relação recíproca entre o homem e seu entorno não será uma imagem espacial finalizada e completa, pois existirão contradições e lacunas, como a sensação de pertencer a um determinado lugar do qual não se faz parte (15). Contudo, quando o espaço arquitetônico corresponde ao espaço existencial, nos sentimos pertencentes a ele, como afirma Norberg-Schulz:

“Quando nossa localização imediata coincide com o centro do nosso espaço existencial experimentamos a sensação de ‘estar em casa’. Caso contrário, estamos ‘no caminho’, ‘em outra parte’ ou ‘perdidos’” (16).

Portanto, a tarefa do arquiteto é construir lugares com possibilidades de orientação e identificação, permitindo assim aos indivíduos integrarem o espaço arquitetônico ao seu espaço existencial.

Arquitetura

Contudo, como o espaço existencial pode ser concretizado em espaço arquitetônico?

No presente artigo, pouca atenção foi dada aos termos “coisa” e “caráter” e para continuarmos a pensar sobre arquitetura do ponto de vista existencial e refletirmos sobre a pergunta, faz-se necessária uma breve definição desses conceitos.

Caráter indica a propriedade mais abrangente de um lugar e junto do espaço constituem o pano de fundo das ações e acontecimentos da vida humana. Quando visitamos, por exemplo, uma paisagem natural, uma cidade ou uma edificação experimentamos espontaneamente o caráter desses ambientes como uma “atmosfera ambiental” ou um “temperamento” — onde qualidades ambientais irão nos levar a defini-los como “protetor” ou “ameaçador”, “amplo” ou “estreito” — e o espaço como relações tridimensionais (17). Espaço e caráter são interdependentes e vivenciados por nós simultaneamente. Nesse sentido, as palavras de Juhani Pallasmaa nos ajudam a compreender essas relações:

“Qualquer casa anônima numa velha cidadezinha nos faz experimentar uma sensação de intimidade e prazer. E um celeiro desabado ou um hangar abandonado despertam nossa imaginação” (18).

Os termos “anônima”, “velha”, “desabado” e “abandonado” indicam o caráter dos lugares, determinados pela constituição material e formal destes, e “casa”, “cidadezinha”, “celeiro” e “hangar” indicam os lugares. O espaço não é indicado nas palavras de Pallasmaa e é pouco falado no cotidiano, se manifestando na linguagem como “entre”, “sob”, “sobre”, “através”. Desse modo, de acordo com Norberg-Schulz (19), os lugares são designados por substantivos, o caráter por adjetivos e o espaço por preposições.

Sendo assim, podemos acrescentar que, estar numa sala acolhedora entre dois contidos pátios, dentro de um antigo chalé, é experimentar o lugar (chalé) cujo pano de fundo é constituído pelas substâncias concretas citadas, “acolhedor”, “contido” e “antigo” (caráter) e pelas relações tridimensionais, “entre” e “dentro” (espaço).

Louis I. Kahn, em seus ensaios textuais, se dedicou a descobrir a essência da arquitetura, intrínseca à essência do ser humano e definidora da solução arquitetônica. Nessa busca, escreveu sobre propriedades concretas da arquitetura que definem o caráter de um lugar, como a estrutura, a iluminação natural, os materiais, a forma e o modo como foi feito, as quais podem nos ajudar com o conceito de caráter. Para o arquiteto, a luz natural é fundamental para que um edifício possa ser o que ele quer ser, uma vez que revela os estados de ânimo das horas do dia e das estações do ano, propriedades relacionadas à essência do lugar.

“Uma planta de um prédio deveria ser vista como uma harmonia de espaços na luz.
Até mesmo um espaço com pretensão de ser escuro deveria ter luz suficiente, vinda de alguma abertura misteriosa, para nos dizer o quanto ele realmente é escuro. Cada espaço deveria ser definido por sua estrutura e pela característica da sua luz natural. [...] A luz artificial é um pequeno e único momento estático na luz, é a luz da noite e nunca pode se igualar às nuances de ânimos criadas pela luz do dia e pelas maravilhas das estações” (20).

Não só isso, as propriedades dessa luz também são designadas pelas escolhas da estrutura e do material, as quais ajudam a relevar as propriedades da luz. Além da luz, o edifício tem o compromisso de mostrar o modo como foi feito como manifestação da sua vontade de ser, ou seja, para Kahn cada material possui uma ordem própria descoberta pela técnica e corporificada em edificação (21).

