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architectourism ISSN 1982-9930

Fazenda Vargem Grande, paisagismo de Roberto Burle Marx, José Tabacow e Haruyoshi Ono. Foto Victor Hugo Mori

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português
Crônica de Abilio Guerra sobre alguns memoráveis andaimes de construção civil e a possibilidade de entender a estrutura provisória como metáfora da vida humana.


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GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.


Vale do Anhanbabaú, São Paulo. Exposição Arte/cidade 2 – a cidade e seus fluxos, curadoria de Nelson Brissac
Foto Nelson Kon

Vale do Anhangabaú, alvorada. Trepados no andaime, estivadores trabalham em patamares de madeira dispostos em cotas diferentes. A estrutura metálica que se ergue como torre desaparece no meio da bruma densa. Cena eternizada pela foto magnífica de Nelson Kon – realizada para a megaexposição Arte/cidade 2, curadoria de Nelson Brissac –, que estava escondida no meio de outras tantas, ainda em revelação de contato. Sua grandiosidade surgiu quando a olhei com lupa de fotografo (1). Corria o ano de 1994.

Pavilhão Humanidade, Rio+ 20, Rio de Janeiro, 2012. Arquiteta Carla Juaçaba
Foto divulgação

Quase vinte anos depois, em 2012, outro andaime torna-se símbolo do Rio+20, evento comemorativo da cúpula ambiental de 1992, a Eco 92. Uma barra de 170 metros de comprimento, 30 de largura e 20 de altura, conformada por estrutura metálica muito leve, que sustenta containers blindados em sobrevoo sobre o forte de Copacabana; no interior, salas expositivas, biblioteca, auditório e outros espaços funcionais. Pavilhão Humanidade, nome do projeto arquitetônico de Carla Juaçaba, jovem arquiteta carioca, exposição sob tutela da experiente Bia Lessa. Conheço melhor o projeto nas palavras do saudoso Roberto Segre, cujo texto publico no calor da hora em uma das revistas do portal Vitruvius (2).

Cota 10, na praça XV, Rio de Janeiro, arquitetos Pedro Varella e Julio Parente / Grua Arquitetos
Foto Rafael Salim

O tempo continua a fluir, chega o ano de 2015 e outro andaime na mesma cidade merece menção. Montado sobre a praça XV, sustenta escada em estrutura tubular que em cinco lances coloca o público a dez metros do chão. “Cota 10”, alcunha conferida por seus autores, os arquitetos Pedro Varella e Julio Parente, se posiciona no mesmo local onde anteriormente existia um dos pilares que sustentava o viaduto perimetral recém dinamitado. O piso da bandeja está na cota 10. Sou apresentado ao projeto, naquele momento já inexistente, durante o julgamento do Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel de 2015. O projeto, um tanto enigmático, vence a contenda (3).

Cenário de peça e exposição “Grande sertão: veredas”, cenografia de Paulo Mendes da Rocha
Foto Fernanda Ferreira

Em outubro de 2017, no saguão de uma unidade do Sesc São Paulo, é montado um andaime na forma de “gaiola de aço”. 15 metros de comprimento, 9 metros de largura, 5 metros de altura são suas medidas. Na estranha construção ocorre exposição e peça teatral “Grande sertão: veredas”, adaptadas por Bia Lessa do romance de Guimarães Rosa. Mesmo passando todos os dias uma ou mais vezes diante da unidade Consolação do Sesc, o evento me passou desapercebido e só tomei conhecimento da cenografia de Paulo Mendes da Rocha montada no saguão ao ler um pequeno artigo, de autoria de Fernanda Ferreira (4).

Obra de reconstrução de muro de contenção de encosta, rua Almirante Marques de Leão, Bexiga, São Paulo
Foto Abilio Guerra

Agora há pouco, rumando para a universidade, passo diante da reconstrução de arrimo que soçobrou após ser erodido lentamente pelas chuvas ao longo do tempo. A construção em tijolos dispostos em pilastras e arcos robustos formava um plano inclinado para contenção de terreno alto e íngreme, cortado para receber uma rua na sua parte baixa. Lá em cima se equilibram agora, na beira do despenhadeiro, duas ou três casas. Na rua interditada se destaca um andaime, primeiro passo para a reconstrução da prótese necessária para a estabilização do terreno.

Curioso que este andaime que vejo com meus próprios olhos evocam os outro quatro, que conheci apenas por textos e fotografias. De duração curta, já não existiam quando deles tomei conhecimento. São construções sisíficas, que aos moldes do personagem da mitologia grega insiste em subir e descer incessantemente, ato repetitivo, sem fim. Sem fim por que a repetição infinita impede que acabe, mas também por não ter finalidade outra do que conferir um objetivo provisório para uma vida destituída de sentido. Ao menos é assim que explica Marcel Camus em seu livro “O mito de Sísifo” o ato hercúleo de cada homem diante de uma existência desamparada cujo desfecho é a morte inelutável.

Para um arquiteto – e creio que para a maioria das pessoas comuns – o andaime é uma estrutura provisória que escora a construção definitiva. Sua serventia é importante, mas relativa frente ao seu inevitável desaparecimento para a sobrevida extensa da arquitetura verdadeira. Mas a arquitetura – seja na forma de muro de arrimo, casa ou catedral – nunca é eterna, como comprovam as ruínas, as atuais e as arqueológicas. Se o que realizamos expressam metaforicamente o que somos, são os andaimes e não a arquitetura as construções mais semelhantes a nós.

Em sua deliciosa série sobre o “Homem provisório”, Luís Antônio Jorge nos lembra em cada epígrafe a fala seca de Riobaldo: “concluí que fazendeiro-mór é sujeito da terra definitivo, mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório” (5). Penso que somos jagunços, somos todos andaimes, efêmeros na vida, passageiros temporários em um ônibus de muitos pontos e sem destino.

Paulo Mendes da Rocha costuma afirmar que o objetivo da arquitetura é amparar a imprevisibilidade da vida. Se ele está certo – e creio que está –, a história da arquitetura é a história do andaime.

notas

NA – Vigésima publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183.01, Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 < www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Do choro – entre lágrimas e música. Crônicas de andarilho 17. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 212.04, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.212/6923>.

GUERRA, Abilio. Da cavalaria de hoje e de antigamente. Crônicas de andarilho 18. Drops, São Paulo, ano 18, n. 126.06, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.126/6926>.

GUERRA, Abilio. Da inveja infame: a trajetória histórica de Lula e a viagem pela metrópole de um casal qualquer. Crônicas de andarilho 19. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.133/6953>.

GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.

GUERRA, Abilio. Da dobradura. Crônicas de andarilho 21. Drops, São Paulo, ano 18, n. 129.05, Vitruvius, jun. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.129/7033>.

GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.

GUERRA, Abilio. Da ilha longínqua. Crônicas de andarilho 23. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 137.05, Vitruvius, ago. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.137/7079>.

GUERRA, Abilio. Dos sem teto. Crônicas de andarilho 24. Drops, São Paulo, ano 19, n. 134.02, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.134/7164>.

GUERRA, Abilio. Da casa prototípica. Crônicas de andarilho 25. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 140.05, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.140/7165>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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134.01 obra paisagística

Fazenda Vargem Grande, Areias SP

José Tabacow and Pedro Mascaro

134.02 visita de estudo

Amiens: o nascimento, a morte e a ressurreição da restauração

Sciapan Stureika

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The legendary thrill

Giovanna Rosso Del Brenna

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Angkor Thom

Victor Hugo Mori

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