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research

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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Apresentam-se resultados preliminares da pesquisa que tem como objetivo a caracterização da localização dos assentamentos precários. Desenvolve-se método para identificar novas estratégias de localização urbana das classes populares.

english
Preliminary results of the research are presented, which aim to characterize the location of precarious settlements. The research develops a method to identify new strategies for urban location of the popular classes.

español
Se presentan los resultados preliminares de la investigación, cuyo objetivo es caracterizar la ubicación de los asentamientos precarios. Se desarrolla un método para identificar nuevas estrategias para la ubicación urbana de las clases populares.


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SILVA, Jonathas Magalhães Pereira da; OLIVEIRA, Isabella Freitas da Silva; SILVA, Thaina Isabela; KUHL, Camila Garcia. O desafio de caracterizar as localizações das classes populares. Cartografias das transformações do Alto Tietê Cabeceiras SP entre 2006 e 2016. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 253.02, Vitruvius, jun. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.253/8123>.

O presente artigo apresenta a aplicação do método de pesquisa, em desenvolvimento, que objetiva investigar a transformação da paisagem nas cidades brasileiras. Identifica-se, por meio de mapeamento, onde e como ocorrem essas transformações. Tem-se como objetivo principal caracterizar as localizações dos assentamentos precários no processo de segregação socioespacial. Toma-se por assentamentos precários favelas, cortiços, loteamentos irregulares e conjuntos habitacionais com carência de infraestrutura urbana e serviços públicos, onde residam moradores de baixa renda. Parte-se da discussão de Adalto Cardoso (1) feita em 2007 para o Plano Nacional de Habitação e dos demais esforços por caracterizar a moradia precária no Brasil.

Apresentamos resultados preliminares da aplicação do método buscando identificar o desafio e limites na sua aplicação. Toma-se como estudo de caso nove municípios do Alto Tiete Cabeceiras, localizados na periferia da região metropolitana de São Paulo. O Alto Tiete Cabeceiras é composto pelos municípios de Guarulhos, Arujá, Itaguaquecetuba, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis. A região se mostra interessante pelo dinamismo que ali vem ocorrendo em função da implementação do setor norte do rodoanel e por ser uma área caracterizada pela precariedade e fragilidade ambiental. É importante considerar ainda que grande parte dos municípios se encontram em áreas de mananciais definidas pelo governo estadual.

Áreas de Proteção e Recuperação dos Mananciais da sub-bacia do alto Tietê cabeceiras, proposto pela minuta da lei específica do plano de desenvolvimento e proteção ambiental – PDPA – dos mananciais do subcomitê alto Tietê-cabeceiras
Elaboração dos autores a partir de dados da tese de doutorado de Consuelo A. G. Gallego [Os limites das ZEIS como instrumento de redução da segregação socioespacial na Região do A]

O processo de ocupação e transformação do território urbano brasileiro é caracterizando pela segregação socioespacial, sendo que, as diferentes paisagens das cidades refletem estes processos em seus espaços edificados e livres de edificação (2). A segregação socioespacial resulta no contraste entre localidades providas de acesso aos benefícios da cidade e de áreas onde o direito à cidade é cerceado (3).

A presente pesquisa busca investigar as transformações na paisagem e caracterizar as novas localizações dos assentamentos precários quanto ao grau de acesso à cidade, identificando onde e como a paisagem vem se transformando. Ao estudar Paisagem e sua forma urbana a pesquisa consideram-se tanto os aspectos físico-espaciais como os aspectos socioculturais e históricos. Adota-se como premissa que a forma urbana revela os processos que lhe dá origem (4). Portanto, a identificação das transformações morfológicas, presentes na última década, nos permite aprofundar na caracterização destas transformações em especial e relacionar essas transformações às localizações dos assentamentos precários.

O fenômeno da segregação socioespacial, assim como, o objeto da pesquisa: assentamentos precários é amplamente estudado (5) sendo que a pesquisa em andamento procura contribuir, por meio das cartografias desenvolvidas, com a possibilidade de provocar novos questionamentos e formulações de novas argumentações quanto às localizações de assentamentos precários e seu grau de acesso a cidade. Os produtos físicos-espaciais da paisagem auxiliam na caracterização destas localizações.

