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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
O arquiteto Octavio Lacombe fala sobre o filme Esboços para Frank Gehry, exibido na 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que trata do processo de concepção da arquitetura

english
The architect Octavio Lacombe talks about the movie Sketches for Frank Gehry, shown at the 30 th International Film Festival of Sao Paulo, which deals with the process of designing the architecture

español
El arquitecto Octavio Lacombe habla sobre la película Esbozos para Frank Gehry, exhibida en la 30º Muestra Internacional de Cine de San Pablo, que trata del proceso de concepción de la arquitectura

how to quote

LACOMBE, Octavio. Um cineasta esboça um arquiteto. Frank Gehry por Sydney Pollack. Drops, São Paulo, ano 07, n. 016.05, Vitruvius, set. 2006 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/07.016/1696>.


Disney Concert Hall, arquiteto Frank Gehry
Foto Octavio Lacombe


Mostra Internacional de Cinema de São Paulo exibe filmes do mundo todo que nem sempre conseguem espaço comercial. Em sua 30ª edição exibe dois documentários sobre arquitetura. Os dois filmes tratam de dois dos mais aclamados arquitetos contemporâneos, embora um deles seja claramente ainda moderno e brasileiro (1). Trata-se de Oscar Niemeyer: a vida é um sopro, direção de Fabiano Maciel, e Sketches of Frank Gehry, direção Sydney Pollack (2).

Como Niemeyer é reconhecido entre nós e freguês da programação em tela pequena, ao menos dos canais fechados, a novidade está na exibição do documentário sobre Gehry que, de modo geral, ainda é considerado um estranho, tanto pelo público leigo como por arquitetos. Curiosamente a tradução do titulo optou por Esboços para Frank Gehry, que não exprime a ambigüidade intencional do titulo em inglês que tanto pode significar croquis feitos pelo arquiteto como o próprio filme como um esboço do arquiteto e suas idéias. Entre muitas qualidades do filme, duas são dignas de destaque. As duas são fruto da intimidade entre o diretor Sydney Pollack e o arquiteto que transparece nas cenas do filme. A primeira é o modo como Pollack se aproxima do arquiteto. A segunda é a maneira como a obra de Gehry é apresentada.

Pollack e Gehry são velhos amigos e a idéia do documentário surgiu por iniciativa do próprio arquiteto que convidou o cineasta a fazê-lo. Conhecido por dirigir longas metragens de ficção, Oscar de melhor diretor por Out of África [“Entre dois amores”], o diretor aceitou o desafio e partiu para seu primeiro filme documental. A amizade entre os dois garante um clima de intimidade ao filme, uma informalidade na apresentação despida de qualquer mitificação do arquiteto. Vemos Gehry em situações cotidianas, prosaicas: em seu estúdio, criando, em sua casa, comentando algumas soluções adotadas, passeando pela obra do Disney Concert Hall e no carro, dirigindo por Santa Monica, onde mora em Los Angeles.

Pollack usa uma handcam fazendo tomadas próximas de Gehry. Em vários momentos o cineasta aparece ao lado do arquiteto, fazendo perguntas pessoais ou discutindo questões sobre o processo de criação. Aqui a primeira qualidade do filme: a aproximação entre arquitetura e cinema. O cinema está para a arquitetura na proporção da escala de produção em que os dois meios [ou as duas artes] se encontram. A arquitetura precisa da equipe de produção no canteiro de obras e de vários projetos complementares. O cinema necessita de um time no set de filmagem e de muitas equipes trabalhando áreas distintas. Os dois afirmam e concordam que as restrições e os constrangimentos comerciais para fazer boa arquitetura ou bom cinema não podem impedir a realização de obras de arte. É preciso encontrar aquele pequeno espaço onde é possível concretizar tal possibilidade. Segundo o depoimento da crítica Mildred Friedman, a boa arquitetura de Gehry é resultado do encontro, nesse pequeno espaço, com bons clientes. E Pollack encontra em Gehry um ótimo “cliente” para sua primeira experiência documental. Ele é tão protagonista do filme quanto Gehry é autor. É um documento sobre arquitetura e também sobre cinema.

