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research

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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O artigo apresenta a evolução da pandemia de SARS-CoV-2 no município de São Paulo até 29 de agosto de 2020, de modo a compreender a paisagem social que se forma em decorrência da pandemia.

english
This paper intends to monitor the evolution of SARS-CoV-2 pandemic in the municipality of São Paulo until August 29th 2020, in order to comprehend which social landscape results from the pandemic.

español
Este artículo tiene como objetivo acompañar la evolución de la pandemia por SARS-CoV-2 hasta 29 de agosto de 2020 en el municipio de São Paulo, para comprender el paisaje social que resulta de la pandemia.


how to quote

SANDEVILLE JR., Euler; PALMA, Bruna Feliciano. Uma paisagem social da pandemia do Covid-19 no município de São Paulo. Arquitextos, São Paulo, ano 21, n. 249.05, Vitruvius, fev. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.249/8006>.

O Instituto da Paisagem (1) acompanhou a evolução da pandemia por SARS-CoV-2 no território do Setor Noroeste da cidade de São Paulo, comparando-o com dados mais gerais da cidade. Ao analisar a evolução dos dados oficiais da pandemia em diferentes escalas, foi observado que a vulnerabilidade dos territórios influencia a dispersão e impacto da doença, tornando este também um impacto social e agravando as condições precárias de trabalho, acesso à educação, à saúde, à habitação, bem como a exposição pelos modos de circular pela cidade. Este artigo apresenta a variação de casos desde a 13ª até a 35ª semanas epidemiológicas (28 de março de 2020 a 29 de agosto de 2020). O estudo se revelou convergente com outros realizados por diferentes grupos de pesquisa preocupados em pensar a relação entre as desigualdades sociais e urbanas e as condições de saúde.

Foi apontada existência de pontos cegos nas políticas de contenção da pandemia, sendo o principal ponto cego os grupos mais vulneráveis que não teriam como adotar o isolamento ou estariam em risco ao adotar – em especial, quem não possui uma fonte de renda garantida e quem não tem as condições de saneamento necessárias para a proteção contra o vírus (2). Estudos de monitoramento da soroprevalência do vírus apontaram que esta é 2,4 vezes maior nas pessoas residentes nos distritos mais pobres, 4,5 vezes maior em pessoas com ensino fundamental incompleto e 2,4 vezes maior em pessoas negras (3).

Uma outra questão essencial para reforçar essas políticas, entretanto, seria localizar onde estão esses grupos mais vulneráveis e partir de uma política urbana que levasse em consideração as particularidades e vulnerabilidades de cada território. Ressalta-se que uma leitura territorial que não considere especificidades dos territórios em escalas menores, como a do bairro e das comunidades, nem a relação que os territórios mantêm entre si, pode negar informações-chave para o enfrentamento da pandemia. Raquel Rolnik et al. (4) observaram que as áreas com maior número de hospitalizações coincidiam com os locais onde a população utiliza majoritariamente o transporte público para locomoção para trabalho. Bermudi et. al (5), ao comparar mortalidade do vírus nas áreas com melhores condições socioeconômicos e áreas com as piores condições socioeconômicas na cidade de São Paulo, concluiu que a mortalidade era entre 50% a 66% menor nas áreas com melhores condições socioeconômicas.

De modo a compreender a expressão espacial desse fenômeno, realizamos o acompanhamento do número de casos e óbitos pelo DataSUS desde a 13ª semana epidemiológica (21 de março de 2020 a 08 de agosto de 2020), quando se inicia a quarentena em São Paulo, até a 35ª semana epidemiológica (23 de agosto de 2020 a 29 de agosto de 2020). Apresentamos a correlação dos dados em três diferentes escalas – a níveis nacional, estadual e da cidade de São Paulo –, de modo a observar a expansão da pandemia e a ponderar o peso da concentração de casos e óbitos da cidade de São Paulo. A observação foi atualizada a cada catorze dias, período de incubação do vírus, permitindo verificar as consequências das políticas públicas e do comportamento da população em relação ao isolamento social. Para a cidade de São Paulo, utilizamos dados da Secretaria Municipal de Saúde através do sistema Tabnet. Foram considerados os casos de Síndrome Gripal por Covid-19 (confirmados por exames laboratorial, clínico-imagem, clínico-epidemiológico e os considerados sem informação para os suspeitos) e Síndrome Respiratória Aguda Grave por Covid-19 (confirmados e suspeitos).

