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interview ISSN 2175-6708

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Nesta entrevista concedida à Alessandro Rosaneli, a arquiteta e paisagista Anne Vernez Moudon apresenta importantes considerações para aqueles interessados no estudo da forma urbana e nos possíveis desdobramentos metodológicos

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ROSANELI, Alessandro Filla; SHACH-PINSLY, Dalit. Anne Vernez Moudon. Entrevista, São Paulo, ano 10, n. 040.01, Vitruvius, out. 2009 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/10.040/3397/pt_BR>.


Anne Vernez Moudon
Foto Alessandro Filla Rosaneli, 2008

Forma urbana de que modo?

A arquiteta e paisagista Anne Vernez Moudon é adorada por seus alunos de pós-graduação na Universidade de Washington (UW), em Seattle, nos Estados Unidos. Sua simpatia, paciência professoral e instigantes insights certamente são os principais motivos valorizados dentre aqueles que ali freqüentam suas aulas desde 1981. E por detrás de seu bom humor, encontra-se uma pesquisadora de grande calibre, cujo interesse centra-se na investigação dos aspectos físicos e espaciais do ambiente construído. Nos últimos anos, sempre com o suporte da morfologia urbana, vem empreendendo vários estudos interdisciplinares, especialmente focados nas questões de mobilidade urbana e saúde coletiva. E suas contribuições para a morfologia urbana também podem ser sentidas em suas posições na presidência do ISUF (1), entre 1997 e 2005, e como coordenadora do Laboratório da Forma Urbana (no Departamento de Arquitetura e Planejamento Urbano da UW).

No Brasil, a morfologia urbana como método investigativo tem despertado grande interesse dos pesquisadores, ultimamente. Talvez a maior medida seja a maciça participação de estudiosos brasileiros no 14º ISUF de Ouro Preto, em 2007, cujo sucesso foi destacado na própria publicação do ISUF. De fato, as possibilidades de pesquisa dentro desta abordagem são inúmeras e promissoras. Contudo, os desafios para a consolidação de linhas de pesquisa nesta área ainda estão postos, sobretudo em razão das metodologias empregadas, originalmente criadas com outros contextos em mente (2).

A morfologia urbana estabelece-se como campo de estudo em meados do século XX, fundamentado a partir da contribuição de estudiosos europeus empenhados em uma construção metodológica que suportasse o estudo da estrutura física e espacial das cidades. Todavia, durante o século XIX, movimentos significativos já impulsionavam a sua posterior estruturação, com o motivo fundador configurando-se pelo interesse nos mapas topográficos como fonte de história (3). Por um lado, na França, Antoine-Chrysostome Quatremère de Quincy (1755 – 1849), identificou a utilidade dos mapas na interpretação da história das cidades, pelo acompanhamento do progresso e das mudanças na sua estrutura física; de outro, na Alemanha, reconhecidamente o pioneiro estudioso a entender essa possibilidade foi o historiador Johannes Fritz, cujo trabalho “Deutsche Stadtanlagen” (1894) exerceria profunda influência em outros autores, sobretudo na própria Alemanha (Kretzchmar, Keyser, Schlüter) e na França (Lavedan, Poëte). Dessa forma, até meados do século XX, as bases da morfologia urbana foram sendo paulatinamente construídas, fato que propiciou o posterior, independente e quase simultâneo desenvolvimento de diferentes “escolas” de pensamento: a italiana, a inglesa e a francesa.

Porém, a despeito de algumas interpretações inapropriadas, tal diversidade lingüística, e, mormente disciplinar, endereçou questões culturais e metodológicas que ainda afetam decisivamente a construção de uma abordagem concorrente (4). A morfologia urbana poderia ser entendida como “o estudo do tecido físico (ou construído) da forma urbana, e as pessoas e os processo que o molda" (5), definição geralmente aceita pelo ISUF que, todavia, permite maiores detalhamentos.

De fato, a propósito da pertinência dos subcampos “micromorfologia” e “macromorfologia”, a abordagem da morfologia urbana “deixa explícito que elementos na paisagem construída são organizados hierarquicamente no espaço” (6). A mesma autora, ao apresentar detalhadamente a construção da base teórica interdisciplinar no campo, cujo pressuposto básico é que “a cidade pode ser lida e analisada pela sua forma física”, evidencia os três fundamentais princípios da análise morfológica:

1 A forma urbana é definida por três elementos físicos essenciais: edifícios e seus espaços abertos correlatos, lotes urbanos e ruas. 2 A forma urbana pode ser entendida em diferentes níveis de resolução. Em geral, quatro são reconhecidos, correspondendo ao edifício e seu lote, o quarteirão, a cidade e a região. 3 A forma urbana somente pode ser compreendida historicamente desde que os elementos dos quais é composta passam por contínua transformação e mudança. (7)

Entretanto, esses três princípios - “forma, resolução e tempo” - podem se amalgamar de modo diverso, em razão dos propósitos indagativos e do próprio objeto de estudo. A construção dessas proposições comuns, todavia, constituiu-se a partir de várias colaborações, muitas vezes concomitantes no tempo, mas quase sem intercâmbio. Assim, os diversificados propósitos originais com que cada escola construiu sua base conceitual promoveram distintas direções teóricas (8).

