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drops ISSN 2175-6716

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O arquiteto Erick Vicente comenta com nostalgia a desaparição de um lugar sagrado para os corinthianos: a arquibancada popular apelidada de Tobogã no Estádio do Pacaembu.

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VICENTE, Erick. A demolição do tobogã e as memórias de um torcedor. A privatização e elitização do Estádio do Pacaembu. Drops, São Paulo, ano 21, n. 165.04, Vitruvius, jun. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.165/8129>.



O tobogã não pertencia ao Pacaembu. Não é preciso de muito esforço para reconhecer isso. Tampouco tinha as características necessárias para ocupar aquele espaço, substituindo a concha acústica.

Inaugurado em 1970 durante a gestão do prefeito Paulo Maluf, a nova estrutura aumentou a capacidade do estádio em 18 mil torcedores. Foi alvo de muitas críticas, todas elas válidas... afinal, aquele trambolho tinha desfigurado o belo estádio, projeto do Escritório Ramos de Azevedo.

Porém, o tobogã tem, ou tinha, um significado que não pode ser ignorado.

Foi lá que eu tive a relação mais feliz com o estádio e com o futebol. Sou corinthiano e de lá eu vi o maior título da história do meu time (depois do Paulista de 1977, que, por motivos óbvios, supera todos os outros). De lá eu vi Ronaldo Nazário ganhar seu último título como profissional. De lá eu vi meu time ser rebaixado e ser campeão da segunda divisão no ano seguinte. Vi o time homenagear o dr. Sócrates Brasileiro no dia de sua morte, todos com braços erguidos e punhos cerrados, tal qual fazia o líder da Democracia Corinthiana...

Um amigo geógrafo formado pela USP, o Juliano Pagin, deu um depoimento em suas redes sociais da qual me identifico: “a demolição do setor mais popular, para a construção de algo totalmente desconectado da função do complexo esportivo, é um golpe na memória do esporte nacional e na paixão que eu construí com o meu time”. O tobogã, apesar de ser um troço mal feito, permitia que mais pessoas assistissem aos jogos, a preços populares. Ele é parte da memória de muita gente que realmente viveu o estádio, que esteve lá, com frequência, amando seu clube em tardes e noites de festa.

Podia ser um cancro, mas servia a um propósito realmente popular.

Anos atrás, houve uma resistência gigantesca para a concessão do estádio ao Corinthians. Os moradores do bairro não queriam. Uma das alegações é que não seria possível fazer as reformas necessárias para adequação do estádio (modernizar banheiros, reformar camarotes etc.) em virtude do tombamento. Porém, olhando no que o estádio irá se tornar, não foi esse o motivo. A aglomeração de pessoas vindas das periferias da cidade não agradava. Afinal, a torcida do Corinthians não é silenciosa e limpinha. Qual é? Enfim...

A construção do estádio de Itaquera resultou no esvaziamento do Pacaembu. Pouco se joga lá, só quando os estádios dos grandes clubes paulistas não estão à disposição.

Recentemente, uma concessão foi autorizada. A demolição do tobogã dará lugar a um prédio, uma lâmina que manterá a interrupção entre o clube e o campo (uma das questões apontadas pelos críticos da antiga arquibancada). E o que vai abrigar o futuro prédio? Acho que restaurantes, lojas, espaços comerciais e qualquer outra coisa que gere renda ao grupo privado que assumiu o estádio.

Apesar da comemoração de alguns colegas, as imagens da demolição do tobogã me entristeceram. Não pela queda da estrutura em si, mas porque no lugar surgirá algo que não será frequentado pelos torcedores menos favorecidos que lá sofreram, gritaram e cantaram.

Seria mais interessante se a concha acústica fosse reconstruída, num processo de recuperação do projeto original. Mas isso não irá acontecer.

O Pacaembu já foi de todos. Muito provavelmente, no futuro, será de poucos.

sobre o autor

Erick Rodrigo da Silva Vicente é arquiteto e urbanista, mestre pela FAU USP, coordenador técnico do IPH, professor da pós-graduação em arquitetura hospitalar na SBIB Hospital Albert Einstein e um corinthiano que tem muita saudade do Pacaembu.

 

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165.04 arquitetura e memória
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