Do clima de intimidade que mostra a relação entre duas artes desponta a outra qualidade do filme: a revelação do fazer do arquiteto. Não se trata de um documentário sobre a obra construída de Gehry, mas sobre o processo de concepção da arquitetura. As cenas mais interessantes são aquelas em que o arquiteto aparece em seu estúdio, sentado ao lado do arquiteto associado Craig Webb, discutindo um projeto em frente a uma maquete em processo de transformação. “O que acha, falta um plano ali. E agora. Acho que não, corta um pouco, dobra. Foi muito, tira um pouco, refaz. Vamos ver, vamos ficar olhando pra ver o que acontece”. Vemos Craig Webb cortar papéis, dobrar, amassar, colar com durex, vemos a tesoura entrando entre os planos cortando um pedaço e abrindo um buraco na maquete. Depois Gehry aparece andando pelo estúdio e comparando maquetes do mesmo projeto em diferentes escalas. São três, seis, dez maquetes diferentes, quinze, às vezes mais, que demonstram o processo de trabalho desenvolvido em seu escritório. Mais tarde ele checa plantas, desenha sobre elas, sugere modificações, faz perguntas a um outro arquiteto, Edwin Chan, que rebate com outras questões e soluções.

Gehry inova na criação da forma, no uso dos materiais e no uso dos meios. Talvez a grande novidade de sua obra seja o uso criativo dos meios digitais. Da mesma maneira que experimenta novas formas e novos materiais, o suporte digital também se transforma em material para experimentar. Num certo momento do filme ele diz que no decorrer do processo de criação, o projeto mostra oportunidades. Oportunidades para realizar uma forma, para construir uma relação entre espaços, para a utilização de materiais. O que o arquiteto chama de oportunidades, são descobertas surgidas da experimentação, do pensar o projeto. Todo seu processo se baseia numa relação dialógica entre instâncias e suportes. O processo de criação instaura um procedimento que vai seguindo o material surgido no próprio processo que, por sua vez, passa a informar o procedimento a ser adotado. Ao final, o diálogo se dá entre material e procedimento.

O par material e procedimento foi definido por Victor Chklóvski (3) em 1929, num ensaio intitulado A arte como procedimento. Segundo ele, é preciso construir, através da linguagem, um modo de formar inusitado que provocará circunstâncias singulares de percepção, provocando um estranhamento, uma desautomatização, dificultando a percepção, transformada em confronto, duração. Quanto mais difícil a percepção, mais qualificada a recepção. Portanto, o fazer da arte se concentra numa base sintática, na construção da linguagem como processo de pensamento.

Um exemplo dessa relação dialógica é o concreto, material moderno por excelência. O concreto é um material que adquire sua configuração final mediante a utilização de uma forma. Sua constituição é eminentemente plástica, moldável, quase líquida, portanto informe. Uma vez dominada por um molde, essa massa, quando seca, se apresentará com resistência construtiva e estrutural, como forma e estrutura. A plasticidade do material, informe, ensina que o procedimento necessário é construir, de antemão, seu negativo, seu receptáculo, seu molde, meta-forma. Sem essa potencialidade plástica do concreto, seria impossível a Niemeyer realizar obras paradigmáticas do século XX.

O material de Gehry é de outra dimensão. O espírito experimental de Gehry revela sua busca contínua por materiais e a conseqüente descoberta dos procedimentos a serem adotados para transformá-los em materiais construtivos e também se manifestará em relação ao uso das tecnologias informáticas, do suporte numérico-digital. O digital toma lugar na obra de Gehry e amplia exponencialmente o processo de experimentar para descobrir. O digital relança a idéia da obra sobre o modelo tridimensional que se transforma e assim sucessivamente. O pensamento se traduz na matéria do suporte digital, matéria-fluxo que deve ser seguida. Experimentar para descobrir uma arquitetura que, segundo Valéry, como toda obra de arte deveria nos ensinar que não tínhamos visto o que vemos: “Uma nuvem, uma terra, um navio, são três maneiras de completar uma certa aparência de objeto que surge no horizonte sobre o mar” (4).

notas

1
Menção aos livros de Lauro Cavalcanti: Ainda moderno? Arquitetura brasileira contemporânea. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006; Moderno e brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-60). Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2006.

2
Oscar Niemeyer: a vida é um sopro. Direção Fabiano Maciel, Santa Clara comunicação, 90’; Sketches of Frank Gehry. Direção Sydney Pollack, Fortissimo Films, 83’ <www.sonyclassics.com/sketchesoffrankgehry/main.html>. Sobre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ver www2.uol.com.br/mostra/30.

3
CHKLOVSKI, Victor. Sur la théorie de la prose. Lausanne, Editions L’Age d’Homme, 1973.

4
VALÉRY, Paul. Introdução ao método de Leonardo da Vinci, tradução Geraldo Gérson de Souza. São Paulo, Editora 34, 1998, p. 35.

[publicação: outubro 2006]

Octavio Lacombe, Campinas SP Brasil

Disney Concert Hall, arquiteto Frank Gehry
Foto Octavio Lacombe

Casa Gehry, arquiteto Frank Gehry
Foto Octavio Lacombe

Casa Gehry, arquiteto Frank Gehry
Foto Octavio Lacombe

 

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