“Quando o prédio se torna parte da existência, ele evoca qualidades imensuráveis. O design que envolve quantidades de tijolos, métodos de construção e engenharia deixa de existir, e o espírito da existência assume” (22).

Para o arquiteto, o imensurável está no campo dos sentimentos, dos sonhos, da memória e, quando essa qualidade arquitetônica é evocada, o que pode ser mensurado se funde e confere a essência ou caráter da obra.

Caráter e espaço estruturam o lugar e este, como substantivo, implica a conclusão de que lugares são coisas reais, que existem e, sendo coisas concretas, reúnem. Para Martin Heidegger, a natureza da “coisa” é determinada pela capacidade que ela tem de recolher o mundo e, quando recolhido, aproxima o mundo de nós; aproximando, ela condiciona o ser humano: “nós somos os coisificados” ou condicionados. Assim, “mundo” é a quaternidade formada pela terra, céu, seres mortais e seres imortais, uma totalidade integrada. Em outras palavras, o “mundo” é definido por Heidegger como o Ser das coisas, as quais cada uma recolhe a quaternidade da sua maneira, determinando sua “coisidade”. Neste sentido, a arquitetura existe como coisa concreta e para Norberg-Schulz o significado da arquitetura consiste no que ela reúne; e essa fusão, entre mundo reunido e coisa, acontece no campo da linguagem (23).

Para o teórico norueguês, a linguagem arquitetônica é mais do que apenas um conjunto de signos determinados por costumes e convencionalismos, mas possui uma base geral, um fundamento extemporâneo. Baseando-se no conceito heideggeriano, aponta que a linguagem não desvela o ser humano diretamente, mas denomina as coisas e, ao nomeá-las, conecta a coisa ao que esta reúne; fazendo isto, a linguagem possui a capacidade de explicitar (ou manifestar) a coisidade da coisa: “O mundo concede às coisas sua essência. As coisas fazem o mundo ser” e para Heidegger a linguagem é a “casa do ser”. Assim, a linguagem é um “entre-meio” unificador do mundo e das coisas e expressa as estruturas basilares da existência. Nesse sentido, quando transpomos o conceito geral de linguagem heideggeriano para o de linguagem arquitetônica, compreendemos que a arquitetura, com sua linguagem, também pode expressar ou revelar as estruturas fundamentais do ser-no-mundo e ganha novamente uma base existencial (24). Contudo, como a arquitetura, em sua concretização do espaço existencial, pode revelar essas estruturas?

Para o teórico da arquitetura, a linguagem arquitetônica é constituída por três componentes elementares: “topologia”, “morfologia” e “tipologia”.

A “topologia” possui como principais componentes estruturais o “centro” e o “caminho” e se refere à ordem espacial. “O modelo mais elementar de espaço existencial é um plano horizontal atravessado por um eixo vertical” (25). Esse componente se refere à estrutura topológica e à orientação do homem (26).

A “morfologia” se refere ao “como” das formas arquitetônicas e se concretiza em “articulação formal”. O caráter de uma organização pode variar segundo diferentes organizações e é determinado pelo seu modo de ser entre terra e céu. Elementos como parede, pavimento e cobertura -formas concretas- compõem fronteiras espaciais. Logo, “a morfologia se ocupa da articulação das fronteiras espaciais como meios de definição de um caráter ambiental” (27). “Estar” indica relação com a terra (expressa pelo tratamento da base e da parede), “elevar” com o céu (desejo de receber a luz) e “abrir” com o ambiente circundante (expressa pelo tratamento das aberturas nas paredes). Dessa forma, terra e céu se encontram na parede (28).

Por fim, a “tipologia” se ocupa das estruturas basilares do “ser-com” ou do encontro social. Uma instituição (29) é sempre uma forma coletiva de participação e comunicação, nunca um fenômeno individual. “A linguagem da arquitetura traduz as instituições em tipos de espaços” (30). A tipologia analisa totalidades espaciais completas, ou lugares, diferente da topologia e morfologia.

