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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Ana Rosa de Oliveira sobre a obra de Christopher Tunnard, espécie de articulador dos princípios da arquitetura moderna com a tradição paisagística inglesa, autor do livro de importância histórica, "Gardens in the Modern Landscape"

english
Ana Rosa de Oliveira on the work of Christopher Tunnard, sort of articulating the principles of modern architecture with the English landscape tradition, author of historical significance, "Gardens in the Modern Landscape"

español
Ana Rosa de Oliveira sobre la obra de Christopher Tunnard, una suerte de articulador de los principios de la arquitectura moderna con la tradición paisajística inglesa, autor del libro de importancia histórica "Gardens in the Modern Landscape"

how to quote

OLIVEIRA, Ana Rosa de. Christopher Tunnard. Um jardim para a modernidade. Drops, São Paulo, ano 08, n. 022.05, Vitruvius, abr. 2008 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/08.022/1750>.


O canadense Christopher Tunnard foi uma espécie de articulador dos princípios da arquitetura moderna com a tradição paisagística inglesa. Nascido em 1910, graduou-se na Inglaterra em 1930, no College of the Royal Horticultural Society de Wisley, e especializou-se em construção civil em 1932. A partir deste ano, trabalhou com Percy S. Cane, paisagista inglês seguidor de Edwin Lutyens (um dos mais representativos realizadores de jardins no estilo Arts and Crafts, juntamente com Gertrude Jekyll), iniciando em 1936 a sua carreira de paisagista autônomo.

Em 1938 publicou o livro Gardens in the Modern Landscape, uma compilação da série de artigos escritos para a Architectural Review em 1937 e 1938 (com ilustrações de Gordon Cullen, no início de sua carreira. N.E.). A importância histórica deste livro reside no seu caráter de manifesto pró-jardim moderno, onde Tunnard tenta elaborar aproximações teóricas para a concepção moderna do jardim, já que, para ele, o jardim inglês seguia prisioneiro do passado, diferentemente do que vinha ocorrendo com a arquitetura, a escultura e a pintura. Esta atitude é representativa do clima intelectual da Inglaterra dos anos 30, pois o país demorara mais que outros da Europa a se deixar influenciar pelo movimento moderno na arquitetura, gerando também um atraso na concepção dos jardins que acompanhariam a casa moderna. Os jardins baseados no modelo Arts and Crafts estavam "esgotados" e, de certa forma, esse fato contribuiu para uma abertura da tradição a outras maneiras de entender o desenho do jardim. Assim, contraposto a uma arte fortemente ligada aos modelos tradicionais, havia um crescente interesse pelas descobertas visuais e formais inerentes à modernidade, que vinham sendo adotadas em outros países. Tunnard, no entanto, não se opunha a todas as iniciativas do passado. No resumo que faz da história do jardim, no início do seu livro, destaca certas obras paisagísticas francesas e inglesas, permitindo que referências à paisagem e à arquitetura próprias destes jardins também servissem como norteadores de seu pensamento e de sua práxis.

Para Tunnard, três seriam os princípios básicos para uma nova "técnica" ou desenho do jardim moderno: os enfoques empático, artístico e funcional. Em resumo, o paisagista reivindicava através deles um maior diálogo entre o jardim e a natureza, a sua diferenciação do artesanato e a sua equiparação com as modalidades artísticas, incorporando ao jardim os descobrimentos formais e visuais modernos. Finalmente, ele defendia um desenho mais funcional. As necessidades dos usuários tinham, para ele, prioridade sobre os abusos formalistas que costumavam abundar nestes espaços. No livro, as ilustrações dos jardins do próprio Tunnard, associadas aos de Jean Canneel-Claes na Bélgica, Gabriel Guevrekian na França, e Ernst Mühlstein na Suíça, davam aos leitores possíveis idéias para o desenho do jardim moderno. Coincidindo com sua intensa atividade teórica, seus melhores jardins são justamente os projetados entre 1935 e 1939. Nesse contexto destacam-se os projetos de Bentley Wood em Hallan Sussex e o de St. Ann's em Chertsey, Surrey. Em ambos a intervenção se dá em dois níveis: o desenho do jardim do entorno imediato da casa e o da paisagem do lote, buscando a fusão da regularidade e da irregularidade e adotando a arquitetura e a paisagem como pontos de partida para o seu jardim.

O que decanta ao observarmos seus projetos é que Tunnard viveu uma espécie de "balbuciar" da forma do jardim moderno, e tanto a sua obra projetada quanto escrita apresentavam-se como um conjunto de possíveis alternativas para viabilizar o novo. Com relação ao desenho dos seus jardins, pode-se dizer que não apresentam a unidade formal clássica, nem as relações que estruturam a forma moderna. Ou seja, apesar dos seus esforços, os seus projetos ainda ficavam no meio do caminho. Em algumas ocasiões, a disposição dos elementos do jardim seguiam um modelo, uma lei que já existia antes da própria obra, como por exemplo, a simetria ou a imitação da natureza. Mas o que singulariza o jardim moderno, no entanto, é a idéia da construção de formas que obedeçam a uma regra interna que antes não existia. De um modo geral, o jardim de Tunnard acaba se plasmando como um amálgama de formas que ora evocam uma composição, através da unidade e a hierarquia – como os elementos e espaços distribuídos simetricamente, "sem abusar" (pois Tunnard criticava a simetria) –, ora uma construção, mostrando uma obra original ou querendo também parecer-se com o "novo", através do uso de imagens estereotipadas do moderno. Os escritos e os jardins de Tunnard definem, no entanto, um marco no contexto do jardim moderno. Em um meio artístico defasado em relação à sua época, ele foi uma peça importantíssima, pela determinação e busca de uma teoria para uma disciplina em que a mesma era escassa. Ao emigrar para os Estados Unidos em 1939, ele também desempenhou uma importante atividade docente em Harvard, influenciando a nova geração de arquitetos paisagistas (Dan Kiley, Garret Eckbo, James Rose e Lawrence Halprin, entre outros), impactados por suas teorias. E foi nos Estados Unidos que abandonou o desenho detalhado da paisagem para, seguindo as tendências americanas da época, dedicar-se ao planejamento do território. Talvez o pouco tempo dedicado por Tunnard ao desenho que reivindicava para os jardins tenha impedido uma contribuição mais efetiva para a construção formal do jardim moderno. Por outro lado, parece que ele entendeu o discurso moderno, porém sem compreendê-lo integralmente, no sentido de torná-lo próprio. Ou seja, muitas vezes, ele se prendeu mais aos estereótipos do moderno que ao seu verdadeiro sentido. Nesse sentido, o jardim para a modernidade que anunciava acabou sendo viabilizado por outros. No nosso contexto mais próximo, o conjunto da obra paisagística de Roberto Burle Marx é um exemplo significativo dessa afirmativa, onde os três princípios básicos estabelecidos por Tunnard são alcançados com maestria.

sobre o autor

Ana Rosa de Oliveira, pesquisadora e paisagista do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Ana Rosa de Oliveira, Rio de Janeiro RJ Brasil

Projeto do jardim da casa Bentley Wood, de Christopher Tunnard [www.gardenvisit.com]

Casa Bentley Wood [www.gardenvisit.com]

 

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