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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
A terra camponesa da bacia do Urucuia é escolhida como objeto empírico, enquanto Lefebvre é mobilizado como orientação teórica. Por meio da análise espacial das terras familiares, é observada a produção desse espaço, concluindo sobre aquela potência.

english
The peasant land of Urucuia's basin was chosen as an empirical object and Lefebvre is mobilized as theoretical orientation. By spatial analysis of familiar lands, we observe the production of this space, reckoning that potentiality.

español
La tierra campesina de la cuenca del Urucuia es elegida como objeto empírico y Lefebvre se moviliza como orientación teórica. Por medio de la análisis de las tierras familiares, observasse la producción de ese espacio, concluyendo sus potencialidades.


how to quote

BIANCHI, Tarsila. Produção camponesa do espaço. A terra familiar na bacia do Rio Urucuia. Arquitextos, São Paulo, ano 23, n. 266.02, Vitruvius, jul. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/23.266/8557>.

Um estudo que se defronte com o espaço camponês observa de imediato que está diante de um objeto que possui especificidades em relação ao conjunto do espaço social atual, o espaço da sociedade como um todo. Ao mesmo tempo que essas especificidades nos remetem a uma diferença em meio à homogeneidade — portanto, nos remetem a certa potência contida no e pelo espaço camponês (1) —, de outro lado, quais são e como atuam essas especificidades não são aspectos que se revelam imediatamente — deixando em aberto se aquela é uma potência real, seus limites etc. A intenção deste trabalho é contribuir com alguns passos na direção dessa resposta, tomando como objeto empírico o espaço camponês de um grupo particular, o campesinato da bacia do Rio Urucuia, a partir do qual observamos essas especificidades em alguns trabalhos de campo.

Para obter orientações prévias ao nosso percurso e permitir, em seguida, que os dados sejam levados à análise, tomaremos a teoria relativa à produção do espaço de Lefebvre como recorte e horizonte teórico. Sobre essa teoria, ela se assenta na proposição de que, para o pensamento reproduzir o objeto enquanto totalidade, a análise deve ir do produto à produção, do objeto à atividade que o engendra, reconstruindo nesse percurso a gênese e o sentido do objeto (2). Quanto ao espaço social, trata-se de ir do espaço produzido à produção do espaço.

Para Lefebvre, a experiência dos processos sociais se desenvolve pela interação dos termos percebido, vivido e concebido e tem implicações sobre os processos de autoprodução do homem e da sociedade, conferindo uma tripla dimensionalidade a essas produções (3). Aquela tríade, portanto, pode ser mobilizada como mediação entre o produto e a produção, como um caminho para realizar essa passagem. Enquanto tríade da experiência do espaço produzido, o percebido se refere à apreensão da materialidade espacial pelos sentidos, o vivido, à captura dos significados conferidos à materialidade, e o concebido, à elaboração da materialidade e dos significados pelo pensamento, implicando a produção do espaço se dar como produção material, de significados e de conhecimento (4).

Chegando, assim, à produção, a tríade da produção do espaço se desenvolve pela interação dos termos prática espacial, espaço de representação e representação do espaço. Quanto à prática espacial, ela é a dimensão da atividade social que realiza seu suporte material espacial e, assim, que designa a dimensão material das atividades sociais em seu conjunto e em sua interação (5). O espaço de representação é a dimensão do simbólico e do imaginário social e que os expressa, trazendo junto deles os códigos sociais (6). E a representação do espaço é a dimensão do pensamento do espaço, sobre o espaço e das coisas no espaço, ligada, assim, à elaboração de esquemas de organização espacial (7).

Como indicações iniciais, portanto, trata-se de observar o espaço produzido a partir da tríade de sua experiência e, além disso, observar a tríade e o processo da produção do espaço como partes integrantes da totalidade do espaço produzido.

Sob outro aspecto, a dialética triádica de Lefebvre é composta por três termos diferentes que constituem permanente interação, sendo a relação específica entre eles dada por cada grupo ou formação social em determinado momento histórico (8). Em relação ao momento atual, Lefebvre indica que o capitalismo produziu o espaço abstrato (9) — o conjunto do espaço social atual. O Estado, encarregado de reproduzir as relações sociais, reproduz o suporte delas — o espaço social —, de maneira que pelo espaço as dimensões do econômico e do político se integrem, que o espaço se converta em instrumento de dominação da burguesia e que o espaço subordine o tempo, prevenindo a produção de novas relações sociais (10). Pretendendo organizar racionalmente a sociedade, o Estado emprega o espaço para sistematizá-la e sujeitá-la (11). Enquanto ele suscita fragmentações — separando as particularidades sociais e espaciais —, ele conecta e hierarquiza os fragmentos — por meio de redes e centros de decisão —, possibilitando que os fragmentos se localizem sob uma forma homogênea que os controla e que impede que eles se integrem espontaneamente (12).