Em todos os níveis as informações sobre Síndrome Gripal são fornecidas pelo e-SUS e sobre Síndrome Respiratória Aguda Grave são fornecidos pelo Sivep Gripe. No entanto, foram encontradas diferenças significativas nos dados fornecidos, tanto entre o governo estadual e municipal de São Paulo, como do próprio governo municipal, o que indica desarticulação em relação à contabilização da pandemia. Além disso, a precária espacialização dos dados impõe dificuldades à racionalidade das ações, especialmente em um contexto de sobrecarga do sistema público anterior à pandemia.

Foi também realizada uma observação dos casos e óbitos na escala dos distritos administrativos, de modo a compreender como a expansão da pandemia se deu a nível intraurbano. Neste artigo observamos a evolução de casos e óbitos em 10 distritos que se localizam no setor noroeste, os quais são inter-relacionados, seja por por proximidade espacial ou por deslocamento para trabalho, conforme pudemos apurar por recurso à pesquisa Origem Destino (2017). Por último, procuramos responder às questões de quem está sendo mais atingido pela pandemia neste setor da cidade.

A evolução no país

O objetivo desta seção é ponderar o peso de São Paulo no comportamento geral de casos confirmados e óbitos para efeito de comparação inicial da participação da cidade de São Paulo na curva da pandemia. O primeiro caso de coronavírus no Brasil foi confirmado no dia 26 de fevereiro de 2020. Menos de um mês depois, no dia 13 de março de 2020, é registrado o início da transmissão comunitária nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. A cidade de São Paulo, objeto deste artigo, configurava 66,5% dos casos no país ao início da pandemia, representando um grande foco da pandemia. A partir da 17ª semana epidemiológica (19 de abril de 2020 a 25 de abril de 2020), a participação da cidade de São Paulo nos casos totais do país diminui significativamente, representando 37,1% dos casos, uma porcentagem que, apesar de bastante elevada, indicava a rápida disseminação da pandemia pelo país a par da grave ausência de uma política federal. Ao final de agosto, somente 6,7% dos casos no país eram provenientes da cidade de São Paulo.

Candido et. al realizaram o mapeamento genético da expansão do Covid-19 e chegaram a conclusão de que houveram duas fases de transmissão do vírus: uma que ficou concentrada no Sudeste, em especial em São Paulo e Rio de Janeiro, e outra quando a contaminação pelo vírus se espalhava para o resto do Brasil a partir do Sudeste (6). Além disso, demonstraram que o primeiro período de isolamento, entre final de março e começo de abril, teve efeitos positivos, diminuindo o contágio.

Para análise do comportamento dos dados oficiais é necessário observar não o total acumulado que, por contabilizar todos os casos, permanece sempre em ascensão, e sim o número de casos notificados a cada semana epidemiológica, o qual demonstra a variação da contaminação do vírus entre a população. É importante ressaltar que foram considerados apenas os casos confirmados para a análise a nível nacional, no entanto, por conta da rápida transmissão do vírus e da aplicação de testes em uma quantidade e velocidade menor do que o necessário, há uma estimativa, que pode ser conservadora, de que os casos confirmados representam apenas 9,2% do número total de casos (7).

O período de diminuição ocorreu entre as semanas epidemiológicas 13 e 15 (28 de março de 2020 a 11 de abril de 2020). Entre as semanas epidemiológicas 15 e 17 (11 de abril de 2020 a 25 de abril de 2020) o número de novos casos mais do que dobra, de modo que este período de maior isolamento e a consequente diminuição de casos é breve. A segunda diminuição de casos observada após esse período se deu entre as semanas epidemiológicas 27 e 29 (04 de julho de 2020 a 18 de julho de 2020), na qual se passou de 509.425 novos casos em duas semanas para 497.856 novos casos.

