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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Este artigo versa sobre uma experiência de investigação que tomou como desafio acessar virtualmente a paisagem sonora de cidades brasileiras durante um período da quarentena urbana. A partir da análise de 1769 respostas de um questionário on-line.

english
This article deals with an investigation experience that had as a challenge to access virtually the soundscape of Brazilian cities during a period of urban quarantine, based on the analysis of 1769 responses from an on-line survey.

español
Este artículo trata de una experiencia de investigación que tuvo como desafío acceder virtualmente al paisaje sonoro de las ciudades brasileñas durante un período de cuarentena urbana, basado en el análisis de 1769 respuestas a un cuestionario on-line.


how to quote

OLIVEIRA, Roseline Vanessa Santos; et. al. Percepção da paisagem sonora em uma quarentena urbana. Arquitextos, São Paulo, ano 23, n. 266.04, Vitruvius, jul. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/23.266/8551>.

De fora para dentro

“Som: objeto do ouvido. É uma vibração ou movimento trêmulo impresso em várias pequenas partes do corpo sonoro, como no sino, quando se tange, ou na corda, quando se toca, que, ferindo o ar, se propaga e comunica ao órgão do ouvir, com mais ou menos eficácia” (1).

O cenário pandêmico o qual temos enfrentado desde o início do ano de 2020, especialmente o construído durante o período de isolamento social, evidenciaram velhos desafios encarados por bases interdisciplinares. Estes tiveram que urgentemente se voltar para o re-conhecimento da cidade e de suas dinâmicas. Inadequação habitacional, desigualdade social e fragilidade urbanística, especialmente ao que se refere à mobilidade pública e ao saneamento básico, são alguns deles, quando as medidas de combate ao vírus estão sintetizadas na eficiência na suspensão da vida associada ao ar livre (2).

Enquanto os cuidados voltados ao coletivo se mostraram reféns de uma crise sanitária e econômica e de suas pressões à manutenção de postos de trabalho, na escala micro do cotidiano, outras dinâmicas são criadas pelos que podem ou precisam “ficar em casa”, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde — OMS (3). A casa, dentre outros ambientes fechados, é rearranjada para atender a um outro jeito de habitar que, no início do período de reclusão social, contou com o espaço público apenas para o desenvolvimento e acesso a serviços essenciais, tornando-a mais intensa, mais privada, mais voltada aos afazeres domésticos e à sua compatibilização com tarefas do ofício, antes executado fora dela.

Preenchendo a casa, esvaziamos as ruas e, com isso, transformamos as formas de perceber a cidade, uma vez que fomos drasticamente forçados a mudar a nossa maneira de morar, de trabalhar, de se relacionar. Nessas dimensões, situa-se também aquele que propositadamente se põe a observar e refletir sobre situações e circunstâncias — o pesquisador — o qual tem reconhecido a vitalidade do espaço habitado como um dos componentes mais expressivos do caráter urbano da cidade. Tal relação foi teorizada, assumida e incentivada por Guy Debord (4) e o Situacionismo nos anos de 1950 e, mais recentemente, por Francesco Careri (5) e a Caminhabilidade, ao tomarem o corpo, e não os livros, como principal veículo para sua compreensão, pois, “no momento em que a cidade — o corpo urbano — é experimentado, esta também se inscreve como ação perceptiva e, dessa forma, sobrevive e resiste no corpo de quem a pratica” (6). As derivas e as observações da paisagem em seu próprio ambiente físico têm sido, desde então, consideradas como técnicas metodológicas, não apenas para revisão e averiguação de informações, como também para re-conhecer a cidade enquanto documento (7).

Nesse sentido, podemos compreender que a cidade é uma criação perceptiva para além de sua composição material e que a paisagem configura uma condição variável de acordo, entre outros aspectos, com nossos princípios e conhecimento (8). Ela se constitui a partir de experiências subjetivas cujo entendimento pode revelar fenômenos de relações espaciais e sociais importantes para se pensar o meio urbano e a forma como o apropriamos.

Esse processo de apreensão e construção paisagística, que tem o tempo e a experiência como os principais ingredientes de sua consolidação, foi, como dito, afetado com a exigência de uma brusca readequação da vida em sociedade motivada pela pandemia da Covid-19. Tal circunstância destacou velhos medos e desejos e promoveu outros, especialmente pelo decreto público de distanciamento social sintetizado no slogan “Fique em casa” o qual direcionou uma certa inversão de movimentos das mais diversas abrangências.

Na medida em que gestos humanos foram restringidos e readequados, dinâmicas e fluxos sociais, por extensão, também sofreram bruscas interferências. Assim, dentre os processos empíricos de produção de conhecimento relativamente à dinâmica provocada pela pandemia, situam-se as relativas aos sons que a cidade constrói e que, ao mesmo tempo, é por eles construída (9).

“Toda experiência comovente com a arquitetura é multissensorial; as características de espaço, matéria e escala são medidas igualmente por nossos olhos, ouvidos, nariz, pele, língua, esqueleto e músculos” (11). Sob esta ótica, a paisagem pode também ser compreendida como uma determinada área, conforme percebida pelas pessoas, cujo caráter é o resultado da ação e interação de fatores naturais e / ou humanos” (11).

No âmbito da Acústica enquanto disciplina, a definição de paisagem foi aplicada ao ambiente construído pelos sons, com o termo de Paisagem Sonora. Trata-se de uma abordagem epistemológica oriunda dos anos de 1970, visando permitir o acesso ao ambiente sonoro através da percepção humana e investiga-lo (12). A paisagem sonora consistiria, então, no ambiente acústico conforme percebido ou experimentado e compreendido individualmente ou coletivamente (13), considerando as inter-relações entre pessoa, atividade e lugar, no espaço e no tempo, e pode ser influenciada por meio: 1. da sensação auditiva, 2. da interpretação da sensação auditiva e 3. das respostas ao ambiente acústico.

Nesse sentido, nos estudos dessa paisagem, o ambiente acústico é observado para além do sentido epidemiológico do ruído e das métricas quantitativas (14). A experiência corpórea e a subjetividade constituem uma forma sensível de proceder diante do conhecimento, estimulando as possibilidades de manipulação dos dados e dando margem para a invenção de outras maneiras de entender determinadas questões relacionadas à multiplicidade de dinâmicas paisagísticas (15).

O recente quadro efervescente de mudança que abrange qualidade sanitária, espacial, mental e social, demandou urgência de registro, compreensão e atuação, pressionando o ofício da investigação acerca dos sons provenientes das circunstâncias motivadas pela pandemia. Nessa perspectiva, o desenho de uma paisagem da quarentena a partir da observação dos sons e suas derivações na vivência urbana é o que se apresenta nesse artigo. Este é colocado na condição de fornecer subsídios, mesmo que ainda de forma incipiente, ao reconhecimento dessa dinâmica citadina excepcional, na medida em que se entende que essas vibrações configuram paisagens e que a identificação de sua produção e de seus significados têm muito a contribuir para a compreensão das formas de vida coletiva, uma vez que o espaço, do privado ao público, consiste em “uma composição sonora e é também um reflexo das mudanças estruturais da sociedade” (16).

Para tanto, o desafio posto foi o de registrar e compreender a forma como paisagem sonora aconteceu em partes do Brasil durante um período de quarentena. Diante das limitações operacionais desenhadas justamente pela necessidade de isolamento social, viu-se no acesso virtual uma ferramenta possível de coleta de informações e, assim, poder usufruir do “medir por pessoas”, um instrumental familiar dentre os estudos na área de paisagem sonora utilizado para analisar o ambiente acústico a partir da percepção do usuário.

Vale dizer que a observação é principalmente retrospectiva, ou seja, acontece inevitavelmente ativando a memória, portanto, consiste em um processo de atenção combinado com a lembrança sensória e informativa de curto prazo. Este tipo de medição tem a capacidade de capturar, avaliar e restaurar afetos e comportamentos (17), permitindo a compreensão da paisagem sonora como um sistema complexo e contextualizado (18), de forma a respeitar a maneira com o indivíduo vivencia, pensa, lembra e se manifesta no ambiente.

Paisagens sonoras observadas à distância

“Ouvir: sentir o som, a voz, as palavras” (19).

Como já mencionado, a mudança que a pandemia causou na dinâmica das cidades rendeu a necessidade de uma reorganização das formas de habitá-la e, com a intensificação do uso do ambiente privado, o espaço da investigação sobre ela teve que ser adaptado. O isolamento social significou também o isolamento do campo e, com isso, a atenuação de interações e intimidades processuais, a restrição de acesso às pessoas e aos fenômenos que produzem e as cercam. Este fator, demandou dos pesquisadores a elaboração de um outro mecanismo para, sem saírem de casa, realizar seu ofício e produzir conhecimento, no caso, acerca das expressões da paisagem sonora durante um período da quarentena.

Se a experiência empírica foi, por tempo indeterminado, suspensa, a possibilidade de subverter tal restrição vem sendo aberta pelos caminhos virtuais (20). Aqueles calcados pela memória, pelas lembranças, pelas projeções particularizadas e, também, por aqueles conquistados pelas Humanidades Digitais, permitindo produções e aproximações de abrangências e alcances inimagináveis (21).

Sabe-se, no entanto, das ressalvas que se têm ao entendimento da substituição do contato presencial por aqueles mediados pelas telas das máquinas, as quais inibem a sofisticação das relações propiciadas pelo calor humano (22). Os riscos de contaminação e disseminação do vírus obrigatoriamente remodelaram o velho método de perguntar o qual, efetivado presencialmente, está sujeito a acessar não apenas palavras como respostas, mas outros dados expressos pela dimensão dos sentidos. Como, por exemplo, a maneira que o corpo e a voz se comportam durante o ato de responder e registrar, e de vários outros fenômenos que configuram o ambiente no momento de troca.

Nessa perspectiva, ressalta-se que, nesse percurso de adaptação, longe do campo, acessar a percepção do som da cidade em quarentena assincronicamente requereu um esforço diferente de interpretar narrativas, de criar conexões entre depoimentos, de experimentar outras empirias descoladas do contato com o outro. Sobretudo, de reaprender a ouvir, pois, esse desafio não se trata apenas da paisagem sonora que o depoente constrói e que dela participa (23), mas como essa percepção chega ao pesquisador, este também mediado por circunstâncias pandêmicas, uma vez que “quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido” (24).

Contudo, não se pode negar que, em tempos de pandemia, “nunca fomos tão digitais” na medida em que as paisagens de pixels e os contatos virtuais têm dado alternativas à continuidade da vida, permitindo a execução de trabalhos, a vivência de afetividades e, mesmo, a garantia de despedidas, muitas vezes definitivas, entre os isolados (25).

O início do processo de aproximação com a paisagem sonora se deu com a elaboração de uma série de questões pressupostamente capazes de abordar a rotina da vida em isolamento, de acordo com os procedimentos a seguir apresentados. Partindo já da rede de contatos especialmente mediados por bases institucionais (26), durante os meses de maio e junho de 2020, foram virtualmente disponibilizadas nas redes sociais uma séria de perguntas que abrangem informações em torno da demografia, do ambiente de habitação (interno e externo) e da percepção sonora (27). Para as abordagens de múltipla escolha, utilizou-se a escala de Likert (28), cuja lógica tem a pretensão de medir atitudes de comportamento, utilizando opções de respostas que variam de um extremo a outro.

Já contando com os recursos digitais como veículo de acesso ao outro, o conjunto de questões foi estruturado na plataforma on-line Google Forms, por permitir que os retornos fossem registrados com maior agilidade, além de dispor de uma base de organização de dados favorável à sua sistematização e análise. O artifício do formulário on-line mostrou-se bastante adequado ao desenvolvimento da observação à distância, configurando uma ferramenta viável para coleta de dados durante o período de isolamento social.

Dentre as várias motivações das perguntas, situa-se aquela voltada para a compreensão das mudanças no ambiente sonoro do espaço habitado durante a quarentena, buscando registrar a percepção de se o ruído na região teria, por exemplo, diminuído, aumentado ou permaneceu inalterado. Como o questionário foi publicado em redes sociais e em redes institucionais, o público respondente possui enquadramentos demográficos específicos. A maior concentração de respondentes foi do estado de Alagoas e de Santa Catarina (estados que sediam as instituições de pesquisa às quais os autores estão vinculados), seguidos de São Paulo e Minas Gerais. Apenas do estado de Roraima não houve manifestação.

Quantitativo de respostas ao questionário por estado
Elaboração dos autores, 2020

Os gráficos “Dados demográficos de gênero e idade dos respondentes” e “Dados demográficos de deficiência e escolaridade e dos respondentes” apresentam que o perfil dos respondentes ficou caracterizado como a maioria homens, jovens de dezoito a 39 anos, universitários, pós-graduados. Estimamos que o perfil constituído significou consequência da forma como o questionário foi disponibilizado: pelos e-mails, sites e redes sociais institucionais.

Dados demográficos de gênero e idade dos respondentes
Elaboração dos autores, 2020

Dados demográficos de deficiência e escolaridade e dos respondentes
Elaboração dos autores, 2020

A maioria dos participantes das diferentes regiões do Brasil, perceberam que o ruído ‘Diminuiu’ (53,3%). A opinião de ‘Não houve mudança’ permaneceu numa segunda posição de indicação (32,6%). Uma parcela menor dos respondentes apresentou a percepção que o ruído ‘Aumentou’ (14,1%) e não foi superior a 15% da totalidade das opiniões considerando todos estados.

Percentual de respostas sobre a percepção do ruído durante o período de aplicação do questionário
Elaboração dos autores, 2020

A distribuição de todas as respostas sobre a percepção ao incômodo do ruído (escala de Likert), no interior da habitação e no ambiente externo, durante o período de pandemia é apresentada no gráfico “Percepção sonora dos respondentes sobre a percepção sonora, relacionada com o incômodo do ruído, no interior da edificação e no entorno do ambiente externo”. As respostas consideraram uma escala de 1 a 5, sendo 1 (muito barulho), 2 (barulho), 3 (Adequado), 4 (Silencioso) e 5 (Muito silencioso), mede atitudes de comportamento, utilizando opções de respostas que variam de um extremo a outro. A média das respostas permaneceu entre 3,13 e 3,35, o que mostra a tendência das respostas pela classificação “Adequado e Silencioso”, com aproximadamente 30% das escolhas para cada classificação, tanto na habitação, quanto no entorno. Sendo que 65,5% dos respondentes não se incomodaram com o ruído no interior da habitação e 61,4% no exterior. O total das opiniões de “Barulho” e “Muito Barulho” da percepção sonora alcançaram na habitação 19,6% e no entorno 28,2%, sendo assim, o maior incômodo foi atribuído ao ruído externo.

Percepção sonora dos respondentes sobre a percepção sonora, relacionada com o incômodo do ruído, no interior da edificação e no entorno do ambiente externo
Elaboração dos autores, 2020

As expressões destes registros da percepção sonora, em síntese, demonstraram que parte do país, mesmo integrando aquele categorizado com um dos mais ruidosos do mundo, registraram quedas perceptíveis dos níveis de pressão sonora.

