Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
A crônica de Milton Hatoum recorda memórias da infâncias onde as peladas de futebol se emaranham com a vida sentimental de uma mulher.

how to quote

HATOUM, Milton. Crônica de um Natal distante. Drops, São Paulo, ano 22, n. 171.04, Vitruvius, dez. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.171/8355>.


Homem observa partida de futebol por cima do muro
Foto Abilio Guerra


Era um terreno estreito e comprido, com duas traves sem rede, feitas de ripas remendadas; o piso de barro e pedrinhas, levemente inclinado para o centro, virava um riacho nas chuvas fortes de dezembro; mesmo assim, a gente batia bola naquele campinho nas tardes quentes da infância, que já tropeçava nos primeiros passos adolescentes.

Nos jogos valia tudo: chutão na canela, carrinho, rasteira… Os mais indolentes ficavam na banheira, e não eram poucos os arranca-tocos: curumins com pendor à luta corporal. Para eles, o campinho era uma arena: davam pontapés sem bola, mas se acovardavam quando Olibe, o único rapaz da turma, protegia os mais fracos, franzinos de dar dó. Ele era peixeiro, e madrugava no mercado municipal. Exceto o Olibe, éramos todos pequeninos humanos. Como seriam os grandes?

Num sobrado humilde, vizinho ao terreno, moravam um homem de uns trinta anos e uma moça de uns dezenove ou dezoito. A gente nada sabia da vida deles. Aliás, nem da nossa. Os vizinhos eram apenas uma visão distante e rara. Quando ficavam juntos na janela do sobrado, viam o corre-corre, os encontrões, as cotoveladas, as pernas esfoladas. E viam o Olibe, que mais apartava brigas do que jogava. Ele não queria ser juiz, talvez por temer a injustiça. Falava pouco, e seu jeito sóbrio, sem ser solene, era um aceno à paz. Poucas palavras bastavam.

Então aconteceu algo estranho. No primeiro sábado de dezembro, a bola de couro surrada caiu na casa vizinha. Nas outras vezes, alguém – o homem ou a moça – devolvia sem demora a esfera marrom. O que teria acontecido?

As janelas do sobradinho, fechadas. Ninguém respondeu aos nossos gritos: devolve a bola. Um par de pequenos valentões foi bater à porta deles. A dupla voltou calada, sem a bola. Esperamos, com uma impaciência que crescia com o calor e com a inação. Um insolente pegou uma pedra, Olibe o encarou, e dois objetos caíram no campo quase ao mesmo tempo.

Era a bola, só que cortada ao meio. Ficamos olhando sem ação as duas metades murchas. No nosso íntimo, a gente também murchava. No sábado seguinte, a crueldade foi repetida com uma bola de plástico.

Olibe não ia fazer nada?

“No próximo jogo vou dar de Natal uma bola de couro novinha”, ele disse. E advertiu: “se os valentões agredirem os curumins, vão ser expulsos”.

Cumpriu a promessa: pôs a bola no meio do campinho e foi embora. Quer dizer: foi e não foi. Ele e a moça, abraçados na janela, assistiram à pelada natalina. Foi nossa primeira disputa de verdade, sem agressões gratuitas e sem medo de perdermos a bola.

nota

NE – publicação original do artigo: HATOUM, Milton. Crônica de um Natal distante. O Estado de S.Paulo, Caderno 2, 19 dez 2021.

sobre o autor

Milton Hatoum é autor dos romances Dois irmãos, Cinzas do Norte e A noite da espera, entre outros.

 

comments

171.04 literatura
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

171

171.01 homenagem

Homenagem ao professor Mário Henrique Simão D’Agostino, o Maique

Rodrigo Bastos and Deusa Maria Rodrigues Boaventura

171.02 justiça

Pdf ou dwg?

Acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo discute o formato do projeto arquitetônico

José Roberto Fernandes Castilho

171.03 homenagem

Medalha Paulo Freire

Kleber Mendonça Filho

171.05 política

Patrimônio e Lexotan no fazendão

Carlos A. Ferreira Martins

171.06 política urbana

O que São Paulo perde ao entregar o Campo de Marte para o governo federal

Nabil Bonduki

171.07 homenagem

Meu amigo Vivaldo Tsukumo

Cristiano Mascaro

171.08 política

O vagabundo e seus muitos patrões

Carlos A. Ferreira Martins

171.09 política

O império e o pato manco – 1

Carlos A. Ferreira Martins

newspaper


© 2000–2022 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided