Residência Pery Campos, São Paulo, 1970. Arquitetos Rodrigo Lefévre e Nestor Goulart Reis Filho
Daniela Colin: Tendo em vista o caso do mutirão auto-gerido, em que o usuário projeta e participa da construção da moradia, você acredita que na prática, a relação do usuário-projetista-construtor é diferente em relação ao produto do seu trabalho, em comparação com o modo convencional de produção?
Sérgio Ferro: É. E aí em São Paulo vocês já têm experiências boas, novas. Sobretudo o pessoal do USINA, lá, do Pedrinho [Pedro Arantes] Isso fica evidente, né? A posição do usuário produtor é completamente diferente do cliente normal do arquiteto, como é diferente do simples construtor que não é usuário.
DC: Uma vez, inclusive, eu tive a oportunidade de comparar. Eram dois conjuntos habitacionais, um ao lado do outro. Um feito por mutirão, participativo, e o outro feito por um mutirão que simplesmente recebeu o projeto já pronto e eu senti que a apropriação do espaço era completamente diferente.
SF: É muito diferente! Muito diferente. Eu acho que inclusive, um aspecto novo e bonito que no nosso tempo, inclusive, isso não existia, no tempo do “desenho e o canteiro”, é o papel forte, ativo e criador da mulher.
DC: O senhor enxerga alguma mudança no canteiro que possa acontecer a partir dessa experiência de mutirão auto-gerido?
SF: Eu acho que essas experiências, se forem sempre conduzidas com espírito crítico, analítico, bem miúdo, bem próximo da realidade, poderão, pouco a pouco, começar a produzir, não só – como é o nosso caso do Arquitetura Nova, o Rodrigo, Flávio e eu – não só produzir algum conhecimento negativo que denuncia o que é ruim, o que é torto e o que é podre, mas, ao contrário, um tipo de análise que começa já a poder propor aspectos positivos de transformação e de modificação.

Residência Pery Campos, São Paulo, 1970. Arquitetos Rodrigo Lefévre e Nestor Goulart Reis Filho