Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O artigo aborda a observação pontual de usos de espaços de moradia popular na China, com base numa viagem realizada ao país em 2018, com atenção às rápidas mudanças na forma urbana em andamento naquele contexto.

english
This article addresses the specific observation of working classes housing spaces in China and its uses, based on observation during a trip to the country in 2018, paying attention to the rapid changes in that urban context.

español
El artículo aborda la observación puntual de los usos de espacios de vivienda populares en China, basada en un viaje al país en 2018, con atención a los rápidos cambios en la forma urbana en curso en ese contexto.


how to quote

FRÚGOLI JR., Heitor. Relatos de uma viagem. Hutongs de Pequim e lilongs de Xangai. Arquitextos, São Paulo, ano 21, n. 246.04, Vitruvius, nov. 2020 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.246/7955>.

Cidade Proibida, China
Foto Heitor Frúgoli Jr.

Ainda que uma viagem possa vir a ser uma experiência de expansão do conhecimento de alguma forma de alteridade, a primeira mantém relações ambíguas com a etnografia, no campo da antropologia. Se um ponto de vista mais clássico, a viagem já foi entendida como condição básica para a própria aproximação, em terras distantes, de povos considerados exóticos (1), isso envolveria a posteriori uma temporalidade de interações que apenas um deslocamento espacial não poderia por si abranger – embora o viajante, enquanto estrangeiro, busque por vezes uma experiência diferente daquela mais imediata, feita pelo turista (2).

De toda forma, o próprio conceito de trabalho de campo já passou por muitas mudanças, demandando novas modalidades de observação, como a etnografia multilocalizada (3), ou o estabelecimento sistemático de rotas (routes) (4), enquanto instrumentos mais apropriados para captar diversos movimentos praticados pelos próprios agentes pesquisados, em que viagem e etnografia passam a demarcar novas (e por vezes incômodas) fronteiras.

Minha intenção, nesse artigo, é reconstituir fragmentos de uma experiência de viagem, de curta duração, à China (5). Serão relatadas observações pontuais em determinados espaços públicos, à busca de rememoração de vivências (6) de caráter fugaz, num diálogo com certa proximidade com a ideia de observação flutuante (7), ou de algo presente na clássica noção benjaminiana de flânerie, embora sob o pressuposto de que, inevitavelmente, fazemos parte da própria paisagem observada (8).

Analisar um (outro) país sempre acarreta desafios para uma circunscrição contextual correta, e no caso da China, isso se amplia de forma considerável. Longe de pretender uma perspectiva holística, a princípio é assinalável e de amplo conhecimento, em tal nação, a historicidade milenar, a notável escala espacial (seu território tem a terceira maior área mundial) e demográfica (é a nação mais populosa do planeta, com política de controle demográfico), as especificidades da articulação entre comunismo e capitalismo de Estado, um crescimento econômico e centralismo político que a projetam como a futura principal potência mundial – retomando certa condição imperial, de longa data, uma forte e sistemática repressão a contestações políticas e, por fim, uma rápida mudança em sua paisagem arquitetônica e urbanística.

Essa última dimensão, que desperta interesse no presente artigo, guarda forte relação com os impactos de políticas de intervenção urbana das últimas décadas. Comecemos com Xangai, hoje a cidade mais populosa do mundo, com 22,315 milhões de habitantes em 2018, cuja aglomeração com as vizinhas Changzhou, Hangzhou, Nanquim, Nantong, Ningbo, Suzhou e Wuxi configura uma espécie de megarregião urbana com uma população de 79,692 milhões (9).

Com base em olhares apenas de brasileiros, pode-se mencionar as imagens e breves textos do fotógrafo e viajante Sebastião Salgado sobre as megacidades asiáticas há vinte anos, nas quais chamava a atenção, no caso de Xangai, certa alternância excludente entre imagens tradicionais – bairros antigos com forte sociabilidade nas pequenas ruas entre as casas (10), ou pequenos mercados de rua – e a pujança de espaços públicos como o Bund, à beira do Rio Huangpu, com edifícios clássicos e altíssimas torres contemporâneas:

“Todas as manhãs, ao nascer do dia, grupos de dançarinos e ginastas vão para o Bund, em Xangai, praticar seu esporte tradicional. Como boa parte da cidade, os passeios do Bund foram modernizados e alargados [...] Vastas áreas da velha Xangai foram arrasadas para ceder lugar a edifícios modernos [...] No momento, a construção civil em Xangai parece estar demasiado à frente da demanda [...] Ela [Xangai] representa hoje a face capitalista da China comunista” (11).

Outra cidade de particular interesse é Pequim, a capital chinesa desde o início do século 13 (12), com aproximadamente 18,827 milhões de habitantes (13), que concentra o poder de Estado e detém um notável patrimônio histórico – como a Cidade Proibida, a Praça do Portal da Paz Celestial ou o Templo do Céu.

A intensificação das mudanças urbanas já mencionadas é aprofundada analiticamente no livro Chai-na, de Otília Arantes (14), com foco predominante sobre as transformações impactantes para as Olimpíadas de Pequim (2008), assinaladas por suas “formas urbanas extremas” (15), sem falar do espraiamento de tal lógica em outras megalópoles chinesas. Nessa espécie de hiperurbanização (16) em andamento, que produz tanto novas referências monumentais quanto manchas urbanas indefinidas e esgarçadas, chama a atenção, para os termos do presente texto, a rápida demolição de extensas áreas de moradia popular, como os hutongs (17).

Hutongs de Pequim

À primeira vista, os hutongs (18) seriam áreas urbanas seculares, ao longo de ruelas ou becos formados por casas populares, por vezes com pequenos pátios, onde transcorre um cotidiano de interações, cujas fronteiras para as ruas ou avenidas são identificadas pela pintura (paredes cinzas e portas e janelas vermelhas). Segundo Claúdia Trevisan (19), funcionários públicos da elite ocuparam, por séculos, casas com pátio (siheyuan), ladeadas por residências menores, destinadas, por exemplo, a hospedar viajantes; mudanças drásticas a partir da queda do Império (1911) levaram tais locais a certo encortiçamento, algo intensificado a partir da Revolução Comunista (1949); apesar disso, muitos resistem a deixar essas áreas, após ordens de remoção para demolição: “As ruas estreitas estão sempre cheias de pessoas que conversam, jogam baralho ou xadrez, comem ou cozinham pela calçada, vão aos pequenos mercados da vizinhança ou simplesmente passeiam de pijamas no fim da tarde” (20).

Nas minhas visitas e caminhadas por Pequim (21), chamava a atenção, em várias ocasiões, a existência das entradas de tais hutongs – identificadas pelas cores já mencionadas e por algum tipo de comércio em sua fronteira com as ruas – tais como os localizados entre os templos Lama (Yonghegong) e de Confúcio, na parte a nordeste da área central da cidade, o que aguçava a vontade de adentrá-los.

No dia seguinte, após visita ao Museu Nacional de Arte da China (Zhongguo Meishuguan), a poucas quadras a leste da Cidade Proibida, numa caminhada pelos arredores (22), foi possível deparar novamente com vários hutongs, com entradas ladeadas em geral por bares, pessoas em mesas e várias bicicletas, lambretas e triciclos motorizados estacionados. Um desses hutongs chamava a atenção por grande circulação de transeuntes. Ao adentrar esse espaço claramente frequentado por habitantes da localidade, e evitando tirar fotos, foi possível ver, após uma breve caminhada, uma oficina de veículos que ocupava um grande espaço aberto. Um pouco mais à frente, ao avançar por ruas estreitas num traçado sinuoso, avistava-se um mercado, bastante movimentado, no qual era possível observar, em seu interior, num caminhar obrigatoriamente mais lento, a venda de frutas, legumes, peixes, carnes etc., o que apontava uma forte economia popular local.