Para a produção desse espaço, emprega-se politicamente o saber (13). A fragmentação provém da enumeração e classificação do espaço e do que ele contém (14). E o caráter global homogêneo e homogeneizante desse espaço provém de uma representação fundada no lógico confundido com o ideológico (15). Essas representações do espaço manipulam e reduzem os espaços de representação a expressões pontuais e a simbolismos, enquanto a prática espacial se restringe ao âmbito da reprodução das relações sociais (16). A experiência desse espaço produzido se dá, assim, como normas, obrigações e proibições a serem experimentadas passivamente, de modo que a prática e a vida, associadas ao percebido e ao vivido, desapareçam sob o predomínio do concebido (17).

Por fim, para Lefebvre, nem o capitalismo e nem o espaço abstrato são capazes de se totalizar, deixando lacunas pelas quais podem surgir e se desenvolver as diferenças — as particularidades em relação —, culminando no espaço diferencial, o da sociedade pós-capitalista, em que concebido e representação do espaço deixam de ser predominantes em suas tríades (18). É aqui que se localiza a potencialidade à qual o espaço camponês nos remete, como dissemos no início.

Assim, como segunda indicação, devemos buscar reconhecer a relação que os termos das tríades estabelecem entre si. Sobretudo, devemos buscar reconhecer a posição que o concebido e a representação do espaço ocupam em suas tríades, na medida em que a diferença, como potencialidade capaz de engendrar o espaço diferencial, pressupõe outra produção do espaço e, assim, outra interação entre os termos a ela associados.

O campesinato da bacia do Urucuia e seu contexto

Como contextualização dos objetos espaciais que serão vistos a seguir, cabe observar brevemente a história e a conjuntura atual desse campesinato, localizado no Noroeste de Minas Gerais, no Cerrado.

A ocupação camponesa da bacia se iniciou no fim do século 17, relacionada à expansão das fazendas pecuárias da Bahia em direção ao Alto Rio São Francisco (19). Essas comunidades camponesas eram constituídas por famílias com laços de vizinhança e parentesco e localizavam-se no vale da bacia, ao longo dos cursos d’água. As margens desses rios eram ocupadas pelas terras de apropriação familiar, onde eram cultivados produtos agrícolas e criados animais. Já as cabeceiras dos rios, as chapadas, eram utilizadas coletivamente para o extrativismo e para a criação de bovinos no período sem chuvas, soltos na natureza. Relacionado ao isolamento territorial da bacia, as famílias eram responsáveis pela produção de quase todos os itens consumidos.

Localização da bacia do Urucuia
Imagem divulgação [IBGE/i3Geo MMA/Instituto Prístino/BDMG]

A alteração brusca dessa configuração ocorreu com a chegada da agropecuária modernizada na década de 1970, promovida pelo Estado com o objetivo de incorporar o Cerrado à economia nacional (20). As terras da chapada foram expropriadas das comunidades, para dar lugar ao agronegócio de grãos — especialmente de soja e milho. E parte das terras de apropriação familiar no vale foi expropriada a fim da expansão da pecuária de corte. Por outro lado, essa transformação econômica interna veio acompanhada pela integração da bacia ao mercado nacional — contribuindo para a alteração dos padrões de consumo regionais — e acompanhada pelo desenvolvimento urbano de suas cidades — responsáveis, agora, por abrigar parte dos camponeses expropriados.

Chapada e vale da bacia do Urucuia
Imagem divulgação [IBGE/IMRS FJP/Instituto Prístino/BDMG]

A partir da década de 1990, a luta pela terra, com a conquista de assentamentos, reintegrou parte dos expropriados ao campesinato regional, entretanto, todo esse campesinato estava, agora, sob novas condições. Com a redução da área utilizada pelas famílias, em função da perda das chapadas, e com a alteração do regime climático e hídrico, devido aos impactos ambientais do modelo produtivo do agronegócio, a produção familiar não possui as condições naturais necessárias à produção dos itens tradicionais e todos os itens estão sujeitos à perda de produção. Por outro lado, com a disponibilidade de itens industrializados no mercado, que proporcionam a melhoria das condições de vida, parte dos padrões de consumo e cultural se alterou.

