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drops ISSN 2175-6716

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A arquiteta Denise Mendonça Teixeira faz homenagem ao arquiteto Flávio Villaça, recém-falecido.

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TEIXEIRA, Denise Mendonça. Flávio Villaça, uma vida intensa que se encerra. Carta ao editor. Drops, São Paulo, ano 21, n. 162.07, Vitruvius, mar. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.162/8054>.



Festa de aniversário de 90 anos de Flávio Villaça. Vídeo de Denise Mendonça Teixeira

São Paulo, 30 de março de 2021

Abilio, amigo,

Flávio Villaça, 91 anos, arquiteto-urbanista, faleceu na madrugada de 29 para 30 de março, dormindo. Fui inundada por uma enxurrada de emoções. Puxei memórias. Conheci o professor Flávio numa aula especial do mestrado, quando, com precisão e bons argumentos, descreveu a importância de se entender a periferia de São Paulo e sua imensidão para planejar os rumos da megalópole.

A segunda aproximação se deu quando você sugeriu que eu fizesse uma resenha sobre o livro As ilusões do Plano Diretor (1), o que fiz com receios de não dar conta, muita dedicação, para vê-la depois, com imensa alegria publicada no Vitruvius. Logo depois, fui convocada a entrevistar o autor a propósito da ideologização dos planos, me entusiasmando com a possibilidade de uma aproximação e escutar dele o que lia nos livros (2).

Marquei hora e fui encontrá-lo na sua casa, no seu gabinete recobertas de livros, papéis de diferentes procedências; um computador protegido por uma caixa de madeira, uma impressora e a mesa forrada de jornais. O espaço recebia um tanto de luz através de janela voltada para uma área aberta, espaçosa, com árvores frondosas, abraçada por uma vegetação diversificada.

A entrevista foi esclarecedora. Não faltaram críticas aos inúmeros planos diretores exigidos e elaborados Brasil afora. Passado um tempo, Penha Pacca, amiga querida, sugeriu que eu participasse dos encontros quinzenais que se davam na casa do professor, onde fui acolhida com presteza. Ele nos recebia de portão aberto, onde revíamos a exuberante jabuticabeira, as diversas obras significativas de artistas brasileiros, as esculturas, tapetes, móveis, objetos escolhidos a dedo por quem conhece arte, design, abençoado com imensa sensibilidade.

A mesa sempre impecável, coberta por um tecido azul claro: taças de vinho, guardanapos e o devido abridor, estavam à nossa espera. Cada um que chegava levava uma garrafa de vinho ou petisco para iniciarmos o texto da temporada, escolhido democraticamente: David Harvey, Henry Lefebvre, Milton Santos, dentre tantos autores, do próprio Flávio e a Lei do novo Plano Diretor – textos, enfim, que suscitassem indagações e aprendizados. Por vezes, um artigo de jornal desencadeava discussões sem trégua. Ele escutava cada um com tranquilidade, jamais levantava a voz. Quando surgia uma interpretação nova com que discordava, pontuava, afirmando que “achismos” não cabiam na boa argumentação. Como bom e preciso leitor, dono de uma memória colossal, não deixava escapar palavra: liamos e relíamos trechos dos autores seguida vezes, fosse para concordar ou não com o que ali estava escrito.

Os encontros chegavam a durar até três horas, com boas gargalhadas, às vezes com um pouco de tensão, mas sempre finalizados calorosamente, sem qualquer moeda de troca. Nos meses de inverno, uma sopa de cebola era oferecida por ele; nos finais de ano, revezávamos nossas casas para nosso último encontro, onde os assuntos diversos e a participação de todos faziam a festa.

Leitor voraz de jornais, revistas e artigos acadêmicos, mantinha-se também sempre atualizado com os assuntos do mundo. Bom ouvinte das novas trazidas pelo grupo, acolhia simpaticamente assuntos familiares de cada um. Queríamos estar perto dele e sentir aquele homem delicado, firme nas suas convicções, apreciador da boa música, sempre pronto para viajar centenas de quilômetros para escutar uma boa ópera, um belo concerto. Apreciador de um whisky, não dispensava algumas doses em nossas comemorações.

Sua generosidade para conduzir aqueles encontros, nos escutar, rever textos, indicar novas leituras, fica, na minha experiência, como referência para todo aquele que escolha a profissão de professor.

Flávio Villaça viveu com intensidade, integridade e alegria, ensinando a todos nós, seus alunos, que, enquanto estamos por aqui, a vida vale cada segundo.

notas

1
TEIXEIRA, Denise Mendonça. Ideologização do Plano Diretor. Resenhas Online, São Paulo, ano 04, n. 047.02, Vitruvius, nov. 2005 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/04.047/3147>.

2
TEIXEIRA, Denise Mendonça. Flávio Villaça. Entrevista, São Paulo, ano 06, n. 024.04, Vitruvius, out. 2005 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/06.024/3309>.

sobre a autora

Denise Mendonça Teixeira, arquiteta graduada pela Universidade Federal do Estado da Bahia (UFBA) e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie com a dissertação Plano Diretor do Município de Ipiaú – BA: limitações e possibilidades.

 

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162.07 homenagem
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