Arredores de um hutong em Pequim
Foto Heitor Frúgoli Jr.

Tal registro foi diverso do que observei no último dia em Pequim, dessa vez numa visita guiada, pela manhã, aos hutongs Dajinsi e Xiaojinsi, áreas preservadas e abertas a visitação. Placas espalhadas pelo local (em chinês e inglês) permitiram a posteriori saber que ali, durante a dinastia Ming (1368-1644), havia uma casa de tingimento (dyeing house) que produzia seda colorida para o Estado; no período do reinado do imperador Qianlong (1735-1796), a área ficou conhecida como o hutong Jinyinsitao (seda de prata e ouro); já no período da República Popular (a partir de 1949), o local foi dividido em duas ruelas (alleys), Dajinsitao e Xiaojinsitao, em 1965, renomeadas hutongs Dajinsi e Xiaojinsi.

Adentramos então numa antiga casa com pátio (siheyuan), com aspectos “preservados”: sofás, quadros, gaiolas, vasos, aquários, mesas com objetos e enfeites, luminárias, lantejoulas, camas antigas com colchas e cortinas (amarelas ou vermelhas); num outro recinto, uma mesa quadrada repleta de notas de dinheiro, e ao lado, uma mesa retangular com objetos à venda: leques, cigarros (da marca Lesser Panda) (23), invólucro de metal para cigarros com imagens de Mao Tsé-Tung (mais jovem ou mais idoso), charutos e vestidos aristocráticos (talvez para vestir e fotografar). A sensação é de que, ao cobrir uma longa temporalidade, pareciam estar reunidos, em tal casa, objetos de fases históricas bem distintas.

Casa de pátio em Pequim
Foto Heitor Frúgoli Jr.

Prosseguindo por tal hutong, havia uma venda de legumes e frutas espalhados pelo chão, controlados por um senhor agachado, tendo à sua frente um pequeno banco com uma balança eletrônica e uma máquina calculadora, sem qualquer freguês, o que transmitia a impressão de uma espécie de cenografia (para turistas), em comparação com o dinamismo visto no outro hutong, dias atrás. Em tais ruelas via-se transeuntes ocasionais, algumas idosas, cachorros, lambretas ou bicicletas estacionadas, além de pequenos comércios que, naquela hora, estavam abrindo suas portas.

A seguir, bem perto dali, atravessamos uma pequena ponte sobre o lago Qianhai, e iniciamos um passeio pela Rua Yandaixie (Yandai Xiejie), que segundo uma placa local, foi submetida a uma restauração protetora (protective restoration) em 2007 (24), por encarnar costumes populares tradicionais e características distintivas da antiga Pequim (traditional folk customs and distinctive features of old Beijing). Ali sim havia um intenso comércio, mas destinado sobretudo a turistas – suvenires, badulaques, miniaturas de Buda ou de dragões, chá a granel, colares, cerâmicas, velas, roupas, chinelos, óculos, pequenos instrumentos de sopro, comidas típicas (várias em espetos), lojas com artesãos em pleno trabalho, vendedores pelas ruas. A visita programada se encerrou com um passeio de ciclo-riquixá, de tração humana, pelos arredores, e que embora revelasse novas vistas interessantes da vida local, despertou-me certo incômodo pelo trabalho humano dispendido na atividade, o que se juntava à mistura de sentimentos de tal experiência. De qualquer forma, a grande movimentação de tais riquixás revelava um negócio lucrativo aos donos da “Beijing Hutong Culture Tour Co.” – escrito na traseira de tais veículos.

Lilongs de Xangai

Como já ponderou Sharon Zukin (25), há de fato, em Xangai, uma concentração de investimentos voltada à criação de uma imagem espetacular de arquitetura, que a tornam uma espécie de capital do século 21, tal como teria sido Nova York no século 20, e Paris, no 19. Essa inserção numa linhagem, até então, de cidades ocidentais guarda relação com antecedentes históricos, já que após as guerras anglo-chinesas do século 19 (conhecidas como guerras do ópio), a então pequena cidade passou por concessões internacionais britânicas, estadunidenses e francesas até a Segunda Guerra Mundial, quando da invasão japonesa; o já citado Bund ainda guarda diversos edifícios – hotéis, bancos, escritórios, clubes etc. – desse período (26).

