Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Nesse contexto atual, de grandes desafios e transformações, o artigo aborda aspectos do nomadismo e da transitoriedade como questões-chave para refletir sobre o papel da arquitetura nas sociedades contemporâneas.

english
In this current context, of great challenges and transformations, the article addresses aspects of nomadism and transience as key issues to reflect on the role of architecture in contemporary societies.

español
En este contexto actual, de grandes desafíos y transformaciones, el artículo aborda aspectos del nomadismo y la fugacidad como cuestiones clave para reflexionar sobre el papel de la arquitectura en las sociedades contemporáneas.


how to quote

GHISLENI, Camilla Sbeghen; BASTOS, Rodrigo. Sobre a transitoriedade e o nomadismo na cidade contemporânea. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 254.01, Vitruvius, jul. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.254/8135>.

“O sentimento futuro da humanidade não será o do desenvolvimento, mas o do movimento incessante”.
Gotffried Benn

O retrato do sujeito contemporâneo corresponde a uma “nova maneira de ser que consiste na desaparição” (1). A tese de Iñaki Ábalos em La buena vida (2) afirma ainda que não se pode mais assegurar que existe um indivíduo pleno, sujeito de si mesmo, mas um aglomerado heterogêneo com diversos perfis dinâmicos e variáveis, como se fosse conduzido por um fluxo de movimento incessante e disperso.

Gilles Deleuze e Félix Guattari, em Mille Plateaux (3), personificam esse sujeito contemporâneo através da imagem de um nômade vagando pelo deserto dos fluxos perpétuos (4). Nessa narrativa, trazem à tona uma visão esquizofrênica daquele aglomerado heterogêneo, apresentando a quase impossível tentativa de se manter a individualidade subjetiva na mobilidade pujante do ambiente coletivo. Esse nomadismo, como surge na narrativa filosófica, remete, no sentido etimológico da palavra — do grego nomás: errante, mutável, sem destino —, a um modo de vida transitório e desterritorializado, constituindo um espaço que não possui limites nem contornos permanentes, tampouco uma duração determinada.

Iñaki Ábalos caracteriza espacialmente esse ambiente nômade da contemporaneidade afirmando existir um território “liso”, implícito à mobilidade e ilimitado, e um ambiente “estriado” ou “rugoso”, relacionado ao sedentarismo, limitado e limitante, conforme os conceitos de Deleuze e Guattari:

“Há, portanto, em terceiro lugar, uma grande diferença de espaço: o espaço sedentário é estriado, por muros, cercados e caminhos entre os cercados, enquanto o espaço nômade é liso, marcado apenas por ‘traços’ que se apagam e se deslocam com o trajeto. Mesmo as lamínulas do deserto deslizam umas sobre as outras produzindo um som inimitável. O nômade se distribui num espaço liso, ele ocupa, habita, mantém esse espaço, e aí reside seu princípio territorial” (5).

O arquiteto espanhol conduz a reflexão filosófica pelo campo arquitetônico ao afirmar que esse espaço, de grande cinesia e mutabilidade, seria capaz de interferir e de justificar o desenvolvimento de uma arquitetura baseada na crítica e na revisão de uma de suas características mais ancestrais, a saber: a estabilidade. Esse espaço nômade desterritorializaria o ambiente urbano como o conhecemos, desestabilizando também os alicerces tradicionais da disciplina — alicerces estes que possuem uma história, um patrimônio intelectual e artístico, epistemológico e construído, que se confunde com o próprio percurso da racionalidade humana (6).

A cidade moderna, é preciso advertir, tem sido compreendida por diferentes aspectos moldados a partir de tempos, forças, valores e percepções que implicam uma ideia subjacente, quase imanente, de transformação; um caráter inexorável de mutabilidade e adaptação resultante das mais diversas conveniências que buscam ou são levadas a se encaixar, sobrepostas em um mesmo e pulsante palimpsesto urbano: interesses e conflitos díspares, investimentos que redirecionam hierarquias, territórios desvalorizados em detrimento de outros, supervalorizados, mudanças de fluxos e de capital, de necessidades e desejos etc., que acabam designando, há séculos, a cidade como um organismo vivo em permanente transformação. A nossa questão, então, não parece exatamente simples, ou meramente assentada em uma antinomia pura: permanência ou movimentação.

