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drops ISSN 2175-6716

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O artigo Adson Lima traz uma crítica intertextual da literatura francesa cotejando uma parte do texto "Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense" com alguns versos do poema "Zona" de Apollinaire

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LIMA, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. O catálogo de Paris. Drops, São Paulo, ano 10, n. 031.07, Vitruvius, maio 2010 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/10.031/3401>.


Paris, janeiro de 2009
Foto do autor


Não seria um exagero afirmar que o escritor francês Georges Perec ─ aliás, como muitos outros ─ reinventou a literatura francesa no século XX. Como exemplo poderíamos citar o romance O desaparecimento, no qual o que, de fato, desapareceu, foi a vogal “e”... A crítica norte-americana Renée Linkhorn se espantou com tal audácia: escrever um romance sem, em momento algum, usar palavras com a vogal “e”. Ora, é realmente difícil imaginar um autor de língua francesa escrever um romance de 312 páginas sem usar em nenhum momento “que”, “et”, e “de” (1); foi, como dizem os franceses, umtour de force monumental. Mas, a este desaparecimento, podem-se acrescentar outros procedimentos literários, como a paródia, o humor, a ironia e, igualmente, a abolição da psicologia, dos personagens, do diálogo e do ponto de vista (2). Enfim, alguns escritores negaram parte do que fez a fortuna crítica das letras francesas no século XIX e em parte do século XX. Mas, isto é compreensível, posto que se tratava de uma outra literatura, não era mais o enredo o que importava, mas a instituição de uma crítica reflexiva sobre as palavras e a instituição do texto literário como um jogo lúdico.

É nesse sentido que mesmo os temas na literatura de Perec, como veremos, beiram o bizarro. No final de 1974 ele se sentou a uma mesa no café parisiense Saint-Sulpice e pôs-se a descrever tudo o que via, e, principalmente, o que normalmente não se nota: ônibus, pombos, cães, crianças brincado, folhas caídas, passantes os mais diversos etc. E, certamente, não é um mero acaso que este texto tenha sido intitulado de Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense─ este seria uma espécie de inventário ou de catálogo: descrever o que se tem diante dos olhos, o que é observável.E é importante que se acrescente que o espaço ─ e não qualquer espaço, mas o espaço urbano tornado lugar ─ já foi objeto de investigação literária algumas vezes por este autor: há o célebre livro Espécie de espaços, no qual cômodos e casas ─ entre outros espaços ─ são descritos e pensados; e há o não menos célebre livro Vida modo de usar, em que os personagens são criados à medida que apartamentos de um prédio em Paris são inventariados e descritos.

Aqui procederemos a uma crítica intertextual: cotejaremos uma parte do texto Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense com alguns versos do poema de Apollinaire intitulado Zona. O objetivo é comparar estes dois textos que têm a cidade de Paris como tema, e que foram escritos em épocas diferentes, para perceber como a imagem de uma mesma cidade pode produzir distintos imaginários urbanos. Veremos que se trata de dois escritores que, nas suas respectivas épocas, foram considerados vanguardistas: um aliava a sua poesia procedimentos literários da prosa, enquanto outro transformava, por momentos, a sua prosa em poesia, e ambos, em alguns momentos, colocaram em questão certos espécies de espaços.

O trecho do poema de Apollinaire que nos interessa começa desta maneira, com a descrição de uma rua industrial cujo nome teria se perdido no vazio do esquecimento:

“Eu vi esta manhã uma bela rua cujo nome esqueci/ Nova e limpa pelo sol ela era uma corneta/ Os diretores os operários e as belas datilógrafas/ Da manhã de segunda à noite de sábado quatro vezes por dia ali passam/ Pela manhã três vezes a sirene geme/ Um sino raivoso late por volta do meio-dia/ Os letreiros e os muros/ As placas os avisos como papagaios gritam/ Eu amo a graça desta rua industrial.” (3)

Sabemos que, no início século XX, um novo tema passa a ser considerado pelos poetas: a cidade industrial e os seus atores, e, neste caso, a mulher, por exemplo, não é mais a passante baudelairiana que, em luto, deixa entrever o seu tornozelo, mas uma trabalhadora, a “bela datilógrafa”. Pode-se perceber que a valoração desta rua, nos versos citados, é positiva, apesar dos “sinos raivosos” e dos “letreiros que gritam”, e pode-se perceber, igualmente, a incorporação de parte das transformações pelas quais passaram as grandes cidades europeias no final do século XIX e no início do século XX, quando saíram de cena as bucólicas paisagens, os tristes sentimentos da desilusão do amor, as errâncias no campo, e entraram no palco as multidões, as ferrovias, a indústria e a flânerie urbana.