Mas como já dito, esse artigo busca mapear formas habitacionais populares ainda existentes e observáveis. Num passeio pela Huaihai Lu, rua repleta de lojas sofisticadas e apelos publicitários, num antigo bairro de concessão francesa (cujos plátanos ao longo das calçadas lembram um pouco uma avenida parisiense), havia uma entrada cuja placa ao lado convidava à visita, pelo lado de fora, de pequenos prédios de três andares, ainda habitados – apartamentos Tai Shan, construídos entre 1928 e 1930, tornados patrimônio arquitetônico (heritage architecture) em 1999.

Dias depois, um novo registro (museológico) de uma habitação chinesa tradicional e popular adveio de uma caminhada pelo Parque do Povo (Renmin Gong Yuan) (27) quando da visita à casa onde houve o Segundo Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês (julho de 1922), assinalada por uma reconstituição iconográfica do encontro em seu interior. Tanto essa casa, quanto a que abrigou o primeiro congresso, perto dali (28) constituem exemplares de residências em estilo shikumen (29), produto da cultura anglo-chinesa de meados do século 19, de dois ou três andares, de construção mais barata, destinadas inicialmente a uma família, mas em geral sem privadas, banheiras ou chuveiros (30). Tal modelo passou por diversificações arquitetônicas e ampliou-se para outros públicos, embora, basicamente, atendesse demandas de classes populares em Xangai, com construções de casas geminadas (espécie de réplica do modelo europeu) ao longo de ruas estreitas, o que originou o termo lilong (31) – li significa vizinhança ou comunidade, e long, vias ou ruelas (32). Esse padrão se tornou dominante na cidade – cobria mais da metade do estoque de moradias na década de 1930, e por volta de 80% nos anos 1980 – quando passou a sofrer, a partir da década seguinte, um processo de demolições vertiginoso por parte do Estado (33).

Nesse mesmo dia em Xangai, foi possível visitar, ao final da tarde, a região de Tianzifang (34), identificável como uma área lilong que escapou de tais demolições em massa. Consta que isso foi possível por conta da crise financeira asiática (entre 1997 e 1998), que levou à diminuição do ritmo das intervenções imobiliárias, seguida de uma coalização entre empresários, integrantes da cúpula do Estado, artistas e preservacionistas, que fez com que Tianzifang se tornasse um pequeno bairro artístico, com lojas, bares, cafés, galerias de arte (35). Os andares térreos de tais casas foram, em geral, alugados para lojistas, em muitos casos por moradores que ali puderam permanecer, tornando assim viável uma rua de pequeno comércio – a locação perfazia um terço das casas em 2008, mais da metade em 2010, e por volta de 90% em 2013, totalizando então mais de 660 negócios (36). De toda forma, os aumentos significativos do aluguel, decorrentes do próprio êxito do empreendimento, têm passado a ameaçar a permanência de muitos lojistas (37).

Voltemos à visita: após adentrar Tianzifang pelo pórtico da Taikang Lu, desde o início foi possível constatar um forte dinamismo comercial de pequenas lojas, com intensa circulação de frequentadores – principalmente jovens, incluindo turistas não orientais – numa paisagem assinalada pela predominância de sobrados e sua arquitetura típica, sobrepostos por um emaranhado notável de fios de poste, diversos apelos ligados ao comércio – placas, luminosos, neons –, várias plantas ornamentais e, no caso de bares e restaurantes, diversas mesas que ocupavam as vias. Foi muito difícil flagrar alguma presença mais explícita de moradores locais ou de suas atividades cotidianas, mesmo reconhecendo que vários pudessem estar dentre os presentes, parados ou caminhando. Algumas lojas temáticas contavam com farta decoração, candelabros, objetos de época, quadros, outras apresentavam um visual mais sóbrio e discreto.