Alguns autores, como Marc Augé (7) e Manuel Castells (8), defendem a ideia de que esse processo está completamente interligado à velocidade de comunicação, à facilidade de deslocamentos e de trocas entre diversos lugares do mundo. Neste cenário vário e inconstante, que estratégias pode assumir a arquitetura? Outra questão emerge, então, irrevogável: tal rigidez (ou permanência) material ainda corresponderia ao que queremos ou necessitamos da cidade? Em uma sociedade estabelecida cada vez mais por laços dinâmicos e nômades, ainda caberia idear uma arquitetura estática e estável, oposta ou avessa à transitoriedade, à efemeridade e ao nomadismo que parecem predominar na vida contemporânea?

Nesse contexto simultaneamente problemático e instigante, muito se tem discutido sobre a condição (im)permanente da arquitetura. Afloram, de um lado, as premissas de ancestralidade e tradição histórica, advogadas da permanência; de outro, teorias e experimentos arquitetônicos efêmeros, que representam não apenas a fugacidade irrefutável da matéria; eles terminam promovendo a necessidade de repensá-la a partir da condição de um sujeito contemporâneo afinado antes com a experiência instantânea do espaço e dos eventos, muito mais do que com a pretensão de conviver com a ilusão de perpetuidade.

Um dos exemplos mais emblemáticos de arquiteturas efêmeras em um posicionamento crítico foi o projeto da dupla norte-americana Diller+Scofidio para a Expo 2002, na Suíça. Através do pavilhão Blur – do inglês “embaçado”, “nebuloso” –, os arquitetos levam a transitoriedade arquitetônica ao extremo, criando não somente uma obra efêmera no sentido de estabelecer-se por um curto período de tempo, mas também por implicar a transitoriedade em sua própria concepção. Sua performance arquitetônica se efetiva através do espargimento de uma nuvem de vapor d’água que é lançada intermitentemente ao ar por orifícios presentes em toda a estrutura metálica, extremamente discreta, do pavilhão. A efemeridade da arquitetura é explorada em sua potencialidade igualmente espetacular, já que a materialidade líquida (ou já aérea) da performance arquitetônica dura somente alguns segundos — o que se repetirá em novo instante futuro.

O pavilhão Blur pode ser descrito partindo-se das suas técnicas ou dos seus efeitos. Escolhendo a primeira alternativa, a obra apresenta-se como uma construção metálica (com dimensões em planta de 91,5 por 61 metros, situada 23 metros acima do nível da água) revestida por uma atmosfera com baixa definição visual composta pelo vapor da água extraída do lago e aspergida por 12.500 pulverizadores controlados por computador. Escolhendo-se a segunda tem-se um meio habitável destituído de referências, feições, profundidade, escala, volume, superfície e dimensões (9).

A arquitetura do pavilhão se apresenta na dualidade paradoxal de uma presença-ausente. Apesar das plataformas de acesso e dos espaços de apoio estarem implementados de maneira tradicional, o mais importante é que tais elementos não definem a obra enquanto conceito ou concepção arquitetônica tradicional. A performance do edifício é desempenhada somente quando os dispersores são ligados. Neste momento, o Pavilhão Blur rompe com um dos pilares fundamentais da arquitetura — justamente a ideia de permanência. Os preceitos seculares de Vitrúvio — firmitas, utilitas, uenustas — são questionados, já que a arquitetura do pavilhão independe deles para se afirmar como obra — quase imaterial. A própria definição de espaço na arquitetura é colocada em discussão porque a obra pode ser percebida e vivenciada não tanto como superfície envolvente material e sim como um evento arquitetônico que convida a uma experiência penetrante, poética, sensitiva, de imersão. Ela não se representa em uma forma fixa. Está sempre em movimento, dissipação e transformação; seus limites flutuam borrados e imprecisos. A força do projeto consiste, então, em afastar-se desses preceitos tradicionais, subvertendo-os através de uma concepção espaço-experiencial que sugere uma arquitetura não mais relacionada ao objeto sólido e estático, mas a relações possíveis entre sujeitos e eventos. Os arquitetos se preocuparam mais em oferecer uma experiência corporal, através das sensações, expectativas e surpresas, do que em impor a obra materialmente. O pavilhão não somente reflete a transitoriedade da vida e das relações atuais, mas também satisfaz a emergência de um hipotético existir contemporâneo — instável e nômade — instigado por eventos impregnados de experiência e sensação.

