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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Texto curatorial para a exposição “Francisco Brennand. Flores, Frutos, Bichos e Pássaros dos anos 60, 70 e 80”, no Museu AfroBrasil no Parque do Ibirapuera, Emanoel Araújo presta uma homenagem à grande contribuição do artista à arte brasileira

english
This text explains the exhibition "Francisco Brennand. Flowers, Fruit, Animals and Birds of the 60s, 70s and 80s", at the Museum AfroBrazil in Ibirapuera Park, Emanoel Araujo (director-curator of the museum) pays homage to the artist to Brazilian art sce

español
Este texto sobre la exposición “Francisco Brennand. Flores, Frutos, Bichos y Pájaros de los años 60, 70 y 80”, en el Museo AfroBrasil en el Parque de Ibirapuera, Emanoel Araújo presta un homenaje la gran contribución del artista del arte brasileño

how to quote

ARAUJO, Emanoel. As flores, os frutos, os bichos, os pássaros e os seres. O Brasil de Francisco Brennand. Drops, São Paulo, ano 08, n. 020.05, Vitruvius, dez. 2007 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/08.020/1732>.


Francisco Brennand, Grande Floral, 1967


“Nós, nordestinos, nos preocupamos em sermos fieis à terra, aos mitos, às histórias, às formas e às cores da região. Não nos damos por satisfeitos senão quando sentimos que tais coisas estão agredindo os outros à primeira vista, de dentro de nossas obras.” (Ariano Suassuna)

Esta exposição é uma pálida homenagem, que aqui de São Paulo e do Museu Afro Brasil prestamos ao mestre Francisco Brennand pela passagem de seus oitenta anos de vida, e digamos pálida, porque sabemos o quanto ele é merecedor de muito mais do que uma pequena mostra de seu grande talento por tudo que construiu ao longo desses anos para dignificar a arte brasileira.

Todos sabem o quão pouco este país cuida da relevância em exaltar aqueles que de fato contribuem com seu esforço e seu talento, e até com renuncias quase religiosas, para construir a obra de uma vida inteira como a do pintor e escultor Francisco Brennand. Foi-se o tempo em que se dava a merecida importância aos museus e às instituições culturais dedicadas a preservar a memória da historia passada e recente do Brasil. Cada vez mais a chamada grande mídia, ocupada com os graves problemas que afligem o país, põe no limbo os aspectos culturais e artísticos que celebrem aspectos originais da nossa cultura e que se tornam cada vez mais significantes diante da grande contribuição de artistas e de homens que fizeram ou se fazem importantes na consolidação da identidade nacional.

De sua personalidade e de sua obra muito já se escreveu, e também do seu atelier na Várzea no Recife, um grande espaço em que sistematicamente ele guarda tudo por ele produzido, mais ainda a monumental instalação nas ruínas da antiga fabrica da família: milhares de esculturas, painéis, murais, jardins, como o de Burle Marx, numa atmosfera única em meio à vegetação luxuriante da Mata Atlântica.

Com isso Brennand faz um grande e generoso gesto para a preservação da mata original e ainda oferece aos seus visitantes a mais nova obra da arquitetura brasileira, a capela projetada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha sobre as ruínas da antiga casa-grande da fazenda.

Contudo, no silencio do seu espaço, ele segue criando suas esculturas, suas novas e atuais pinturas bem distintas dessas produzidas por ele entre as décadas de 60 e 80.

Escolhemos essas obras por serem pouco vistas nas muitas exposições que Brennand tem realizado nesses últimos anos. Elas representam de fato um outro tempo de sua inquietação, uma procura de expressar com significado um lado seu nordestino, bocejando a atmosfera tropical e selvagem brasileira com o gosto da terra, bravia, luminosa, de cores fortes e quentes.

Uma pintura marcadamente figurativa, acentuada por um grafismo como um halo em torno da figura; uma linha contínua sinuosa, um arabesco barroco e sensual, elegante como fundo da representação do tema.

Não seria desdouro dizer do quanto Brannand se inspirou na pintura plana de Matisse, na acentuação gráfica e na modulação da cor em Leger, ou na fase antropofágica de Tarsila do Amaral. Essa fase de sua pintura absorve essas influencias da pintura desses mestres sem, contudo, deixar de ser original e reconhecidamente brennaniana. Elementos geométricos com figuras mastigadas pela antropofagia em transe representam a construção desse universo das coisas todas juntas, como grandes naturezas-mortas com objetos plasmados num fundo abstrato sem volumetria ou a representação simbólica de elementos sólidos que se entrelaçam e se desintegram no espaço como uma explosão de um átomo.