Tianzifang, Xangai
Foto Heitor Frúgoli Jr.

Se, tal como na área do hutong comercial visitado em Pequim, havia petiscos típicos chineses em espetos, ou lojas que comercializavam chá, foi possível captar uma outra atmosfera de consumo, mais sofisticada (pelo tipo de mercadoria oferecida e preço correspondente, sobretudo quanto a bens duráveis), globalizada ou que frisava aspectos bem-humorados, como um bar em cuja placa se lia “creche para maridos” (“husband day care center”) (38), outro cuja entrada exibia tampas de cerveja de toda parte do mundo, ou então, na calçada em frente a uma loja de roupas, um modelo esguio de Buda (em amarelo) que vestia bermuda cinza e camiseta preta, com desenhos em rosa, roxo e azul – uma breve iconoclastia que não vi em qualquer outro local durante a viagem.

Tianzifang, Xangai
Foto Heitor Frúgoli Jr.

Breves conclusões

As observações relatadas, concentradas em contextos de pequena escala, captáveis durante simples caminhadas, evidentemente constituem uma parcela do que foi visto ou vivido durante a viagem, que por várias vezes implicava em olhares panorâmicos, sobretudo na visita a um país com as proporções chinesas. Basta mencionar, no caso dos arredores de Pequim, a paisagem que se pode vislumbrar das Muralhas da China, quando da visita ao trecho da mesma situado em Badaling (com uma antiga fortificação Ming restaurada), ou então, da vista do Bund e dos arredores, do 118º andar da Torre de Xangai. Em outros momentos, a própria escala impunha um inesperado olhar abrangente, quando, por exemplo, da ida à Estação Ferroviária de Hangzhou, cujos interiores competem, de forma avassaladora, com a dimensão de um aeroporto brasileiro, ou da observação da vasta escavação arqueológica dos guerreiros do Exército de Terracota em Xi’an. Por vezes a dimensão da multidão também impressionava, mesmo para um morador de São Paulo, como no caso do turismo de massa envolvido na visita à Cidade Proibida, ou do fluxo intenso de citadinos em determinadas estações de metrô de Pequim, por vezes organizado por mulheres, firmes e atenciosas. Foi também instigante observar ao longe, em geral do vidro de trens, ônibus ou taxis, em qualquer cidade visitada, a existência recorrente, fora dos centros históricos, de conjuntos de enormes edifícios habitacionais, padronizados, em construção ou já finalizados, sem qualquer sinal de uso – uma dimensão preocupante e relativamente conhecida da já citada hiperurbanização chinesa.

Maquete de Xangai no Centro de Exposições de Planejamento Urbano local
Foto Heitor Frúgoli Jr.

No caso do enfoque desse artigo, buscou-se confrontar, através de uma rápida observação, certas áreas tradicionais de moradia popular em Pequim e Xangai ainda existentes, com historicidades distintas, embora próximas no tipo de habitação e nas formas de convivência espacial decorrentes, que de certa forma resistem a um processo nacional mais amplo de intervenção urbana, baseado em demolições e reconstruções em massa. Nos casos das áreas formadas por Dajinsi, Xiaojinsi e Yandai Xiejie (Pequim) e Tianzifang (Xangai), seria preciso aprofundar a reflexão sobre estratégias diversas de preservação, em diálogo com o campo mais abrangente com as políticas de patrimônio cultural chinesa. Muito embora essa esfera de preservação de habitações populares não dê conta da amplitude dos desafios levantados, mesmo porque, pela profundidade da política de intervenção urbana em andamento, tais práticas patrimoniais parecem ter, à primeira vista, e nesse âmbito específico, um caráter apenas paliativo e bastante reduzido.