A consequência primária dessa nova configuração ao campesinato é o impulso à produção para comercialização, segundo as exigências do mercado. Atualmente, a pecuária leiteira é a atividade para comercialização da maior parte das famílias, seguida pela pecuária de corte. Em menor escala, as famílias produzem alimentos agrícolas ou pecuários para autoconsumo. Quanto ao aspecto sociocultural, as famílias camponesas encontram-se parcialmente integradas aos serviços e modos de vida urbanos e a relação com o mercado induz sua individualização em relação à comunidade, que, por sua vez, tende à fragmentação devido à redução dos laços interfamiliares.

Essas transformações, no entanto, não implicaram o grupo perder sua característica camponesa. É ainda a produção agropecuária com utilização de trabalho familiar a forma elementar de sua reprodução vital e social. De um lado, as origens tradicionais desse campesinato, com suas formas relativas ao contexto anterior, se inserem e se transformam na conjuntura atual para responder às necessidades familiares. De outro lado, as formas urbanas e modernas são confrontadas e ressignificadas pelas compreensões tradicionais e, somente então, adotadas. Trata-se, assim, do equilíbrio dinâmico entre dois modelos em seu interior. A ordem distante recai sobre a ordem próxima, mas não a abole (21).

Entre as expressões no espaço camponês, umas delas se destaca ao escopo deste trabalho. Ainda que as famílias camponesas sempre se associem espacialmente em comunidades, essa aparece antes como um conjunto de terras familiares contíguas do que é caracterizada por elementos espaciais coletivos. Assim, também como resultado daquele equilíbrio dinâmico, a associação tradicional das famílias se combina com a tendência de fragmentação comunitária, de maneira que a produção e a experiência do espaço passem a ser predominantes na escala da terra familiar e que, em contrapartida, as terras familiares passem a abrigar a maior parte das relações interfamiliares.

Na medida em que todas as dimensões da tríade da experiência do espaço produzido perpassam a materialidade do espaço e que essa tríade é nosso instrumento de passagem do espaço produzido à produção do espaço, convém trazer à análise a escala em que essa materialidade é predominantemente desenvolvida. Dessa maneira, elegemos a terra familiar como o objeto específico deste trabalho.

A instalação da família na terra

Buscando os elementos constitutivos da produção camponesa do espaço, a chegada da família na terra assume distinta importância, já que nela a família inicia sua instalação no espaço e esse passa a absorver a nova dinâmica dada pela família.

O primeiro momento do processo de instalação é o reconhecimento da terra, ou seja, seu reconhecimento enquanto espaço determinado. Em especial, esse reconhecimento se interessa pela linha do solo e pelo que está abaixo dela, identificando as características predominantes da terra em seu conjunto e em cada trecho. O solo, ele próprio, é observado em sua granulometria e coloração e, junto dele, observa-se a vegetação natural para determinar sua fertilidade, umidade e acidez, distinguindo a potencialidade ao desenvolvimento dos cultivos. A água é observada quanto ao seu volume e perenidade, indicando sua disponibilidade aos usos domésticos e produtivos. Já a inclinação do solo, ela é avaliada quanto à presença de áreas alagáveis, os caminhos percorridos pela água da chuva e as possibilidades ao uso de máquinas agrícolas. Essa atenção conferida ao uso produtivo se deve à sua centralidade para a obtenção dos itens de consumo familiar.

O objetivo desse reconhecimento é obter orientações ao processo de instalação da família na terra, ao que se somam outros fatores. Nos casos em que a terra se constitui somente de vegetação natural, esse processo é condicionado apenas pelas qualidades naturais observadas. Já no caso de ocupação recente por outra família, as áreas desmatadas e as construções existentes são comumente utilizadas, para reduzir os custos da instalação. Por outro lado, no caso da família já se reproduzir como camponesa, é necessário o transporte das atividades produtivas ao novo espaço, que deve comportá-las. No caso contrário, é necessário apenas que as qualidades naturais da terra comportem as atividades futuras.

Dessa maneira, as características físicas e naturais da terra orientam o processo de instalação, responsável por materializar essa terra enquanto um espaço adequado à satisfação das necessidades familiares. Sob outro aspecto, a história da família (22) e a história da terra compõem o processo de instalação, já que família e terra são, respectivamente, o grupo determinado que ocupará o espaço determinado. A instalação, portanto, se caracteriza como um processo no qual dois elementos inicialmente separados passam a se desenvolver conjuntamente, de maneira a unificar suas histórias (23), materializada no espaço produzido enquanto terra familiar.

