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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O estudo relaciona a configuração espacial da Aldeia Kondá à localização de seus usos, indicando que as diferenças culturais em relação ao não indígena têm implicações claras na organização espacial da aldeia.

english
The study links the spatial configuration of Aldeia Kondá to the location of its uses, indicating that cultural differences concerning non-indigenous people have clear implications for the spatial organization of the village.

español
El estudio vincula la configuración espacial de Aldeia Kondá con la ubicación de sus usos, lo que indica que las diferencias culturales en relación con las personas no indígenas tienen claras implicaciones para la organización espacial de la aldea.


how to quote

DILL, Fernanda Machado; DORNELES, Vanessa Goulart; MACIEL, Filipe Bassan Marinho; SABOYA, Renato Tibiriçá de. Configuração espacial da Aldeia Kondá. Análises de integração, visibilidade e permeabilidade. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 254.03, Vitruvius, jul. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.254/8137>.

O povo brasileiro é caracterizado pela diversidade cultural, resultante das influências sofridas pelos diferentes povos que viveram essas terras ao longo do tempo: entre eles, europeus, africanos, asiáticos, nativos etc. As populações indígenas se destacam neste contexto, porque são precursoras na ocupação do território, antes da chegada dos colonizadores europeus. Também, porque, na contemporaneidade, alguns povos indígenas constituem reservas em terras específicas, com organização socioespacial e cultural próprias que os diferenciam da sociedade não indígena.

Em Santa Catarina, a população indígena chega a quase 20.000 habitantes. Mais da metade deles reside em terras indígenas e pertence às seguintes etnias: Kaingang (63%), Guarani (16%) e Xokleng (21%) (1). Os Kaingang representam a maioria da população indígena e se distribuem em cinco terras no oeste do estado. Dentre as terras indígenas que fazem parte desta região, a Aldeia Kondá se destaca na preservação cultural pelo uso predominante da língua Kaingang, por sua subsistência através da venda do artesanato tradicional e por manter um modo de viver próprio, que sugere uma relação diferenciada com o espaço e com a natureza (2).

Terras Kaingang em Santa Catarina
Elaboração dos autores

Situada a 14 km do centro de Chapecó, a Aldeia Kondá conta com 2.300 ha de terras, limitados pelos rios Uruguai, Irani e Lageado Veríssimo, e uma população de aproximadamente seiscentos habitantes. Esta comunidade respeita uma lógica própria de ocupação do território, focada em suas raízes culturais e na relação com a natureza, equilibrando as influências sofridas em decorrência do contato com a sociedade não indígena do entorno. Este estudo analisa como um território indígena específico é organizado para mediar espacialmente os encontros sociais entre os membros de sua comunidade e desses com os não indígenas. O entendimento dessas lógicas socioespaciais contribui para desenvolver políticas diversas no que tange ao planejamento urbano-ambiental e ao desenvolvimento humano.

Os objetivos envolvem analisar os padrões espaciais da Aldeia Kondá, através de modelos descritivos configuracionais baseados na Sintaxe Espacial, buscando associá-los aos padrões de uso observados empiricamente, como a localização de lugares simbólicos, espaços coletivos e espaços familiares. O artigo é estruturado iniciando com a apresentação dos principais insumos teóricos e metodológicos, posteriormente é realizada a descrição do objeto de estudo através de sua estrutura socioespacial tradicional e contemporânea, respectivamente. Por fim, são apresentados e discutidos os resultados das análises, seguindo-se as considerações finais.

Sintaxe espacial

A Sintaxe Espacial é uma teoria desenvolvida nos anos 1970 por Bill Hillier e colaboradores na University College of London, da qual se originou um conjunto de métodos interpretativos de fenômenos socioespaciais, cujo modelo conceitual baseia-se no conteúdo social dos padrões espaciais e no conteúdo espacial dos comportamentos sociais. Nessa concepção, o espaço não é entendido como um pano de fundo neutro para os processos culturais e sociais: pelo contrário, o espaço é assumido como tendo uma lógica e um significado social inerente (3), o que contribuiu para o entendimento da lógica espacial das sociedades (4).

A Sintaxe Espacial explora as relações entre os elementos pertencentes a um sistema espacial, ao invés de analisar cada elemento isoladamente. Um sistema, por sua vez, é entendido como um conjunto de elementos interconectados, sendo que uma alteração individual nessas conexões pode gerar repercussões para o todo (5). Assim, os assentamentos humanos podem ser abstraídos como sistemas espaciais formados por duas categorias principais de elementos: as barreiras (edifícios isolados ou em conjunto formando quarteirões) e as permeabilidades (ruas, praças e demais espaços livres), que condicionam, através de restrições e permissões físicas, o movimento e os encontros sociais potenciais no espaço (6).

