Foto aérea de Seaside, Flórida, no começo do empreendimento fundador do New Urbanism, desenhado por Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk em 1983: arquitetura “tradicional”, lotes pequenos e uso misto para propiciar a vitalidade urbana
[fonte: KOSTOF, S. The City Shaped – Urban Patterns and Meanings Through History. New York, Bulfin]
Alessandro Filla Rosaneli e Dalit Shach-Pinsly: Falando de Movimento Moderno, podemos partir para uma das vertentes pós-modernistas, o “New Urbanism”: até que ponto a forma urbana da cidade tradicional pode ser considerada um bom modelo para a cidade contemporânea?
Anne Vernez Moudon: O primeiro problema com essa abordagem é como definir uma cidade tradicional. O que é cidade tradicional? As pessoas tiveram que enfrentar este problema em trabalhos de preservação. Depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a questão era se deveria reconstruir Varsóvia como ela era em 1790 ou como ela era em 1849. O que é essencialmente uma decisão política e filosófica. A cidade tradicional não é uma forma fixa, é uma forma cambiante. E nós não falamos muito sobre esta noção de mudança na cidade também. Na verdade, mudança é muito complicada de compreender e de capturar. Para além do ato de construir, existe a duração de um ambiente, com as mudanças em diferentes intervalos de tempo. Existem a pequena e a longa duração. O espaço tem sido sustentado e mudado em diversos níveis. E de volta à cidade tradicional, e falando sobre a sua forma, qual de suas formas, ao longo do tempo, é julgada como a tradicional? Por exemplo, agora em 2008, nós poderíamos dizer que a cidade da década de 1950 seria a cidade tradicional? São os subúrbios de hoje a cidade contemporânea tradicional, já que nós temos quase duas gerações de pessoas que moram nos subúrbios? Muitos concordariam que eles não são parte da cidade tradicional. A cidade dos anos de 1930 é geralmente chamada como tradicional – e na verdade as formas urbanas do inicio do século XX são chamadas de tradicionais pelo Congresso do Novo Urbanismo.
Em relação ao uso e a necessidade de modelos, você tem que se perguntar para o que serve seu modelo. O modelo se relaciona com um edifício isolado ou com uma região inteira de uma cidade? Onde ele será aplicado, China, América do Sul? Somente então se pode pensar em termos de tradição e também em termos de inovação, porque eu acredito que não faz sentido em continuar a cidade histórica para sempre. Mas respondendo diretamente sua pergunta, eu acredito que nós precisamos urgentemente desenvolver um modelo para os novos bairros que estão sendo construídos na Ásia. Na Coréia, na China, em muitas das suas cidades são construídas seções inteiras (e isto não é uma mudança incremental!) em tempo recorde, sem considerar explicitamente diferentes modelos.
AFR / DSP: Talvez este seja o modelo…
AVM: Na falta de modelos explícitos e apriorísticos, a realidade se torna o modelo! Bem, então o problema é que você não pode nem mesmo avaliar o que você constrói. Então o que seria o modelo para aqueles bairros-cogumelos (instant neighborhoods) que são tão grandes quantas muitas cidades? Bem, eu não acho que “minha bastide sagrada do sul da França seria um bom modelo”. Nem a unidade de vizinhança de Clarence Perry usada nas cidades norte-americanas, ou as unidades de habitação usadas em muitas partes do mundo. Como se poderia começar a desenvolver este modelo? Você iniciaria pensando neste modelo baseado em todas estas idéias do passado, e adaptando-as para as altas densidades das cidades asiáticas de hoje. Eu colocaria que soluções para menor consumo de energia e água, desperdício de lixo, sistemas de transporte seriam essenciais para desenvolver este modelo.
AFR / DSP: Então podemos considerar suas colocações como uma crítica ao discurso do Novo Urbanismo? Pois tais tópicos - cidade tradicional, bom modelo - estão sempre sendo discutidos pelos seus seguidores. Eles estão procurando por esta cidade tradicional norte-americana, procurando um link com as antigas cidades européias para construir um novo subúrbio hoje...
AVM: Este movimento é tão multi-nivelado que acredito que seja difícil criticá-los como um grupo. Você pode criticar suas escolhas arquitetônicas, o modo que configuram os quarteirões, como eles misturam classes econômicas, as tipologias residenciais, etc. Mas não se pode criticá-los em geral. Por outro lado, muitas das peças do Novo Urbanismo não são modelos que funcionariam fora dos EUA. Eu imagino que seja modismo dizer: Oh, nós temos bairros desenhados conforme o Novo urbanismo na China! Bem, esta associação é uma extensão que somente pode ser aplicada para o uso do estilo arquitetônico que é similar a alguns bairros norte-americanos desenhados segundo o Novo Urbanismo, ainda que nem todos sejam assim. Eu penso que o Novo Urbanismo está procurando uma abordagem para a cidade norte-americana que acomoda a classe média. E somente alguns aspectos desta abordagem podem ser aplicados fora de seu contexto de origem.