Manifestando-se como uma exposição crítica sobre o rumo da arquitetura e, consequentemente, da própria sociedade, o pavilhão Blur tem algo a dizer sobre o nosso tempo. Ignasi de Solà-Morales observou, em seus estudos, que, apesar da arquitetura estar tradicionalmente submetida à firmitas — firmeza, permanência, solidez —, a contemporaneidade parece indicar a obsolescência ou, pelo menos, a revisão crítica da preceptiva. Nas palavras do autor, obviamente alegóricas: uma “arquitetura líquida, em vez de uma arquitetura sólida, que substitua a firmeza pela fluidez e a primazia do espaço pela primazia do tempo” (10).

A metáfora da liquidez foi consagrada pelo sociólogo Zygmunt Bauman (11), ao explicar a grave crise de ideologias e valores pela qual estamos passando, em que ideias sólidas e consistentes dão lugar a uma cultura fluída, líquida, caracterizada pela rapidez do movimento, pela fugacidade e pela incerteza (12). Segundo o autor, toda a rigidez dos referenciais morais da modernidade, denominada por ele como “sólida”, é retirada do palco para dar lugar ao consumo, ao gozo e à artificialidade.

Expo Suiça 2002, Pavilhão Blur, Yverdon-les-Bains, Suiça. Arquitetos Elizabeth Diller and Ricardo Scofidio / Diller Scofidio + Renfro
Foto Norbert Aepli, Switzerland [Wikimedia Commons]

No campo da sociologia, segundo Bauman, a fluidez atual desenha um homem liberto de conceitos históricos. Já na arquitetura, como o próprio Solà-Morales indica, essa fluidez se materializaria em projetos livres de amarras que não mais impõem um tempo de resistência e uma simbologia como monumentos permanentes, reafirmando a poética do pavilhão supracitado. No seu texto Arquitectura débil (13), o arquiteto tenta esclarecer a posição da arquitetura nos dias atuais, defendendo a tese de que projetos monumentais destoam na cidade contemporânea, e que a potência interventiva deve ser encontrada na modéstia de projetos singulares e sensíveis. O autor busca uma interpretação da situação contemporânea, afirmando que a arquitetura participa da mesma fragilidade (débil) da experiência atual. Ao contrário do pensamento forte, de convicções bem estruturadas e fundantes, nas palavras do filósofo italiano Gianni Vattimo (14), a realidade de hoje apresenta uma perspectiva multicultural que não está sujeita a uma lógica hierárquica determinante. A arquitetura já não deveria se apresentar como dominante e sim “tangencial” — um “pano de fundo” da experiência — procurando uma linguagem mais afeita à promoção de uma intensidade poética eventual do que de uma verdade absoluta, sólida, científica ou transcendente.

A arquitetura débil de Solà-Morales dialoga com o pensamento de Vattimo. Este, ancorado nos escritos de Nietzsche, Heidegger e Gadamer, reconheceu uma interessante “ontologia fraca” para a “pós-modernidade”. Segundo ele, haveria a necessidade de renunciar às categorias fortes da tradição filosófica ocidental e, através desse pensamento fraco, débil, reconhecer e aceitar a facticidade da vida, sem imprimir um sentido transcendental que acabaria inibindo o seu fluxo. Vejamos o comentário de Franco Volpi sobre a reflexão de Vattimo:

“[O pensamento fraco] leva-o a saudar a diversificação e a fragmentação e, por isso, a pluralidade e a instabilidade como aspectos intrínsecos do real, a serem reconhecidos como tais em seu caráter positivo, sem a intenção de reduzi-los a unidade e hierarquia fortes, construídas de cima para baixo ou de fora para dentro” (15).