Os registros também evidenciam que as fontes sonoras que causam mais incômodo e que foram mais citadas entre os respondentes consistiu: em primeiro lugar, os sons de veículos (42%), seguido de sons humanos, como vizinhos e crianças (29%) e eletrônicos (16%). Entre os sons antes não percebidos, destacaram-se os sons da natureza (40%), observados diante da atenuação do ruído urbano, aqueles que representam a própria quarentena, como a da intensificada rotina privada dos vizinhos, sons humanos (39%) como também o do medo, como registraram os depoentes ao indicarem a presença recorrente dos sons de ambulâncias. Por outro lado, a indicação dos sons de animais como pássaros, cigarras, grilos, cachorros, insinuam que uma outra vida urbana é possível, longe da mobilidade inativa, dos encontros e aglomerações, por vezes movidos pela espetacularização, e voltada para a adequação à natureza.

Sons que incomodam e sons que passaram a ser percebidos durante o período de aplicação do questionário
Elaboração dos autores, 2020

A partir desta investigação, o registro do ambiente sonoro durante um período de confinamento provocado pela pandemia mostra-se com potencial para contribuir não apenas para a visualização dos elementos que compõem o cenário urbano da quarentena, como também para o entendimento da própria dinâmica social contemporânea, à medida que indicam uma forma de pensar contextualizada. Portanto, os resultados da experiência em observar o som, mostram-no como “um documento que se pode analisar e preservar os aspectos diferenciados de cada lugar e permite comparações no tempo e em lugares diferentes” (29).

Vibrações do som no distanciamento social

Quando a cidade vai se construindo, carrega em si não apenas um conjunto de construções resultantes das intervenções humanas no meio físico, as quais configuram a materialidade da paisagem, mas, também, uma série de movimentos afirmativos de vivências particulares e coletivas que se expressam na dimensão do sensível. Ao atentar para os aspectos do cotidiano através da experiência sonora durante a quarentena, as circunstâncias pandêmicas são convocadas e fortalecem o entendimento de um outro conceito de paisagem, aquela que toma o som como um de seus integrantes, aquela que vibra.

A paisagem vibrante não está congelada, parada no tempo. Ela acompanha a própria dinâmica humana, mediada por determinadas conjunturas, como podemos ver com a brusca interferência da pandemia na vida em sociedade. Mas, através de seus registros sonoros infografados, é possível conhecer e de fazer conhecer um pouco dos universos subjetivos que configuram relações entre o morador e a cidade em que se vive, que, por estarem tão atrelados ao dia a dia, são restritos a acontecer de forma quase imperceptível, se colocando na paisagem e na memória das pessoas como códigos a decifrar. O som provocado e mediado pelo coletivo significa, nesse sentido, a consolidação da própria cidade.

Assim, ao registrarmos as percepções sonoras em um momento da pandemia não apenas traduzimos impressões individualizadas, como também essas se inserem no universo do mundo representado, “expressando um espaço complementar do espaço urbano” (30). Logo, tanto quanto as intervenções físicas no espaço, os movimentos urbanos são também a interpretação sobre eles aqui mediada pelos recursos digitais. Esses comprovaram que, de alguma forma, podemos superar as barreiras do distanciamento, e que, o termo digital há muito tem transcendido a ideia de dedos, revelando-se, durante o contexto de confinamento social, como um sistema de códigos capazes de conectar pessoas.

Observar os sons da quarentena nos fez perceber que eles configuram marcas expressivas dos processos de apropriação urbana, cujos dados podem ser disponibilizados para o trabalho de instituições governamentais da esfera da gestão pública, para que possa buscar alternativas no sentido de incrementar a qualidade das formas de viver em sociedade. É nesse sentido que se configuram de suma importância os trabalhos de reconhecimento de micro cotidianos, muitas vezes, particularizados na grande escala da cidade e da arquitetura, mas também nas expressões menos evidentes da rotina doméstica que se expressa na materialidade do espaço e na imaterialidade dos comportamentos.

O que se pode ressaltar como um resultado dessa experiência é entender que um dos desafios fundamentais para compreender a paisagem sonora consiste na habilidade em combinar ciências (humanas, sociais, exatas...) dentro de um processo de investigação multidisciplinar, juntamente com a pesquisa de cunho interativo para que possa favorecer a busca pela melhoria da qualidade de vida. Esse movimento rumo ao entendimento do som no espaço habitado também apresenta potencial para enriquecer, como dito, a discussão sobre o tema da paisagem, à medida que convoca outros ingredientes, muitas vezes negligenciados por arquitetos, urbanistas e paisagistas, para a compreensão mais ampla e sutil do cenário construído e dinamizado urbanisticamente.

