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architexts ISSN 1809-6298


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NOBRE, Ana Luiza. A falta que nos faz. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 002.02, Vitruvius, jul. 2000 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.002/996>.

Escuta-se dizer com freqüência: "não há crítica de arquitetura no Brasil". A afirmação, que se propaga nos salões de arquitetura com uma inocência tocante, traz consigo uma série de possibilidades de reflexão, em geral ignoradas ou postas de lado. Em primeiro lugar, ao fazer reverberar tal postulado, esvazia-se o problema nuclear que lhe dá sustento. Porque se a crítica nos falta – e falta mesmo – caberia antes de tudo perguntar se não se trata de buscar, justamente na falta, algum sentido. Talvez essa interrogação seja especialmente oportuna se examinarmos com cuidado a produção arquitetônica atual. Pois é suficiente que se fale da ausência de crítica de arquitetura sem que se localize o esgarçamento da presença da própria arquitetura na cena local contemporânea?

Que se esclareça: crítica é diálogo, não julgamento. E esse diálogo, longe de ser um discurso laudatório ou condenatório, só se estabelece verdadeiramente na sua relação com a obra de arte/obra de arquitetura. Por isso tantas leituras críticas sobre Cézanne, por exemplo, e nenhuma sobre qualquer dos retratistas que estão por aí nas ruas das cidades. A arte se expõe à crítica, dialoga com ela, intensifica-se mesmo por seu intermédio. Ou não é arte. E a arquitetura?

Vivemos hoje o enxugamento das editoras de arquitetura, a redução do espaço crítico nas publicações e nos eventos periódicos. A quem importa? Se passarmos os olhos pela seção de cartas das revistas especializadas pouco encontraremos além de saudações e agradecimentos. E nos eventos de porte, quando se abre espaço para qualquer discussão sobre o tema, a mesma platéia ali está, mínima e muda.

Não há dúvida que os críticos escrevem para serem publicados e são publicados para serem lidos. Pois se os leitores não lêem, porque os escritores devem escrever? Sem nos desviar da recíproca, que também é verdadeira, nos deparamos com um impasse a ser superado, ou antes de mais nada, reconhecido. Já nos anos 60 estudiosos da mídia detectaram o ciclo viciado vigente: o periódico modela um tipo de leitor, que consome o periódico, que modela o mesmo tipo de leitor... Se isso é verdade, em compensação, parece que convertemos esse looping no comprovante diário da nossa impotência – numa espécie de muleta, digamos assim, na qual apoiamos nosso trôpego caminhar.

Afinal, falta crítica e/ou falta arquitetura? Difícil chegar a uma resposta. Mas se com a psicanálise aprendemos que é difícil minimizar a dimensão – e a função ativa – da falta, temos aí talvez uma chave: poderíamos inverter a ordem inicial do problema e pensar em que medida a própria falta não só nos preenche como nos constitui. Noutras palavras, seria interessante interrogar-nos acerca dessa ausência, estranhá-la, dela desconfiar. Não somos alheios ao que nos falta. Pelo contrário, nesse caso pode ser que aquilo mesmo que nos falta esteja preenchendo o nosso discurso, enquanto permanecemos incapazes de elaborá-lo.

É claro que supor que a produção atual em arquitetura no Brasil se alimenta da ausência de crítica seria reduzir o problema a apenas um dos seus fatores. Mas pode ser pertinente pensar em que medida nos convém nesse momento a recusa à investigação, ao questionamento. E neste sentido basta ler Lúcio Costa, nosso primeiro e mais irredutível crítico de arquitetura, para entender como o profundo comprometimento entre arquitetura e crítica teve papel determinante na construção do projeto que nos pôs no mundo. Um projeto não por acaso estreitamente vinculado a uma convicção, um compromisso, um ideal hoje anulado.

Não que a arquitetura contemporânea deva se reportar a qualquer projeto ideológico. Mas não faltará um projeto à nossa arquitetura? Seja qual for a resposta, o que importa é que não há como sair dessa acomodação estagnante senão pela inquietação, pela dúvida. Por uma atitude crítica.

Entenda-se por atitude crítica uma postura que por princípio não aceita as formulações dadas, mas as problematiza e interroga. Em termos arquitetônicos, não deixa de ser interessante, por exemplo, pensar a possibilidade de um projeto que se recuse a ser uma "resposta ao programa" e, na contra-mão do senso comum, se proponha como uma não-resposta, como uma outra pergunta – como enigma mesmo.

É um risco. Mas, como notou Baudrillard na última Bienal de Buenos Aires, é justamente essa investigação vertiginosa, esse correr risco incessante – inerente à esfera da arte desde Duchamp – que parece escapar à arquitetura contemporânea. "O arquiteto faz arquitetura" – nada parece interromper essa certeza construída e sustentada entre nós desde o Renascimento. Contrariamente ao que está no próprio cerne da arte contemporânea, o que mais se faz hoje, em arquitetura, é banir a dúvida, sufocar a inquietação. Mesmo porque, como sabemos todos, a arquitetura vive da satisfação – do cliente, do usuário, do arquiteto.

Daí a importância de uma obra como a de Richard Serra, sem dúvida um dos mais instigantes críticos de arquitetura da atualidade. Seu trabalho – seja na escala do urbano, seja na escala da arquitetura – nos confronta com o indeterminado, com a insatisfação. Arquiteto às avessas, Serra força os limites do espaço e investe na sua transformação, dando nova vibração à presença do homem no mundo. Sua contribuição inegável à arquitetura está fundamentalmente em não aceitá-la como um "continente limitador" mas tomá-la como um "lugar" – lugar onde o artista atua para estruturar "espaços disjuntivos e contraditórios".

Por princípio, portanto, uma intervenção de Serra é em si mesma um desafio e uma crítica à arquitetura. E no entanto sua obra ainda reverbera pouco entre os arquitetos, tão indisponível permanece a arquitetura contemporânea para o diálogo produtivo com a crítica, seja ela qual for.

Pois sim, a crítica falta. Mas ou a atividade do arquiteto e a atividade do crítico se fortalecem uma à outra, ou se enfraquecem mutuamente. Por isso, mais interessante que lamentar a ausência da crítica é apontar para a insuficiência de uma atitude crítica na produção contemporânea, tanto teórica quanto projetual. Sem que se suspenda o lamento que circula por nossos salões, que a ele se acrescente o desafio de se repensar a falta enquanto função, ao menos para inquietar o pensamento. Afinal é dessa prática dubitativa e sempre arriscada que se faz a crítica. Ou o que dela tanto nos falta.

sobre o autor

Ana Luiza Nobre é membro do CICA/Comitê Internacional de Críticos de Arquitetura e colaboradora da revista AU. Coordenadora da exposição Rio jamais visto (CCBB-RJ, 1998), é co-autora de Arquitetura moderna no Rio de Janeiro (Pini, 1991) e autora de Carmem Portinho: o moderno em construção (Relume Dumará, 1999).

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