Não obstante, nas semanas seguintes aumentou consideravelmente – foram registrados 633.017 novos casos entre as semanas epidemiológicas 29 e 31, seguido de uma pequena queda, com 609.219 casos entre as semanas 31 e 33 -, de modo que não era possível afirmar que já houvesse atingido um pico (8) no país, uma vez que o número de casos novos por semana permaneceu oscilando em um patamar bastante alto (da semana 29 a semana 31, o número de novos casos aumenta em 78%, e então diminui apenas em 4% na semana 33). O mesmo ocorre com os óbitos, estáveis no patamar até então mais alto entre as semanas 21 a 29, aumentaram a partir da semana 29 (18 de julho de 2020 a 01 de agosto de 2020), para novamente diminuírem entre as semanas 31 e 33 (09 de agosto de 2020 a 15 de agosto de 2020), um número bastante elevado equivalente ao da semana 19 a 21 (09 de maio de 2020 a 23 de maio de 2020) e em oscilação.

 

A evolução no estado de São Paulo

No estado de São Paulo, a quarentena foi oficializada no dia 24 de março, com o fechamento do comércio na cidade de São Paulo três dias antes (21 de março de 2020) à revelia do governo federal, que nunca formalizou o isolamento social. Após pouco mais de dois meses (01 de junho de 2020), o isolamento no estado de São Paulo foi flexibilizado, e um mês depois começam a ser observadas quedas no número de casos, mesmo com a diminuição do isolamento. Para compreender como se deu esse processo, é necessário acompanhar a evolução de casos.

Até o momento, ainda não é possível inferir que o estado de São Paulo atingiu seu pico, uma vez que a diminuição de casos teria de se estabilizar por mais semanas. A variação de óbitos, no entanto, aparenta ser mais estável. Cresceu rapidamente entre a 13ª semana epidemiológica até a 25ª, quando passou a se estabilizar e até mesmo a decrescer o número de novos óbitos entre as semanas epidemiológicas 29 e 31 (18 de julho de 2020 a 01 de agosto de 2020). Aumentou nos catorze dias seguintes, para depois decrescer na semana epidemiológica 35 (23 de agosto de 2020 a 29 de agosto de 2020), isto é, permanece até o momento oscilando.

Ao início da pandemia, não é possível discriminar quantos dos casos no estado de São Paulo eram provenientes da cidade de São Paulo. Isto se deve ao fato de que há uma discrepância nos dados fornecidos pelo governo estadual e o governo municipal. Enquanto na semana epidemiológica 13 (22 de março de 2020 a 28 de março a 2020) a Fundação Seade, onde são divulgados os dados estaduais, indica que existiam 1.406 casos de Covid-19 no estado de São Paulo, dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde mostram 2.497 casos confirmados apenas na cidade de São Paulo para o mesmo período, quase mil casos a mais do que o governo estadual declarou.

Ao consultarmos a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo – SMS, apontaram que as diferenças se devem ao fato de que, para a contabilização estadual, é feita a “deduplicação” de casos que foram registrados como Síndrome Gripal e evoluíram para SRAG, sendo contabilizados duas vezes. Para o objeto deste artigo, o setor centro-noroeste da cidade de São Paulo, são somente disponibilizados dados pelo sistema Tabnet – SMS, de modo que adotamos estes dados como referência para as análises.

A evolução na cidade de São Paulo

Sobre a cidade de São Paulo foram disponibilizados dados mais específicos, sendo possível observar não só o número de casos e óbitos confirmados, mas também os suspeitos. No entanto, os dados fornecidos revelaram uma significativa alteração retroativa nos totais indicados. Nos dados disponibilizados no dia 15 de agosto de 2020, verificamos uma grande subnotificação na cidade de São Paulo como um todo, sendo o número de casos confirmados e suspeitos duas vezes maior do que apenas o número de casos confirmados. Já nos dados disponibilizados dia 25 de agosto de 2020, a discrepância entre os casos confirmados e os casos confirmados e suspeitos diminui consideravelmente. Todavia, ao observar os dados oficiais, o número total de casos acumulados diminuiu praticamente pela metade em relação aos dados divulgados inicialmente em 15 de agosto de 2020 e depois em 25 de agosto de 2020.