Sabe-se que nesses processos de “medir por pessoas” muitos conteúdos podem ser silenciados ou insuficientemente despertados a ponto de voluntariamente se manifestarem, a exemplo dos já sabidos ruídos críticos que expressam a violência doméstica, o desemprego e a insalubridade, os quais foram potencializados durante a quarentena (31).

Esses intervalos entre os sons e as brechas das vibrações comprovam a complexidade dos trabalhos da investigação, especialmente os executados através de recursos digitais que se valem do distanciamento entre as fontes empíricas, e as “difíceis habilidades de conhecer, sintetizar e demonstrar, sempre à mercê da interpretação e, certamente, do acaso. Portanto, expressam as faculdades inerentes ao ato de informar” (32).

O que se pode afirmar é que, com a intensificação da vida privada e suspensão da vida social, a paisagem sonora da quarentena, nas dimensões social e subjetiva em que também se insere o pesquisador, evidencia o silêncio urbano e o som da natureza. Contudo, a gradual retomada do cotidiano ao ar livre, do comércio, das atividades de lazer, serviço e consumo, enfim, da vida no ambiente público, gerou o retorno de familiares e previsíveis sons, mesmo abafados pelas máscaras...

Observar a paisagem sonora circunstanciada mostra-nos que, como há mais de trezentos anos definiu Bluteau, ouvir é sentir e o som comunica.

notas

1
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez e Latino, Aulico, Anatomico, Architectonico, Bellico, Botanico [...] offerecido a ElRei de Portugal, D. João V / pelo Padre D. Raphael Bluteau. Coimbra, Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1721.

2
OLIVEIRA, Roseline Vanessa Santos; GUDINA, Andrej Alexander Barbosa. Fique em casa e lave suas mãos. Notas sobre a cidade do não-circular. Arquitextos, São Paulo, ano 20, n. 239.01, Vitruvius, abr. 2020 <https://bit.ly/3cMv4lW>.

3
A expressão “Fique em casa” configura o slogan mundial da campanha contra a disseminação do vírus Sars-Cov-2.

4
DEBORD, Guy [1958]. Relatório sobre a construção de situações e sobre as condições de organização e de ação da tendência situacionista internacional. In JACQUES, Paola Berenstein (org.). Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003. p. 45–60.

5
CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. São Paulo, Gustavo Gili, 2013.

6
JACQUES, Paola Berenstein. Corpografias urbanas. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 093.07, Vitruvius, fev. 2008 <https://bit.ly/3bdOkZf>.

7
“Las edificaciones, las construcciones, las obras que poseen en sí la cualidad arquitectónica de formalizar elementos que potencian la memória da cultura”. CASTRIOTA, Leonardo (org.). Arquitetura e documentação. Belo Horizonte, Ieds, 2011

8
“Se nos observarmos, veremos que nosso próprio corpo ensina que tudo se une: mente, espírito, carne”. SILVA, Maria Angélica da. Habitar o espaço, produzir com as mãos: experiências em dinâmicas do espaço habitado na Fau/Ufal. Revista Ímpeto, n.5, Maceió, Edufal, 2016, p. 6–10.

9
Uma vez que “são verdadeiros arquivos da cidade, de entendermos por arquivos o passado selecionado e reempregado em função de usos presentes. Refazem diariamente a paisagem urbana”. CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano. Volume 2: Morar, cozinhar. Petrópolis, Vozes, 1996.

10
PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos. Porto Alegre, Bookman, 2011.

11
GAN, Yonghong et al. Multi-sensory landscape assessment: The contribution of acoustic perception to landscape evaluation. The Journal Of The Acoustical Society Of America [s.l.], v. 136, n. 6, Acoustical Society of America, dez. 2014, p. 3200–3210.