Método e procedimentos: desafios e limites

Considerando estes pressupostos a pesquisa identificou para os municípios do Alto Tietê Cabeceiras os locais onde ocorreram transformação morfológicas das quadras urbanas na última década. Por meio da comparação entre ortofotos de diferentes anos se identificou as quadras que sofreram transformações edilícias ou alterações no parcelamento do solo. Ainda baseado em dados do IBGE (2010) desenvolveu-se um mapa das composições de faixas de renda contidas nos setores censitários. Por fim desenvolveu-se mapas que buscam entender a tendência de novas localizações da população de baixa renda.

Como balão de ensaio para uma pesquisa mais abrangente, que pretende estudar o fenômeno considerando a diversidade de cidades brasileiras, o método de trabalho possui o desafio de estabelecer procedimentos de levantamento, sistematização e analise que seja capaz de promover uma leitura nacional.

Para dimensionar as variáveis que envolvem a produção e analise cartográfica optou-se adotar os nove municípios do Alto Tiête Cabeceiras como um ensaio para esperimentar o método identificando entraves e potencialidades. O desenvolvimento das cartografias possibilitou a avaliação dos procedimentos e da relevância das categorias de análises elencadas. Foram desenvolvidas as seguintes cartografias:

Localização das faixas de rendas

Localiza as concentrações das diferentes faixas de rendas sobre o território municipal. As rendas são organizadas por faixas: a) até 1 salários mínimos; b) entre 1 e 3 salários mínimos; c) entre 3 e 5 salários mínimos; d) entre 5 e 10 salários mínimos e e) acima de 10 salários mínimos. A percepção da importância de incorporar dados de renda para discutir a forma urbana da cidade se baseia em diferentes autores (6).

Essa cartografia foi elaborada a partir dos dados de “Renda da Pessoa Responsável pelo Domicílio” disponibilizados pelo censo de 2010 do IBGE, que vêm dispostos por setores censitários. Ao tomar os dados do IBGE de 2010 deve-se considerar que o período analisado é de forte expansão do assalariamento formal e queda do desemprego fruto da implementação de políticas sociais de distribuição de renda, assim como, a retomada do crescimento econômico (7).

Optou-se por trabalhar com os dados de “renda da pessoa responsável” do domicílio. Inferiu-se que por meio deste tipo de dado seria possível identificar as distribuição espacial das faixas de renda dos responsáveis do domicílios e, portanto, analisar a diferentes oportunidades de renda monetária distribuídas pelo território. Isto é, o resultado aponta como varia as oportunidades de acesso às diferentes faixas de rendas em função da localização do morador no território urbano.

Os mapas foram desenvolvidos em base Sistema de Informação Georeferenciada – SIG de forma a compreender a composição de renda existente em cada setor censitário. Para tanto utilizou-se do método Dot Density (densidade de pontos) onde se indica um ponto para um determinado número de domicílios cujos os responsáveis têm a mesma faixa de renda num determinado setor censitário. É mais comum o desenvolvimento de mapeamentos que utilizam a média do setor censitário, entretanto o método Dot Density atende mais aos objetivos da pesquisa, por revelar a composição das diferentes faixas de rendas existente em cada setor censitário e possibilitar a visualização da distribuição das localizações das diferentes rendas na escala municipal ou regional.

Localização das transformações morfológicas de quadras urbanas

Toma como ponto de partida a experiência piloto com iniciações cientificas, que tiveram como objetivo identificar, por meio da análise quadra a quadra, as transformações edilícias e de parcelamento ocorridas nos últimos dez anos (8).

O Mapa das transformações de quadras urbanas foi elaborado por meio da comparação visual entre ortofotos de 2006 e 2016. Identificam-se as quadras onde ocorreram transformações edilícia ou de parcelamento do solo no período estudado. Trabalha-se com três categorias de analises:

  1. Adição: quando a quadra urbana ainda não existia na ortofoto de 2006, isto é, houve um processo de parcelamentos no período adicionando novas quadras à mancha urbana.
  2. Substituição: quando a quadra urbana existente e já se encontrava ocupada por edificações em 2006, entretanto as edificações existentes em 2006 são substituídas por novas volumetrias, por exemplo: galpões são transformados em sobrados ou sobrados são substituídos por edifícios com vários pavimentos.
  3. Consolidação: quando a quadra urbana apresentava diversos lotes sem edificação em 2006, mas na ortofoto de 2016 identifica-se que os lotes, antes vazios, já se encontram edificados.

