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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Este artigo discute aspectos da arquitetura e design de interiores residenciais sob impacto das tecnologias comunicacionais utilizadas em teletrabalho e tele-estudo, considerando impressões dos usuários acerca da experiência vivienciada ao longo de 2020.

english
This paper discusses aspects of residential architecture and interior design under the impact of the communication technologies in teleworking and tele-study, considering the impressions of users about the experience they have experienced throughout 2020.

español
En este artículo se analizan aspectos de la arquitectura residencial y el diseño de interiores bajo el impacto de las tecnologías de la comunicación en el teletrabajo y el teleestudio, considerando las impresiones de los usuarios a lo largo de 2020.


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SILVA LOUREIRO, Priscilla; CAMPOS, Paulo Eduardo Fonseca de. Teletrabalho e tele-estudo em espaços residenciais. Um olhar sobre o trabalho e o estudo remotos em tempos de Covid-19. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 254.04, Vitruvius, jul. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.254/8141>.

No Brasil, estudos relacionados à habitação vêm sendo realizados continuamente ao longo dos anos, apresentando abordagens das mais variadas, que envolvem desde a análise de espaços urbanos, aspectos arquitetônicos e configurações internas, relacionando-as aos modos de vida, às relações socioespaciais e à tecnologia.

O isolamento social decorrente da Pandemia da Covid-19 (1) gerou, em larga escala, o maior experimento involuntário de teletrabalho e tele-ensino no ambiente doméstico já vivenciado pela sociedade humana. Embora a prática destas atividades já estivesse ocorrendo em todo o mundo, o marco da crise sanitária elevou-a à condição de indispensável, muitas vezes quase a única alternativa possível, para continuidade dos afazeres na conjuntura pandêmica. Se antes do isolamento as adaptações às possibilidades de ensino e trabalho remotos, em domicílio, eram restritas ou aplicadas a casos específicos, em 2020 houve a aceleração do processo de adaptação forçada a esta condição. A experiência emergencial (não planejada), veio a acelerar as perspectivas de trabalho e estudo nesta modalidade, convertendo-as à condição de intencional (planejada) em muitos casos.

Neste contexto, rapidamente o ambiente residencial tornou-se, em meio a tantos lugares virtuais, o lugar concreto, ao mesmo tempo espaço real e cenário incidental, onde as inúmeras atividades dos membros de uma família, em seu sentido mais alargado, enquanto grupo de convivência humana, passaram a ocorrer concomitantemente.

Nesta linha, o problema a ser pesquisado situa-se a partir do conhecimento de dois enfoques principais, relacionados aos universos da arquitetura e do design: aspectos vinculados às funcionalidades que envolvem o trabalhar e o estudar remotamente, de forma on-line e síncrona, a partir de casa; e as relações interpessoais e socioespaciais, impactadas pelo uso das novas tecnologias de comunicação e informação no desenvolvimento das atividades em referência.

O objetivo do estudo foi, sobretudo, aferir a relevância do tema de pesquisa e levantar aspectos relacionados aos campos da arquitetura e do design, para oferecer, em etapas futuras, respostas às situações mais críticas.

Norteiam a investigação as seguintes indagações exploratórias: Que lugar da moradia está preferencialmente sendo utilizado para situações de trabalho e de estudo que envolvem uso das funções de áudio e vídeo? O que percebem os moradores quanto a funcionalidade, conforto, privacidade e outros aspectos relacionados a estas atividades? O que dizem sobre a questão semântica do que é projetado na tela ou transmitido nos microfones a partir de sua casa? São percebidos impactos das atividades desenvolvidas remotamente sobre os demais moradores — famílias ou grupos humanos que compartilham a mesma residência?

O método utilizado para a pesquisa exploratória, descritiva e quali-quantitativa de reconhecimento, envolve uma coleta de dados realizada por meio da aplicação de questionário, com o propósito de levantar impressões entre estudantes e profissionais que vivenciaram atividades remotas em 2020. A pesquisa foi aplicada de forma eletrônica a um universo de 243 respondentes, de diversas áreas profissionais e diferentes níveis de escolaridade.

Para sistematizar e apresentar os resultados foram desenvolvidos infográficos, cuja visualização favorece a leitura e análise dos problemas levantados, evidenciando os achados da pesquisa. O estudo destaca, ademais, aspectos que emergem do uso de tecnologias de informação e comunicação, especialmente com o uso de áudio e vídeo abertos, em teletrabalho e tele-estudo, a partir do ponto de vista dos usuários.

Sociedade e as tecnologias de comunicação e informação

“O “ciberespaço” (que também chamaremos de rede) é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo. Quanto ao neologismo “cibercultura”, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (2).

Pierre Lévy, discorrendo a respeito dos aspectos positivos da "cibercultura", como o acesso e difusão do conhecimento, levanta também problemas a serem observados neste universo. Entre os riscos potencialmente negativos, com impactos nos campos educacionais e profissionais focalizados nesta pesquisa, está o fato de se poder estar estabelecendo novas formas de dominação.

Manuel Castells (3) corrobora com esse ponto de vista e acrescenta estarmos diante de “uma sociedade cuja estrutura social é construída em torno de redes ativadas por tecnologias de comunicação e de informação processadas digitalmente e baseadas na microeletrônica”. Enfatiza, ademais, o papel das relações interpessoais das atividades humanas em meio digital, e alerta para a tendência à polarização em escala social, dadas as diferenças de acesso à tecnologia.

É Castells também quem introduz a questão da virtualidade entremeada de semântica, seguindo sistemas simbólicos criados para esse fim: atemporais, desprovidos de lugar, baseados em imagens que modelam o comportamento e influenciam a sociedade.

Nas visões desses autores, Castells e Lévy, o contexto evoca desterritorialização, reflexo das redes virtuais globais, condição que afeta a política (transposição de fronteiras), a economia (circulação financeira), a cultura (consumo de bens simbólicos mundiais) e o indivíduo (influência global na formação do sujeito).

Quando se refere aos efeitos da infraestrutura mundial das telecomunicações digitais, William J. Mitchell (4) se opõe a aceitar o fim do espaço. Propõe, para tanto, uma reflexão sobre novas formas de produção e organização dos espaços habitados, bem como sua apropriação para os múltiplos propósitos humanos. Em seu livro E-topia, problematiza as profundas influências das telecomunicações digitais nos modos de vida tradicional e na relação entre as pessoas, sugerindo repensar novos locais públicos, novas formas de socialização e novas cidades para o século 21. O diálogo segue, assim, reverberando no campo da arquitetura.

Direcionando a discussão do tema para “ambientes inteligentes”, Peter Droege (5), em publicação especialmente voltada a abordar aspectos espaciais da revolução da informação, reúne pontos de vista de 46 pesquisadores de áreas e países diferentes. Destes, 19 são das áreas de arquitetura, design e planejamento urbano, indicando que boa parte das pesquisas intermídias e suas interfaces com o mundo concreto têm sido desenvolvidas por arquitetos em centros de pesquisa norte-americanos e europeus, realidade ainda pouco comum no Brasil.

Teletrabalho e tele-estudo

O deslocamento do trabalho para outros ambientes, que não aqueles especificamente destinados a ele, só foi possível devido ao avanço das tecnologias de informação e comunicação. Dentro desta nova realidade o trabalho passou a receber várias denominações ao longo dos anos, as quais coexistem ainda hoje, tais como: telecommuting, trabalho remoto, trabalho de casa (working from home), teletrabalho, trabalho em casa (working at home), trabalho a distância, home working, home office, trabalho flexível e home-based work, e afins (6).

Algumas nomenclaturas apresentam especificidades conceituais, outras são mais genéricas. O teletrabalho, por exemplo, pode ser definido como aquele que ocorre sem base definida, fazendo uso da mobilidade oferecida pelas tecnologias de comunicação e informação, enquanto o “trabalho em casa” não necessariamente requer o uso de tecnologias e conexões de rede. A alternativa intermediária, o “teletrabalho em casa”, consistiria no uso das tecnologias comunicacionais para desempenhar o trabalho, tendo o ambiente residencial como base (7).

Para os fins da presente pesquisa, adotou-se a nomenclatura “teletrabalho em casa”, utilizando-se termos como “remoto” e “on-line” como formas de aproximação da linguagem mais habitual entre os respondentes A intenção foi, em primeiro lugar, situar o trabalho no ambiente doméstico e, em segundo, evitar a referência de um ambiente específico dentro da casa para as atividades de trabalho (como escritório), considerando que estas podem acontecer em diversos espaços quando se utilizam recursos tecnológicos comunicacionais.

Mesmo antes da pandemia, na literatura científica, a temática em referência já vinha sendo bastante discutida, principalmente em produções das áreas de administração e gestão, sociologia, psicologia, medicina do trabalho e direito. Há numerosas publicações que problematizam essa prática, trazendo à tona questionamentos de diferentes ordens, expondo pontos positivos e negativos da prática.

No campo do design, destacam-se questões de funcionalidade e eficiência ligadas ao espaço residencial e aos objetos que o compõem. Ana Paula Cabral Sader Sader (8) constatou que a maioria dos móveis que compõem os escritórios residenciais são adquiridos em lojas de móveis domésticos e não em lojas especializadas em sistemas para escritórios, o que indica possíveis impactos relacionados à ergonomia.

No âmbito da gestão de resultados, Jonathan Spira e Joshua Feintuch (9) relacionam perdas de 28% de eficiência no trabalho a interrupções, que podem ser diretas (abordagens) e indiretas (distrações geradas por atividades de fundo), ambas muito susceptíveis no ambiente doméstico.

Para o tele-estudo em ambiente doméstico, as limitações espaciais são parecidas. Embora o ensino a distância seja hoje uma realidade em todo o mundo, em geral há disponibilização de material gravado para consulta do estudante de forma assíncrona com o professor. A modalidade síncrona (ampliada durante a pandemia), em que o contato acontece em tempo real entre aluno e professor, enseja condições mais apropriadas de comunicação, sobretudo quando se adotam metodologias interativas e de aprendizagem colaborativa. A maioria das questões do teletrabalho foram, portanto, estendidas à atividade de estudar em casa, de forma análoga e como referência comparativa, embora se reconheça a importância de aprofundamento em referências específicas sobre o tema.

Desafios da habitação como espaço de trabalho e estudo

Países com economias mais desenvolvidas se adaptaram melhor às condições de teletrabalho durante a pandemia. Nos Estados Unidos, levantou-se que em média 37% dos empregos no país (considerando variações entre cidades e estados) apresentam condições para performar inteiramente de casa, devido à infraestrutura e natureza do serviço (10). São empregos que, em geral, pagam 46% a mais do que aqueles que não podem ser desenvolvidos de forma remota (como postos industriais, comerciais, de transporte, de manutenção entre outros). Esse fato sugere uma relação direta entre melhores oportunidades de emprego para trabalhadores que se enquadram nestas atividades, ou seja, que disponham, em suas casas, de condições para desempenhar o trabalho remoto. Esta disparidade, segundo os autores, é ainda maior em países com realidades econômicas mais restritivas.

Em pesquisa desenvolvida na Alemanha (11), obteve-se que a capacidade de força de trabalho remoto do país durante a pandemia alcançou em torno de 56%, mais que o dobro do que era realizado antes da medida de confinamento gerada pela Covid-19. Foram igualmente encontrados níveis altos de vulnerabilidade para assalariados pouco qualificados. Diferenças de gênero foram pouco acentuadas, mas indicaram que mulheres com filhos tendem a se adaptar melhor ao trabalho remoto, sujeitas, no entanto, ao aumento do nível de estresse devido às necessidades de conciliar trabalho e cuidados com as crianças.

Quanto ao potencial de atividades profissionais a serem realizadas de casa, considerando-se os 86 países avaliados, o Brasil ocupou a 45ª posição, com 25,65% de possibilidades após a pandemia.

Entre os doze países da América Latina que constam do estudo (Brasil, Bolívia, Chile, El Salvador, Equador, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, República Dominicana e Uruguai), o Brasil ocupou a terceira posição, muito próximo ao Chile (25,74%) e após do Uruguai (27,28%), que apresentou a maior participação de teletrabalho nessa lista (12).

A mesma pesquisa destaca para o País os percentuais de ocupação em teletrabalho para os cargos de: diretores e gerentes (em 61%), profissionais das ciências e intelectuais (65%), técnicos e profissionais de nível médio (30%), trabalhadores de apoio administrativo (41%) e trabalhadores dos serviços (12%).

Restringindo mais o escopo de ocupações profissionais, existe ainda o risco de segregação na contratação, levando-se em conta que a qualidade dos itens de tecnologia e meios de comunicação, bem como as condições de moradia, possam ser considerados pré-requisitos na seleção de colaboradores para o trabalho remoto (13).

As consequências de uma homogeneização entre os modos de morar e trabalhar com a naturalização do trabalho remoto podem ser de diversas ordens. A mais evidente delas, apresenta-se na transferência dos requisitos mais valorizados no mercado de trabalho: o empregado terá que demonstrar não mais apenas uma aptidão técnica, mas uma estrutura que faça as vezes da empresa "longa manus" em sua casa. Nesta nova realidade laboral agudizada pelos efeitos da pandemia, a qual trará implicações para as relações de trabalho no capitalismo pós-pandêmico, a moradia converte-se em condicionante da possibilidade de venda de força do trabalho (14).

Potencializa este quadro a visão empresarial da habitação como “produto imobiliário”, que vem ditando a lógica do mercado. Na busca pela maior rentabilidade relacionada à valorização das áreas urbanas e sua especulação, é um dos pontos de atenção a redução de área das unidades habitacionais em geral, observada sobretudo em apartamentos (15).

Este movimento ocorre em grandes centros urbanos em todo o mundo. Na Inglaterra, já em 1967, as Parker Morris Standards, ou normas Parker Morris, estabeleciam regras para os espaços da habitação de promoção pública considerando a densidade habitacional, a necessidade de armazenagem, parâmetros para a mobília e outros aspectos (16). Tais normas deixaram de ser obrigatórias na década de 1980, mas ainda hoje servem de referência quanto a atributos indicativos de qualidade e parâmetros de projeto. A “ocupação projetada” dos espaços, ligada à análise de densidade, ainda se reflete nas discussões atuais. Defende-se que referências espaciais não sejam pensadas para cômodos e sim para a quantidade de moradores por residência, com o objetivo de evitar os efeitos de superlotação (17).

A trajetória inglesa até os dias atuais, evidencia a importância da interface entre arquitetura de interiores e design industrial. No Brasil, entretanto, historicamente a discussão sobre espaços interiores transcorreu com mais ênfase na área da decoração, como algo subjetivo e frívolo, alheio ao campo científico. Este estudo pretende, como último objetivo, investigar aspectos parametrizáveis de interiores habitacionais, pressupondo seu impacto na qualidade de vida e bem-estar dos usuários.

Trabalhar e estudar on-line em casa, na percepção do morador

Análise geral

Os dados apresentados a seguir procuram verificar a percepção de moradores sobre a experiência de estudo e trabalho remotos vivenciada em 2020, a partir do seu espaço de morar. A amostra foi aferida em dezembro de 2020, possibilitando uma visão amadurecida da experiência iniciada no primeiro semestre do mesmo ano.

Para tanto, um questionário digital foi difundido através de redes sociais e por aplicativos de mensagens, alcançando inicialmente comunidades virtuais ou redes sociais que mantêm “laços fortes” com a primeira autora do presente artigo, expandindo-se posteriormente para uma ampla variedade de contatos, dentro da categoria dos chamados “laços fracos”. Seguindo a teoria de Mark Granovetter (18), na rede de “laços fortes” há uma identidade comum entre os indivíduos, com baixo grau de inovação, mas alto grau de confiabilidade. São fundamentais para levar as questões ao alcance dos “laços fracos”, que, por sua vez, representam papel fundamental em termos de inovação e diversidade, por serem redes constituídas por indivíduos com experiências e formações diferenciadas, capazes de romper os clusters dos “laços fortes” e promover a pesquisa à configuração de rede social.

Contou-se com 20 perguntas divididas em três categorias: sobre você, sobre seu espaço de morar e sobre problemas enfrentados. O questionário apresentava campos de respostas estruturadas e semi-estruturadas, permitindo a inserção de informações adicionais. A imagem 1 mostra dados gerais sobre o perfil da amostra.

Perfil da amostra de respondentes
Elaboração dos autores

Conforme esperado, a rede apresenta grande participação de estudantes com elevado grau de escolaridade, assim como destacam-se profissionais na área de educação, gestão, arquitetura e urbanismo e design. Ainda assim, observa-se a variação proveniente das redes de laços fracos, alcançando estudantes de nível médio e profissionais de várias áreas. A extensão da rede abrange um estrato social cujas atividades puderam migrar mais rapidamente para os meios tecnológicos. São indivíduos de classe média e média-alta, o que pode ser inferido pelas características dos seus imóveis e pelo nível de escolaridade dos respondentes.

Na imagem de frequência e tempo médio de permanência em reuniões on-line e videochamadas, observa-se, em ambas atividades de trabalho e estudo, a frequência elevada por semana de participações em reuniões on-line ou videochamadas (mais de 72% diariamente ou até 3 vezes por semana), sendo eventos de duração de horas para a maioria dos respondentes.

Frequência e tempo médio de permanência em reuniões on-line e videochamadas.
Elaboração dos autores

Perfil residencial e atividade residencial em estudo e trabalho remoto
Elaboração dos autores

Dados acerca do espaço de morar apontam o apartamento como moradia mais comum entre os respondentes, com predomínio de área acima de 100m², aproximadamente 60% dos casos.

Sendo uma das preocupações da pesquisa aferir a densidade habitacional, foi questionada a quantidade de moradores por residência, obtendo-se a maioria expressiva entre 2 a 4 moradores. A estrutura familiar a partir de 3 moradores corresponde a 70% dos casos.

Dentre os moradores, a maioria dos respondentes não passaram pela experiência sozinhos. A grande maioria evidenciou que ao menos mais um integrante da família trabalhou ou estudou remotamente de casa. Destacam-se possíveis casos mais críticos, onde quatro ou mais moradores utilizaram em uma mesma residência, não necessariamente ao mesmo tempo, as tecnologias de comunicação para trabalho e estudo.

Quanto ao ambiente preferencialmente utilizado para trabalhar e estudar, destacam-se o escritório e o quarto. A privacidade é observada em aproximadamente 50% dos casos, o que sugere que, na metade dos casos, podem existir significativos conflitos das atividades de morar, trabalhar e estudar entre seus moradores.

Ambiente residencial utilizado para teletrabalho ou tele-estudo
Elaboração dos autores

Com relação aos problemas enfrentados, a imagem 5 evidencia a importância dada a questões de captação de imagem e áudio do ambiente residencial, consideradas por aproximadamente 80% dos respondentes como relevantes. O incômodo dos demais moradores é percebido pela metade, aproximadamente, da amostra.

Apesar das indicações anteriores, a percepção de satisfação apontou resultado majoritariamente positivo quanto às condições do ambiente de trabalho e estudo, concentrado entre o terceiro e quarto grau de satisfação em escala de zero a cinco.

Preocupações (imagem, som e impacto entre outros moradores) e grau de satisfação com o ambiente
Elaboração dos autores

Quanto ao uso de recursos digitais para fundo de tela, na tentativa de alienar o ambiente residencial da transmissão de imagem, observou-se que a maioria não utiliza, por motivos diversos. Destes, 25% declararam não utilizar por não gostar do efeito do fundo digital, transmitindo as imagens reais de ambientes residenciais. Outros 24,8% apontaram a preferência por não abrir as câmeras.

Reforça-se, assim, o impacto da relação visual entre as atividades externas e o ambiente residencial.

Considerações sobre o uso de imagens digitais para o fundo de tela
Elaboração dos autores

Referente aos problemas enfrentados, o questionário trazia 5 alternativas em caixas de seleção (podendo ser selecionadas mais de uma delas), além do campo “outros”, para indicações espontâneas abertas. Dos respondentes, 69,1% apontaram o barulho do ambiente residencial, seguido por dificuldade de concentração (38,1%), espaço funcional (25%), moradores captados pela câmera (18,6%) e imagem de fundo inapropriada (15,7%). Outras indicações correspondem a 9,6% dos casos.

Problemas do ambiente residencial de teletrabalho e tele-estudo
Elaboração dos autores

Análise comparativa dos resultados obtidos

Buscando explorar os resultados por meio de filtragem de dados, foram analisados separadamente os grupos insatisfeitos (avaliações de 0 a 2) e satisfeitos (avaliação de 3 a 5) com o ambiente residencial utilizado para teletrabalho e tele-estudo.

O grupo dos satisfeitos é composto na maioria por trabalhadores. Alguns moram sós, embora predominem as residências com 3 e 4 moradores. Destes, 59,7% vivem em habitações com 100m² ou mais.

Dentre os insatisfeitos destacam-se mais os estudantes do que os teletrabalhadores. Este grupo não apresentou pessoas que vivem sozinhas, predominando a ocupação de 4 habitantes por moradia. Com relação ao espaço, menos da metade (46,1%) vive em residências com 100m² ou mais.

Características gerais da composição do grupo de satisfeitos com o ambiente de teletrabalho/ tele-estudo
Elaboração dos autores

Características gerais da composição do grupo de insatisfeitos com o ambiente de teletrabalho/ tele-estudo
Elaboração dos autores

As características gerais das composições dos grupos de moradores satisfeitos e insatisfeitos podem indicar relação entre áreas generosas das moradias com satisfação dos usuários. No entanto, esta não demonstrou ser uma relação condicional, dado que pessoas que vivem em apartamentos com área acima de 180m² também relataram insatisfação. Neste sentido, supõem-se disfunções ligadas ao conforto e ergonomia, relacionadas à arquitetura e ao design ou com a densidade habitacional.

Como esperado, as pessoas que vivem sozinhas, independentemente do tamanho do imóvel, tendem a perceber menos impactos em seus ambientes, afetando positivamente seu grau de satisfação. Corroborando com este dado, a análise da quantidade de moradores por residência em teletrabalho e/ou tele-estudo sugere que quanto mais moradores em atividade on-line maior a possibilidade de insatisfação.

Quantidade de moradores por residência em teletrabalho/ tele-estudo
Elaboração dos autores

A respeito da configuração do ambiente, o usuário tende a satisfação quando utiliza-se de espaços privativos, sobretudo escritório, preferencialmente destinados às finalidades das atividades remotas. A imagem de Ambiente residencial utilizado para teletrabalho/ tele-estudo revela que a maior parte dos insatisfeitos não apresentam esta condição.

Ambiente residencial utilizado para teletrabalho/ tele-estudo
Elaboração dos autores

Com relação ao relato dos principais problemas do ambiente, não foram observadas, na análise por grupo, diferenças significativas do resultado apontado na imagem de Problemas do ambiente residencial de teletrabalho e tele-estudo.

Considerações finais

O teletrabalho e o tele-estudo a partir de casa potencializaram-se em escala global durante a pandemia, fazendo com que o uso das tecnologias de informação e comunicação para estes fins fossem incluídas, definitivamente, como modalidades das mais frequentes no cenário profissional e educacional, apresentando-se como um enorme desafio.

Compreende-se que a habitação é um tema complexo e interdisciplinar, e a observação da percepção dos usuários, um método para se obter dados que possam auxiliar a delinear problemas e demandas espaciais.

De acordo com o levantamento, a avaliação do tipo de imóvel (casa ou apartamento) ou do tamanho das residências, ao contrário do que se esperava, não foi determinante para se concluir sobre a estrutura mais ou menos adequada às atividades. Supõe-se que, sem adequada distribuição e compartimentação, a área adicional não é por si só suficiente. Ademais, a densidade habitacional tende a ser um indicador mais impactante, sobretudo quando há dois ou mais moradores em teletrabalho ou tele-estudo em uma mesma moradia.

Ambientes privativos, sobretudo os escritórios residenciais, se revelaram mais satisfatórios. Seguindo a lógica, o principal desconforto está ligado ao barulho e dificuldade de concentração. Tais observações sugerem reflexões configuracionais do espaço.

Com relação à projeção de sua imagem residencial no fundo de tela, apresentou-se como preocupação importante, não sendo a imagem digital a alternativa para solução da questão. Reforçam-se, assim, qualidades no âmbito da arquitetura e do design de interiores a serem investigadas.

Mesmo não trazendo respostas conclusivas, estas considerações formam nexos e apontam caminhos para abordagem deste tema presente, constituindo uma das partes fundamentais da pesquisa em referência. Trata-se, portanto, de uma contribuição inicial, a qual será aprofundada nas próximas etapas, com investigações qualitativas entre os casos críticos e fora dos padrões encontrados.

notas

NA – O presente artigo faz parte de uma das etapas da pesquisa de doutorado de Priscilla Silva Loureiro, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, sob o título provisório Arquitetura e Design de espaços interiores residenciais para Teletrabalho e Tele-estudo (São Paulo, FAU USP, 2020).

1
COVID-19 (do inglês: "Coronavirus Disease 2019", em português: "Doença por Coronavírus – 2019") é uma doença infecciosa causada pelo coronavírus, responsável pela síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2). O SARS-CoV-2 foi identificado pela primeira vez em seres humanos em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, na China.

2
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, Editora 34, 1999, p. 17.

3
CASTELLS, Manuel. A Era da Informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo, Paz e Terra, 1999, p. 70.

4
MITCHELL, William J. E-topia: a vida urbana mas não como a conhecemos. São Paulo, Senac, 2002.

5
DROEGE, Peter. Intelligent environments: spatial aspects of the information revolution. Amsterdam, Elsevier, 1997.

6
HIMAWAN, Karel; FANGGIDAE Jappy P.; HELMI, Jessica. The Sociocultural Barriers of Work-From-Home Arrangement Due to COVID-19 Pandemic in Asia: Implications and Future Implementation. Advance, 2020 <https://bit.ly/3BqsHNk>; MENDONÇA, Marcelo. A inclusão dos home offices no setor residencial no município de São Paulo. 2010. Tese de Doutorado. São Paulo, FAU USP, 2010 <https://bit.ly/3BmMwFt>.

7
MESSENGER, Jon; VARGAS LLAVE, Oscar; GSCHWIND, Lutz; BOEHMER, Simon; VERMEYLEN, Greet; WILKENS, Mathijn. Working anytime, anywhere: the effects on the world of work. Eurofound and the International Labour Office, Publications Office of the European Union, Luxembourg, and the International Labour Office, Geneva, 2017 <https://bit.ly/3irKefD>.

8
SADER, Ana Paula Cabral. A desterritorialização do escritório na era da informação: trabalho, tecnologia e cultura organizacional. Tese de Doutorado. São Paulo, FAU USP, 2007 <https://bit.ly/3xZK2eg>.

9
SPIRA, Jonathan; FEINTUCH, Joshua. The cost of not paying attention: how interruptions impact knowledge worker productivity. Report from Basex, 2005 <https://bit.ly/3rnpEAW>.

10
DINGEL, Jonathan I.; NEIMAN, Brent. How many jobs can be done at home? National Bureau of Economic Research Working Paper, Cambridge, n. 26948, abr. 2020 <https://bit.ly/2TqS94o>.

11
ALIPOUR, Jean-Victor; FALCK, Oliver; SCHüLLER, Simone. Germany's Capacities to Work from Home. CESifo Workin g Paper, Munique, n. 8227, 2020 <https://bit.ly/3iLbhTt>.

12
GÓES, Geraldo Sandoval; MARTINS, Felipe dos Santos; NASCIMENTO, José Antonio Sena do. Potencial de teletrabalho na pandemia: um retrato no Brasil e no mundo. Carta Conjunta. Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, 2020, p. 1-10,

13
KRAMER, Amit.; KRAMER, Karen Z. The potential impact of the Covid-19 pandemic on occupational status, work from home, and occupational mobility. Journal of Vocational Behavior, vol. 119, 2020 <https://bit.ly/3xSZJUn>.

14
SILVEIRA, Suzana Maria Loureiro; ROSSI, Renan Alarcon; DE VUONO, Gabriel Dib Daud. Pandemia:(mesmos) modos de morar e trabalhar? Revista Políticas Públicas & Cidades, v. 2359, p. 1552 <https://bit.ly/2Umzffz>.

15
ANITELLI, Felipe. [Re] produção?: repercussões de características do desenho do edifício de apartamentos paulistano em projetos empreendidos no Brasil. Tese de Doutorado. São Paulo, FAU USP, 2015. VILLA, Simone Barbosa. Morar em apartamento. E-book. São Paulo, Oficina de Textos, 2020.

16
FONSECA DE CAMPOS, Paulo Eduardo. Design Arquitetônico: Uma abordagem projetual com foco no usuário, como protagonista e agente de projeto, ou... Das cooperativas de habitação uruguaias ao dissenso modernista do ‘Byker Wall’. Tese de Livre Docência. São Paulo, FAU USP, São Paulo, 2016.

17
PARK, Julia. One Hundred Years of Housing Space Standards: What now? 2017

<https://bit.ly/3Bnma65>.

18
GRANOVETTER, Mark. The strength of weak ties: a network theory revisited. In Sociological Theory. São Francisco, Jossey-Bass, 1983.

sobre os autores

Priscilla Silva Loureiro é arquiteta e urbanista (2003) e mestre em Engenharia Ambiental (2006), pela Universidade Federal do Espírito Santo. Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela FAU USP e professora Adjunta na UVV ES. Autora de “Atividades complementares formativas: vivência prática ampliada no âmbito da arquitetura e urbanismo” (Pixo, 2020).

Paulo Eduardo Fonseca de Campos é arquiteto e urbanista (FAU PUCC, 1981), mestre em Engenharia Civil (EPUSP, 1989) e doutor em Arquitetura e Urbanismo (FAU USP, 2002). Livre-docente (FAU USP, 2016) e professor associado da FAU USP. Autor de Design Arquitetônico: Uma abordagem projetual com foco no usuário, como protagonista e agente de projeto, ou ... Das cooperativas de habitação uruguaias ao dissenso modernista do Byker Wall (FAU USP, 2016).

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