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architexts ISSN 1809-6298


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Um passeio sensível e pelo Centro de São Paulo, registrando as cenas cotidianas da maior metrópole brasileira


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FRIDMAN, Maurício; SANTINO, Camilla. Registros da vida urbana. São Paulo. Centro. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 045.08, Vitruvius, fev. 2004 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.045/612>.

Ladeira da Memória

Tarde de sábado. Desço do ônibus em frente ao metrô Anhangabaú, ao lado da Ladeira da Memória. Começo a subi-la: pessoas sobem e descem por ela a passos largos e rápidos.

Camelôs por toda a parte: são homens, mulheres, crianças, famílias inteiras; brancos, amarelos, negros, de todas as raças, vendendo de tudo: desde prendedor de cabelo, ursinhos de pelúcia, dando um alegre colorido à calçada, a relógios de todos os tipos e CDs de todos os gêneros.

Tanto som junto, provocando uma poluição sonora da qual não se distingue quem canta o que. Tanto som, entretanto, não incomoda os que dormem de um sono profundo; crianças brincando, crianças ajudando os pais, crianças encolhidas pelo frio que faz; pessoas conversando, outras tocando, outras cantando, fazendo do Centro o seu lugar de estar.

Neste cenário, faz-se visível a falta de cuidado para com a cidade, os maus tratos que a ela é dado. Exemplo: neste momento, um homem desce a escada de acesso para a rua Formosa, que sai do Viaduto do Chá, ao lado do Shopping Light e urina tranqüilamente na calçada, sem se preocupar com os que passam; estes sim, incomodados, desviam seus percursos.

Ao andar pelo Centro as pessoas parecem não notar o espaço que lhes vai à volta; ensimesmadas, por proteção, talvez, guardam-se de olhar a Cidade que os cerca e concentram-se na busca de seu destino.

A Cidade, enquanto espaço e história, não existe para elas.

Efeitos globalizantes

– Do jeito que as coisas andam, logo mais teremos de pagar pra entrar aqui! diz um.– É a globalização: a Prefeitura passa pra alguém cuidar, e eles cobram entrada. Já pensou? Você entra, sai pra buscar qualquer coisa, volta e pronto... tem que pagar de novo! confirma o outro.– No parque do Carmo já é assim.– Logo mais este e o do Ibirapuera também serão assim.– E em seguida se instala aqui dentro um Mc Donald´s, com certeza.– Eles são uma potência, não só aqui, mas na América Latina!

Deitados no chão, sujos, maltrapilhos, protegidos do frio intenso por um retalho de papelão ondulado, conversam os dois, prevendo o futuro.

Chegando

Considerei três caminhos, três diferentes aproximações: descer na Estação São Bento do Metrô e chegar à Praça do Patriarca subindo pela rua Líbero Badaró; descer na estação Anhangabaú e, a partir daí, optar por uma das duas possibilidades: atravessar o Vale do Anhangabaú na diagonal e subir as escadarias da Galeria Prestes Maia, ou percorrer as escadas rolantes de dois lances que partem da rua Formosa em demanda da rua Cel. Xavier de Toledo.

Escolhi este ultimo, numa aproximação mais lenta à Praça do Patriarca, como a alguém a quem serei apresentado, a partir de uma paisagem que se vê ao longe, e dela se apercebendo, enquanto se vai chegando. Para tê-la por inteiro, somente à distância; quando perto só é possível vê-la pelos cantos: escolho um e nele fui ter. Percorro-a a pé a partir daí, em sentido anti-horário.

Dia claro. Nuvens cinzas cobrindo o sol, inviabilizando sombras. Registrei o que pude, em retalhos: grupos de pessoas, táxis, carros, ônibus, motoqueiros, camelôs, tudo em profusa confusão. Quatro bêbados ao pé da estátua do Patriarca (e ainda é manhã!), presos em seu mundo. Na calçada, o carro de polícia tentando garantir, pela presença, a segurança dos pedestres. Catadores de papel e suas carrocinhas, dificultando o trânsito dos que passam apressados.

Interesso-me pelas seqüência de motos estacionadas ao longo do meio fio. Procuro o melhor ângulo para enquadrar uma foto. Do carro forte, o olhar atento do motorista. Dou-lhe um sinal amistoso, tiro a foto rapidamente e me retiro, tentando parecer o mais natural possível, em direção à Estação São Bento, onde um conjunto acompanha o almoço, tocando jazz, na área agora transformada em praça de alimentação: Bulevar São Bento.