Mas mesmo esse plano de possível preservação levanta, em termos mais amplos, indagações e estranhamentos. Um breve exemplo disso decorreu da visita guiada ao Templo de Buda de Jade, em Xangai, que foi erguido no século 19 – inspirado no estilo da dinastia Song Meridional (1127-1279) –, sofreu um grande incêndio, foi reconstruído no início do século 20, tendo sido fechado por décadas (39) e depois reaberto, nos anos 1980 (40).. Ao chegarmos ao local, em que também funciona um instituto budista, o guia contou que novos templos do mesmo estilo tinham sido construídos e anexados recentemente – isso, na linguagem do patrimônio de matriz europeia, poderia ser visto como um falso histórico –, o que me causou certa perplexidade quanto à totalidade observada, não obstante sua inegável beleza. Ainda em Xangai, numa visita guiada ao Jardim Yu, construído durante a dinastia Ming, fizemos depois um passeio pelas edificações chinesas típicas dos arredores, todas elas recentes e simulando, de forma bastante persuasiva, um passado que jamais existiu, com um forte comércio para turistas – área chamada, pelo próprio guia, em leve tom de brincadeira, de Chinatown local.

 Oportunamente, uma temática recorrente durante a conferência da Association of Critical Heritage Studies, em Hangzhou, dizia respeito à necessidade da construção de um conceito de patrimônio que leve em conta as diferenças culturais, revendo as referências ocidentais dominantes. Durante as diversas e proveitosas abordagens sobre o tema ao longo das sessões, cuja diversidade internacional de enfoques acarretou-me um importante aprendizado (41), pairavam perguntas sobre o alcance e interesses, nacionais e globais, da academia e do Estado chineses em tal seara, com base em tudo o que foi vivenciado ao longo de tal viagem, que propiciou uma experiência memorável.

notas

1
AGIER, Michel. La sagesse de l’ethnologue. Paris, L’Oneil neuf, 2004; DAMATTA, Roberto [1978]. O ofício do etnólogo, ou como ter anthropological blues. In NUNES, Edson de Oliveira (Org.). A aventura sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social. Rio de Janeiro, Zahar, 1978, p. 23-35.

2
SIMMEL, Georg [1908]. O estrangeiro. In MORAES FILHO, Evaristo (Org.). Sociologia: Simmel. São Paulo, Ática, 1983, p. 182-188.

3
MARCUS, George. Ethnography in/of the world system: the emergence of multi-sited ethnography. Ethnography through thick and thin. Princeton, Princeton University Press, 1998, p. 79-104.

4
CLIFFORD, James. Routes: travel and translation in the late twentieth century. Cambridge/London, Harvard University Press, 1997.

5
Cujo intuito foi a participação, com recursos próprios, na quarta conferência internacional da Association of Critical Heritage Studies – ACHS, ocorrida na Zhejiang University, Hangzhou, no início de setembro de 2018.

6
ROCHA, Ana Luiza Carvalho; ECKERT, Cornelia. Etnografia de e na rua: estudo de antropologia urbana. In ROCHA, Ana Luiza Carvalho; ECKERT, Cornelia (Org.). Etnografia de rua. Porto Alegre, Editora UFRGS, 2013, p. 21-46.

7
PÉTONNET, Colette [1992]. Observação flutuante: o exemplo de um cemitério parisiense. Antropolítica, n. 25, Niterói, 2. sem./2008, p. 99-111.

8
SILVA, Hélio. A situação etnográfica: andar e ver. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, n. 32, jul./dez. 2009, p. 171-188. Fernando Pessoa esgarça tal argumento, ao questionar poeticamente a necessidade de uma viagem – “Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado?” – e arremata: “Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos”. PESSOA, Fernando [1982]. Livro do Desassossego por Bernardo Soares, v. II. Prefácio e organização de Jacinto do Prado Coelho. Lisboa, Ática, s. d., p. 390.