As diferenças de cada terra e de cada família fazem com que os processos de instalação sejam únicos. No entanto, eles compartilham linhas gerais comuns, constituídas pelo conhecimento do conjunto desse campesinato e que se expressam como experiência prévia de cada família. A partir desses conhecimentos é que se desenvolve o momento de instalação propriamente dito, que se inicia com o estabelecimento da casa, onde ocorre a reprodução familiar direta.

A casa se relaciona com as qualidades naturais da terra por meio de sua localização. São determinantes nessa escolha os trechos com menor umidade e maior ventilação, comumente na parte alta da terra e que coincide com a estrada de acesso. Por outro lado, a localização da casa é determinada preservando certa distância da estrada, a fim da segurança, e das terras familiares vizinhas, para evitar incômodos. No trecho que cumpre essas condições, é preferida a proximidade de vegetação de grande porte, para o sombreamento, para a redução do impacto direto do vento ou devido à sua beleza natural.

Circundando o edifício da casa, desenvolve-se o terreiro. Em um primeiro momento, só as instalações produtivas estritamente necessárias são construídas e as árvores do pomar e de sombreamento são cultivadas. O uso do terreiro como complemento espacial da atividade doméstica e como lugar de execução das atividades produtivas de pequena escala, por sua vez, já está presente.

Por fim, no período de chuvas, são constituídas as primeiras áreas de produção — a roça, com cultivos agrícolas, e o pasto, com cultivo de capim para alimentação dos grandes animais —, relacionadas às atividades produtivas que demandam maior área e que se destinam tanto ao autoconsumo, como à comercialização. Nesse momento, elas são prioritariamente definidas segundo as melhores condições do solo e próximas ao terreiro.

Ao longo dos anos, o terreiro é implementado com novas instalações e com a melhoria daquelas já edificadas. Assim, visto o processo de instalação segundo os objetos espaciais produzidos, ele se caracteriza pela constituição de um núcleo inicial — doméstico e produtivo —, a partir do qual a atividade produtiva se expande em extensão e se desenvolve em seus atributos — sempre considerando as diferenças naturais qualitativas da terra. Visto esse processo segundo as ações da família, ele percorre o caminho da satisfação das necessidades básicas, pelo autoconsumo, às mais complexas, pela comercialização, que possibilita a obtenção dos itens que a família não produz. Como síntese desses dois movimentos, o processo de instalação corresponde à apropriação da terra e ao aproveitamento progressivo de suas potencialidades produtivas por parte da família.

O processo de instalação nos revela, portanto, que a experiência e produção da terra familiar se fundam na associação das dimensões do concebido e representação do espaço às dimensões do percebido e prática espacial. De um lado, as necessidades particulares da família e a terra com suas características naturais são apreendidas a partir da experiência prática-sensível. De outro, a intervenção espacial se vale de um conhecimento prático prévio, um saber-fazer (24), e atualiza esse conhecimento pela nova experiência. Assim, na medida em que a produção de conhecimento implicada pelo concebido é informada diretamente pelo percebido, ela não se dissocia da produção material. A representação do espaço, dessa maneira, é construída concomitantemente à prática espacial e modifica essa prática conforme a nova materialidade do espaço volte a alimentar o percebido e o concebido com novos elementos.

A terra familiar consolidada

O momento de instalação, no entanto, não responde suficientemente à reconstrução desse espaço produzido. Devemos, ainda, procurá-la no momento em que esse espaço já está consolidado, ou seja, em que a terra se encontra inteiramente apropriada pela família e em que a terra se faz apropriada à família. Em suma, no momento em que as histórias da família e da terra se unificam por completo e passam a se desenvolver dessa maneira.

Em linhas gerais, observando os objetos espaciais em sua semelhança física e em sua proximidade, eles se encontram agrupados em três subespaços: o terreiro, onde se localiza a maior parte das instalações físicas; a área de produção, onde se localizam os cultivos; e o cerrado, onde predomina a vegetação natural.