A diferença entre os números oficiais em apenas dez dias é significativa. Enquanto no dia 15 de agosto de 2020 foram contabilizados 596.978 casos confirmados e suspeitos acumulados, no dia 25 de agosto de 2020 estes números mudam para apenas 225.541 casos confirmados e suspeitos acumulados, ou seja, 371.437 casos foram descartados. Solicitamos à prefeitura de São Paulo o esclarecimento sobre a discrepância dos dados publicizados, para o qual confirmaram apenas que os dados são provenientes da soma entre os números do e-SUS e do Sivep Gripe. No entanto, a dúvida sobre a dissonância intramunicipal dos dados não foi esclarecida.

Apesar de significativa a variação do total de casos, pode-se observar que, mesmo com a mudança nos números oficiais, o padrão de variação de novos casos e óbitos a cada catorze dias permanece semelhante. Estão representadas a variação de casos e óbitos de acordo com os dados de 01 de agosto de 2020, e representadas a variação de casos e óbitos segundo os dados de 25 de agosto de 2020. Na cidade de São Paulo, os casos aumentaram progressivamente desde a semana epidemiológica 13 (22 de março de 2020 a 28 de março de 2020), quando foi implementada a quarentena, até a semana 19 (03 de maio de 2020 a 09 de maio de 2020). Apenas no começo de maio é verificada uma certa estabilidade dos casos, que permanecem aumentando mas em menor quantidade, a partir da semana epidemiológica 19 até a semana epidemiológica 23 (de 09 de maio de 2020 a 06 de junho de 2020). Ao final desse mês, foi anunciada a flexibilização da quarentena, que passou a ocorrer progressivamente a partir do dia 01 de junho de 2020.

No primeiro mês após a flexibilização, entre as semanas epidemiológicas 23 a 27 (06 de junho de 2020 a 04 de julho de 2020), o número de casos novos por semana aumentou rapidamente. Entre as semanas 25 e 27 (20 de junho de 2020 a 04 de julho de 2020) foi atingindo o maior número de novos casos a cada duas semanas em ambos os dados disponibilizados. A partir de julho, no entanto, os casos caem progressivamente, atingindo a marca de 4.335 casos novos em catorze dias ao final de agosto, um número de casos menor do que quando se iniciou a quarentena na cidade, quando se tinham 7.710 casos novos no mesmo período de tempo. Por sua vez, os óbitos estão em queda desde a semana epidemiológica 21 (17 de maio de 2020 a 23 de maio de 2020), antes de iniciar a flexibilização.

Nota-se que a disponibilização de dados pelos meios oficiais passa por alterações bruscas, de modo que não é possível afirmar precisamente a quantidade de casos de Covid-19 que realmente ocorrem na cidade de São Paulo, mesmo nos casos contabilizados oficialmente. Temos ainda que não há transparência quanto ao monitoramento dos protocolos, havendo relatos que reforçam a hipótese de que possa haver expressiva subnotificação. Os padrões de variações no número de casos e óbitos permanecem similares mesmo após alterações no sistema de informações e indicam que estar diminuindo significativamente. É importante ressaltar que esse processo não foi simultâneo na cidade inteira – no setor noroeste, cada distrito aparenta experienciar a pandemia de maneira diferente.

A expansão da pandemia no Setor Noroeste da cidade de São Paulo

Após realizar um panorama geral da evolução da pandemia na escala nacional, estadual e municipal, é necessário aprofundar de que maneira essa expansão ocorreu dentro da cidade. Os distritos de Jaraguá, Anhanguera e Perus foram selecionados por apresentarem alta vulnerabilidade social e ambiental e desenvolvermos na região projetos participativos voltados para programas de desenvolvimento local e regional integrando ambiente, saúde, educação e cultura (9). Foram então recortados dez distritos que integram mais diretamente a dinâmica do setor noroeste: Barra Funda, Lapa, Sé, Freguesia do Ó, Brasilândia, Cachoeirinha, Pirituba, Jaraguá, Perus e Anhanguera. A escolha por esses distritos considerou os fluxos realizados nessa parte a cidade a partir da pesquisa Origem Destino 2017, uma vez que a maior parte das viagens da população residente na Zona Noroeste se dá dentro da própria zona ou na Zona Central, em especial no eixo Lapa-Barra Funda-Sé. A análise da evolução da pandemia teria de ser conjunta entre esses distritos, uma vez que a expansão do vírus está profundamente conectada às relações que os territórios mantêm entre si.

Trata-se de um setor heterogêneo, com distritos com maior expectativa de vida, maior renda (Lapa, Barra Funda e Sé) e distritos de baixa renda, menor expectativa de vida e altíssima vulnerabilidade social (Brasilândia, Pirituba, Jaraguá, Perus, Anhanguera). Os distritos no Setor Noroeste representam locais propensos à maior risco durante a pandemia. Na Zona Noroeste, em contraposição à Zona Central, há uma concentração da população de renda mais baixa, que trabalha informalmente e que vive em domicílios com mais cinco moradores, tornando inviável contar apenas com medidas de isolamento para o enfrentamento da pandemia, uma vez que o isolamento não poderia ser feito nem mesmo dentro de seu próprio domicílio. Estudos demonstraram que o tipo de ocupação é um fator determinante do contágio e da severidade de doenças, assim como uma alta densidade domiciliar, não estando restrito apenas ao coronavírus (10).

Dentre eles, o distrito de Brasilândia é o segundo distrito com o maior número de óbitos na cidade de São Paulo. Além de compreender como se deu a evolução da pandemia ao longo do tempo em territórios periféricos, é possível verificar como ela se deu em territórios socialmente muito distintos. Por exemplo, enquanto Anhanguera, Perus e Jaraguá possuem apenas três leitos para cada 10 mil habitantes, a região central possui 44 leitos para cada 10 mil habitantes (11). Analisamos a evolução dos casos/óbitos suspeitos e confirmados acumulados nestes distritos, assim como a variação a cada catorze dias no número de casos/óbitos, permitindo uma aproximação de como os territórios foram afetados pela pandemia e qual a sua situação atual, indicando a necessidade de outros enfoques a partir daí em áreas mais específicas, que considerem suas particularidades e necessidades, exigindo acesso a dados mais refinados.

Na 13ª semana epidemiológica (22 de março de 2020 a 28 de março de 2020), quando é implementada a quarentena na cidade de São Paulo, já haviam casos em todos os distritos nesse setor. Os distritos com os maiores números de casos acumulados nessa semana eram Pirituba, Brasilândia e Jaraguá, respectivamente, enquanto Barra Funda, Perus e Anhanguera apresentavam o menor número de casos. O cenário mudou nas duas semanas seguintes, com Perus e Anhanguera disparando no número de novos casos na 15ª semana epidemiológica (05 de abril de 2020 a 11 de abril de 2020). Ao final de agosto, os três distritos com maior número de casos acumulados são Brasilândia, com 4.906 casos, Jaraguá, com 3.540 casos, e Pirituba, com 2.941 casos. Barra Funda permanece com a menor quantidade de casos (275 casos acumulados), seguida pela Sé (557 casos acumulados) e por Anhanguera (945 casos). Com a disseminação da pandemia generalizada em todos os distritos, somente dois distritos não registraram óbitos em decorrência do Covid-19 na primeira semana de quarentena: Barra Funda e Sé.

Ao analisar a variação no número de casos a cada duas semanas epidemiológicas, é possível observar que até a semana epidemiológica 21 (17 de maio de 2020 a 23 de maio de 2020) os casos subiam constantemente em Brasilândia, Jaraguá, Pirituba, Freguesia do Ó e Perus; em Anhanguera e Lapa, diminuíram entre as semanas 17 e 19 (25 de abril de 2020 a 09 de maio de 2020) e aumentaram novamente entre as semanas 19 e 21 (09 de maio de 2020 a 23 de maio de 2020). Os casos se mantiveram estáveis nesse mesmo período em Cachoeirinha, Sé e Barra Funda. Entre as semanas 21 e 23 (23 de maio de 2020 a 06 de junho de 2020) os casos aumentaram simultaneamente em todos os distritos, especialmente em Brasilândia, Jaraguá, Pirituba e Perus. Nas duas semanas seguintes (semanas 23 a 25, 06 de junho de 2020 a 20 de junho de 2020), os casos novos em Perus e na Sé diminuíram, mas continuaram aumentando nos outros distritos, em especial na Lapa. Nas semanas 25 a 27 (20 de junho de 2020 a 04 de julho de 2020), enquanto os casos diminuíam em Jaraguá e Pirituba, os casos aumentaram na Sé, na Freguesia do Ó e na Brasilândia, distrito que atinge seu maior número de novos casos. Nos distritos restantes, os casos permaneceram estáveis. Nas semanas 27 a 29 (04 de julho de 2020 a 18 de julho de 2020) foram registrados poucos novos casos, com a maioria dos distritos mantendo-se estáveis; nas semanas 29 a 31 (18 de julho de 2020 a 01 de agosto de 2020), os novos casos aumentaram relativamente em todos os distritos, com exceção de Pirituba, onde o número de novos casos começou a cair. A partir disso, os casos novos a cada 14 dias diminuem drasticamente em todos os distritos, se aproximando ao número de casos novos ao início da pandemia durante a última semana epidemiológica analisada (23 de agosto de 2020 a 29 de agosto de 2020).

Na variação do número de óbitos são observados padrões diferentes dos casos; enquanto os novos casos atingem seu maior número entre as semanas epidemiológicas 23 e 25, o maior número de óbitos ocorre antes, entre as semanas 17 a 23 (25 de abril de 2020 a 06 de junho de 2020). O número de óbitos em todos os distritos aumentou constantemente até a 19ª semana epidemiológica (03 de maio de 2020 a 09 de maio de 2020); nesta semana, Cachoeirinha, Pirituba e Lapa atingiram o maior número de óbitos registrados. Entre as semanas 19 a 21 (09 de maio de 2020 a 23 de maio de 2020), Brasilândia, Jaraguá, Anhanguera e Barra Funda atingiram seu maior número de óbitos registrados. Entre as semanas 21 a 23 (23 de maio de 2020 a 06 de junho de 2020) houve pequeno aumento no número de óbitos em Freguesia do Ó, Jaraguá, Perus, Pirituba; ao mesmo tempo queda em Brasilândia, Anhanguera, Barra Funda e Sé. A partir da 23ª semana (31 de maio de 2020 a 06 de junho de 2020), o número de óbitos passou a diminuir em todos os distritos, com exceção de Anhanguera. Nas semanas 27 a 29 (04 de julho de 2020 a 18 de julho de 2020) houve aumento nos números de óbitos na maioria dos distritos, seguido de queda nas semanas 29 a 31 (18 de julho de 2020 a 01 de agosto de 2020), e novamente um aumento nas semanas 31 a 33 (01 de agosto de 2020 a 15 de agosto de 2020) seguido de queda nas últimas semanas observadas (15 de agosto de 2020 a 29 de agosto de 2020). Apesar de ainda estar oscilando, o número de novos óbitos no setor centro-noroeste permanece em um patamar baixo, similar ao início de pandemia.

Distinguimos a composição dos óbitos em cada distrito de acordo com a faixa etária. Em todos os distritos, a maior parte dos óbitos se deu em pessoas com mais de 75 anos de idade; no entanto, enquanto na Barra Funda e Lapa mais de 70% dos óbitos eram na faixa de 75 anos ou mais, na Sé essa faixa concentra 50% dos óbitos. Em todos os distritos da Zona Noroeste essa faixa não ultrapassa os 40%, distribuídos principalmente nas faixas etárias entre 45 a 74 anos. Em Anhanguera, 52,4% dos óbitos se deram em pessoas com menos de 64 anos. Aparentemente, o grupo de maior risco do vírus varia de acordo com a composição socioespacial – enquanto na Lapa e Barra Funda a maior mortalidade do vírus seria para pessoas com mais de 75 anos, nos outros distritos mais vulneráveis esse grupo se estende até os 45 anos de idade.

A variação de casos e óbitos novos a cada duas semanas apresentou diferenças em cada distrito, cada um representando um caso particular. Mesmo assim, certos padrões são notados: enquanto o maior número de novos óbitos é registrado entre o final de abril e início maio, o maior número de novos casos é registrado depois, ao final de maio e início de junho. Isto significa que quando se inicia a flexibilização da quarentena, todos os distritos analisados apresentavam aumento nos novos casos, alguns atingindo seu maior número de novos casos. Brasilândia, por sua vez, atinge o maior número de novos casos um mês após a flexibilização.