Portanto, a topologia se refere à ordem, a morfologia ao caráter e a tipologia ao encontro dos indivíduos. Ordem, caráter e instituição designam as estruturas espaciais e correspondem à orientação, à identificação e ao encontro, conceitos que se referem às estruturas do ser-no-mundo. Dessa maneira, a arquitetura revela as estruturas da existência por meio da linguagem, “entre-meio” onde para Heidegger a verdade é desvelada (31).

Correspondências entre arquitetura e existência humana
Elaboração dos autores

Além da linguagem arquitetônica, a técnica também participa do processo de desvelamento da verdade. A palavra techné em sua origem grega significava tornar presente o que ainda não era e, com efeito, desencobrir a verdade.

“Os gregos usavam o termo τέχνη (com frequência traduzido por ars, 'arte' e que é a raiz etimológica de 'técnica'), para designar uma habilidade mediante a qual se faz algo -geralmente, se transforma uma realidade natural em uma realidade 'artificial'” (32).

Quando interpretamos a realidade natural como o que já era antes de ser, a técnica passa a ser compreendida como um meio pelo qual o ser humano transforma essa realidade em coisas concretas, como em uma edificação, uma cidade ou, com outros termos, em uma realidade interpretada (33). Nesse sentido, para Heidegger, técnica está atrelada ao construir, uma vez que a construção é a realização da técnica, e construir ao habitar: “O homem habita assim que constrói” (34).

Habitar é como os mortais são na quadratura, isto é, uma relação autêntica entre o ser humano e as estruturas existenciais, e só habitam quando são capazes de encarnar essas estruturas em coisas como edifícios e lugares (um lugar abriga o mundo). Quando capaz de habitar, o mundo se torna um interior (35).

“[Heidegger relacionou o alemão ‘wohnen’ (morar, residir) a bleiben (permanecer) e sich aufhalten (deter-se, ficar). O filósofo assinala que o gótico wunian significa ‘estar satisfeito’, ‘estar em paz’. A palavra em alemão para ‘paz’, Friede, significa ser livre, isto é, protegido do perigo e das ameaças. Essa proteção é obtida por um Umfriedung, ou confinamento. Friede também se relaciona com zufrieden (estar satisfeito), Freund (amigo) e o gótico frijön (amor). Heidegger usa essas relações linguísticas para mostrar que habitar significa estar em paz num lugar protegido” (36).

Portanto, o propósito da arquitetura é promover e sustentar o habitar, ou seja, oferecer suporte para que o ser humano possa conquistar uma base de apoio existencial, pertencer a um lugar e se sentir parte integral do mundo. Apenas assim poderemos tecer raízes existenciais e concretizar nossos sonhos.

Considerações finais

Em virtude disso, mediante pistas oferecidas neste artigo, as quais nos convidam a transitar do espaço ao lugar adentrando aspectos ontológicos, considera-se que, no que tange ao ambiente construído pelo homem, os espaços arquitetônicos onde ocorre a vida humana precisam ter, como parte da sua constituição, a vocação de se tornarem lugares habitáveis, isto é, não serem somente mensuráveis e funcionais onde o habitar se reduz à mera relação de utilidade. Para isso, o espaço exige ser compreendido como um sistema de lugares, uma dimensão da existência humana não isotrópica e heterogênea, mas qualitativamente definida, e o espaço arquitetônico como a concretização desse espaço existencial. E cabe aos que desenham espaços arquitetônicos compreender sua dimensão existencial e por meio da linguagem da arquitetura materializar o que foi descoberto, possibilitando a constituição de lugares.

notas

1
NORBERG-SCHULZ, Christian [1976]. O fenômeno do lugar. In NESBITT, Kate (org.). Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica (1965–1995). São Paulo, Cosac Naify, 2006, p. 449.

2
NORBERG-SCHULZ, Christian. Existencia, espacio y arquitectura. Barcelona, Blume, 1975.

3
Idem, ibidem.

4
NORBERG-SCHULZ, Christian [1976]. O fenômeno do lugar (op. cit.).

5
Idem, ibidem, p. 475.

6
NORBERG-SCHULZ, Christian. Existencia, espacio y arquitectura (op. cit.).

7
Idem, ibidem.

8
NORBERG-SCHULZ, Christian. Existencia, espacio y arquitectura (op. cit.); NORBERG-SCHULZ, Christian [1976]. O fenômeno do lugar (op. cit.).