Esta caraterística contemporânea, como argumenta Volpi em O Niilismo, poderia, inclusive, ser entendida como um niilismo da cultura atual, representando não somente a crise dos valores e a falta de transcendências, mas também a constatação de que o agir humano não está mais entre os polos opostos da tradição e da revolução. Tudo se comprime na perspectiva estreita do aqui e agora, na mais efêmera concepção de sua imediata consumação.

No intento de delinear o que seria este sujeito contemporâneo, percebe-se, então, o surgimento de um ser liberto de amarras físicas e psicológicas, desafiadoramente livre para moldar-se e encaixar-se de acordo com as circunstâncias atuais. Tal desprendimento é também identificado, entretanto, como um dos sintomas da crise que assola a existência humana na contemporaneidade. Esse desenraizamento diz respeito não somente à revisão de tradições e ideologias; reflete-se igualmente na desterritorialização, na dificuldade cotidiana em se sentir parte de um ambiente urbano muitas vezes agressivo e hostil, o que levaria o homem contemporâneo a procurar, inconscientemente, um certo gozo na vacância pelo “deserto” ocre de uma “multidão buliçosa”, advertiram Deleuze e Guattari (16).

O antropólogo francês Marc Augé, em Por uma antropologia da mobilidade (17), afirma que existe na sociedade atual um “novo nomadismo”. Essa situação é caracterizada pela dissolução dos laços entre cidadãos e suas cidades, em que o sentimento de pertencimento ao espaço geográfico, seja dele original ou não, deixa de possuir o mesmo valor para o homem contemporâneo. Através da existência de uma frequência muito grande de movimentos migratórios, este “novo nomadismo” difere-se da definição consagrada pois, segundo o autor, os nômades tradicionais possuíam uma noção de território, configurando um movimento orbital de ir e vir, enquanto os nômades contemporâneos mostrariam uma ausência errática de raízes ou lugares de origem.

Esses novos deslocamentos definem, portanto, o constante fluxo do sujeito contemporâneo. Nesse sentido, o geógrafo britânico Tim Cresswell afirma, em seu livro On the move: mobility in the modern western world (18), a existência de três fatores na construção social da mobilidade. O primeiro se relaciona ao fato de que esse fluxo envolve movimento físico, ou seja, é mensurável e determinado pela distância de um lugar a outro. O segundo trata da questão de que ele envolve, hoje em dia, uma prática social carregada de significado. Dessa forma, mais do que um mero movimento de deslocamento, a mobilidade possui um simbolismo que poderia representar liberdade, aventura, transgressão, tédio ou perigo. E, por fim, o terceiro fator, em que aborda a mobilidade como uma forma de estar no mundo, essencial para a experiência humana contemporânea. Neste sentido, cada indivíduo criaria seu mundo dinâmico de cruzamentos, velocidades e encontros dentro de suas próprias estratégias, como afirma Jean Brum ao citar Cresswell (19).

Michel Maffesoli (20), em Du nomadisme; vagabondages initiatiques (21), também discorre sobre o tema, afirmando que uma das principais características desse nomadismo contemporâneo está no fato de que o movimento migratório atual não é determinado unicamente pela necessidade econômica ou social. Segundo o autor, o que move o homem contemporâneo é o desejo de evasão, “é uma espécie de ‘pulsão migratória’ incitando [o indivíduo] a mudar de lugar, de hábito, de parceiros, e isso para realizar a diversidade de facetas de sua personalidade”.

Em O nomadismo sedentário, Guilherme Wisnik afirma que essa idealização da mobilidade vem sendo cultuada há mais de cinquenta anos quando “as famílias de classe média lançaram-se com seus trailers numa vida on the road, os Beatles imaginaram o cotidiano dentro de um submarino amarelo e o grupo inglês Archigram projetou cidades-robôs para se caminhar livremente” (22). Entretanto, Wisnik afirma também que esse nomadismo, instigado pelo clima utópico dos anos 60, representava uma clara decisão individual rumo à uma vida alternativa, diferentemente dessa necessidade atual que diz respeito à própria constituição contemporânea da cidade:

“Hoje, esse impulso parece generalizado e difuso, vindo a constituir não um vetor de fuga, mas o próprio ‘ser’ da cidade contemporânea. Contexto no qual a ideia de mobilidade, que remete originalmente a uma condição transitória, se vê, no entanto, fixada em estado de permanência” (23).