No entanto, queremos chamar a atenção do leitor para um fato estilístico, Apollinaire descreve a rua a partir da sinestesia, e esta questão é perceptível no verso em que as placas e os avisos gritam e naquele em que a rua é descrita como uma corneta ─ assim, as impressões visuais se associaram às sonoras ─ a simultaneidade das sensações ─ para formar a imagem de uma rua industrial. Além disto, há o uso de termos que não eram freqüentes na literatura da época, como “datilógrafa”, e metáforas que poderiam ser habituais em canções populares, mas que poderiam não ser consideradas elegantes em uma poesia erudita, como a “sirene que geme” e os “letreiros que gritam como papagaios”. Mas tudo isto tem uma razão de ser na poética do nosso autor, posto que isto amplia o contraste de sentido contido no último verso, que faz referência à “graça” desta rua industrial, um misto de ruídos, trabalhadores que formam uma multidão de passantes e a própria atividade industrial.

Trata-se, neste caso, de uma descrição de uma rua na cidade de Paris no início do século XX, e para concluir o nosso texto, cotejaremos os versos de Apollinaire com alguns breves trechos do texto de Georges Perec, intitulado, como já havíamos escrito, Tentativa de esgotamento de um lugar parisiense:

“Os faroletes se tornam visíveis e mais visíveis também as luzes dos táxis, mais brilhantes quando eles estão vazios. (...) Muita gente, muitas sombras, um 63 vazio; o sol é um clarão, um 70 lotado, a chuva parece ter aumentado. São seis horas e dez minutos. Buzinas; começo de engarrafamento.”(4)

Da sua mesa de café, Perec nos descreve o caos controlado de uma metrópole moderna, em que trabalhadores os mais diversos se misturam a turistas das mais diversas nacionalidades, em que carros de passeio se confundem com táxis e ônibus (nomeados pelo número que indica a sua linha). Se não há, exatamente, a sinestesia posta por Apollinaire, o autor francês certamente não teria conseguido descrever a Paris dos anos 1970 sem lançar luz sobre os seus ruídos. Ora, o que Apollinaire realizou em 1912 Perec atualiza em 1974; a diferença entre os dois textos, no entanto, é que Perec tentava, ironicamente, ser o mais “objetivo” possível, isto é, descrever o lugar parisiense com todos os seus elementos urbanos. A ironia reside no inelutável fato de que a tarefa é impossível, e o autor tem plena consciência deste fato: o próprio título indica que é uma tentativa...

Acima havíamos justificado o cotejamento de um texto em prosa com uma poesia pelo fato de que no arsenal literário de Perec havia a incorporação da sonoridade rítmica a sua prosa, e o exemplo mais claro ─ ao menos neste texto ─ é este brevíssimo parágrafo (verso?): “Passe un papa poussant une poussette”.(5) Em Português, ao menos em uma tradução mais literal, parte da sonoridade se perde“Passa um papai empurrando um carrinho.” No entanto, o original apresenta uma sonorização intencional ─ e, é claro, intencionalmente irônica ─ que apenas acentua a aleatoriedade do seu catálogo parisiense: em Paris há as camadas de cidades, a Lutécia desaparecida, os vestígios da cidade medieval, os monumentos de Haussmann; mas a Paris de Perec era outra coisa, era “o que acontece quando nada acontece, senão pessoas, veículos e nuvens.” (6)

notas

1
Linkhorn, Renée Humour verbal et contestation dans la littérature française contemporaine. In: The French Review, Vol. 55, No. 5 (Apr., 1982), pp. 648-655, p. 653.

2
Gollub, Judith. Georges Perec et la Littérature Potentielle. In: The French Review, Vol. 45, No. 6 (May, 1972), pp. 1098-1105, p. 1099.

3
Apollinaire, Guillaume. Alcools. Paris: Intertextes/Nathan, 1983, p. 34. Tradução nosso do Francês para o Português. Por questões semânticas, optamos pela tradução literal.  

4
Perec, Georges. Tentative d’épuisement d’un lieu parisien. Paris: Titre 70, 2008, p. 29. Tradução nossa do Francês para o Português.

5
Perec, Georges. Tentative d’épuisement d’un lieu parisien. Paris: Titre 70, 2008, p. 29. Tradução nossa do Francês para o Português.

6
Perec, Georges. Tentative d’épuisement d’un lieu parisien. Paris: Titre 70, 2008, p. 10. Tradução nossa do Francês para o Português.

sobre o autor

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, arquiteto e urbanista, Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Autor do livro: Arquitessitura; três ensaios transitando entre a filosofia, a literatura e arquitetura. Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, Maringá PR

 

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