9
CHATEL, Cathy. Mégavilles, comparer l’incomparable? Documentation photographique, n. 8125, Paris, set./out. 2018, p. 20-21; HENRIOT, Carine. Shanghai, “mégarégion urbaine”. Documentation photographique, n. 8125, Paris, set.-out./2018, p. 22-23.

10
Lilongs, como veremos mais à frente.

11
SALGADO, Sebastião. Encarte com escritos. In Êxodos. São Paulo, Cia. das Letras, 2000, p. 31.

12
Com exceção do período entre 1911 e 1949.

13
CHATEL, Cathy. Mégavilles, comparer l’incomparable? Documentation photographique, n. 8125, Paris, set./out. 2018, p. 21.

14
Chai-na em mandarim significa “demolir aí”, expressão irônica que teria se propagado com a intensificação das demolições em curso nas cidades chinesas. ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Chai-na. São Paulo, Edusp, 2011, p. 9.

15
Idem, ibidem, p. 57.

16
“Consumindo desde a virada do milênio praticamente a metade de todo o cimento produzido no mundo, o país que Mao Tsé-Tung manteve muito pouco urbanizado até o final dos anos 1970 tem hoje mais de cem cidades com população acima de 1 milhão de habitantes. E apresenta espantosos fenômenos de hiperurbanização quase instantânea, como os que ocorreram em Chongqing, Guangzhou e Shenzhen”. WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro: arquitetura, arte e tecnologias contemporâneas. São Paulo, Ubu, 2018, p. 247.

17
ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Op. cit., p. 130-133.

18
Em chinês simplificado (ideogramas): 胡同; em pinyin (transcrição fonética): hútòng.

19
TREVISAN, Cláudia. Os chineses. São Paulo, Contexto, 2009, p. 30.

20
Idem, ibidem, p. 30.

21
Segue o trecho de uma visita brasileira à Pequim de 1992 pelo geógrafo Rogério Haesbaert: “Pequim nos envolve pela imensidão de suas artérias (com avenidas em linha reta de até quarenta quilômetros) e pelo fluxo humano, formigueiro que não para, dia e noite, sem dúvida o maior espetáculo desta megalópole. O contraste de muitos mundos e distintas eras que confluem nas amplas e modernas avenidas, ou nas ruelas tradicionais dos velhos subúrbios, é um fenômeno ímpar”. HAESBAERT, Rogério. Por amor aos lugares. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2017, p. 49.

22
Ao longo da andança, via-se, em calçadas ou praças, vários grupos masculinos que acompanhavam um jogo, como soube depois, de Xiangqi (uma espécie de xadrez chinês).

23
Certamente um animal com forte simbologia na China.

24
É pouco fortuito tal decreto num ano bastante próximo das Olimpíadas de Pequim (2008). Segundo Cláudia Trevisan, certos hutongs remanescentes das demolições em massa tornaram-se atração para turistas no período próximo às Olimpíadas, tendo alguns deles passado por restaurações comerciais que tenderiam, com o tempo, a expulsar os moradores locais. TREVISAN, Cláudia. Op. cit., p. 33.

25
ZUKIN, Sharon. Entre o tecido físico e social das cidades (entrevista concedida a Heitor Frúgoli Jr. e Julio Talhari). Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 84, São Paulo, fev. 2014, p. 17.

26
FOLHA DE S.PAULO. Guia visual Folha de S. Paulo. São Paulo, Publifolha. 2015, p. 192; 203.

27
Uma grande área verde, cercada por vários arranha-céus.

28
Mais ao sul, fica o local do Primeiro Congresso Nacional do PCC (julho de 1921), que teve a participação de Mao Tsé-Tung, também aberto à visitação.

29
Que pode ser traduzido por “portas emolduradas em pedra” (“stone framed doors”). JIANJUN, HU et al. Recalling the past while walking along the street: He Youzhi’s paintings of old Shanghai. Shanghai, Shanghai People’s Fine Arts Publishing House, 2013, p. 204. Outra alternativa de tradução: “portões de pedra de armazém” (“stone warehouse gates”). YU, Hai; CHEN, Xiangming; ZHONG, Xiaohua. Commercial development from below: the resilience of local shops in Shanghai. In ZUKIN, Sharon; KAZINITZ, Philip; CHEN, Xiangming (Org.). Global cities, local streets: everyday diversity from New York to Shanghai. New York/Abingdon, Routledge, 2016, p. 67.