A experiência européia, entretanto, vem ganhando corpo em outras searas. Nos Estados Unidos, a forma urbana configura-se como reflexo direto do domínio do “comercialismo”, num ambiente capitalista liberal, que transforma as cidades em “máquinas econômicas” voltadas à produção da abundância material, favorecendo o utilitarismo em detrimento da “beautification”. Tal fato permitiria fácil identificação da ausência de certos atributos comuns às cidades européias e asiáticas (9). Em conseqüência, grande parte dos estudos históricos e geográficos tenderia a se orientar para o entendimento dos planos iniciais, na tentativa de identificar princípios físicos e distintas tipologias. Os estudos de M. Conzen, filho do geógrafo M. R. G. Conzen, apresentam-se como importantes referências da aplicação dos preceitos da escola inglesa nos Estados Unidos. Contribuem para minorar o que considera a ausência de “análises geográficas da estrutura dos planos urbanísticos” e de “sistemáticos estudos de distribuição regional acerca dos tipos norte-americanos de desenho de cidades, por período e região, detalhando a difusão geográfica de idéias sobre planos, dimensões, formas e tomada de decisões” (10). Nesse ponto, descerram-se como importantes contribuições para o estabelecimento de um processo comparativo da forma urbana norte-americana que, certamente, inspiram investigações pan-americanas.

Nesta entrevista - concedida em duas ocasiões no mês de Maio de 2008, nas dependências da UW - Anne apresentou importantes considerações para aqueles interessados no estudo da forma urbana e nos possíveis desdobramentos metodológicos. Ademais, como toda boa conversa, ofereceu diversas provocações; as aqui preservadas, pretendem promover uma reflexão mais generalizada acerca de modos de se pensar e de se intervir na cidade. Neste sentido, a discussão sobre a pertinência de se projetar espaços ou lugares, as presunções do New Urbanism e a abrangência da obra de Kevin Lynch na formação acadêmica dos arquitetos e urbanistas possibilitam enriquecer o debate existente.

Anne também lecionou na Universidade da Califórnia, em Berkeley (1973 - 1975) e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (1975 - 1981). Obteve seu mestrado na Universidade da Califórnia, em Berkeley (1969), e seu doutorado na Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça (1987). Colabora com diversos jornais e revistas científicas, como autora e membro do comitê científico e editorial.

notas

1
O International Seminar on Urban Form é uma organização internacional criada em 1994 e sediada na Universidade de Birmingham, Inglaterra, cuja publicação semestral “Urban Morphology”, desde janeiro de 1997, constitui-se uma das principais publicações para a divulgação dos trabalhos nesse campo de estudos. Para entender a gênese e os objetivos dessa instituição, consultar MOUDON, A. V. Urban morphology as an emerging interdisciplinary field. In: Urban Morphology n. 1, 1997, p. 3 - 10 e http://www.urbanform.org/gen/index.html.

2
ROSANELI, A. F. Cidades novas da fronteira do café: história e morfologia urbana das cidades fundadas por companhias imobiliárias no norte do Paraná. São Paulo, 2009. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo), FAUUSP.

3
GAUTHIEZ, B. The history of urban morphology. In: Urban Morphology v. 8, n. 2, 2004, p. 71 -89.

4
MOUDON, A. V. Getting to Know the Built Landscape: Typomorphology. In: FRANK, K. A. & SCHNEEKLOTH (ed.). Ordering Space: Types in Architecture and Design, 1994; WHITEHAND, J. W. R. British urban morphology: the Conzenian tradition. In: Urban Morphology v. 5, n. 2, 2001, p. 103 -109; LARKHAM, P. J. Misusing ‘morphology’? In: Urban Morphology v. 6, n. 1, 2002, p. 95 -97; GAUTHIEZ, B. The history of urban morphology. In: Urban Morphology v. 8, n. 2, 2004, p. 71 -89.

5
Tradução livre de “the study of the physical (or built) fabric of urban form, and the people and processes shaping it”. LARKHAM, P. J. & JONES, A. N. A Glossary of urban form. Birmingham, England: Urban Morphology Research Group, School of Geography, University of Birmingham, 1991, p. 55.

6
Tradução livre de “make explicit that elements in the built landscape are organized hierarchically in space”. MOUDON, A. V. Thinking about micro and macro urban morphology. In: Urban Morphology v. 6, n. 1, 2002, p. 37.

7
Tradução livre de “1. Urban form is defined by three fundamental physical elements: buildings and their related open spaces, plots or lots, and streets. 2. Urban form can be understood at different levels of resolution. Commonly, four are recognized, corresponding to the building/lot, the street/block, the city, and the region. 3. Urban form can only be understood historically since the elements of which it is comprised undergo continuous transformation and replacement”. MOUDON, A. V. Urban morphology as an emerging interdisciplinary field. In: Urban Morphology n. 1, 1997, p. 7.

8
MOUDON (1994; 1997); SAMUELS, I. Conzen’s last bolt: reflections on Thinking about urban form. In: Urban Morphology v. 9, n. 2, 2005, p. 136 - 144.

9
CONZEN, M. P. The study of urban form in the United States. In: Urban Morphology v. 5, n. 1, 2001, p. 4 - 5.

10
Tradução livre de “systematic study of regional distribution of American town planning types by period and region, detailing the geographical diffusion of plan ideas, dimensions, geometries, and decision-making”. Idem, p. 9.

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