Brasília faz meio século em 2010. Com 2,5 milhões de habitantes, é a quarta maior cidade brasileira. Com PIB igual a 3,76 % do PIB nacional, é a terceira cidade mais rica do país. Com 390 veículos para cada 1000 habitantes, integra a região mais urbanizada e motorizada do centro-oeste brasileiro. Essa Brasília não se reduz ao Plano Piloto de Lucio Costa, mas este ancora um conjunto de trinta regiões administrativas, a maioria correspondendo às ditas cidades-satélites. Com 360 mil habitantes, o Plano Piloto tem quase três quartos dos 500 mil previstos originariamente para o ano 2000. Concentra a administração federal e as embaixadas, oferece o maior número de empregos, a renda mais alta, o comércio mais variado, o maior número de escolas, hospitais, equipamentos culturais, instalações esportivas. E recebe um milhão de visitantes por ano.
Nem visitante nem habitante tem muito transporte público à disposição. A densidade do Plano Piloto é baixa e as linhas de metrô e de ônibus em operação não minimizam a dependência do automóvel. Como em Miami ou Los Angeles, há congestionamento e falta estacionamento. Dada a linearidade, o problema é menos urbanístico que administrativo e político. O tráfego ainda flui melhor que nas outras capitais brasileiras: a integração da autopista à cidade é pratica e esteticamente exemplar. O jogo com duas geometrias combina simplicidade e sofisticação. A curva do Eixo Rodoviário envolve e seduz, a reta do Eixo Monumental impressiona, a Plataforma Rodoviária e os dois centros comerciais na interseção são achado sempre justo. Mas o mar de carros estacionados nos lados do Congresso quebra a compostura e desagrada.
De outro lado, o mar de carros assinala vitalidade, como o mar de gente caminhando. Tem turista na Praça dos Três Poderes e seu entorno, a cabeça metafórica e real. Tem povo na Plataforma e seu entorno, o coração confuso, animado e mestiço como em qualquer cidade brasileira.
Tem turista, povo e morador de classe média na feira de artesanato abaixo da Torre de Telecomunicações, o braço levantado que indica o compromisso com o futuro. A maioria das superquadras está ocupada e as alamedas plantadas à sua volta – segundo as recomendações de Lucio – estão crescendo lindas e acertadas. Propiciam uma nova rota para os moradores, os que correm por esporte e os que buscam, em passo normal, os equipamentos e comércios locais, razoáveis em número e teor. Nem tudo são rosas, porém, e o setor hoteleiro exemplifica um descompasso ora claro.
Algumas mudanças aí valem para muito do Plano Piloto. A impressão de descampado desapareceu com o volume de construção feita. O setor ganhou densidade visual considerável. A concentração espacial do mesmo tipo de edifício deixou de incomodar: a mono-funcionalidade se relativizou ao se multiplicarem os hotéis com vários espaços abertos ao público, de bares, restaurantes, lojas, academias de ginástica e institutos de beleza a auditórios e salões de convenção ou festa. A conexão com os setores comerciais vizinhos melhorou, que estes também evoluíram. Falta, contudo, um projeto setorial e inter-setorial coerente. A recusa da disciplina de rua-corredor e praça-salão resultou em espaço urbano pouco atraente, agravado por uma arquitetura em geral medíocre. Não produziu nova ordem articulando volumes construídos e espaços abertos, como no setor monumental.
Em termos de arquitetura, a saudade dos 1970 se justifica. A Brasília do Plano Piloto ainda era a Capital da Esperança, de praças e palácios cuja dignidade resistia às acusações míopes de desumanidade, e não a Ilha da Fantasia atual de vulgaridade avassaladora, não redimida pelas intervenções recentes de Oscar Niemeyer. Mas há novidade boa. Após a correta Casa do Professor da Universidade de Brasília, que Nonato Veloso terminou em 2003, dois outros projetos ganhadores de concursos se concluem: em 2010, a Sede da Fundação Habitacional do Exército, de Danilo Macedo, Elcio Gomes, Fabiano Sobreira, Filipe Montserrat e Daniel Lacerda; em 2011, a Sede da Câmara Legislativa do Distrito Federal, de Eurico Francisco, Fábio Gonçalves, Lívia Franca, Luís Mauro Freire, Maria do Carmo Vilariño e Zeuler Lima. São promessas a conferir e quem viver verá.
Sobre o autor
Arquiteto UFRGS, M. Arch University of Pennsylvania, Docteur Université de Paris VIII. Professor titular UFRGS. Coordenador do PROPAR-UFRGS 2005-06. Representante adjunto da área de arquitetura na CAPES 2005-07. Co-autor de La Casa Latinoamericana Moderna (GGili) e Arquitecturas Cisplatinas (Uniritter).
Carlos Eduardo Dias Comas, Porto Alegre RS Brasil