30
JIANJUN, HU et al. Op. cit., p. 204.

31
Em chinês simplificado (ideogramas): 里弄; em pinyin (transcrição fonética): lǐ lòng.

32
ARKARAPRASERTKUL, Non; WILLIAMS, Matthew. The death and life of Shanghai’s alleyway houses: re-thinking community and historic preservation. Revista de Cultura, Macau, n. 50, 2015, p. 138 <https://bit.ly/39zSQxL>. O nong, pronunciado em mandarim, torna-se long, no dialeto xangainês. YU, Hai; CHEN, Xiangming; ZHONG, Xiaohua. Op. cit., p. 66.

33
YU, Hai; CHEN, Xiangming; ZHONG, Xiaohua. Op. cit., p. 67.

34
Mencionada na já citada entrevista com Sharon Zukin.

ZUKIN, Sharon. Entre o tecido físico e social das cidades (entrevista concedida a Heitor Frúgoli Jr. e Julio Talhari). Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 84, São Paulo, fev. 2014, p. 1719.

35
YU, Hai; CHEN, Xiangming; ZHONG, Xiaohua. Op. cit., p. 67.

36
YU, Hai; CHEN, Xiangming; ZHONG, Xiaohua. Op. cit., p. 69.

37
Idem, ibidem, p. 70-71.

38
Para esposas que desejassem relaxar e ter mais tempo para si ou para compras.

39
Fechamento causado originalmente pelas ações da Revolução Cultural (1966-1976), cujo epicentro inicial, aliás, foi em Xangai. BADIOU, Alain. Petrogrado, Xangai: as duas revoluções do século XX. São Paulo, Ubu, 2019, p. 72-74.

40
FOLHA DE S.PAULO. Op. cit., p. 202.

41
Ao mesmo tempo em que chegaram as terríveis notícias sobre o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ligado à crise nacional quanto às políticas públicas no setor patrimonial e cultural.

sobre o autor

Heitor Frúgoli Jr. é cientista social (1985), mestre em Antropologia Social (1990) e doutor em Sociologia (1998) pela Universidade de São Paulo. Livre-docente em Antropologia Social (2014) e professor associado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Publicou Centralidade em São Paulo (Cortez/Edusp, 2000).

comments

246.04 moradia popular
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

246

246.00 regionalismo e gênero

Da habitação popular à paisagem do Nordeste

Uma reflexão sobre regionalismo e gênero

Guilah Naslavsky and Ana Rita Sá Carneiro

246.01 personagem

Flávio Villaça

Uma trajetória dedicada ao planejamento urbano brasileiro

Sergio Luís Abrahão and Silvana Maria Zioni

246.02 ativismo comunitário

Participação comunitária e projeto urbano em favelas

A realidade e a percepção dos moradores na Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Rachel Coutinho Marques da Silva and Tatiana Medeiros Veloso

246.03 participação

Uma experiência psicogeográfica em Parque das Missões, Duque de Caxias

Maria Eugenia Nico and Rafael Soares Gonçalves

246.05

Sobre o desenhar

Uma revisão crítica, metodológica e experimental do estudo do desenho pelo desenhar

Artur Simões Rozestraten

246.06 arquitetura moderna

Os edifícios de apartamentos de Vilanova Artigas

Especulações entre a exceção e a regra

Thiago Turchi and Eduardo Pierrotti Rossetti

246.07 teoria do restauro

A questão do uso e do reuso em alguns juízos teórico-críticos sobre o restauro

Ana Veronica Cook Fernandes and Rodrigo Espinha Baeta

newspaper


© 2000–2021 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided