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drops ISSN 2175-6716

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A crise por que passa o Masp está relacionada com o desmonte sistemático de um projeto celebrado como uma revolução no mundo dos museus; este ano comemoramos o centenário de Lina Bo Bardi, seria uma grande oportunidade de trazer de volta sua museografia.

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FERRAZ, Marcelo; VAINER, André . Outra vez o Masp. Drops, São Paulo, ano 14, n. 080.01, Vitruvius, maio 2014 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.080/5152>.


Lina Bo Bardi, Museu de Arte de São Paulo, 1968
Foto Abilio Guerra


A crise por que passa o Museu de Arte de São Paulo – Masp está relacionada com o desmonte sistemático de um projeto artístico e conceitual mundialmente celebrado como uma revolução no mundo dos museus. É também a falta de reconhecimento aos seus criadores. Após a saída do professor Bardi (Pietro Maria Bardi) de sua direção, o Masp vem erraticamente caminhando, ora com sucessos de mostras “blockbusters”, ora no lamento da falência financeira. Mas sempre no sentido oposto aos ideais de museu sonhados e realizados por seus criadores: Assis Chateaubriand, o “aventureiro” realizador, Pietro Maria Bardi, o oportunista e talentoso caçador de obras primas e Lina Bo Bardi, a revolucionária arquiteta que subverte velhos cânones no projeto arquitetônico e museográfico. Mas estes nomes vêm sendo apagados pouco a pouco, esquecidos.

O atual problema não pode ser tomado apenas no seu aspecto financeiro. Se fosse assim, com uma boa campanha de arrecadação entre os associados ela estaria resolvida. É bom lembrar que no passado, o professor Bardi em vários momentos botou a mão no bolso e pagou salários e despesas para manter as portas do Masp abertas. Hoje em dia isso é difícil de acontecer. Muitos querem ajudar, mas com o dinheiro publico de renúncia fiscal, através da Lei Rouanet.

Mas a crise do Masp é principalmente de falta de credibilidade. O museu se fechou para a sociedade artística e intelectual, e para os produtores culturais públicos e privados. Daí a dificuldade no diálogo com município, estado e união. Estes, e mais algumas instituições como o Instituto Bardi, a Universidade de São Paulo e a Unicamp, por exemplo, deveriam ter seu assento no conselho do museu. Afinal, apesar de pertencer a uma sociedade privada, ninguém tem dúvida de que o museu e seu acervo são um patrimônio da nação, tombado pelo Iphan, público portanto.

Os princípios fundadores do museu estão na arquitetura de espaços livres, acessíveis e generosos; espaços para convivência e fruição, encontros e abrigo de criadores das vanguardas de todos os tempos; um verdadeiro centro cultural com uma das maiores coleções de arte do ocidente. Qualidade, inteligência e ousadia guiaram seus criadores e dirigentes por muitas décadas. Mas o que vemos hoje é uma contabilidade de números de visitantes utilizada como escudo de defesa diante da falta de ousadia na em suas mostras e atividades. Lina costumava dizer: “hoje em dia os supermercados também estão cheios, lotados, e daí? Isso é sucesso?”. É sempre bom lembrar que o Masp já foi um centro de formação com as escolas do Instituto de Arte Contemporânea, e que muitos de nós fomos iniciados e educados no mundo das artes nas frequentes visitas à coleção do museu. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nasceu no Masp, para dar um exemplo de iniciativa de sucesso que continua gerando frutos em nossa cidade.

São pontos altos do projeto o vão livre e a museografia de cavaletes de concreto e vidro, que Lina chamava de “painéis didáticos de cristal”. Tocar nestes temas desagrada a muitos, mas clarifica o que eu chamo de falta de reconhecimento aos seus criadores e/ou fechamento do museu em si mesmo. O vão livre, uma espécie de grande ninho de aconchego urbano, de tempos em tempos é ameaçado, em tentativas de fechamento com grades e portões. Mas isso nunca vingou e nunca vingará. As reações contrárias são muito fortes e contundentes, envolvendo mobilização popular. Mas, dois pisos acima, o fechamento do museu já está em marcha desde 1996, com a extinção da libertária museografia de Lina Bo Bardi. Hoje, pessoas com menos de 25 anos não se recordam (porque não conheceram) da coleção de pinturas e esculturas expostas como uma grande família no segundo andar do edifício. Ao contrário, o que se vê hoje é uma expografia mais afeita aos palacetes europeus do passado, com salinhas e labirintos, fruto de uma visão colonizada. Mataram completamente a grande sala de exposições. A proposta de Lina foi uma quebra total de modelos expositivos e, independente de se gostar dela ou não, não poderia desaparecer. Deveria ser guardada como experiência radical e única, a exemplo da museografia do Museu Guggenheim em Nova York, que constantemente modificada em função de necessidades eventuais, é sempre reeditada em seu formato original – concebido que foi como leitmotiv de sua exemplar arquitetura. No Masp, andamos para trás.

Este ano comemoramos o centenário de Lina Bo Bardi. Seria uma grande oportunidade de trazer de volta sua museografia, uma novidade para as novas gerações. Mais do que uma homenagem a Lina, seria uma forma de respeito aos frequentadores do museu que merecem conhecer este ousado projeto em sua plenitude. E, quem sabe, um primeiro passo para o museu voltar a dialogar franca e abertamente com toda a sociedade.

nota

NE
Publicação original do artigo: VAINER, André; FERRAZ, Marcelo. Outra vez o Masp. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 de abril de 2014, p. A3.

sobre os autores

André Vainer e Marcelo Ferraz são arquitetos. Entre 1977 e 1992, colaboraram com Lina Bo Bardi.

 

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