Iñaki Ábalos, ainda em La Buena vida, discorre sobre a questão sociológica que incita à criação desse novo nomadismo no capítulo intitulado Cabanas, parasitas e nômades: a desconstrução da casa. Nele, o autor afirma que essa nova forma de vida, convencionalmente descrita como um aumento da mobilidade, diz respeito também a uma diminuição da importância da família e da razão doméstica, essa associação tradicional estabelecida entre um lugar, uma casa, uma linhagem familiar e uma localização física em que tradicionalmente se inscreve a própria existência (24).

Desta maneira, sua percepção encontrar-se-á impregnada pela visão deleuziana do espaço liso; a paisagem é um material contínuo – a própria cidade – atravessado por linhas de fuga, provisoriamente parasitadas. O lugar da casa não é mais do que uma densificação do trajeto, um nódulo, um vórtice onde se concentram e se vincam intensidades para definir a expressão mínima do habitar.

No entanto, para além da relação do nomadismo contemporâneo com a dissolução da razão doméstica, é possível perceber que há, sim, um enfraquecimento do vínculo territorial perante o espaço e a cidade. Aqui, emerge outra questão, de cunho eminentemente inclusivo: ainda seria possível relacionar as aglomerações urbanas de hoje com aquele sentimento primordial que valorizava o pertencimento de um grupo a uma região geográfica definida?

O filósofo italiano Massimo Cacciari apresenta as mesmas indagações no seu livro A cidade (25) — em que trata da instabilidade e da efemeridade das relações contemporâneas materializadas nos modos como habitamos o espaço urbano. Nele, o autor defende a ideia de que a cidade atual, que denomina de território pós-metropolitano, é “desterritorializante e anti-espacial", onde toda a métrica espacial é vivenciada como um obstáculo. Completando a afirmação explicitada pelo arquiteto Solà-Morales, Cacciari acredita que, como reflexo das tecnologias, a superação do vínculo espacial é também o primeiro passo na direção da superação do vínculo temporal. O autor defende que os preceitos que têm regido a construção das cidades nos últimos anos se contrapõem à forma como a sociedade tem se organizado. Segundo ele, a efemeridade, a velocidade e a ânsia pela mudança que ditam a vida contemporânea não são refletidas na maneira como criamos nossas arquiteturas e cidades.

As arquiteturas que se fazem por todo o lado contrastam radicalmente com este desejo de movimento e de “espiritualização” resultando, amiúde, num peso monumental único. Mas isso acontece por uma razão essencial: a exigência de presenças fortes, significativas e simbólicas no território pós-metropolitano é indicador de uma exigência psicologicamente insuperável, que todavia entra em conflito com a da ubiquidade (26).

Avançando na tese de Cacciari, em uma realidade na qual vivemos obcecados por imagens e mitos de velocidade, os espaços tradicionais que construímos, ao invés de nos libertar, parecem definir, delimitar e demarcar. Desprendidos de qualquer relação direta com a própria terra e alimentados pela facilidade e pela rapidez de deslocamentos, no entanto, insistimos em construir territórios sólidos e permanentes, muito mais do que a nossa própria duração humana. A contradição se estabelece justamente nesse ponto, em que a necessidade de enraizamento se constitui mais efetivamente entre o homem e seu próprio corpo — o lugar primeiro — do que em relação à arquitetura ou a cidade em que habita, ou transita.

Neste sentido, parece necessário repensar continuamente a cidade atual e o que seria esse território pós-metropolitano que Cacciari incita pois estamos nos afastando da terminologia e do significado ancestral da pólis — fato que implica muito mais do que apenas uma mudança de nomenclatura e, sim, uma revisão crítica dos conceitos que desenham ou sustentam os ambientes urbanos e arquitetônicos. Iñaki Ábalos adverte quando discorre sobre a cidade global:

“Assim, pois, a cidade habitada pelos novos nômades não é apenas a que tem presença física, mas também aquela definida pela circulação contínua de fluxos invisíveis, fluxos de informação e econômicos que provocam uma drástica mudança de escala: a cidade em que vive o sujeito pós-humanista é o mundo inteiro, a cidade global” (27).

Essa cidade, portanto, mesmo atenta à efemeridade das relações e atividades que a constituem como palco, insiste em permanecer, com sua presença eventualmente austera, a cada mudança de significado. A duração do corpo arquitetônico, desafiado diariamente a se encaixar na mutante perspectiva urbana, parece não acompanhar a condição da vida contemporânea que, hoje, talvez mais do que nunca, é caracterizada pela velocidade irrefreável dos fluxos e das transformações. Enquanto nos reinventamos como sociedade e também como cidade, convivemos cotidiana e predominantemente com edificações estáticas e monumentais. Este modelo arquitetônico, como bem apresentou Cacciari e, anteriormente, Solà-Morales, vem sendo questionado, o que parece sugerir uma análise constante dos valores que problematizam e incitam a arquitetura.

Expo Suiça 2002, Pavilhão Blur, Yverdon-les-Bains, Suiça. Arquitetos Elizabeth Diller and Ricardo Scofidio / Diller Scofidio + Renfro
Foto Norbert Aepli, Switzerland [Wikimedia Commons]

A pandemia da Covid-19 traz reflexões ainda mais complexas para a questão do nomadismo na cidade contemporânea. Muitos aspectos emergentes nesse terrível problema global potencializam a nossa reflexão. Nas semanas em que finalizávamos este texto, a doença começava a se alastrar pelo mundo inteiro. Poucos dias depois, ela chegaria ao Brasil, escancarando, entre medos e incertezas, os desafios de interpretação da sociedade contemporânea. Na China, a cidade de Wuhan ficou completamente isolada por semanas, atitude que passou a ser adotada, guardadas as proporções e a efetividade, em muitos países e cidades do mundo. Aeroportos foram fechados. Fronteiras nacionais e internacionais ficaram inacessíveis, encerramo-nos em nossas casas. Um dos aspectos mais interessantes do nomadismo em escala global ficou terminantemente proibido, pelo menos por um tempo — incerto —, e o nomadismo urbano, este de nossos prazeres e afazeres cotidianos, também foi negado. O isolamento social se fazia mais que necessário, se tornava vital. Para além de tudo o que afetou o nosso cotidiano, nossos medos e esperanças, um aspecto é recorrente e deveras importante: quanto tempo durará tudo isto? Por quanto tempo nosso nomadismo ficará interrompido? O que o tempo — ou o futuro — nos reserva depois disto? O vaticínio de Solà-Morales quanto à nova “primazia do tempo” parece se encaixar muito bem também nesse cenário.

Se o nomadismo, então, em quase todas as suas escalas, foi dramaticamente interrompido, duas reflexões se tornaram inevitáveis: por um lado, a pandemia demonstrou a fragilidade da vida nômade, ameaçada fatalmente por um vírus invisível; por outro, demonstrou a nossa dependência dela, porque, talvez mais do que encarar a possibilidade da morte, afetados pelo risco de uma doença nova e letal, nós nos incomodamos muito — talvez mais, até — com a interrupção de nossos fluxos e movimentos incessantes. E não podemos nos furtar ao paradoxo essencial que se tornou uma das causas capitais de tudo isto: foi exatamente o intenso nomadismo pelo mundo que acelerou rapidamente a propagação global do novo coronavírus, potencializada na movimentação ininterrupta de nossos corpos, valores e objetos.

Além disso, outro aspecto referente à efemeridade das relações atuais veio evidentemente à tona. Em poucas semanas, dezenas de arquiteturas temporárias foram construídas em vários países — hospitais de campanha, unidades de quarentena e rastreamento de infectados, cemitérios emergenciais, adaptação de estruturas esportivas monumentais para fins sanitaristas —, desafiando projetos e edifícios a irem muito além das funções para as quais foram originalmente destinados. Entretanto, as cidades e os países que melhor possuíam estruturas permanentes de cuidado e tratamento médico, geral e intensivo, aliados a um rígido isolamento da mobilidade social, conseguiram ou tem conseguido administrar melhor as suas crises pandêmicas. A possibilidade de erguer arquiteturas transitórias se tornou inevitável e estratégica, emergencial até, mas também a existência de arquiteturas permanentes da saúde oferecia um trunfo a mais na luta pela preservação de vidas.

Se, por um lado, a permanência secular da arquitetura possui lastros históricos que definiram, até bem pouco tempo, sua epistemologia e sua estética, a dinamicidade vertiginosa dos processos contemporâneos indica também, e irrefutavelmente, uma transformação radical de nossos laços culturais e simbólicos. O nomadismo e a volatilidade das arquiteturas e sociedades parece ser um traço inexorável de nosso tempo, em que respostas rápidas a mudanças constantes precisam ser absorvidas e efetivadas, sejam elas oriundas do incessante desejo individual pela mobilidade ou, de ordem vital, para a sobrevivência da espécie humana.

Como alertamos no início, diante desse novo evento planetário, ficou ainda mais evidente que o problema abordado neste texto não pode ser tratado em termos de antinomias de oposição, mobilidade x rigidez, nomadismo x permanência etc., há muito desestabilizadas e até desconstruídas, mas, antes, em termos de uma compreensão mais sensível e mais atenta às vicissitudes da existência. Ademais, na forma dolorosa e flagrante desse acontecimento, ameaçador de nossa própria permanência individual e coletiva, também nossas cidades e nossa política, nossa economia e nossa sociedade, por mais duradouras e sólidas que pudessem parecer (ou pretender ser), padecem da mesma fragilidade. Não estamos alheios a mudanças e transformações, necessárias ou imprevisíveis. Nossas arquiteturas também não.

notas

1
ÁBALOS, Iñaki. A boa-vida; visita guiada às casas da modernidade. Barcelona, Gustavo Gilli, 2013, p. 147.

2
Idem, ibidem.

3
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs; Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro, Editora 34, 1980, p. 40.

4
“Há um deserto. Mas nem por isso faria sentido dizer que estou no deserto. Trata-se de uma visão panorâmica do deserto. Este deserto não é trágico, nem desabitado: somente é deserto em função de sua cor ocre e de sua luz, ardente e sem sombras. Nele, há uma multidão buliçosa, um enxame de abelhas, uma melê de jogadores de futebol ou um grupo e tuaregues. Eu estou à margem dessa multidão, na periferia, mas pertenço a ela, estou unida a ela por uma extremidade do meu corpo, uma mão ou um pé.[...] Assim, também estou em perpétuo movimento, e isso exige uma grande tensão, mas ao mesmo tempo me proporciona um sentimento violento, quase vertiginoso, de felicidade”. Idem, ibidem, p. 40.

5
Idem, ibidem, p. 43.

6
O alicerce desta construção secular repousa em duas fontes doutrinárias principais na história da arquitetura: uma delas é a segurança mesma, a solidez dos edifícios, a firmitas vitruviana; outra, mais sutil, representa o modelo de uma eternidade relacionada à incorruptibilidade da beleza, pois a ordem matemática (platônico-pitagórica) apreendida na Natureza representava o tempo eterno e imutável, espelhos de perfeição para a imitação da arquitetura desde a antiguidade grega até o romantismo.

7
AUGÉ, Marc. Por uma antropologia da mobilidade. Maceió, Edufal/Unesp, 2010.

8
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2002.

9
Blur-Building. Swiss Expo 2002 <http://www.dsrny.com/>.

10
“Que sucede si intentamos pensar desde el otro extremo de estos conceptos tradicionales? Existe uma arquitectura materialmente líquida, atenta e configuradora no de la estabilidade sino del cambio y, po tanto, habiéndoselas con la fluidez cambiante que ofrece toda realidad? [...] Una arquitectura líquida en vez de una arquitectura sólida será aquella que sustituya la firmeza por la fluidez y la primacía del espacio por la primacía del tiempo”. SOLÀ-MORALES, Ignasi. Arquitectura Líquida. In SOLÀ-MORALES, Ignasi. Territorios. Barcelona, Gustavo Gili, 2002.

11
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.

12
Bauman se vale desse pensamento para diagnosticar uma incapacidade de se sustentar a formalidade do mundo como o conhecemos e de seus valores tradicionais. Nossas referências, nossas crenças e ideologias transformam-se antes mesmo de se assentarem em valores, costumes ou tradições.

13
SOLÀ-MORALES, Ignasi de. Diferencias; topografia de la arquitectura contemporánea. Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p. 65.

14
VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade; niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

15
VOLPI, Franco. O niilismo. São Paulo, Loyola Jesuítas, 2012, p. 122.

16
Ver nota 4.

17
AUGÉ, Marc. Op. cit.

18
CRESSWELL, Tim. On the move: mobility in the modern Western world. Nova York/Londres, Routledg, 2006.

19
BRUM, Jean Lucas da Silva. Por uma interpretação humanista da relação entre lugar e mobilidade. Geousp. Espaço e Tempo (Online), v. 21, n. 1, abr. 2017, p. 109 <http://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/115023>.

20
MAFFESOLI, Michel. Sobre o Nomadismo; vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro, Record, 2001.

21
Na tradução Sobre o Nomadismo: Vagabundagens Pós-modernas, o termo ‘vagabundagens’ pode assumir uma interpretação pejorativa inapropriada. Segundo o dicionário Larousse, “vagabondages” pode ser melhor traduzida, aqui, como devaneios, andanças, perambulações.

22
WISNIK, Guilherme. Estado Crítico. São Paulo, Publifolha, 2009, p. 19.

23
Idem, ibidem, p. 19.

24
ÁBALOS, Iñaki. Op. cit., p. 159.

25
CACCIARI, Massimo. A cidade. Barcelona, Gustavo Gili, 2014, p. 49.

26
idem, ibidem.

27
ÁBALOS, Iñaki. Op. cit., p. 149.

sobre os autores

Camilla Sbeghen Ghisleni é arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (2014) e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela mesma universidade (2017). Atualmente, atua como arquiteta no escritório Bloco B arquitetura, no qual é sócia-proprietária, desenvolvendo pesquisas sobre os espaços abandonados e a efemeridade na arquitetura.

Rodrigo Bastos é arquiteto, engenheiro, mestre em Arquitetura pela UFMG e doutor em Arquitetura pela FAU USP. É professor associado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do programa de pós-graduação PósARQ da UFSC. É autor de A maravilhosa fábrica de virtudes (Edusp) e A arte do urbanismo conveniente (Edufsc). Desenvolve pesquisas em história, teoria e estética da Arquitetura.

comments

254.01 arquitetura contemporânea
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

254

254.00 arte urbana

A cidade grita

Intervenções artísticas temporárias em João Pessoa PB

Juliê Caroline dos Santos Melo and Marcela Dimenstein

254.02 arquitetura e gênero

Algumas reflexões sobre o feminino, o coletivo e o ativismo na arquitetura

Sabrina Fontenele

254.03 espacialidade na cultura indígena

Configuração espacial da Aldeia Kondá

Análises de integração, visibilidade e permeabilidade

Fernanda Machado Dill, Vanessa Goulart Dorneles, Filipe Bassan Marinho Maciel and Renato Tibiriçá de Saboya

254.04 Covid-19

Teletrabalho e tele-estudo em espaços residenciais

Um olhar sobre o trabalho e o estudo remotos em tempos de Covid-19

Priscilla Silva Loureiro and Paulo Eduardo Fonseca de Campos

254.05 imaginário poético

Projeto com palavras

Imaginários, ensino de projetos e experimentações em arquitetura e urbanismo

Josicler Orbem Alberton, Artur Simões Rozestraten and Marcos Guterres Giovelli

254.06 habitar sustentável

As dimensões habitacional e ambiental nos concursos de projeto de urbanização de favelas

Estudo de seis casos selecionados

Bárbara da Silva Souza and Patrícia Rodrigues Samora

254.07

Trajetória da preservação do patrimônio cultural em Curitiba. Um relato de inovações, avanços e simplificações

Políticas de preservação em Curitiba: fundamentos e práticas (parte 2)

Elizabeth Amorim de Castro and Maria da Graça Rodrigues dos Santos

newspaper


© 2000–2024 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided