
Acrópole 319, número especial sobre o Grupo Arquitetura Nova. Capa de autoria de Arnaldo Martino e Mateus Gorovitz
Sérgio Ferro: Eu acho que nós não conseguimos nunca realizar efetivamente nossa experiência por uma razão bastante simples: o operariado com o qual a gente trabalhava era operariado, isto é, assalariado, que vendia a própria força de trabalho e, portanto, no momento em que se transformava em assalariado, já se vendia, já se alienava. Se transformava em propriedade do outro. Isso impedia fundamentalmente que a participação atingisse os níveis que a gente desejava, a verdade da equipe participativa que a gente desejava. Havia uma participação mais ou menos comedida, ligada à nossa simpatia, ao fato de a gente se aproximar deles e dar liberdade. Quando era possível, até de aumentar salário em conseqüência mesmo dessa participação, que diminuía custos, etc. Mas eu acho que é utopia pensar em experiências de liberdade participativa no meio da não-liberdade, no meio da sociedade em que a gente vive. Entretanto, eu acho que hoje em dia, em certos bolsões de liberdade que começam a se criar – junto ao Movimento Sem Terra, o Movimento Sem Teto ou da auto-gestão participativa, etc. – muito mais do que no meu tempo, é possível avançar nessa experiência. Aí há realmente um chão menos destruído, menos corrompido do que era o nosso chão, no nosso tempo.
DC: Então a relação dos trabalhadores com o produto do trabalho no canteiro era como em um canteiro tradicional?
SF: Exatamente.
DC: Como vocês [grupo Arquitetura Nova] explicavam suas intenções para os operários?
SF: A gente tentava explicar um pouquinho a partir do Marx, a lógica da exploração, a lógica da divisão do trabalho injusta, a exclusão deles do ato de pensar, essas coisas todas. E pouco a pouco, de uma maneira lenta, gradativa, eles iam compreendendo a mola do sistema, as regras do sistema e tentando, conosco, partir para uma prática alternativa que não fosse só exterior ao ato de fazer, mas que transformasse o ato produtivo ele mesmo.
DC: O senhor acha que nos mutirões autogeridos, hoje, se consegue algum avanço em relação a isso?
SF: Eu acho que sim, sem dúvida nenhuma. E o próprio fato que me interessa muito nos trabalhos do Pedro [Arantes], por exemplo, é a participação das mulheres que muda, já é uma coisa radicalmente nova, não só pela presença delas, mas porque elas trazem de outro tipo de consideração do trabalho, outro tipo de carinho e isto é bastante importante.
DC: De que maneira vocês trabalhavam o conceito de Marx com os operários? Pergunto isso porque são conceitos meio densos, não acha?
SF: Sim, mas olha, o Marx mesmo dizia: são muito mais os burgueses intelectuais que tem dificuldade de entender o Marx do que os operários. Muito mais! Isso é frase do Marx, não é minha não. Quem tem isso na carne, na vida cotidiana, no dia-a-dia. Mesmo que eles não tenham os conceitos preparadinhos para traduzir, quando eles encontram esses conceitos, para eles é evidente na hora. Na hora!

Esquemas de de montagem de abóbadas. Rodrigo Lefèvre, dissertação de mestrado na FAU-USP, 1981