Os métodos analíticos da Sintaxe Espacial são capazes de lidar com diferentes escalas, investigando o sistema a partir de suas partes, que são exploradas e percebidas com o objetivo de descrever o sistema como um todo, medindo e definindo o padrão de suas relações (7). Essa forma de analisar o espaço busca superar as discussões construídas até o momento de sua criação, que mantinham uma visão local, sem grandes conexões com as consequências e particularidades destas abordagens em uma escala de cidade ou região, permanecendo esquemáticos na relação social com o espaço (8).

Na Sintaxe Espacial, a maneira tradicional de descrição abstraída de um sistema espacial, a fim de revelar seus atributos, é a decomposição axial, na qual a rede de espaços livres de um assentamento – bidimensional – sofre uma simplificação unidimensional, reduzindo-os a unidades de análise chamadas linhas axiais, as quais constituem o mapa axial. Esse é obtido pela inserção no sistema de espaços livres do menor número de linhas retas que os perpassam. A partir dele, as propriedades espaciais do sistema são mensuradas em softwares configuracionais, utilizando como referência a distância topológica e a conexão entre as linhas axiais, e traduzidas em variáveis sintáticas diversas, as quais podem ser correlacionadas a fenômenos socioespaciais(9).

A principal variável sintática axial é chamada integração, que mensura o grau de acessibilidade relativa de uma linha axial em relação a todas as demais do sistema, ou seja, é um indicativo de centralidade morfológica por proximidade topológica. A medida permite avaliar cada linha axial em termos de integração e/ou segregação espacial, baseados no conceito de “profundidade”, correspondente ao número de passos topológicos (mudanças de direção efetuadas entre as linhas axiais em um deslocamento) necessários para se alcançar todas as outras linhas do sistema (10).

Globalmente, quanto mais profundo é um sistema, mais passos topológicos são necessários para se acessar todas as demais linhas axiais. Ou seja, quanto maior a profundidade de uma linha axial, maior sua segregação, menor seu valor de “integração” e menor sua acessibilidade relativa. Em tecidos urbanos tradicionais, probabilisticamente, linhas mais integradas tendem a apresentar maiores níveis de fluxos, interação social e concentração de atividades que se beneficiam de maior movimento, como o comércio e os serviços (11), justamente pela facilidade de acesso geral.

A “integração” pode ser calculada em dois níveis: global (Rn) e local. No primeiro caso, considera-se o número total de mudanças de direção existente no sistema espacial, não impondo nenhum limite para a análise; já no segundo, restringe-se o cálculo a um determinado raio topológico, depreendendo uma visão das centralidades locais. A integração local de raio três é muito utilizada em estudos de movimento de pedestres, os quais geralmente realizam percursos mais curtos topologicamente. Entretanto, raios maiores, como cinco, sete ou dez, podem ser mais adequados para sistemas mais profundos, que impõem percursos topologicamente maiores (12).

A Sintaxe Espacial incorporou, posteriormente, outras ferramentas de análise espacial, como os grafos de visibilidade (13) adaptando o conceito de isovistas (14). Diferentemente da decomposição axial, as isovistas e os grafos de visibilidade geram variáveis referentes aos campos visuais do espaço, também através do processamento em softwares configuracionais, tendo utilidade nos estudos de cognição ambiental. Uma isovista consiste em um polígono que representa toda a área visível a partir de um único ponto no espaço, ou seja, sua amplitude visual (15), registrada no mapa de áreas de isovistas. Este permite também avaliar a proeminência visual de um ponto, correspondente ao seu grau de visibilidade a partir de outros pontos. Já o grafo de visibilidade propicia a realização de análises mais amplas, considerando as relações ou conexões visuais existentes entre as isovistas dos outros pontos contidos no espaço em estudo.

Os pontos geradores de isovistas, para fins práticos, são representados por uma malha regular de dimensões fixas e compatíveis com a escala de análise. Através dessa representação, podem ser obtidas diversas medidas de propriedades espaciais que parecem estar relacionadas à percepção humana e cognição do ambiente construído, já que grande parte dessa informação captada é determinada pelo campo visual humano (16). Assim, as análises espaciais podem valer-se de grafos de visibilidade, considerando barreiras visuais e o espaço que pode ser visto, mas também grafos de permeabilidade, considerando barreiras ao movimento e o espaço para onde se pode deslocar-se (17).

Metodologia

A pesquisa iniciou-se com uma revisão bibliográfica a respeito da organização espacial tradicional das comunidades indígenas. Posteriormente, foi realizado um levantamento da organização atual da Aldeia Kondá, com mapeamento através de observações sistemáticas, visitas exploratórias e entrevistas com membros da comunidade. Esta etapa teve como objetivo compreender o espaço habitado da aldeia a partir dos significados funcionais e simbólicos atribuídos pelos moradores a determinados espaços do território. As observações e descrições deram origem ao mapa da aldeia, com espacialização de informações como: traçado, limites, principais locais simbólicos e grupos familiares.

Seguiu-se às análises configuracionais da aldeia com a criação e processamento dos mapas axiais, de áreas de isovistas e dos grafos de visibilidade/permeabilidade no software Depthmap, a partir de dados obtidos do Google Earth, para o ano de 2016. Os processos de construção dos mapas e operação do software para gerar as medidas são detalhados em diversos manuais da Sintaxe Espacial, que podem ser consultados para mais informações (18). Ressalta-se que foram desenvolvidos três mapas axiais, com algumas diferenças: 1. considerando apenas o sistema viário oficial da aldeia, desconectado da via que a liga ao município; 2. com as vias oficiais da aldeia conectadas ao entorno e 3. incluindo os caminhos internos alternativos criados pela própria comunidade, que são característicos da sua cultura.

Nos mapas de isovistas e grafos de “visibilidade” (construídos considerando barreiras visuais a dois metros de altura, correspondente a um observador em pé) e “permeabilidade” (construídos com a referência de altura ao nível do solo, ou seja, registrando barreiras ao movimento), a unidade de análise é o ponto no espaço, em uma malha 10 x 10 m. O processamento no software espacializa as medidas configuracionais em uma escala cromática que varia dos tons frios (menores valores) aos tons quentes (maiores valores), o que facilita a sua interpretação, sendo dessa forma aqui apresentados.

Finalmente, fez-se a comparação dos padrões configuracionais com os padrões de uso empíricos, buscando verificar: 1. a existência de relação entre a centralidade morfológica da aldeia, indicada pelo mapa de integração global, e a localização das suas áreas referenciais; 2. as repercussões morfológicas que os caminhos alternativos abertos pelos indígenas trouxeram para a aldeia, obtidas comparando-se os mapas de integração global e local do sistema antes e depois dessa intervenção; 3. uma possível associação entre visibilidade, dada pelo grafo correspondente, e localização dos locais simbólicos tradicionais da comunidade e 4. a existência de relação entre os acessos visuais permitidos aos não indígenas e o seu controle visual da aldeia, a partir da análise das áreas de isovista.

A estrutura socioespacial kaingang tradicional

A denominação Kaingang, que em sua língua pode ser traduzida como “povo do mato”, constitui o marco inicial que diferencia este povo dos não indígenas, ao mesmo tempo em que afirma a especificidade de sua identidade frente a outras etnias indígenas existentes no Brasil (19). Os Kaingang têm grande apreço pelas matas, por estas desempenharem papel central na vida do povo, oferecendo-lhes insumos à dieta alimentar e constituírem simbolicamente o local onde habitam espíritos, além de ser fonte de remédios e energia para a comunidade. São classificados como sociedades sociocêntricas, isto é, reconhecem princípios sociocosmológicos dualistas. A sociedade e toda a natureza estão divididas em metades que se complementam, denominadas Kamé e Kairu, irmãos mitológicos (20).

As informações a respeito dos assentamentos humanos constituídos pelos grupos Kaingang, antes do contato com o não indígena, são resultado de pesquisas arqueológicas que vêm se desenvolvendo desde o século 19. Esse povo habita as regiões sul e sudeste do país (estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), desde antes da delimitação de fronteiras dos estados brasileiros (21) e constitui a maior população indígena do sul do país, com mais de sessenta mil pessoas (22).

Localização da ocupação indígena com destaque para o Povo Kaingang
Elaboração dos autores a partir do mapa Etno-Histórico do Brasil e regiões adjacentes de C

O mapa Etno-Histórico do Brasil e regiões adjacentes de Curt Nimuendajú (23), ilustra a diversidade das populações indígenas do Brasil bem como o território que ocupam. “No caso meridional, o etnólogo destacou a presença dos Kaingang, Botocudos (Xokleng) e Guarani (associados aos Carijó) com a indicação de mobilidade pelo território” (24). A imagem da localização da ocupação indígena destaca a presença do povo Kaingang na região e ilustra tal mobilidade, observada até a contemporaneidade. As áreas de abrangência que se desenham têm ligação com a noção de território e a relação com a terra, que se constrói de forma diferente da concebida pela cultura ocidental geral, e pela prática de visitas aos parentes que faz com que as famílias ou indivíduos migrem com facilidade entre as comunidades. Destaca-se ainda que as pesquisas arqueológicas realizadas em diferentes regiões de povoamento Kaingang relatam estruturas espaciais semelhantes, demonstrando a continuidade cultural da etnia, independente de sua localização geográfica.

As configurações pesquisadas constituem desde habitações a céu aberto, passando por abrigos subterrâneos e semi-subterrâneos até a construção de abrigos artificiais sobre o solo, incluindo edificações semelhantes às dos não indígenas (25).

As primeiras habitações utilizadas pelos Kaingang, datadas do século 14, foram os acampamentos a céu aberto, pois inicialmente eram um povo nômade. Dormiam sob pedras, mas na maioria dos casos, ao ar livre, não sendo comum, a ocupação de cavernas e abrigos sob rochas. Posteriormente, os grupos começaram a construir estruturas subterrâneas, utilizadas para fins residenciais, rituais e de armazenamento de alimentos (26).

Além da moradia, outras funções possíveis para determinados tipos e tamanhos de estruturas: as pequenas e médias caracterizam-se como habitação; as estruturas grandes podem estar relacionadas a centros cerimoniais; estruturas geminadas podem ter sido ocupadas por famílias comunais, compostas de duas ou três famílias nucleares; as galerias entre as estruturas subterrâneas poderiam ser utilizadas como estratégia de proteção tanto do frio quanto de invasores e, por fim, os aterros, hipoteticamente caracterizados com função funeral (27).

Sítios arqueológicos em Santa Catarina
Adaptado de A Problemática Arqueológica das Estruturas Subterrâneas no Planalto Catarinens [Sociedade e arqueologia brasileira, 2007]

Uma das primeiras descrições de uma grande casa Kaingang aparece em um relatório do engenheiro alemão Franz Keller, a serviço do governo imperial, com data de 1867 (28).

Os acampamentos a céu aberto, as casas subterrâneas e a casa grande Kaingang são as possibilidades apresentadas de arranjo residencial e cerimonial das aldeias antes do contato com a sociedade não indígena. Independentemente da forma arquitetônica, a configuração dos assentamentos, na maioria das vezes, compreendia mais de uma estrutura, possivelmente caracterizando grupos familiares próximos. Isso comprova mais uma característica importante do grupo, a valorização dos núcleos familiares como estrutura fundamental da organização espacial e social Kaingang:

Os princípios sociocosmológicos dualistas tradicionais Kaingang operam sobre uma estrutura social baseada na articulação de unidades sociais territorialmente localizadas, formadas de famílias entrelaçadas que dividem responsabilidades cerimoniais, sociais, educacionais, econômicas e políticas (29).

Esse breve panorama sobre as possiblidades dos assentamentos humanos tradicionais dos Kaingang permite compreender algumas dessas características e suas transformações presentes nas Aldeias contemporâneas.

A estrutura socioespacial Kaingang contemporânea – Aldeia Kondá

A partir dos estudos sobre as características socioespaciais indígenas, percebem-se as especificidades do povo Kaingang em relação aos não indígenas. Na Aldeia Kondá, a língua Kaingang representa hoje um dos símbolos diacríticos mais importantes para a identidade. As crianças aprendem primeiramente o Kaingang e, apenas quando vão para a escola regular, começam aprender a língua portuguesa. O sistema político Kaingang continua centrado na figura do Cacique, que é idealmente escolhido pela comunidade e apoiado pelo Conselho indígena. Politicamente, os Kaingang admitem alianças políticas com não índios com o objetivo de alcançar reivindicações e interesses da comunidade (30).

A questão das metades – Kaimé e Kairu – está presente e é significativa para a preservação do aspecto étnico Kaingang (31). Apesar de terem passado por um período em que a figura dos mais velhos ficou em segundo plano nas comunidades, hoje se percebe que os mais novos enxergam neles a chave para a revitalização da cultura tradicional indígena. "Uma atribuição que cabe aos mais velhos, é zelar pelas tradições do grupo. São eles que repassam os costumes de uma geração à outra" (32). Assim são frequentemente convidados a participar de ações educacionais nas aldeias estabelecendo maior contato com professores e crianças da comunidade (33).

Para compreender a organização espacial atual da Aldeia Kondá, é fundamental esclarecer que a comunidade tem como terra tradicional o centro de Chapecó. Com o processo de urbanização, esse grupo foi enclausurado em um território cada vez mais reduzido, até que em 1999 foram transferidos para a área onde vivem hoje. Esse histórico permite compreender que a área atualmente ocupada não é uma área tradicional Kaingang, mas que foi aceita pela comunidade em função das suas caraterísticas físicas serem adequadas à sua cultura, com presença da natureza e contato direto com o rio. Assim, há quase 20 anos a comunidade tem aprendido a lidar com esse novo espaço e aos poucos tem se adaptado à nova realidade.

Com base na organização espacial observada, o mapa da Aldeia Kondá destaca os elementos fundamentais: a) escola, como importante recurso de manutenção da cultura e do protagonismo indígena, além de estabelecer uma interface interétnica; b) campos de futebol, que simbolizam a união e o lazer da comunidade, além de possibilitarem vistas privilegiadas da natureza envolvente; c) mata, onde são realizados os rituais e as festas da comunidade; d) rios, que demonstram a relação com o elemento água como purificação e fonte de vida.

Esses lugares simbólicos representam a preocupação com a preservação da natureza. São apropriações feitas para adaptação da cultura ao espaço: os grupos familiares; os caminhos alternativos; e a noção de território comunitário. Destaca-se ainda que tais espaços estão conectados espacial e simbolicamente na medida em que, para além do espaço escolar, a mata cerimonial e os rios também são espaços de construção do saber na aldeia. Complementarmente, os campos de futebol, assim como a escola e a mata cerimonial, caracterizam-se por espaços de socialização, dando origem a uma centralidade com foco na de afirmação cultural dentro da comunidade indígena.

Os agrupamentos de cores significam que esse conjunto de residências é parte do mesmo grupo familiar. Esta organização orienta grande parte da configuração espacial da aldeia, e são formados por conjuntos de três a dez residências em torno da moradia de um ancião ou uma mãe.

As casas se posicionam de forma a se conectarem ao núcleo familiar, e não priorizar suas frentes para o sistema viário como se observa na cidade não indígena. Para consolidar essa conexão, as pessoas abrem caminhos alternativos ao longo de toda a aldeia, estabelecendo as ligações intragrupo e entre grupos familiares.

Grupos familiares
Elaboração dos autores

Grupos familiares e caminhos alternativos
Elaboração dos autores

Além das vias abertas pela prefeitura, existem dezenas de caminhos alternativos, abertos ou na vegetação rasteira ou na mata, que permitem a ligação direta entre residências e entre os agrupamentos de residências, encurtando caminhos. Este aspecto organizacional está ligado à noção de territorialidade. Não existem barreiras ou delimitação de lotes privados, fazendo com que os novos caminhos passem muito próximos das residências, revelando uma amplitude maior do espaço coletivo.

Nota-se que, mesmo vivendo sob a influência da sociedade não indígena do entorno, os Kaingang da Aldeia Kondá continuam se reproduzindo enquanto grupos etnicamente diferenciados. Esse movimento na direção da preservação da cultura fica evidente nas práticas descritas, nos lugares produzidos a partir delas e, também, nas suas falas, que expressam um processo de reforço da cultura, na medida em que assumem o protagonismo tanto das ações culturais no interior da aldeia quanto na escrita da história da comunidade, antes elaborada apenas por autores não indígenas do entorno.

Resultados e discussão

Integração axial

Conforme descrito na metodologia, foram analisadas três duplas de mapas axiais: 1. com apenas o sistema viário oficial da aldeia, desconectado da via de acesso que a liga ao restante do município; 2. com as vias oficiais da aldeia conectada ao entorno e 3. com os caminhos internos alternativos criados pela própria comunidade.

Análise axial da integração da aldeia isoladamente
Elaboração dos autores

Análise axial da integração da aldeia conectada com o restante do município
Elaboração dos autores

Análise axial da integração da aldeia com caminhos alternativos
Elaboração dos autores

A primeira análise efetuada foi a dos padrões de integração no mapa axial que considera somente as vias internas oficiais da aldeia, buscando identificar a existência de relação entre a centralidade morfológica da aldeia e a localização das áreas referenciais da comunidade. Percebe-se que os locais que concentram um maior número de atividades estão muito próximos das linhas amarelas e vermelhas, que configuram o centro morfológico da aldeia. Corroborando o que indica a análise configuracional, esses usos condizem com a maior acessibilidade geral.

Sobreposição do mapa axial de integração com o mapa dos pontos simbólicos da aldeia
Elaboração dos autores

A segunda verificação realizada trata das repercussões morfológicas que os caminhos alternativos abertos pelos indígenas trouxeram para a aldeia, comparando-se os padrões de integração em duas situações: sem e com os caminhos. Percebeu-se que, na segunda situação, derivada da apropriação do território pela comunidade, a aldeia ficou mais integrada tanto local quanto globalmente, melhorando a acessibilidade dos grupos familiares entre si. Os caminhos alternativos representam a materialização da lógica social indígena, uma vez que a sua construção é uma adaptação do espaço para aproximar a comunidade de um modo de viver que prioriza a aproximação entre as residências dos grupos familiares em detrimento de uma orientação das casas para uma via de transito de veículos já construída. Para ilustrar essa comparação, a imagem de comparação dos mapas axiais de integração global mostra de forma ampliada a mesma área da aldeia com e sem as rotas alternativas feitas pela comunidade. Neste caso, a linha em destaque, destacada por ser a mais integrada do conjunto, teve o valor de integração global alterado de 0.25 para 0.34.

Comparação dos mapas axiais de integração global
Elaboração dos autores

Assim, as análises axiais sugerem que exista uma relação entre a acessibilidade, indicada pelas medidas de integração, e a organização do espaço pela comunidade. A apropriação feita pelos indígenas, com a criação dos caminhos alternativos, aumenta a integração local, reforçando espacialmente os valores tradicionais (voltados aos grupos familiares) e a coletividade da aldeia. Esta se apresenta como aspecto espacial que diferencia a lógica de ocupação do espaço indígena da não indígena.

Visibilidade e permeabilidade

Com os grafos de visibilidade, analisou-se a possível associação entre visibilidade e localização dos locais simbólicos tradicionais da comunidade. Conforme constatado nas entrevistas realizadas, o conhecimento a respeito dos locais simbólicos é de domínio da comunidade e das pessoas com as quais ela escolhe compartilhar. Mesmo sendo elementos naturais constituídos maioritariamente por vegetação, as barreiras visuais definem a localização de lugares estratégicos da aldeia, garantindo menor acesso visual aos indivíduos que desconhecem o lugar ou não estão acompanhados por moradores locais.

Para compreender essa relação, foi desenvolvido primeiramente o mapa de visibilidade, que contempla apenas barreiras visuais. Neste caso, foram consideradas as edificações e massas vegetadas acima de dois metros de altura. Posteriormente, foi elaborado o mapa de permeabilidade, que considera além dessas barreiras visuais, as barreiras ao movimento, sendo inclusos rios, açudes e lagos.

Mapa de visibilidade e mapa de permeabilidade
Elaboração dos autores

Conforme indicam os grafos, as áreas mais visíveis e permeáveis, principalmente na entrada da aldeia não correspondem a nenhum espaço importante do ponto de vista simbólico para os Kaingang, por isso o acesso e a visibilidade são liberados. Apenas quando se está no interior da aldeia, ou seja, quando a presença de um visitante já foi notada pelos moradores, é que se tem acesso aos espaços públicos e, posteriormente, à mata e aos rios, mediante o acompanhamento de um membro da comunidade.

Para esclarecer melhor essa questão, a imagem de áreas de isovistas mostra a área da isovista de uma pessoa situada na entrada da aldeia (em azul) e outra mostra a visão da atual residência do cacique (em vermelho). Pela sobreposição das áreas de isovistas, percebe-se que o controle e o acesso visual no “centro” da aldeia são representativos, quando comparados ao da entrada da aldeia.

Áreas de isovistas
Elaboração dos autores

Assim, quando considerados os grafos de visibilidade e o mapa de áreas de isovista, percebe-se que existe um controle estabelecido através da hierarquia de visibilidade dos locais simbólicos, principalmente na entrada da aldeia e na escola. Quando consideradas as barreiras ao movimento/permeabilidade, percebe-se que a medida de integração se comporta de forma diferente daquela das linhas axiais, conferindo à aldeia mais profundidade na maior parte do território.

Considerações finais

A Aldeia Kondá possui uma espacialidade diferenciada das ocupações não indígenas. Essas diferenças caracterizam a busca pela afirmação cultural e o resgate das bases tradicionais do Povo Kaingang. Verificou-se que o sistema espacial da aldeia tende à linearidade, isto é, à disposição sequencial de linhas axiais formando caminhos mais longos, quase sem bifurcações ou anéis que possibilitem percursos alternativos. Por esse motivo, a aldeia caracteriza-se como um sistema profundo e há a necessidade de se utilizar raios topológicos maiores nas análises de centralidade local, de modo a compensar maiores distâncias topológicas envolvidas nos deslocamentos. Assim, optou-se por se utilizar, além da “integração global”, a variável “integração local R10”, ambos referentes à unidade de análise “linha axial”. Conforme observado nos mapas axiais, a aldeia é integrada localmente, isto é, tem fácil acesso para os moradores aos equipamentos públicos e aos locais cerimoniais e de lazer. Porém, o acesso aos lugares fundamentais simbólicos da comunidade é restrito para os não indígenas, valendo-se da configuração espacial local que torna estes lugares mais segregados em relação à entrada da aldeia.

Verificou-se uma correspondência espacial entre as centralidades morfológica (indicada pela medida axial de integração) e funcional (dada pela concentração dos espaços coletivos). Também foi possível compreender a construção dos caminhos alternativos como uma necessidade de adaptação da configuração espacial, de forma a contribuir para a manutenção das estruturas familiares nucleares (disposição das moradias) e promover maior integração espacial na aldeia.

Por outro lado, as análises de visibilidade e permeabilidade confirmam a fronteira existente na permissão de acesso aos não indígenas à aldeia, mesmo que não sejam construídas barreiras físicas. Os lugares que a comunidade valoriza culturalmente estão mais profundos no sistema, exceto a escola, que tem relação direta com a sociedade não indígena e, portanto, faz a interface entre essas duas culturas.

Este estudo exploratório mostrou que as diferenças entre aquilo que se quer mostrar e o que se quer preservar na comunidade, em relação ao não indígena, têm implicações claras quanto à organização espacial da aldeia. As medidas sintáticas utilizadas para a leitura e análise do espaço em termos de possibilidades de encontro social mostraram-se promissoras para o entendimento da lógica de uso do espaço. Em trabalhos futuros, seria interessante repetir esse tipo de análise com outros objetos de estudo, a fim de abarcar a diversidade étnico-cultural dos povos indígenas brasileiros.

notas

1
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Características Gerais dos Indígenas: Resultados do Universo. Rio de Janeiro, IBGE / Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 2010.

2
DILL, Fernanda. Linguagem sociespacial: A dimensão espacial do modo de viver Kaingang. Tese de doutorado. Florianópolis, PósARQ UFSC, 2019.

3
HILLIER, Bill; HANSON, Julienne. The social logic of space. Cambridge, Cambridge University Press, 1984.

4
HOLANDA, Frederico de. O espaço de exceção. Brasília, UnB, 2002.

5
ECHENIQUE, Marcial. El concepto de sistemas, modelos y teorias en los estudios urbanos. In ECHENIQUE, Marcial (org.) Modelos Matemáticos de La Estructura Urbana: Aplicaciones en América Latina. Programa editorial de la Sociedad Interamericana de Planificación. Buenos Aires, Ediciones SIAP, 1975.

6
HOLANDA, Frederico de. Op. cit.

7
KARIMI, Kayvan. A configurational approach to analytical urban design: ‘Space syntax’ methodology. Urban Design International, v. 17, 2012.

8
PEPONIS, John. Espaço, cultura e desenho urbano no modernismo tardio e além dele. Revista AU, n. 41, São Paulo, 1992.

9
HILLIER, Bill; HANSON, Julienne. Op. cit.

10
Idem, ibidem.

11
HILLIER, Bill; PENN, Alan; HANSON, Julienne; GRAJEWSKI, Tadeusz; XU, Jianming. Natural Movement: Or, Configuration and Attraction in Urban Pedestrian Movement. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 20, 1993.

12
MACIEL, Filipe Bassan Marinho; ZAMPIERI, Fábio Lúcio Lopes. Atributos morfológicos configuracionais e copresença em loteamentos residenciais dispersos de cidades médias brasileiras. Revista de Morfologia Urbana, v. 6, n. 1, 2018.

13
TURNER, Alasdair; DOXA, Maria; O’SULLIVAN, David; PENN, Alan. From isovists to visibility graphs: A methodology for the analysis of architectural space. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 28, 2001.

14
BENEDIKT, Michael. To Take Hold of Space: Isovists and Isovist Fields. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 6, 1979.

15
TURNER, Alasdair; DOXA, Maria; O’SULLIVAN, David; PENN, Alan. Op. cit.

16
SABOYA, Renato Tibiriçá de. Análises de visibilidade e permeabilidade. Texto de apoio. Florianópolis, PósARQ UFSC, 2016.

17
Idem, ibidem, p. 3.

18
AL SAYED, Kinda; TURNER, Alasdair; HILLIER, Bill; IIDA, Shinichi; PENN, Alan. Space Syntax methodology. Londres, Bartlett School of Architecture, 2014.

19
NACKE, Aneliese. Os Kaingang: passado e presente. In NACKE, Aneliese; RENK, Arlene; PIOVEZANA, Leonel; BLOEMER, Neusa Maria Sens. Os Kaingang no oeste catarinense: Tradição e Atualidade. Chapecó, Argos, 2007.

20
TOMMASINO, Kimiye; FERNANDES, Ricardo Cid. Kaingang. In Povos Indígenas do Brasil <https://bit.ly/3wQ150O>.

21
SCHILD, Joziléia Daniza Jagso Inacio Jacodsen. Mulheres Kaingang, seus caminhos, políticas e redes na TI Serrinha. Dissertação de mestrado no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social. Florianópolis: UFSC. 2016.

22
BRIGHENTI, Clovis Antonio. Povos Indígenas em Santa Catarina. Florianópolis, UFSC 2012.

23
NIMUENDAJÚ, Curt. Etnografia e indigenismo – Sobre os Kaingang, os Afaié-Xavante e os índios do Perá. Campinas, Unicamp.1913.

24
ALMEIDA, Carina Santos de. Tempo, memória e narrativa Kaingang no oeste catarinense: A tradição Kaingang e a proteção tutelar no contexto da transformação da paisagem na Terra Indígena Xapecó. Tese de doutorado. Florianópolis, PPGH UFSC, 2015.

25
Idem, ibidem.

26
NÖTZOLD, Ana Lúcia Vulfe. Nosso vizinho Kaingang. Florianópolis, Imprensa Universitária da UFSC, 2003.

27
REIS, Maria José. A Problemática Arqueológica das Estruturas Subterrâneas no Planalto Catarinense. Erechim, Sociedade e arqueologia brasileira, 2007.

28
D’ANGELIS, Wilmar R.; VEIGA, Juracilda. Habitação e Acampamentos Kaingang hoje e no passado. Cadernos do CEOM, n. 18, 2003.

29
Idem, ibidem.

30
NACKE, Aneliese. Op. cit.

31
NASCIMENTO, Ernilda Souza do. Há vida na história dos outros. Chapecó, Argos, 2001.

32
NÖTZOLD, Ana Lúcia Vulfe. O ciclo de vida Kaingang. Florianópolis, Imprensa Universitária da UFSC, 2004, p. 50.

33
Idem, ibidem.

sobre os autores

Fernanda Machado Dill é doutora em Arquitetura e Urbanismo (UFSC, 2019), arquiteta pelas Faculdades Barddal de Artes Aplicadas (2018) e designer de produto pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (2007). Pesquisa a linguagem socioespacial e as relações estabelecidas entre diferentes culturas e o espaço que produzem e habitam.

Vanessa Goulart Dorneles é doutora (2014) e mestra (2006) em Arquitetura e Urbanismo pela UFSC e arquiteta (2003) pela UFSM. É professora do curso de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da UFSM. Pesquisas abrangem a relação pessoa e ambiente, psicologia ambiental, ergonomia, desenho universal e estudos de paisagismo.

Filipe Bassan Marinho Maciel é mestre em Planejamento Urbano e Regional pela UFRGS (2018) e arquiteto e urbanista pela UFSM (2014). Foi professor substituto na UFSM e atualmente é doutorando em Planejamento Urbano e Regional da UFRGS. Pesquisa desenho urbano, morfologia urbana, estrutura urbana e copresença.

Renato Tibiriçá de Saboya é doutor em Engenharia Civil pela UFSC (2007), mestre em Planejamento Urbano e Regional pela UFRGS (2001) e arquiteto pela UFSC (1997). É professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PósARQ) da UFSC. Pesquisas em morfologia urbana, configuração, segregação socioespacial e dinâmicas urbanas.

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