Flávio Império em aula na FAU-USP, 1975
Daniela Colin: Quando o arquiteto se fecha num saber parcial, destinado a trazer soluções técnicas aos problemas formulados tecnicamente, também corre o risco de alienar seu conhecimento intelectual. Em relação a isso, que arquiteto você acredita que está sendo formado pela universidade hoje no Brasil?
Sérgio Ferro: Aí eu vou ter dificuldade em responder porque eu estou muito longe do ensino atual brasileiro. Aqui na França, essa distância tem se traduzido por um crescente formalismo. Mesmo as questões técnicas, etc. começam a ser afastadas e deixadas para o construtor. Há uma tendência crescente aqui em cortar voluminho em isopor, triangulinho, essas coisas assim, como se arquitetura fosse só isso. No Brasil eu tenho uma certa dificuldade em responder para você porque há anos, há mais de 30 anos que eu estou longe do ensino concreto das universidades do Brasil.
DC: Eu vejo um interesse crescente sobre o tema da participação popular no canteiro e auto-gestão, pelo menos no Brasil, dentro da área acadêmica. Não sei como isso acontece no resto do mundo...
SF: Eu fico muito feliz com tudo isso e, inclusive, esse interesse pela dimensão social da arquitetura e do ato de construir é bem brasileiro, atualmente. Quero dizer, bem típico dos países subdesenvolvidos, nos países como o nosso, em que as carências e a miséria estão ali, na carne, evidentes. Na França [o interesse] é menor. A dor é menos evidente, a exploração mais disfarçada. Mas não que [a exploração] seja menor ou inexistente. É a mesma, mas aqui o pessoal consegue, com favores laterais e compensações marginais, esquecer um pouco a questão da produção.
DC: Você acha que seria papel da universidade oferecer assessoria técnica a movimentos sociais para construção, por exemplo, de habitação de caráter social em regime de mutirão auto-gerido?
SF: Sem dúvida nenhuma! Sem dúvida nenhuma! É um dever, não é só uma possibilidade não. Se a universidade não fizer isso, barbaridade! Quem vai fazer? Teoricamente, a idéia da universidade é de um ensino que é dado a todos e atendendo os problemas específicos de cada grupo social. Sem dúvida que a universidade tem o dever de fazer isso.
DC: Principalmente as universidades públicas, eu acredito.
SF: Sem dúvida nenhuma! Sem dúvida nenhuma!
DC: Minha intenção, depois de concluir esta parte da pesquisa, é partir para um estudo da relação entre a participação popular no canteiro e a apropriação do espaço construído...
SF: O trabalho a fazer é um trabalho lindo e necessário. É preciso que essas experiências não se percam no isolamento, no esquecimento, mas que, ao contrário, elas possam contribuir para um tipo de conhecimento novo. E esse tipo de pesquisa que você se propõe a fazer é essencial nesse caso.

Palestra de Rodrigo Lefévre na FAU-USP