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MACHADO, Rodolfo. Memórias de uma visita. Sixth Verónica Rudge Green Prize in Urban Design. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 017.06, Vitruvius, out. 2001 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.017/840>.

Como introdução a este prêmio pensei que devia descrever o que ocorreu quando nosso comitê foi ao Rio de Janeiro para observar o trabalho de um dos quatro finalistas do prêmio Green. Vou a relatar esta experiência em duas partes.

Primeira Parte

Quando os membros do juri do Green Prize, Toshiko Mori, Elizabeth Mossop e eu mesmo, nos encontramos pela primeira vez com Jorge Mario Jáuregui e seus assistentes nas salas do Centro Cultural do Rio de Janeiro, ele falou sobre sua equipe de trabalho em urbanismo e procedeu a descrever claramente suas três áreas de intervenção:

  • Primeiro, trabalhos em bairros da chamada “Cidade Formal” (em sua maioria áreas desenhadas seguindo uma trama de ruas padrão, topograficamente plana e predominantemente de classe média);

  • Segundo, trabalhos nas favelas (como são chamadas localmente), ou seja, na “Cidade Informal” (zonas urbanas que crescem espontaneamente, desequilibradamente escalonadas em áreas montanhosas e, em geral, extremamente pobres);

  • Terceiro, seu trabalho com mobiliário urbano, isto é, com objetos de pequena escala tais como paradas de ônibus, banheiros públicos e similares.

Se por um momento deixamos o problema do mobiliário urbano de lado, a oposição entre a “Cidade Formal” e a “Cidade Informal” estão presentes, inquestionavelmente, no locus especificus do trabalho de Jáuregui: é uma abordagem que visa a desaparição de tal oposição, da hibridação da linha conflitiva – ou zona conflitiva – de contato físico entre os dois tecidos urbanos da cidade. O trabalho aspira a contribuir para configurar um Rio de Janeiro integrado, uma cidade não segregada.

Isto é, exatamente, o que a equipe de Jáuregui se propõe, e já tem feito tão bem ao longo de quase 10 anos em muitas favelas, aspirando torná-las bairros, bairros na medida em que as condições urbanas foram melhoradas permitindo a integração à cidade adjacente. Com isso, temos bairros verdadeiros, onde existem ruas com nomes, casas com números, ruas transitáveis com infra-estruturas subterrâneas e caminhos bem estabelecidos para pedestres, que conduzem a centros sociais ou praças públicas e espaços recreativos, etc.

No encontro inicial, antes de nosso grupo começar a visitar os lugares das intervenções, a metodologia utilizada na elaboração dos projetos foi descrita por Jáuregui, que falou sobre os diversos programas simultâneos de pesquisa que antecederam à fase de projeto, das longas visitas e caminhadas, às vezes perigosas, das muitas conversações e perguntas mútuas com os líderes comunitários, dos muitos projetos, planos urbanos e múltiplas leituras dos lugares e dos grupos sociais. Para nós ficou claro que a favela foi observada de distintos pontos de vista. Igualmente diversas foram as perguntas geradas pela equipe de projeto: desde aspectos relativos à propriedade da terra até problemas de saúde mental e questões geotécnicas; desde questões de micro-economias até preferências estéticas.

Em anos recentes, dentro da cultura arquitetônica e urbanística, temos discutido muito as pesquisas de projeto ou, para aqueles que se não gostam das conotações positivistas da palavra pesquisa, temos falado muito de explorações em projeto.

E simultaneamente temos destinado uma cortina de silêncio em torno da pesquisa tradicional, num ambiente ainda sensível pelo desastre ambiental que produziram. Mas não foi esta pesquisa através do projeto, certamente, que Jáuregui e sua equipe estavam falando. A deles foi uma boa pesquisa à antiga, pesquisa sócio-cultural e econômica (enriquecida por uma percepção diferente: a inclusão e a importância dada pela equipe às formas psicanalíticas de pesquisa). Além disso, a relação com o modernismo da metade do século XX, com suas crenças sobre higiene básica e equipamentos em infra-estrutura e sobre os valores universais de todo novo começo. Em outras palavras, pairou um ar de nostalgia na sala; uma nostalgia pelos tempos em que o trabalho de equipe e propósitos sociais conduziam a arquitetura e o urbanismo; tempos em que não estávamos reduzidos à “cena profissional”; tempos em que tivemos um papel real no processo de construção das cidades. Como sabemos, aqui na Graduate School of Design, não há nada parecido sequer com uma suspeita de nostalgia para ativar o alarme intelectual instalada em nossas mentes pelas condições da crítica pós-moderna. Mas ainda agora – estou falando por mim mesmo e com convicção – um sentimento nostálgico pode engendrar um progresso de algum tipo, se é transformado apropriadamente. Devo acrescentar que aquela manhã foi uma sessão de trabalho seguida por um almoço (de estilo brasileiro), após o qual fomos, em um clima mais relaxado e menos intelectual, conhecer as favelas e os novos bairros de trabalhadores.