Somente na metade de julho o número de novos óbitos e casos diminuem em todos os distritos, permanecendo em um patamar baixo até o final de agosto. Não obstante, é importante ressaltar que mesmo nesse momento o número de casos no centro é mais baixo que na Zona Noroeste – enquanto na Sé se registram apenas um novo caso a cada duas semanas, em Brasilândia o menor número atingido foi de sessenta casos a cada duas semanas.

Brasilândia, Anhanguera, Jaraguá, Pirituba, Perus e Freguesia do Ó apresentavam padrões semelhantes de variação de casos e óbitos, enquanto Cachoeirinha, Lapa, Barra Funda e Sé apresentavam outro padrão. No entanto, a partir do início da flexibilização, não é possível identificar um único padrão de variação de casos, e os distritos centrais passam a variar conjuntamente com os distritos da Zona Noroeste. É possível que isso se deva ao fato de que, antes da flexibilização, a Zona Noroeste manteve mais relações internamente, e a partir da flexibilização, locomoções com motivos a trabalho aumentaram e as relações com a Zona Central, consequentemente, se intensificaram.

Conclusão

É possível concluir que encontramos diferentes momentos da pandemia a cada escala observada. No Brasil e no estado de São Paulo a variação no número de casos e óbitos a cada 14 dias permanece crescendo. Os centros urbanos se mostraram no início da pandemia como o epicentro, por onde o vírus expandiu para o resto do país. Por sua vez, a cidade de São Paulo, onde a pandemia se iniciou, já haveria passado por uma primeira onda que atingiu seu pico ao final de julho. Entretanto, dentro da própria cidade é possível observar que a pandemia apresentou trajetórias e momentos diferentes: enquanto nos distritos centrais (Barra Funda, Sé e Lapa) a expansão de casos foi estável, mantendo um baixo número de casos e óbitos até o momento, nos distritos da Zona Noroeste essa expansão foi oscilatória, com altos e baixas de casos em diferentes momentos, e atingiu maior número de casos e óbitos em relação aos primeiros. Dentro da Zona Noroeste, Brasilândia, Jaraguá e Pirituba se destacaram pelo maior número de casos e óbitos e apresentaram uma variação de casos distinta, com o maior número de novos casos acontecendo no início de julho.

Os efeitos e consequências pandemia, portanto, não são os mesmos em todos os lugares. É importante ressaltar que em cada território a pandemia, embora participando de uma dinâmica comum na escala da cidade, deu-se de maneira diferente, não sendo possível generalizar os resultados entre apenas uma dinâmica para o centro e outra para a periferia. Na Zona Noroeste, foram observadas duas dinâmicas diferentes: uma específica em Brasilândia, Freguesia do Ó, Pirituba, Jaraguá e Perus com momentos de pico muito semelhantes, e outra nos distritos de Sé, Barra Funda, Lapa e Cachoeirinha, a qual se diversifica após a flexibilização e com o aumento da relação entre os territórios; dentre os distritos da periferia noroeste, Anhanguera apresentou um baixo número de casos, se aproximando dos números na região central. Nos distritos mais vulneráveis a mortalidade é elevada em pessoas com até 45 anos e nos mais centrais concentra-se em pessoas com mais de 75 anos.

Estudos futuros devem avaliar as particularidades e necessidades de cada local, de modo a explicar quais fatores dentro da composição socioespacial levaram a consequências diferentes em decorrência da pandemia, e a partir disso apontar onde e em que as políticas urbanas para contenção da pandemia devem ser reforçadas. Um ponto destacado é a falta de articulação entre governos estadual e municipal, e internamente entre o próprio governo municipal, na disponibilização de dados, fato que dificulta a análise da evolução da pandemia e que pode prejudicar as ações de enfrentamento, bem como uma desarticulação entre os setores de atendimento direto à população.

Óbitos por Covid-19 segundo faixa etária no Setor Centro-Noroeste de acordo com os dados fornecidos pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados e pelo Tabnet/SMS, 2020
Elaboração Bruna Palma [Instituto da Paisagem]

É notória a falta de ação e orientação preventiva à população em todos os níveis de governo, em especial no federal, a quem caberia liderança em primeiro nível na coordenação das ações diante de uma dinâmica de dispersão que já era conhecida. O comportamento da população oscila conforme os desentendimentos dos níveis de governo, indicando fragilidade das estruturas sociais no país, cujas causas são históricas e políticas. Ainda que sejam necessários mais estudos, a verificação dos dados e o acompanhamento que realizamos na região noroeste em um prazo maior do que este da pandemia, indica uma ausência de uma política regional nos setores básicos e a precariedade dessas estruturas, que se evidencia de modo mais dramático e se agrava no contexto de situações críticas, como a pandemia. Finalmente, embora os dados analisados sejam neste momento alvissareiros e indiquem uma significativa diminuição dos casos e óbitos na cidade de São Paulo, é necessário um acompanhamento prolongado e a extensão rigorosa das medidas preventivas e educativas, posto que os números ainda são elevados e pode haver reincidência no decorrer do tempo, razão também pela qual se faz mais necessária neste momento a exigência de aprimoramento e transparência das políticas de controle e dos protocolos de segurança no atendimento e notificação.

notas

1
Instituto da Paisagem <http://institutodapaisagem.com.br/>.

2
PIRES, Roberto Rocha C. Os efeitos sobre grupos sociais e territórios vulnerabilizados no enfrentamento à crise sanitária da Covid-19: propostas para o aperfeiçoamento da ação pública. Nota Técnica, Brasília, n. 33, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, abr. 2020 <https://bit.ly/3ojI8iW>.

3
TESS, Beatriz H. et al. SARS-CoV-2 seroprevalence in the municipality of São Paulo. medRxiv, New Haven, jun. 2020 [no prelo] <https://www.medrxiv.org/node/87705.external-links.html>.

4
ROLNIK, Raquel et al. Circulação para trabalho explica concentração de casos de Covid-19. Laborátorio de Direito à Cidade, Universidade de São Paulo, set. 2020 <https://bit.ly/3ckQpAu>.

5
BERMUDI, Patricia Marques Moralejo et al. Spatiotemporal dynamic of Covid-19 mortality in the city of São Paulo, Brazil: shifting the high risk from the best to the worst socio-economic conditions. arXiv, set. 2020 [no prelo] <https://arxiv.org/abs/2008.02322>.

6
CANDIDO, Darlan. S. et al. Evolution and epidemic spread of Sars-CoV-2 in Brazil. Science, v. 369, n. 6508, 2020, p. 1255-1260 <https://bit.ly/3cdAtA4>.

7
PRADO, Marcelo Freitas do et al. Análise da subnotificação de Covid-19 no Brasil. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, n. 32, v. 2, Rio de Janeiro, 2020, p. 224-228 <https://bit.ly/3sYMI9S>.

8
O pico da pandemia é considerado o momento em que se atinge o maior número de novos casos, a partir do qual o número de novos casos deve diminuir. Pode-se considerar que o pico da pandemia foi atingido quando o número de casos novos diários permanece em queda constante.

9
Maiores informações sobre os Territórios de Interesse da Cultura e da Paisagem podem ser obtidas no site do Instituto da Paisagem <http://institutodapaisagem.com.br/>.

10
BERMUDI, Patricia Marques Moralejo et al. Op. cit., p. 8.

11
PEREIRA, Rafael H. M. et al. Mobilidade urbana e o acesso ao Sistema Único de Saúde para casos suspeitos e graves de covid-19 nas 20 maiores cidades do Brasil. Nota Técnica, n.14, Brasília, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, abr. 2020 <https://bit.ly/2Nz5NPv>.

sobre os autores

Euler Sandeville Jr. é arquiteto e urbanista, arte-educador e pós-graduado em Ecologia e em História da Igreja e da Teologia. Fundador do Instituto da Paisagem, é também mestre, doutor e livre docente pela USP. Professor orientador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU USP.

Bruna Feliciano Palma é graduanda em Geografia pela Universidade de São Paulo, integra a equipe do Instituto da Paisagem e realiza pesquisa nas áreas de geografia urbana e planejamento ambiental e urbano.

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