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drops ISSN 2175-6716

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Carlos Ferreira Martins, professor do IAU USP São Carlos, comenta o escarnio do atual presidente da República frente à tragédia social na Bahia provocada pelas intensas chuvas.

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MARTINS, Carlos A. Ferreira. O vagabundo e seus muitos patrões. Drops, São Paulo, ano 22, n. 171.08, Vitruvius, dez. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/22.171/8373>.


Marionete personagem do filme Strings, direção de Anders Rønnow Klarlund, 2004
Foto divulgação


A hashtag #BolsonaroVagabundo atingiu rapidamente a condição de trending topics no jargão das redes sociais. Em princípio nada a estranhar frente à desfaçatez com que o capitão exibe, no litoral de Santa Catarina, a sua indiferença à tragédia que assola mais de 140 municípios do Estado da Bahia.

De fato, parece incongruente o escarnio de quem ocupe a presidência da república ante o sofrimento dos 40 mil desabrigados, de mais de meio milhão de pessoas diretamente afetadas e de prejuízos econômicos ainda difíceis de calcular.

As redes sociais e a grande mídia têm explorado cada imagem e cada declaração do capitão reformado, não se furtando a destacar a bizarrice de suas fotos em jet-ski, a expressão sempre triste da filha Laura ou suas declarações quanto à expectativa de gozar das férias até o final.

A ausência ou a presença de Michelle nas fotos mostra que, longe de indiferença, há um permanente e cuidado “diálogo” com as redes sociais.

E não apenas com as redes bolsonaristas, que já não parecem gozar da expressiva hegemonia dos bons tempos. A contra hashtag #BolsonaroorgulhodoBrasil não conseguiu empatar o jogo, apesar do já denunciado uso de mais de sessenta robôs.

Vários analistas chamam a atenção para a estranheza desse comportamento, não apenas de indiferença, mas de boicote ativo, como mostram a negativa de autorização diplomática para a ajuda da Argentina ou o valor ridículo da ajuda federal aprovada.

Afinal, o colégio eleitoral da Bahia é o maior do Nordeste, região em que Bolsonaro já colhe os seus piores resultados e essa indiferença não faria muito sentido para alguém que está, desde que assumiu, em campanha aberta e declarada à reeleição.

Para a maioria, não há senão reiteração da falta de empatia que sabidamente beira o perfil dos psicopatas. Afinal, se 620 mil mortos da pandemia, alguns milhares dos quais com requintes de sadismo frente à falta de oxigênio, não comoveram, por que poucas dezenas de nordestinos o fariam?

Para alguns, haveria até um certo cálculo nessa exibição de indiferença, na medida que o eleitorado bolsonarista raiz do sul se identifica com o preconceito antinordestino do entorno do capitão.

A minha desconfiança é que os volteios de análises em torno do caráter do capitão – ou das suas deformações, psiquiátricas ou não – constituem a mordida, deliberada ou não, numa isca muito bem plantada pelos seus patrões, sejam os que atualmente exercem o poder (militares, executivos do setor financeiro e hierarcas do centrão), sejam os verdadeiros donos de tudo o que ainda não foi vendido e do que já foi comprado.

É espantoso que, frente aos mais de sete mil militares no governo federal (e alguns também no judiciário), o caráter militar do regime ainda seja matéria exclusiva de alguns analistas de exceção como Piero Lerner ou João Roberto Martins. Ou que as pergunta pelos CPFs e CNPJs dos responsáveis pelo projeto fazendão, de que a monocultura de eucaliptos no sul da Bahia é só um exemplo, seja quase exclusivamente de Alceu Castilho e seu De Olho nos Ruralistas.

Parece que já esquecemos do Sete de Setembro, menos de quatro meses atrás, quando o capitão e seus milicianos amestrados pareceram atuar fora do script e a velha política e os quadros militares atuaram de forma cirúrgica e rápida para reconduzir a presidência “à normalidade”, sob o aplauso aliviado dos donos do país.

Talvez as esquerdas devessem se preocupar menos com a hipótese – de resto remota – de um xuxu na vice-presidência do que com os indícios cada vez mais gritantes de que Bolsonaro não pretende ganhar o próximo mandato por meio de eleições legítimas. Ou, para honrar os nossos poucos analistas da questão militar, de que o capitão já não seja, saiba ele ou não, o nome da vez para dar continuidade ao golpe contra a população pobre e o patrimônio nacional.

Assim, só resta desejar um bom 2022, que certamente será muito próspero para cada vez menos gente, muito duro para cada vez mais gente e seguramente não terá muito lugar para o tédio.

sobre o autor

Carlos Ferreira Martins é professor titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos – IAU USP São Carlos.

 

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