Quanto ao terreiro, ele se caracteriza como um amplo espaço atrás e ao lado da casa, sombreado por árvores de grande porte e onde estão dispostas as instalações. Como complemento da casa, no terreiro são realizadas atividades domésticas — tais como o abate de animais e o processamento de alimentos para autoconsumo, com seus respectivos objetos. E, inversamente, a casa se expande sobre o terreiro: por meio da cozinha do fogão à lenha, localizada afastada ou contígua à casa, em sua parte anterior; e da área, local das conversas interfamiliares e de parte das relações familiares, que se localiza sob a projeção da cobertura da casa, em posição variada.

Como local das atividades produtivas realizadas em pequena escala — destinadas em grande parte ao autoconsumo —, no terreiro se localizam as instalações e os equipamentos produtivos, muitos deles embaixo das árvores. Nele, estão sempre presentes a horta, o chiqueiro, o galinheiro e o pomar e, em menor ocorrência, a casa de farinha, o engenho, o curral e os depósitos de materiais, ferramentas e insumos. As instalações e equipamentos são dispostos conforme as exigências das atividades — por exemplo, o distanciamento entre o chiqueiro e a casa, para evitar o mau cheiro — e a forma particular da família desenvolvê-la — por exemplo, o chiqueiro pode ou não conter uma área descoberta —, implicando os materiais, volumes e fechamentos das instalações.

Os objetos espaciais que caracterizam o terreiro costumam ser construídos ainda no período de instalação da família na terra, fazendo com que no período consolidado seus objetos espaciais sejam fixos ou quase fixos. Devido ao seu caráter duplamente produtivo e doméstico, esse subespaço está associado à reprodução direta da família e concentra grande parte das relações familiares. Assim, a espacialidade do terreiro é a da vida cotidiana camponesa, fundada na organização social familiar, nas atividades produtivas e no convívio com a natureza.

Terreiro e casa no momento consolidado
Foto Tarsila Lopes Bianchi

Plantas esquemáticas dos terreiros
Foto Tarsila Lopes Bianchi

A área de produção, composta pela roça e pelo pasto, ocupa a maior parte da terra familiar e recebe a maior parte do trabalho da família. Na roça são cultivados, sobretudo, o milho, a mandioca e a cana, enquanto no pasto só é cultivado o capim. Para a roça são reservadas as terras com melhores condições do solo, pois seus cultivos são mais exigentes, e, quando possível, ela é localizada contígua ao terreiro para diminuir o tempo de deslocamento ao trabalho. Para o pasto são destinadas as terras qualitativamente intermediárias e nele são mantidas algumas árvores de maior porte, havendo sempre um pequeno pasto contíguo ao terreiro para facilitar o trato cotidiano dos animais. A atividade produtiva realizada em maior escala pela família, destinada predominantemente à comercialização, se reflete na área ocupada pela roça e pelo pasto. Entretanto, os dois estão sempre presentes, já que deles vem grande parte dos alimentos consumidos pela família e pelos animais criados.

Cada cultivo, por sua vez, possui um ciclo próprio associado às dinâmicas naturais, em especial aos períodos com ou sem chuvas. De maneira geral, o período das chuvas se caracteriza pelo desenvolvimento das plantas cultivadas e pela retirada das plantas naturais quando elas competem com os cultivos. No período sem chuvas, correspondente à maior parte do ano, as plantas naturais são mantidas até que a terra seja preparada para os novos plantios, quando é realizada a rotação de cultura na roça.

A atividade produtiva na roça e no pasto é, portanto, condicionada pela natureza — seja por seus ciclos ou pelas qualidades da terra. Assim, a área de produção se caracteriza pela coexistência e pela inter-relação permanente entre produção e natureza, variando as formas em que essa coexistência e inter-relação ocorrem. Dessa maneira, a área de produção nunca é encontrada com os mesmos objetos espaciais e nem sob as mesmas dinâmicas — devido ao ciclo hídrico, à rotação de cultura etc. Sua espacialidade está sempre em movimento entre uma situação mais produtiva e uma mais natural.

Sob outro aspecto, a área de produção é o espaço camponês de produção por excelência. Transformando-se constantemente, ela é o primeiro subespaço a expressar o desenvolvimento da história unificada da terra e da família. Produzindo parte dos alimentos da família e os produtos destinados à comercialização — ao menos em sua forma in natura, antes de serem processados —, ela é responsável por possibilitar o consumo familiar, mesmo o de itens comprados. E abrigando a maior parte da expressão das relações de produção familiares, ela também abriga grande parte da sociabilidade camponesa.