12
SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. Uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. São Paulo, Editora Unesp, 2001.

13
TRUAX, Barry. Acoustic Communications. Westport, Greenwood, 2001.

14
LABELLE, Brandon. Acoustic Territories: Sound culture and everyday life. Berlin, Continuum, 2010.

15
BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. As cidades na cidade. In BRANDÃO, Carlos Antônio Leite (org.). As cidades na cidade. Belo Horizonte, UFMG, 2006, p.21–33.

16
“O ambiente sonoro dos espaços urbanos está definido por marcas sonoras e os traços acústicos da mobilidade que se misturam no espaço auditivo”. CERDÁ, Josep; CAÑAS, Fidel; PANELLA, Maurício; GALLY, Miguel; MENDES, Tiago. Observatório da transformação urbana do som: a cidade enquanto textos, derivas, mapas e cartografia sonora. Revista estética e semiótica, v. 5, Brasília, UNB, 2015, p. 109–130.

17
DUARTE, Cristiane Rose de Siqueira; COHEN, Regina. Acessibilidade emocional. 7º Encontro Nacional de Ergonomia do Ambiente Construído / 8º Seminário Brasileiro de Acessibilidade Integral, São Paulo, Blucher Design Proceedings, mai. 2018, p. 6–10.

18
SCHULTE-FORTKAMP, Brigitte. Soundscape, Standardization, and Application. Euronoise, n. 11, Berlin, Eaa/Helina, 2018, p. 1–6 <https://bit.ly/3PMjyWc>.

19
BLUTEAU, Raphael. Op. cit.

20
Argumentos baseados nas discussões do grupo de trabalho intitulado Deriva Virtual com a seguinte proposta de discussão: “A deriva pressupõe um engajamento corporal, uma experiência de ser/estar no espaço urbano, um perder-se na cidade a fim de encontros e desencontros. Em tempos em que o corpo está restrito ao lar e as conexões com espaços coletivos se dão mediadas por uma tela, as pesquisas de campo e a utilização da deriva e da errância como método se tornam inviáveis. Poderia o investigador do urbano se apropriar do termo para suas pesquisas virtuais? Se, além da passividade corporal, a interação digital naturalmente já nos leva para conexões mais rizomáticas, em que um link leva a outro, estabelecendo relações das mais diversas e inusitadas, seria possível ou pertinente a utilização do termo “deriva digital”?”. Integrou a programação do Fórum Habitar o Espaço na Covid-19 que teve como proposta criar um ambiente favorável a discussão acerca dos impactos da pandemia sobre a produção científica acerca das Dinâmicas do Espaço Habitado, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas — Ufal, e ocorrido em ambiente virtual durante o período de 3 a 7 de agosto de 2020 sob a organização dos professores Juliana Michaello e Ricardo Barbosa.

21
PRESNER, T. et al. Digital Humanities Manifesto 2.0. Humanities Blast <https://bit.ly/3blgx05>.

22
De acordo com Bauman, as relações em píxel “não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha”. DE QUEROL, Ricardo. Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”. El País, São Paulo, 8 jan. 2016 https://bit.ly/2KHtLpF>.

23
“Se nos observarmos, veremos que nosso próprio corpo ensina que tudo se une: mente, espírito, carne”. SILVA, Maria Angélica da. Op. cit.

24
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo, Companhia das Letras, 1990.

25
A campanha na Itália para que pacientes terminais com coronavírus possam dizer adeus a familiares. UOL, São Paulo, 23 mar. 2020 <https://bit.ly/3SazovG>.

26
O conjunto de questões foi divulgado por meio das redes sociais, pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo — CAU e pela Associação Brasileira para Qualidade Acústica — PróAcústica. Foram coletadas um total de 1.769 respostas.

27
O acesso ao questionário on-line se encontra no link: <https://bit.ly/3vpG8fk>. O questionário foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Alagoas — Cepsh Ufal, seguindo a Resolução Nacional n. 510/2016.

