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SEGRE, Roberto. World Trade Center (1973-2001). Fragilidade de um ícone urbano. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 017.03, Vitruvius, out. 2001 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.017/837>.

Incrédulos, estupefatos, aterrados, parados frente à tela da TV, assistimos no dia 11 de setembro às impressionantes imagens do ataque suicida às torres do WTC e sua repentina desaparição da paisagem nova-iorquina do Down Manhattan. Ocorria uma nova manhã de terror e destruição que lembrou a dolorosa visão de quase trinta anos atrás – talvez não tão espetacular mas igualmente trágica –, a do bombardeio do Palácio de La Moneda, em Santiago, e o assassinato de Salvador Allende, presidente do Chile. O primeiro, um magnicídio arquitetônico; o segundo, um magnicídio de Estado. A imprensa internacional afirmou que aquele evento iniciava de fato o século 21. Com antecedência o divisor havia sido atribuído à queda do muro de Berlim, em 1989. Na verdade, podemos interpretar ambos os episódios como um fim e um início: com a demolição do muro surgia a esperança do fim do mundo bipolarizado, agora unificado em a concretização final da modernidade iluminista – desaparecido o antagonismo capitalismo e socialismo –, e forjando as bases de uma democracia universal (a Europa unida seria o primeiro resultado concreto desta ilusão). Ao contrário, o ataque terrorista às torres do WTC materializa a fragmentação pós-moderna caótica e arbitrária, a ambigüidade entre o real e o virtual – se pretende declarar uma guerra sem conhecer a localização do hipotético inimigo – ; a pulverização dos ideais identificados com o progresso social e material; a exacerbação das contradições existentes entre alta tecnologia e pré-história cultural – o fanatismo religioso –, entre o concentrado espaço da opulência e os vastos territórios da miséria.

Desde a invenção do cinema, as cenas apocalípticas de catástrofes e destruições em grandes cidades, passadas e futuras, constituíram um tema reiterado: recordemos daquelas antecipadoras cenas de Metrópolis e King Kong. Na segunda metade do século 20 abundaram os temas das hecatombes associadas com as megalópoles. Ao longo dos últimos trinta anos se multiplicaram as repentinas desaparições de estradas, rodovias, viadutos, pontes, monumentos e arranha-céus, prenunciando a incontrolável fúria da natureza exteriorizada em maremotos e terremotos, assim como também as imprevisíveis conseqüências da maldade humana e da exótica crueldade de seres extraterrestres desejosos de subjulgar-nos e exterminar-nos: Inferno na Torre, The Day After, Independence Day, True Lies, Armageddon, The Siege, quem sabe este último o filme mais próximo do que acaba de ocorrer em Nova York. Nestes dias, a estréia de Pearl Harbor – apesar das cenas truculentas do bombardeio japonês, da artificialidade das reconstruções virtuais alheias à objetividade do fato histórico – suscitou reações negativas. Mas, como afirmou Gabriel García Márquez, a realidade supera sempre a ficção: foram mais contundentes as imagens do Holocausto, das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, da destruição de Dresden, Hanói, Bagdá ou Sarajevo. Apesar de estarmos insensíveis diante do abuso cotidiano da violência, ficamos sem consolo ante a crueza de um fato concreto onde, em poucos minutos, diante de nossos olhos e de nossa amarga impotência diante da incomensurável distância da tela da TV, assistimos à morte inexorável de milhares de pessoas inocentes.

A agressão às torres teve como precedente os kamikazes japoneses na Segunda Guerra Mundial – até agora todos os atos suicidas dos palestinos se realizaram a nível individual ou em carros bombas –; mas enquanto aqueles foram atos bélicos desesperados contra a superioridade naval dos Estados Unidos, este foi um ataque individual (ou coletivo, já que participaram quase vinte pessoas na ação) contra um símbolo do capitalismo globalizado hegemônico de tal país e, ao mesmo tempo, uma tentativa de tirar do mapa o principal ícone que resumia a memória histórica da comunidade urbana de Nova York. Como afirmou o escritor francês Albert Camus, o ato suicida é “a suprema violência contra a condição humana, uma abdicação total e covarde, uma acusação demoníaca contra o mundo por parte de quem desistiu de melhorá-lo”. É provável que os crentes em Alá, os ortodoxos seguidores do Corão e os sequazes de Osama bin Laden consigam a eterna felicidade do Paraíso com o absurdo ato do suicídio, mas sobre nossa sofrida Terra só prenunciam um futuro de trevas e obscurantismo. Mesmo tendo em conta as afirmações de Tariq Ali, o ideal da morte não pode predominar sobre o ideal da vida.

Nós arquitetos, desde os tempos antigos, dedicamos nossa vida à construção do mundo material com o objetivo de conquistar a felicidade para nossos semelhantes. Erigimos os monumentos que representaram os valores culturais das civilizações surgidas ao longo da história. Forjamos a imagem icônica da memória social. A evolução da Humanidade pode resumir-se nos fatos arquitetônicos que a reapresentam, desde Stonehenge até o WTC. Sem dúvida, nem todos os membros da espécie humana participaram de nossos desejos e aspirações. Rivalidades, antagonismos e inimizades atávicas encontraram na destruição dos monumentos a forma de expressar, não só a eliminação física do “outro”, mas também de negar a recordação, a memória, a herança cultural e ideológica de um povo para as gerações futuras. Desde Nabucodonosor, que destruiu o templo de Salomão em Jerusalén, até as Torres Gêmeas ou os Budas no Afeganistão, se sucederam essas agressivas demolições: os romanos não deixaram pedra sobre pedra em Cartago; os espanhóis arrasaram os templos e pirâmides da América pré-colombina; os nazistas riscaram do mapa a cidade de Varsóvia. Paradoxalmente, menos radicais foram os movimentos revolucionários: Robespierre deixou intacto Versalles; Lênin conservou o Kremlin e os palácios czaristas; Mao não eliminou a Cidade Proibida; os camponeses mexicanos transformaram o Capitólio de Porfírio Díaz em monumento celebrativo da Revolução.

Triste destino o de Minoru Yamasaki (1912-1986). Sem desejá-lo, a destruição do conjunto arquitetônico que projetou com grande esforço e paixão o converteram no protagonista de mudanças históricas e culturais bruscas e radicais. Segundo Charles Jencks, o Movimento Moderno foi enterrado definitivamente no dia 15 de julho de 1972, às 15,32 horas, e substituído pelo Pós-modernismo, ao ser demolido o conjunto habitacional de Pruitt-Igoe em St. Louis (construído em 1952-55 e premiado pelo American Institute of Architects), devido sua irrecuperável deterioração, depredado por uma população negra de recursos escassos. A imprensa internacional tem sido unânime em reconhecer que o mundo será outro a partir das 10.28 horas da manhã do dia 11 de setembro, quando se desintegraram as Torres Gêmeas, desaparecendo para sempre do skyline do rio Hudson. Elas haviam assumido o valor de ícone nova-iorquino por seu tamanho desproporcionado, pela multidão cotidiana de trabalhadores e visitantes que abrigava, e por conseguir (por pouco tempo, já que foram superadas pelo Sears Tower de Chicago e pela Oriental Pearl Tower de Shangai) o recorde de edifício mais alto do mundo. O conjunto não se destacou por suas qualidades estéticas, sem dúvida inferiores ao Empire Estate, ao Chrysler Building ou ao Rockefeller Center. Sua agressiva presença no contexto urbano do Downtown, o esquematismo formal, os acentos decorativos medievalistas e a inexistência de atributos que delimitassem suas proporções (nada mudaria se tivesse sido mais alto ou mais baixo), identificava o conjunto com a imagem do “arranha-céu desnudo”, herdeiro das torres cartesianas de Le Corbusier e do minimalismo do Seagram de Mies van der Rohe, opostas à riqueza formal dos edifícios altos do entre-guerras.

O polêmico arquiteto holandês Rem Koolhaas – dono do conceito acima entre aspas – definia esta arquitetura como a representação do “espaço-lixo”, só caracterizado por elevadores, escadas mecânicas e instalações de ar-condicionado. Suas palavras foram tragicamente premonitórias: “...este, (o espaço-lixo) que constitui o ventre do Grande Irmão, será nossa tumba”. É de se esperar que não seja o destino manifesto das dezenas de indefesos e frágeis arranha-céus – no século 19, o Partenón sobreviveu ao bombardeio turco que tentou explodir a pólvora que estava armazenada em seu interior – construídos em todos os cantos do mundo e que esse fato, abra perspectivas não só políticas e sociais que impeçam o Apocalipse, mas também arquitetônicas, para que a vida sobre a Terra seja mais suportável, menos submetida aos imperativos economicistas do grande capital globalizado, recuperando-se o equilíbrio ecológico perdido entre o entorno artificial e o entorno natural.

sobre o autor

Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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