9
Bachelard também nos ajuda a compreender a magnitude da casa dentro da nossa existência. Para o autor, "a casa é o nosso canto no mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos". BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo, Martins Fontes, 2000, p. 24.

10
NORBERG-SCHULZ, Christian. Existencia, espacio y arquitectura (op. cit.), passim.

11
Idem, ibidem, passim.

12
Idem, ibidem, passim.

13
Idem, ibidem.

14
Idem, ibidem, p. 41. Tradução dos autores.

15
Idem, ibidem.

16
Idem, ibidem, p. 43. Tradução dos autores.

17
NORBERG-SCHULZ, Christian [1976]. O fenômeno do lugar (op. cit.), passim.

18
PALLASMAA, Juhani. 1986. A geometria do sentimento: um olhar sobre a fenomenologia da arquitetura. In NESBITT, Kate (org.). Op. cit., p. 482.

19
NORBERG-SCHULZ, Christian. Existencia, espacio y arquitectura (op. cit.).

20
KAHN, Louis I. Forma e design. São Paulo, Martins Fontes, 2010, p. 25.

21
NORBERG-SCHULZ, Christian. Louis I. Kahn, idea e imagen. Madri, Xarait, 1981. Colaboração de Jan Georg Digerud.

22
KAHN, Louis I. Op. cit., p. 26.

23
NORBERG-SCHULZ, Christian [1983]. O pensamento de Heidegger sobre arquitetura. In NESBITT, Kate (org.). Op. cit.; NORBERG-SCHULZ, Christian. Existencia, espacio y arquitectura (op. cit.).

24
NORBERG-SCHULZ, Christian. Louis I. Kahn, idea e imagen (op. cit.).

25
Idem, Ibidem, p. 20.

26
Idem, Ibidem.

27
Idem, Ibidem, p. 21.

28
Idem, Ibidem.

29
Idem, Ibidem. Louis I. Kahn usa dois conceitos para definir a essência humana: instituição e inspiração. As instituições são criadas a partir das inspirações. Por exemplo: a inspiração humana em aprender fez nascer a escola, uma instituição. Logo, os espaços materializados são respostas às inspirações, como aprender, expressar e questionar.

30
Idem, Ibidem, p. 21.

31
Idem, Ibidem, passim.

32
MORA, José Ferrater. Diccionario de filosofia. Tomo I A-K. 5ª edição. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1964, p. 763. Tradução dos autores.

33
Como nos explica Dartigues, a “IX Sinfonia” pode ser traduzida pelas impressões que experimentamos ao escutá-la, pela escritura da partitura ou pela atividade de uma orquestra, por exemplo, mas a essência dessa sinfonia persistiria mesmo se todos esses meios viessem a desaparecer, uma vez que persistiria não como um fato, mas como possibilidade. Transpondo esse exemplo para o nosso contexto, o "fato" citado pelo autor pode ser compreendido como a "realidade interpretada", a “possibilidade” como a "realidade natural" e a técnica como o meio que transforma possibilidade em fato ou, realidade natural em interpretada. DARTIGUES, André. O que é a fenomenologia?. 10ª edição. São Paulo, Centauro Editora, 2013. p. 19–20.

34
HEIDEGGER apud NORBERG-SCHULZ, 1981, p.18.

35
NORBERG-SCHULZ, 1981; NORBERG-SCHULZ, Christian [1976]. O fenômeno do lugar (op. cit.).

36
NORBERG-SCHULZ, Christian. 1976. The phenomenon of place. In NESBITT, Kate (org.). Theorizing a new agenda for architecture: an anthology of architectural theory 1965–1995. Nova York, Princeton Architectural Press, 1996. p. 425. Tradução e grifo dos autores.

sobre os autores

Jonathan Melo é graduando em Arquitetura e Urbanismo pela PUC Campinas e realiza pesquisas vinculadas ao grupo de pesquisa EU:CA.

Jane Victal é professora titular do Posurb Arq da PUC Campinas onde integra a linha de pesquisa Teoria, História e Crítica da Arquitetura e Urbanismo. É graduada em Arquitetura e Urbanismo pela FAU PUC Campinas, mestre e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela USP, pós-doutora pelo Kings College London. É líder do grupo de pesquisa Estudos Urbanos: Cultura e Arquitetura — EU:CA.

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