Residência Pery Campos, São Paulo, 1970. Arquitetos Rodrigo Lefévre e Nestor Goulart Reis Filho
Daniela Colin: O senhor acha que no canteiro de obras pode-se ter uma estrutura de trabalho que não se tenha na indústria, por exemplo?
Sérgio Ferro: Não. Eu acho que, para que haja realmente uma transformação no canteiro de obras, é indispensável que haja uma transformação em toda a sociedade, em todos os níveis da produção, em todos os aspectos da produção. Acho que não há nenhuma incompatibilidade entre a indústria e o trabalho livre. Trata-se, evidentemente, de que esse trabalho livre na indústria não se fará ou não será conduzido da mesma maneira que na manufatura. Haverá uma outra lógica, uma outra maneira de proceder, etc. Mas nada impede que as mesmas exigências de liberdade, de auto-determinação e responsabilidade surjam na indústria, na manufatura, no campo ou seja onde for.
DC: O senhor chegou a trabalhar com canteiro de obras na França?
SF: Tentei muitas vezes trabalhar com sindicatos... mas é uma mentalidade difícil, muito próxima do “partidão”, daquela coisa “produção pela produção”, “vamos avançar a produção!”, aquela história toda.
DC: Você já teve conhecimento de algum grupo de operários da construção civil que tenha desenvolvido uma forma diferente de trabalho por si só?
SF: Aqui na França houve várias experiências. De cooperativa operária, mais nos anos 70, 80. Hoje isso diminuiu, mas houve bastante experiências de grupos de trabalho auto-geridos, trabalhadores em associação, inclusive com arquitetos também, dentro. E faziam coisas bonitas, agora, com a pressão do mercado e as dificuldades do sistema em financiar, dar verba, escolher, esse tipo de cooperativas acabou diminuindo muito em importância. Muito menos porque tenham sido ineficazes, mas muito mais por causa do sistema mesmo, que prefere o bom e velho liberalismo e dá tudo para a iniciativa privada tradicional.

Residência Pery Campos, São Paulo, 1970. Arquitetos Rodrigo Lefévre e Nestor Goulart Reis Filho