28
Em 1932, Likert propôs uma escala de cinco pontos com um ponto médio para registro da manifestação de situação intermediária, de indiferença ou de nulidade, do tipo “ótimo”, “bom”, “regular”, “ruim”, “péssimo”. Essa escala tornou-se um paradigma da mensuração qualitativa e desde então, tem sido largamente aplicada, quer na forma original quer em adaptações para diferentes objetos de estudo. PEREIRA, Júlio C. R. Análise de dados qualitativos: estratégias metodológicas para as ciências da saúde, humanas e sociais. 3ª edição. São Paulo, Edusp, 2004.

29
CERDÁ, Josep; CAÑAS, Fidel; PANELLA, Maurício; GALLY, Miguel; MENDES, Tiago. Op. cit.

30
De acordo com Giulio Carlo Argan, “são espaço urbano também os ambientes das casas particulares; o retábulo do altar da igreja, a decoração do quarto de dormir ou da sala de jantar, até mesmo o vestuário e o ornamento com que as pessoas se movem, recitam a sua parte na dimensão cênica da cidade. Também são espaço urbano, e não menos visual para ser mnemônico-imaginário, as extensões da influência da cidade além das suas muralhas: a zona rural de onde chegam as provisões ao mercado da praça e onde o camponês tem as vilas e as suas propriedades, os bosques onde vai caçar, o lago ou os rios onde vai pescar” ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

31
Boulos e Raquel Rolnik. Guilherme Boulos (fanpage). Facebook, 31 mar. 2020 <https://bit.ly/3JgzkGt>.

32
SILVA, Maria Angélica da; NOGUEIRA. Fabio H. S.; OLIVEIRA, Roseline V. S.; DUARTE, Jaianny F. Paisagens de pele e píxeis: histórias urbanas, percepções e imagens. V!rus, n. 19, São Carlos, 2019 <https://bit.ly/3cEBseS>.

sobre os autores

Roseline Vanessa Santos Oliveira é arquiteta e professora associada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas e de seu Programa de Pós-Graduação. Realizou estágio pós-doutoral junto à Universidade de Évora (2018) e é líder do Laboratório de Interpretação de Núcleos Habitados.

Poliana Lopes de Oliveira é arquiteta e urbanista e mestre em Arquitetura e Urbanismo no Programa Dinâmicas do espaço habitado, pela Universidade Federal de Alagoas (2017) e doutorado em andamento, desde 2019, em Arquitetura e Urbanismo, no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina, com temática de paisagem sonora.

Elisabeth de Albuquerque Cavalcanti Duarte Gonçalves é arquiteta, professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas do curso de Arquitetura e Urbanismo (campus Arapiraca) desde 2009. Tem doutorado em engenharia civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (2011), com doutorado sanduíche na Universidade de Salford.

Maria Lucia Gondim da Rosa Oiticica é arquiteta, professora associada da Universidade Federal de Alagoas e doutora em Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Campinas. Professora da Pós-Graduação Dinâmicas do Espaço Habitado da Ufal, com experiência na área de Acústica Arquitetônica e Urbana.

Jordana Teixeira da Silva é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e Urbanismo — Dinâmicas do espaço habitado, pela Universidade Federal de Alagoas (2014) e doutorado em andamento, desde 2020, em Arquitetura e Urbanismo — Cidades, pela Ufal. Professora do Instituto Federal de Alagoas.

Erasmo Felipe Vergara Miranda é engenheiro acústico, doutor (2003) em Acústica e Vibrações pela Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina. Professor associado do Departamento de Engenharia Mecânica, do Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica e do Programa de Pós-graduação de Arquitetura e Urbanismo da UFSC.

Gildean do Nascimento Almeida é físico e mestre em Acústica e Vibrações pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina. Atua nas áreas de ensino e pesquisa de Física, acústica de ambientes e controle da energia sonora relativa às baixas frequências por meio dos metamateriais acústicos.

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