Segunda Parte

A visita a vários projetos favela-bairros realizados pela equipe aconteceu durante dois dias consecutivos; vimos favelas muito diferentes, diferentes em termos de localização vis-à-vis com o centro da cidade (algumas centralmente localizadas, outras próximas do mar), de sua topografia, de sua antiguidade (favelas de 50 anos e outras muito recentes), de seu poder de estruturação interna (algumas controladas pelos traficantes de drogas e outras pela associação de moradores e pelas sub-prefeituras instaladas depois das obras de urbanização), e em termos de sua capacidade de reabilitação.

Essas visitas foram intensas em praticamente todos os níveis de experiência, exigentes, inesperadas, inquisitivas e inesquecíveis. Encontramo-nos com toda a rede de contratados da equipe de Jáuregui: construtores, agentes de segurança, professores, jovens agentes comunitários, novos administradores locais, as comunidades como um todo.

Paulatinamente porém, com toda certeza, meu leve ceticismo foi desaparecendo. Posso dizer agora, em meu nome e no de meus colegas, que uma nova compreensão do trabalho em questão começou a tomar forma em nossas mentes. Antes de tudo, as diferenças entre o antes e o depois da intervenção da equipe de Jáuregui são fenomenais; claramente, a vivacidade, a conectividade e o bem-estar social total das comunidades foram imensamente melhorados. Suas boas intenções junto com sua experiência e o trabalho dos experts, foram muito efetivas. Em termos simples, o Programa Favela-Bairro funciona.

Compreendemos que alguma coisa estrategicamente diferente estava em jogo aqui, que esta não era mais a velha forma de tratar o problema das favelas. Algo novo estava ocorrendo de fato.

Muito brevemente tratarei de explicar a relação entre o poder político e as favelas no Rio de Janeiro: as favelas começaram a surgir 100 anos atrás, precisamente no Morro de Favela, onde as primeiras ocupações clandestinas registradas pela polícia ocorreram em 1890. Décadas de inconsciente negação por parte do governo foram seguidas por atos de reconhecimento do problema em 1930 e continuaram com a remoção física e erradicação social até 1940, no período inicial do Modernismo. Fracassada a estratégia, os vinte anos seguintes incluíram vários tipos de programas de assistência, muitos deles implementados pela Igreja Católica. Na década de 70 a ajuda norte-americana trouxe ao Rio de Janeiro um duplo programa de urbanização e erradicação; isto foi seguido por anos de comportamento violento por parte dos habitantes e indiferença por parte do governo.

Os anos 80 trouxeram o estabelecimento de um governo paralelo, em o que os traficantes de droga passaram a controlar de fato a maioria das favelas.

A última década do século XX foi marcada pela criação do Programa Favela-Bairro, tendo como intenção maior urbanizar, sanear e integrar as favelas como parte da cidade oficial (para elaborar esta breve sinopse, estou em dívida com Eduardo Trelles, um jovem membro da equipe de Jáuregui).

Retornando à questão das diferenças entre as estratégias do Urbanismo Moderno canônico e este trabalho em particular, existem outras diferenças importantes, que caracterizam o trabalho da equipe de Jáuregui.

Primeiro, está o que eu deveria chamar “intenção de humildade”, um tipo de “não-manifesto” ou anti-declaração; uma atitude de “silêncio” como atitude intelectual onde a equipe se compenetra completamente da especificidade do lugar de cada projeto e não alega valores universais para estas ações. O que eles fazem é absolutamente “culture-specific” e não busca um apoio em problemas similares no resto do mundo; não é uma fórmula, não é concebido para colonizar ou para ser comercializado.

Segundo, o trabalho parece estar embebido de uma bondade e de um respeito especiais pelos habitantes; como oposto do misantrópico, emana um calor que provém de um entendimento genuíno das reais condições nas favelas, mais uma profunda e rara comunhão entre a equipe e as pessoas para quem trabalha.

Terceiro – e este é um tema difícil de esgrimir entre arquitetos – existe a questão da atitude da equipe de Jáuregui com relação à arquitetura que constroem nas favelas: às vezes boa e em outros momentos não tão boa do ponto de vista arquitetônico. Sendo arquitetos eles mesmos, estão de acordo com esta condição. Mas, o que é mais importante, eles são conscientes do fato de que sua arquitetura serve a propósitos sociais, que não pode permitir-se o luxo de não ser aprovada pela comunidade. A obra deve ser entendida, ser aceita e conservada em funcionamento pela população.

Para a equipe, as imagens arquitetônicas resultam das circunstâncias locais e não só de uma vontade formal. Poderíamos falar de pragmatismo iconográfico em ação e não, simplesmente, de que o pressuposto mínimo não permite uma elaboração formal maior. Também de um caminho de aproximação ao projeto que é exercido por uma equipe. Seu desenho arquitetônico pode ser simples, mas seu impacto é extremamente sofisticado.

Concluindo, o Sixth Verónica Rudge Green Prize in Urban Design foi entregue ao arquiteto Jorge Mario Jáuregui e sua equipe porque eles demonstraram o poder de seu Projeto Urbano para realizar mudanças sociais e comprometer as pessoas marginadas na revitalização de suas próprias comunidades. Esta equipe profissional, diligente e ética, modela uma progressiva aproximação mais holística ao projeto urbano, que reconhece o valor de pesquisas sociais e sua reaplicação nos bairros, superando as práticas superadas de demolição e deslocamento dos moradores. Eles utilizaram de forma exitosa o projeto urbano como instrumento para a reforma social.

Com este prêmio também fazemos uma homenagem aos brasileiros e cariocas, e aos grupos locais junto com as agências internacionais que financiaram estes projetos.

Sixth Veronica Rudge Green Prize in Urban Design. Harvard University Graduate School of Design

O Veronica Rudge Green Prize para Projeto Urbano foi estabelecido em 1986 por ocasião da celebração dos 350 anos de Harvard e dos 50 anos da Graduate School of Design e para marcar a visita de Sua Alteza Real, o Príncipe de Gales, à Harvard e à GSD. O prêmio é realizado periodicamente pelo GSD para projetos em Projeto Urbano em escala maior que um edifício individual, construídos em qualquer lugar do mundo durante os 10 anos anteriores à premiação. Os projetos vencedores são escolhidos por realizar uma positiva e substancial contribuição no domínio público de uma cidade, melhorar a qualidade de vida urbana e demonstrar uma direção mas humana e digna para o projeto do entorno urbano.

A primeira premiação, ocorrida em 1988, foi dividida entre Ralph Erskine, com seu projeto do Byker Redevelopment, em Newcastle Upon Tyne, 1969-82, e Álvaro Siza Vieira, por seu Conjunto Residencial Malagueira, em Évora, Portugal, 1977-88. A segunda premiação, em 1990, foi para a cidade de Barcelona por seus Espaços Públicos Urbanos, 1981-87. A terceira premiação ocorreu em 1993 e foi novamente dividida, desta vez entre Fumihiko Maki com o Complexo de Hillside Terrace, em Tóquio, Japão, 1967-92, e Luigi Snozzi por seu Plano Diretor e Edifícios Públicos de Monte Carasso, em Suíça, 1978-92. A quarta premiação foi realizada em 1996 e o prêmio foi para a cidade do México pela restauração arquitetônica do centro histórico da cidade e pela restauração ecológica do distrito de Xochimilco. A quinta premiação foi realizada em 1998 e o vencedor foi Sir Norman Foster e seu escritório de Londres, Foster and Partners, pelo projeto de dois edifícios que trazem conjuntamente elegância e acessibilidade para a vida urbana – o sistema de subterrâneos em Bilbao, Espanha, e o desenvolvimento da Midiateca junto ao Carré d’Art em Nîmes, França. A premiação do ano 2000, o sexto Veronica Rudge Green Prize in Urban Design, foi para o arquiteto Jorge Mario Jáuregui e sua equipe, pela série de projetos elaborados dentro do Programa Favela-Bairro, uma iniciativa que tem transformado favelas localizadas dentro e na periferia da cidade do Rio de Janeiro, verdadeiramente em bairros.

notas

1
O prêmio Sixth Veronica Rudge Green Prize in Urban Design é promovido pela Graduate School of Design da Universidade de Harvard, GSD, e foi dado ao Jorge Mario Jáuregui em dezembro de 2000. O presente texto fez parte do folder de apresentação da exposição do projeto vencedor.

sobre o autor

Rodolfo Machado, arquiteto, presidente do Juri do Sixth Verónica Rudge Green Prize in Urban Design, é professor de Arquitetura e Projeto Urbano na Harvard University Graduate School of Design.

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