Xavier de Toledo

Onze e quinze, manhã de terça-feira. Coloco o pé direito na rua Xavier de Toledo, andando em direção ao Viaduto do Chá, levado pela movimentação em ziguezaque das pessoas que se desviam dos que esperam o ônibus e das barraquinhas de camelôs.

Caminho pelo Viaduto: de um lado, os místicos: ciganos, cartomantes, pais de santo; do outro ambulantes e cegos pedindo esmolas. Um homem vestido como o personagem Pit Bixa, vivido pelo comediante Tom Cavalcante na TV, faz sucesso com sua interpretação, enquanto entrega panfletos de publicidade. Retorno em direção ao Teatro Municipal: um guarda, em frente ao prédio do Banespinha, parado na sombra da banca de jornal, fuma um cachimbo tranqüilamente, em meio à agitação dos que passam apressados.

Na escadaria do Teatro, várias pessoas, a maior parte homens sentados descansando, antecipando a folga do dia seguinte, dia do Trabalho, já esperando pela abertura dos guichês para retirar ingressos para o espetáculo de amanhã, conforme anunciado na faixa na frente do edifício. Outros, parados em frente a uma tela de televisão da loja de eletrodomésticos na esquina da rua Barão de Itapetininga com a rua Xavier de Toledo, assistem ao jogo de futebol, compenetrados, sem se dar conta do que se passa à sua volta.

Um jovem (ele ou ela?), vestido de anjo, todo branco, faz uma estátua viva e pede paz, desenrolando uma faixa em meio à uma tensa fiscalização na rua Conselheiro Crispiniano, na esquina com a rua Barão de Itapetininga, em que fiscais da Prefeitura verificam os camelôs ali instalados, ao grito de protesto de um deles, que passa repetindo “Bom dia, dona Marta, filha da puta”, enquanto corre.

Praça Ramos de Azevedo

Ando pelas ruas lotadas de camelôs; sinto-me angustiado, acuado, num labirinto em que tantas informações acontecem ao mesmo tempo: barulho de despertadores tocando juntos; som de auto-falantes dos vendedores de CDs piratas; ambulantes gritando suas promoções; cheiro de suor de pessoas que passam apressadas; cheiro de lixo que o calor faz exalar dos recipientes; cheiro de urina das ruas, de churrasquinhos grelhando; o colorido de roupas dependuradas nas áreas de serviço dos prédios; variedade de meias estendidas no pano no chão; doces e ovos de Páscoa expostos; marmitas sendo comidas; pedestres apressados, segurando firme seus pertences: eis a dinâmica da vida urbana acontecendo aos meus olhos.

Agora, Praça Ramos de Azevedo: casais de namorados, idosos, pessoas lendo, grupos de skatistas, pedintes, policiais. Um mendigo bêbado nos afronta, dizendo: “vocês são todos ladrões”. A polícia aparece e o retira do local. Na Praça da Sé, uma grande concentração de trombadinhas, moradores de rua, pessoas da classe dos despossuídos usam a Praça, sentindo-se donos dela: ali é o seu lugar.

Um deles faz a barba na fonte; outro, sentado, dorme; outro, fala sozinho; outros, conversam entre si: em comum, todos nos olhando com desprezo, como quem diz: aqui é nosso território. Um até declara em alta voz: “a burguesia é podre – como dizia o Cazuza”. Comentários também que se tornam engraçados: “meu Deus! Quanta mulher bonita! Socaram as mulhé pra cá! Que muchacha linda!... enrolando a língua num pressuposto amexicanado, mais advinhado do que entendido, com uma entonação marota.

Eis o Centro, com seu inesperado, onde tudo o que pode acontecer acontece. Por exemplo: Centro Cultural Banco do Brasil, onze e trinta, hora em que a fome baixa. Somos recebidos com um coquetel matutino, champanhe e salgadinhos, pela inauguração da mostra do pintor ítalo-argentino Lucio Fontana, o das fendas.

Eis o Centro: deixo-me andar para ver o que me aparece.

Teatro Municipal

Avenida São João, em frente ao prédio dos Correios, um estacionamento de carrinhos de ambulantes, com suas famílias inteiras, olham para nós com desprezo. Num bar, ao nos ver passar, um homem nos chama de manada.

No Teatro Municipal, a escadaria cheia de pessoas sentadas, algumas dormindo, outras assistindo a um show de duas crianças que tocam e cantam. Guardas municipais tentam acordar um homem estirado na escada, chutando, sacudindo, sem nenhuma reação dele, que parece dopado, não se mexe, não abre os olhos, está todo mole.