Essas pinturas têm na sua composição algo de monumental, de eloqüentemente exacerbado e desafiante. Uma espécie de gigantismo de seres em metarmofose, essas lagartas, mandacarus, flores, frutos, formas geométricas, troncos, animais, espinhos dançando numa metamorfose ilusionista de planos, relevos, claros e escuros, um frenesi de ritmos e tensões. Elas também têm no seu mais puro dogma a tentativa de se criar uma obra brasileira voltada para as nossas raízes multiculturais, apesar de todos os preconceitos postos na nossa dita cultura de colonizados.

Em toda a construção dessa grande pintura reside a mestria do grande colorista que é o Francisco Brennand. Sua pintura desse tempo tem mesmo o sopro da pintura, do domínio da cor, da composição e de criar uma atmosfera surrealista, que, aliás, é a linguagem que impregna toda sua obra, incluindo seus relevos, suas esculturas, seus painéis e murais mesmo e, sobretudo, sua pintura atual, em que ele acrescenta, discursivo, metáforas para tratar sugestivamente dos embates e provocações literárias com as quais sua obra como um todo se envolve neste momento.

Brennand é um intelectual que permeia todo seu conhecimento humanista com a sua obra artística, um forte desejo exercido no dia-a-dia do seu cotidiano. Provavelmente ele encontrou o ponto de equilíbrio para tornar materializadas todas ou quase todas as questões subjetivas e históricas de nosso tempo. Ele também é um homem político, consciente do seu papel como investigador e colaborador de políticas públicas no tempo do governador Arraes e quando teve participação ativa na Campanha de Alfabetização do Educador Paulo Freire naqueles memorais anos sessenta.

Claro que a curadoria dessa exposição que lhe dedicamos não tem um tom saudosista, nem pretende estabelecer algum critério por essa escolha ou qualquer outra fase do artista, pois entendemos que a obra de Francisco Brennand se consolida como um todo sólido, em permanente inquietação e proposição, questionamentos; até mesmo sua relutância com o mercado de arte não deixa de ser um gesto considerável diante de toda sua grande produção artística aprisionada nos seus espaços. Tanto é assim que suas esculturas presentes nessa mostra são um contraponto de como ele transfere para a tridimensionalidade seus questionamentos estéticos, com a mesma vitalidade e o traço muito claro e orgânico do seu trabalho.

A volúpia é mesmo uma constante em sua obra de escultura, de desenhos ou das pinturas antigas e recentes; elas se completam como expressão de um tempo ou de todo um tempo de procuras desse obstinado trabalhador de formas orgânicas, viscerais, dispostas a nos atacar como um ser vivo e lúdico. Nessa exposição está ainda um Pássaro Roca gigante, uma escultura que contradiz pela verticalidade essa idéia única da volumetria da obra de Brennand; suas esculturas, que ocupam os seus grandes espaços da Várzea, provam, ao contrário, que ele sempre foi afeito aos desafios dos grandes murais, das grandes empenas de edifícios, da repetição das pedras cerâmicas produzidas para os grandes espaços da arquitetura.

Ainda assim propusemos a Brennand o desafio de um painel em cerâmica atual com a questão do grafismo, da construção da linha, da retomada monumental da composição com elementos inerentes à sua obra de antes, e aí está o resultado: um painel de seis metros de comprimento por dois e sessenta de altura. Tudo isso para mostrar a vitalidade de uma obra que não estacionou no tempo, mas que continua a desafiar o próprio artista e propor a ele mesmo o verdadeiro sentimento que rege a criação artística, como o da procura, da inquietação e da contestação de si mesmo no tempo, no espaço e no eterno jogo da criação.

notas

1
Texto curatorial para a exposição “Francisco Brennand. Flores, Frutos, Bichos e Pássaros dos anos 60, 70 e 80”, realizada de 17 de outubro a 27 de janeiro de 2008 no Museu Afro, Parque do Ibirapuera, São Paulo.

sobre o autor

Emanuel Araújo é artista plástico e curador do Museu Afro Brasil.

Emanoel Araujo, São Paulo SP Brasil

Francisco Brennand, A Mata, 1968-1971

Francisco Brennand, Ano Novo, 1977

Francisco Brennand, Conquista, 1968-1971

Francisco Brennand, Fruto 9, 1984

Francisco Brennand, Fruto 12, 1984

Francisco Brennand, O Rio, 1968-1971

Francisco Brennand, Sol no Jardim, 1977

Francisco Brennand, Tartaruga, 1969

 

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