Roça no período com (esquerda) e sem (direita) chuvas
Elaboração Tarsila Lopes Bianchi

Pasto no período com (esquerda) e sem (direita) chuvas
Elaboração Tarsila Lopes Bianchi

Planta esquemática das áreas de produção
Elaboração Tarsila Lopes Bianchi

Por fim, o cerrado é constituído quase exclusivamente de elementos naturais: a vegetação, os animais silvestres, os caminhos d’água etc. Embora ele se localize nas terras de pior qualidade, devido às necessidades produtivas da família, isso não expressa um caráter secundário em relação ao conjunto da terra familiar, já que ele comumente ocupa uma área contínua e maior do que a exigida legalmente. As ações da família nesse subespaço costumam se resumir à extração de lenha e frutos, para uso doméstico, e ao plantio de árvores, como contribuição da família à presença dos elementos naturais. Assim, sua construção física é realizada fundamentalmente pelas dinâmicas da natureza que, dessa maneira, são suas dinâmicas internas predominantes.

O cerrado, sob outro aspecto, não é sinônimo de espaço não ocupado. Ao contrário, ele se apresenta como o lugar de reprodução da natureza, com seus equilíbrios dinâmicos e especificidades. Na medida em que os fatores naturais — a água e a terra — são as principais condições de produção das atividades da família, a reserva de um subespaço para que as dinâmicas naturais ocorram sem maiores interferências corresponde à reposição das condições de produção. Dessa maneira, sua espacialidade de meio natural não se opõe à vida ou à produção camponesa, mas é compreendida como aquilo que as possibilita. O cerrado, portanto, também está presente na terra familiar como representação de um aspecto da cosmovisão do grupo, em que a natureza é experienciada como fonte primária da vida familiar.

Foto Tarsila Lopes Bianchi
Entrada para o cerrado

Plantas esquemáticas das terras familiares
Elaboração Tarsila Lopes Bianchi

A terra familiar consolidada, assim, nos mostra que é o conjunto da vida social camponesa que informa o concebido. No cerrado, as exigências da atividade produtiva se dão à experiência como necessidades materiais, na dimensão do percebido, e a representação da natureza como potencialidade da vida se dá à experiência como integração do campesinato à ordem fundante de sua cosmovisão, na dimensão do vivido. Também nessa última dimensão, a sociabilidade no trabalho e a sociabilidade interfamiliar, na área de produção e no terreiro, definem a escala da família como nível fundamental da organização social camponesa no imaginário social. O concebido, portanto, não apenas é informado pelo percebido, mas, também, pelo vivido.

Assim, enquanto a quase exclusividade das dinâmicas naturais no cerrado faz dele próprio uma representação da natureza, um espaço de representação da natureza, as intervenções da família no cerrado incluem uma produção de conhecimento que visa reproduzir aquele espaço de representação, incluem uma representação do espaço de representação. De seu lado, a centralidade da família na prática e no imaginário social faz da produção de conhecimento uma produção coletiva, atribuindo significações à produção de conhecimento e, ao mesmo tempo, a conectando com a produção de significados sociais (25). A terra familiar, dessa maneira, se constitui por meio de uma representação coletiva do espaço e forma um espaço de representação desse coletivo, a família.

A terra familiar como unidade espacial camponesa

Ao propormos o agrupamento dos objetos espaciais segundo sua semelhança formal para caracterizar os subespaços, observamos cada subespaço em suas diferenças quanto aos outros dois. Além disso, vimos que o processo de produção de cada subespaço é igualmente distinto: com temporalidade fixa no terreiro e no cerrado e, por sua vez, mutável na área de produção; com grande volume de intervenção pela família no terreiro e na área de produção e, por sua vez, pequeno no cerrado; e tendo a família como agente no terreiro e na área de produção e, por sua vez, sendo constituído pelas dinâmicas da natureza na área de produção e no cerrado.

Para ir adiante com nossa análise, no entanto, cabe buscar um último aspecto da terra familiar consolidada: a relação entre os subespaços.

Enquanto, de um lado, a abordagem anterior nos mostrou que cada subespaço cumpre determinada função — a reprodução da família, pelo terreiro, a produção agropecuária, pela área de produção, e a reprodução da natureza, pelo cerrado —, de outro lado, ela nos indicou que cada subespaço é também definido em relação aos os outros dois subespaços e às dinâmicas da natureza. Embora o pasto se localize nos trechos de qualidade intermediária da terra, ao menos uma pequena área de capim deve ser contígua ao terreiro para que as atividades cotidianas relativas aos grandes animais estejam fisicamente próximas das relativas à reprodução familiar. Na medida em que as atividades da roça têm maiores exigências produtivas, para elas são destinadas as melhores terras, porém, não há a supressão da vegetação natural nos períodos em que não é indispensável para essas atividades.

A partir dessas observações, nota-se que aquelas funções de cada subespaço também são desenvolvidas pelos outros dois subespaços, como suas funções secundárias. Assim, o cerrado encontra a realização da reprodução da natureza nos demais subespaços com a manutenção da vegetação natural; a área de produção divide com o terreiro a realização da atividade produtiva; e o terreiro, como lugar da reprodução familiar direta, observa na área de produção parte significativa das relações familiares. Dessa maneira, a diferença entre os subespaços não resulta em sua dissociação. Ao contrário, os subespaços compartilham seus conteúdos e, em sua relação com a natureza, estabelecem suas dinâmicas internas.

Sob uma perspectiva imediata, a articulação dos subespaços promove as condições necessárias à reprodução da família: a reposição das condições de produção, pelo cerrado; a produção propriamente dita, pela área de produção e pelo terreiro; e a reprodução direta da família, utilizando-se daquela produção, pelo terreiro. Entretanto, essa articulação não se limita a isso, já que ela configura uma forma de reprodução social específica, a camponesa, que se define por se realizar na terra — que é constituída por suas características naturais — e por meio da atividade produtiva agropecuária — que se relaciona às dinâmicas da natureza.

Nesse sentido, nenhum dos subespaços sintetiza a terra familiar, porque ela não se resume a um espaço de produção agropecuária, a um espaço de reprodução familiar ou a um espaço de reprodução da natureza. Na medida em que a terra familiar se estrutura pelos três subespaços em seus inter-relacionamentos, a articulação das diferenças sob uma finalidade comum — de elementos com fundamentos próprios, mas que são socialmente interdependentes — significa a constituição de uma unidade: a terra familiar enquanto unidade espacial camponesa.

De um lado, essa unidade é resultado, resposta, produto, da organização social camponesa frente a suas necessidades espaciais. Assim, ela é a materialização da organização socioespacial do grupo. De outro, essa unidade é causa, possibilidade, produtora, da especificidade dessa reprodução social enquanto camponesa. A produção do espaço aparece, então, como um termo da reprodução social camponesa, como um de seus componentes. Um termo que unifica, põe em simultaneidade (26), os elementos de um processo dinâmico, de maneira que essa unificação também se dê como encadeamento (27) das diferenças no tempo e que a reprodução social seja produzida e re-produzida continuamente no espaço. Assim, por meio dessa produção do espaço, a unidade espacial camponesa se faz suporte ativo e dinâmico das relações internas ao grupo e da relação entre grupo e natureza.

Essa produção camponesa do espaço, dessa maneira, se define por seu caráter unitário. Seu objeto de intervenção é não apenas os subespaços, mas também suas inter-relações. E seu resultado é não apenas a reprodução social camponesa, mas a sincronia desta unidade diacrônica (28). Enquanto a representação do espaço atua na formulação dessa unidade espacial, ela se articula com a prática espacial para dar à unidade sua existência concreta (29) e se articula com o espaço de representação para dar à unidade sua coesão no imaginário social. Essa articulação, no entanto, não se dá pela subordinação dos dois outros termos a si. Buscando a produção de um espaço apropriado ao e pelo grupo, a experiência ativa impulsionada pelo percebido e pelo vivido reclama a igual prioridade entre os termos da tríade da produção do espaço (30). A representação do espaço, assim, se constitui atrelada a um saber-fazer que é perpassado pelas significações sociais.

Indicações sobre a especificidade do espaço camponês

Além dessa interação entre os termos das tríades da experiência e da produção do espaço, nosso percurso indicou que nessa produção camponesa do espaço: o saber é mobilizado para fins sociais, ante as finalidades políticas e econômicas; a lógica interna da produção do espaço se funda na unidade na diferença, ante a homogeneização, fragmentação e hierarquização; o tempo é incorporado como um determinante do espaço, ante ser subordinado por ele; e a apropriação do grupo de um espaço e o espaço apropriado a esse grupo são a origem e o resultado dessa produção, ante a dominação social por parte de uma classe. As especificidades desse espaço camponês, portanto, vão na direção oposta aos termos pelos quais se desenvolve o espaço abstrato.

Em Lefebvre, o conceito de diferença implica um caráter relacional, uma distinção em relação a um outro, de maneira que a diferença não seja uma especificidade no interior do nível do particular, mas do nível do conjunto da sociedade, no qual as particularidades se relacionam. Embora os elementos da especificidade dessa produção camponesa do espaço se aproximem das considerações de Lefebvre sobre o espaço diferencial e sobre as diferenças no interior do espaço abstrato, esses elementos não indicam um aspecto relacional das especificidades. Mas esses elementos nos indicam a presença de um gérmen da diferença, uma particularidade que realiza em seu interior parte do que a diferença realiza a nível da sociedade.

Se nossos passos concluem, assim, que a potência à qual esse espaço nos remete é uma potência real, por outro lado, eles mantêm em aberto a extensão dessa potência e os limites que ela encontra. Por ora, acreditamos que eles possam ser buscados: pela análise da comunidade, para observar como a maior reunião das forças sociais contribui com a extensão de sua potência; pela análise das comunidades do Urucuia entre si e com outros grupos camponeses, para observar como as especificidades se relacionam e se podem adquirir a potência de diferença; e pela análise da relação das terras familiares e da comunidade quanto ao espaço social do conjunto da sociedade, para observar os limites sociais impostos a essa potência, bem como as alternativas para esses limites serem transpostos. Em suma, o caminho seguinte aponta para a reconexão dessas especificidades com a totalidade social.

notas

1
Foi essa potência o tema de uma conversa que tive com uma assentada, dona Aparecida, conversa que inspirou este trabalho a ser escrito. Entre a primeira e a última versão do artigo, dona Aparecida faleceu, mas nossa afirmação quanto à potência da produção camponesa do espaço ressoa aqui.

2
LEFEBVRE, Henri. La producción del espacio. Madri, Capitán Swing Libros, 2013, p. 86 e 167.

3
SCHMID, Christian. A teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre: em direção a uma dialética tridimensional. Geousp Espaço e Tempo, n. 32, São Paulo, 2012, p. 102–103.

4
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 99 e 189 e SCHMID, Christian. Op. cit., p. 102 e 104.

5
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 90 e 92; SCHMID, Christian. Op. cit., p. 99.

6
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 100; SCHMID, Christian. Op. cit., p. 100.

7
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 101 e 159; SCHMID, Christian. Op. cit., p. 100.

8
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 90, 169 e 280; SCHMID, Christian. Op. cit., p. 95.

9
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 111.

10
Idem, ibidem, p. 182, 261, 269 e 356.

11
Idem, ibidem, p. 69, 72 e 83.

12
Idem, ibidem, p. 319, 344, 353 e 356

13
Idem, ibidem, p. 70.

14
Idem, ibidem, p. 145.

15
Idem, ibidem, p. 103 e 387.

16
Idem, ibidem, p. 100, 103 e 108.

17
Idem, ibidem, p. p. 94, 102, 354 e 391.

18
Idem, ibidem, p. 261, 381, 404–406, 419.

19
PRADO JR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. 13ª edição. São Paulo, Brasiliense, 1973, p. 37, 56 e 191.

20
SILVA, Carlos Eduardo Mazzeto. O cerrado em disputa: apropriação global e tendências locais. Brasília, Confea, 2009, p. 152.

21
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 142 e 398.

22
BOMBARDI, Larissa Mies. O Bairro Reforma Agrária e o Processo de Territorialização Camponesa. São Paulo, Annablume, 2004, p. 122.

23
GALIZONI, Flávia Maria. A terra construída: família, trabalho e ambiente do Alto do Jequitinhonha. Fortaleza, Editora do Banco do Nordeste, 2000, p. 63.

24
WOORTMANN, Ellen Fensterseifer.; WOORTMANN, Klaas Axel Anton Wessel. O trabalho da terra: a lógica e a simbólica da lavoura camponesa. Brasília, Editora da UnB, 1997, p. 11 e 36.

25
Idem, ibidem, p. 133.

26
LEFEBVRE, Henri. Op. cit., p. 128.

27
Idem, ibidem, p. 128.

28
Idem, ibidem, p. 183.

29
Idem, ibidem, p. 329.

30
Idem, ibidem, p. 389.

sobre a autora

Tarsila Lopes Bianchi é arquiteta e urbanista pela FAU USP. Em seu trabalho final de graduação e, atualmente, no mestrado, estuda a terra familiar camponesa da bacia do Urucuia.

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