Um ambulante, ao ver os guardas e o seu mau jeito, se aproxima e tenta acordá-lo dando-lhe tapinhas no rosto, jogando um pouco de água, também sem nenhum sucesso. Muito tempo depois, o homem se levanta e sai cambaleando, vivo! Entro no Municipal, passo pelo saguão adentro, ouço e vejo em uma sala duas moças que ensaiam uma ópera: dois espetáculos diferentes – um lá fora, outro cá dentro. Duas realidades que se chocam, completam, complementam.

Realidades de um grande centro urbano. Faz-me pensar a cidade, tentar descobri-la, conhecê-la.

Rua Conselheiro Crispiniano

No Edifício Bartyra, um edifício residencial, converso com o zelador na portaria e fico sabendo que muitos idosos residem ali. Desce um senhor de cerca de cinqüenta anos. Ele tem um apartamento, mas não mora mais aqui. Conta que é advogado. Fala da vida no Centro da cidade, diz que a degeneração que se vê está por conta da permissividade do poder público em relação à vinda de migrantes nordestinos para a nossa capital.

A paralisação da construção civil, a falta de mão de obra qualificada, resulta em desemprego para esse pessoal, que se orienta em direção ao comércio informal, dando origem à poluição visual, à violência, à pobreza social na nossa cidade, diz ele.

O Centro, à noite, é intransitável: ladrões, viciados, garotas e garotos de programa, travestis, indigentes, mendigos: é uma outra realidade. Seria preciso haver maior controle, repressão, uma atitude mais drástica para que se restabelecesse a ordem, para que esse processo de ocupação da cidade por marginais, camelôs, carroceiros, pudesse ser controlado, assegura ele.

Caminho agora pelo calçadão da rua Barão de Itapetininga, sentido Praça da República, lotada de pessoas, grande parte senhores, sentados nos bancos da Praça, envoltos por anúncio de compra de ouro ou com ofertas de emprego: faxineiro, empregada... Alguns artistas trabalhando com aerografia produzem bons trabalhos com bastante rapidez, instigando a curiosidade geral dos passantes, que ali ficam a acompanhar a feitura.

Viaduto do Chá

Manhã de sexta-feira, onze horas. Caminho pelo Centro de São Paulo, redondezas do Viaduto do Chá. Observo as pessoas que me circundam, cada uma com seu jeito, um estilo, com preocupações e objetivos a orientar seus passos. Procuro estar atento às suas reações, seus olhares curiosos, pensativos, preocupados, ocupados, seus passos apressados, seus semblantes desconfiados, medrosos, tranqüilos, nervosos, distraídos, estressados, alegres, impacientes, cansados, desenvoltos, assustados, perturbados.

Senhoras com sombrinhas abertas para se protegerem do sol intenso de trinta graus; o vendedor de pilhas repetindo incessantemente: “quatro pilhas por um real”; outro, emitindo um miado estridente de gato, irritando e ao mesmo tempo assustando as pessoas; ambulantes passando apressadamente com bicicletas cheias de bugigangas de todo o tipo; pessoas atravessando rapidamente as ruas, com medo de serem atropeladas pelos motoboys que avançam antes que o sinal se abra; o bombardeio dos entregadores de panfletos sobre as pessoas que transitam pelas ruas; ciganas puxando as mãos dos que passam para lerem a sorte; meninos de rua pedindo bebida ou comida para os que estão na fila dos ônibus. Quando alguém promete dar, vão eles dizendo, apressados: “então dá logo!”.

Tudo isso mais o cheiro de almoço no ar, ao qual, às vezes, se sobrepõe o de urina. O calor insuportável deixando as pessoas meio moles, cansadas, suando, pensando em ir para casa, piscina ou praia. E eu, á procura de alguma sombra que me proteja, o que não está fácil.

O fluxo das pessoas é contínuo, crescendo a cada momento. Pela vida que aqui brota, o Centro está vivo, embora vivendo mal.

Cartomante

Sábado, treze horas: Viaduto do Chá lotado, com transeuntes, místicos, vendedores e curiosos que assistem o campeonato de skate proporcionado pela Prefeitura, na continuação da Praça Ramos de Azevedo. A cada manobra radical feita pelos participantes, o público reage com um oohh! sincronizado.

Os jogadores de búzios, as cartomantes, e principalmente as ciganas, que aproveitam a movimentação para pegar na mão e puxar as pessoas para lerem seu destino, dizendo: “ só vou dizer o nome de um falso amigo seu!” não se distraem do seu fazer, apesar do intenso barulho dos skatistas. Espero o momento certo para conversar com uma cartomante, mas ela se ocupa muito, a cada momento com novos clientes.

Observo uma mãe pedindo um passe para um senhor ao meu lado; recebe a resposta e logo depois espanca seu filho, de uns sete anos de idade, só porque ele chamou seu irmão de viado. Por volta das catorze horas, vejo a cartomante sem nenhum cliente: chego perto e vejo que ela vai começar a comer o almoço, já com uma coxa de frango na mão. Pergunto se pode me atender . Ela diz que sim, só terminar de comer e já começa o atendimento.

Chama-se Lena, tem sessenta e quatro anos, é cigana e trabalha há trinta anos como cartomante. Está instalada no Viaduto do Chá há onze, mas já a quinze anos esse tipo de atividade é feita nesse lugar. Durante a semana, exceto domingos e feriados, trabalha nesse ponto, diz ela, cobrando quinze reais por mais ou menos quinze minutos de consulta. Atende também em sua casa, cobrando trinta reais por um período de tempo maior. Tem clientes fixos e atende sem parar, às vezes fica até sem ir ao banheiro para atender a todos os seus compromissos.

Sua relação com as outras pessoas que aqui também fazem ponto é de bons vizinhos, um amparando o outro. Enquanto falamos, um menino que trabalha como engraxate chega para buscar o dinheiro que havia deixado com ela. Pensei, a principio, ser seu filho. Explicou-me que, pela manhã, estava esse menino aflito por terem uns moleques tentado tirar-lhe os onze reais que havia ganho.

Depois de espantar os moleques sugeriu que ficasse com a guarda do dinheiro e que ele viesse buscá-lo ao ir embora. Como o menino não tinha bolso na calça, o vendedor de envelopes vizinho à cartomante sugeriu que ele fechasse o dinheiro na sua mão bem fechada, para que, no caminho, ninguém dele se aproveitasse.

Dona Lena começa a ler minha sorte. Antes de mexer no baralho, diz que eu pareço ser freqüentador da Igreja Universal; já fiquei com pé atrás: nunca entrei numa. Pergunta meu nome completo, idade, data de nascimento e signo. Começa por descrever as características do leão: ter o pé no chão, saber buscar os objetivos, esperar e tomar as decisões no momento certo.

Diz que sou vaidoso, mas de uma vaidade voltada para a família, pois penso em todos e não só em mim; que detesto pessoas que reclamam e não lutam, que se alguém diz algo que não gosto, dela me afasto, pois não é merecedora de minha amizade, que não vou parar nunca meus estudos, que vou receber apoio de pessoa mais velha que me dará bons conselhos sobre a profissão; que vou fazer uma viagem ainda este ano; que o meu relacionamento amoroso ainda não está completo, talvez por eu me dedicar a várias atividades e ter como característica ser mais independente; que meu coração palpita de vez em quando; que meu pai está com pressão alta; que ele é mais calmo que minha mãe; que ela vai ter vida longa.

Descreve duas pessoas, a primeira tem vinte e poucos anos, tem o cabelo um pouco mais claro que o meu e me dá muitos conselhos; a outra aparenta ser uma pessoa mais velha que eu, mas não é: sua aparência vem de ser responsável, super-objetiva e muito engraçada. Esta observação, de ser esta pessoa muito engraçada, fez-me acreditar em todo o seu relato.

Finalmente disse ser eu pessoa iluminada e nunca antes ter atendido alguém tão bem estruturado e com caminho de vida tão bem definido. Na volta, esperando o ônibus de volta para casa, um senhor sugere que o Teatro Municipal deveria ser cercado por grades para evitar a sujeira, o mal cheiro, os ambulantes!

Na Avenida São João, cinco surdos-mudos conversam, gesticulando animadamente.

Igreja de São José

Manhã de segunda feira: mais um dia de caminhadas e de corre-corre. Mesmo estando tranqüilo (sou tranqüilo), a movimentação das pessoas pela cidade me deixa completamente agitado. A cada hora que segue, o Centro vai ficando com mais gente, mais parecido com um enxame de abelhas.

Tudo levava a crer que iria dar certo o meu intento, mas começo a perceber que vai ser mais difícil do que imaginava: a cada informação que peço fica mais complicado encontrar o que procuro. As pessoas que o freqüentam, às quais me dirijo, não o conhecem, de fato: é um monte de “acho que”, que me faz percorrer quase todo o Centro, de um lugar ao outro.

O engraçado é que procuro por um nome de igreja que não existe na região, mas as pessoas me mandam para igrejas outras, com plena convicção de que é a que estou procurando, confirmando que tinham sido consultadas anteriormente e indicado o lugar que agora me indicam. Depois de muito andar, resolvo ir para a igreja de São Francisco conversar com algum padre. Assunto: a vida no Centro de São Paulo.

Me informo com uma beata sobre quem seria o mais indicado para o que pretendo. Me indica Frei Filipinho; orienta-me para falar com a telefonista; é ela que entra em contato com os padres, para chamá-los: ela volta e diz que ninguém poderá me atender devido estarem todos ocupados com o preparo da Quaresma; entrevista, só depois da Páscoa.

No intervalo da espera, converso com uma senhora, aparentando sessenta anos, mulata serena que adora falar e rir, o que faz o tempo passar sem que me aperceba. Mora do outro lado da cidade e veio especialmente para conversar com um frei, que também não pode atendê-la.

A primeira nem a segunda tentativa deram certo, mas não desisto: vou até a igreja de Santo Antonio. Lá me dizem para voltar mais tarde pois o padre está ocupado e muito, com coisas dele. Tudo bem; saio, mas continuo no entorno da Praça do Patriarca.

Vou até o Hotel Othon, onde me dão um número de telefone para marcar entrevista; na Casa Fretin, a porta da frente está aberta mas as de dentro, todas trancadas;na Loja Colombo os vendedores ficam com receio de conversar, dizendo que o dono da loja está presente e que vai achar ruim, mesmo eu tendo avisado que o gerente já autorizou a conversa; na Casa Lutétia, edifício de serviços diversos, está só o faxineiro e não sabe me informar com quem posso estar conversando.

Enfim: um andar de um lado ao outro sem atingir minha meta: conversar sobre a vivência no Centro. Decidido, volto à igreja de Santo Antonio e, finalmente, padre Giorgio me recebe. Senhor de cabelos brancos, tranqüilo, estrangeiro, italiano com certeza. Conversamos sobre a vida que se vive no Centro: as ocupações desordenadas do espaço público, o trabalho informal, como dar assistência aos inúmeros moradores de rua; como garantir um cinturão verde para a cidade; a necessidade de requalificação do Centro; banheiros públicos; educação para o povo; crianças, adolescentes e mulheres marginalizadas.

Apesar de curta, foi uma boa conversa.

Largo de São Bento

Sábado, a jornada começa bem cedo: sete horas e quarenta e cinco da manhã e o sol já está queimando, parecendo já alto verão, quando ainda não é. Agora, nove horas da manhã, ao por os pés na Praça de São Bento, o sino toca. Para surpresa minha, o sino faz blan, blan e não blein, blein, como eu supunha.

Estamos no lugar e na hora certa! Alguns transeuntes já se encontram espalhados pela praça. Um deles pergunta o que estamos fazendo, depois de ver o desenho da uma das garotas, e um pequeno diálogo vai sendo desenvolvido. Pergunto se posso tirar-lhe uma foto para um trabalho. Ele resiste um pouco, mas cede em troca da promessa de mandar-lhe uma cópia.

Vou até o Restaurante Girondino, tomo um café, volto e entro na igreja de São Bento, onde estão outros visitantes guiados por um dos monges do Mosteiro, que conta um pouco da história da construção da basílica, do mosteiro e do colégio. Ao sair, sou surpreendido por um ciclista que passa em frente e não hesita em fazer o sinal da cruz em respeito à casa de Deus, enquanto quase me atropela.

A rua Florêncio de Abreu, onde está a maior concentração de lojas de maquinarias e de ferramentas, é o lugar por onde agora caminho. No encontro dela com a Ladeira da Constituição, trânsito congestionado e um ambulante puxando sua carrocinha, assoprando uma corneta, dessas de torcida, usando-a como se buzina fosse, no intuito de agilizar o fluxo de carros. Cada vez que paro, pessoas curiosas detêm-se para ver o que estou fazendo.

Negociação

Menino esperto, aquele. Teria de cinco pra seis anos.

A mãe, pessoa humilde, na padaria.

– Mãe, posso pedir um doce?– Pode.– Moça, embrulha oito destes – diz ele, olhos espertos, fala viva.– Não, filho, é muito; você não come tantos. Moça, por favor, um só.– Cinco – refaz rapidamente o moleque.– Um só – reforça a mãe.– Tá bem – diz em cima o garoto – embrulha dois.

nota

1
Participaram do presente trabalho Cáren Piza, Fabricio Fernandes, Marina Caraffa, Melissa Cristina de Barros e Raíssa Pereira Cintra de Oliveira. Relatos e fotos foram realizados durante o ano de 2002.

sobre os autores

Mauricio Fridman é arquiteto, doutor pela FAU/USP e artista plástico

Camilla Santino é arquiteta formada pela FAU/PUC-Campinas

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