Localização dos assentamentos precários

Conforme já mencionado o termo “assentamento precário” passa a ser utilizado nas políticas públicas, a partir de 2007, ocasião quando se tentava chegar a um número mais próximo do que seria a real demanda por moradia no pais. Entretanto, na escala nacional o levantamento feito pelo IBGE de 2000 e 2010 utilizou o termo de Setor Subnormal ou Aglomerado Subnormal, este último é definido pelo IBGE como sendo:

Uma forma de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia – públicos ou privados – para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas restritas à ocupação. No Brasil, esses assentamentos irregulares são conhecidos por diversos nomes como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, loteamentos irregulares, mocambos e palafitas, entre outros. Enquanto referência básica para o conhecimento da condição de vida da população brasileira em todos os municípios e nos recortes territoriais intramunicipais – distritos, subdistritos, bairros e localidades –, o Censo Demográfico aprimora a identificação dos aglomerados subnormais. Assim, permite mapear a sua distribuição no País e nas cidades e identificar como se caracterizam os serviços de abastecimento de água, coleta de esgoto, coleta de lixo e fornecimento de energia elétrica nestas áreas, oferecendo à sociedade um quadro nacional atualizado sobre esta parte das cidades que demandam políticas públicas especiais (9).

A pesquisa desenvolvida por Ferreira, Marques e Fusaro (10), aponta que os ditos Aglomerados Subnormais não abrangem a totalidade dos territórios precários. Os autores propõem um método que possibilita realizar estimativas, de âmbito nacional, para uma primeira delimitação espacial do fenômeno.

O método proposto pelos autores tem relevância por seus resultados terem sido utilizados como apoio à formulação de políticas do Ministério das Cidades, além de ter auxiliado na preparação do trabalho de campo do IBGE para o Censo de 2010. Entretanto os próprios autores alertam que mesmo a aplicação deste método necessita de uma “checagem de vistorias de campo pelos governos locais”.

Os limites na precisão dos resultados podem ser observados na aplicação, do referido método, no município de Guarulhos, onde se identificou algumas distorções. Portanto sustenta-se que a maior precisão, da localização dos assentamentos precários de uma cidade, demanda um levantamento obtidos pelo cruzamento de dados provindos da prefeitura local, de pesquisas acadêmicas e dos dados do IBGE.

A localização dos assentamentos precários de uma cidade demanda um levantamento que vai certamente além da observação das alterações morfológicas das quadras ou da localização das diferentes faixas de renda. Entretanto observou-se que no município de Guarulhos, por ocasião da confecção do mapa de transformações morfológicas das quadras, foi possível identificar as localidades onde ocorreram alterações nos setores de aglomerados subnormais (IBGE, 2010) (11) ou urbanos precários considerando a sua: permanência, remoção, adensamento, ampliação ou mesmo o identificando os assentamentos precários que surgiram no período estudado.

Localização da produção de habitacional financiada pelo poder público

Desenvolveu-se também a cartografia que localiza os empreendimentos habitacionais financiadas pelo poder público, considerando as três faixas de renda, do programa Minha Casa Minha Vida. O objetivo foi identificar as localidades onde os novos empreendimentos habitacionais da Faixa 1, destinados à população de baixa renda, foram implementados.

Localização dos tipos morfológicos adotados no período estudado

Na cartografia de tipos morfológicos das transformações das quadras urbanas é possível cotejar os tipos edilícios utilizados nos empreendimentos imobiliários mapeados. Adotam-se os critérios de análise utilizados pelo Grupo de Pesquisa Quadro do Paisagismo – Sistema de Espaços livres – Quapa SEL.

a) Edificações horizontais de pequeno porte: correspondem a construções de pequeno porte, como sobrados e casas térreas, contidos em lotes pequenos e médios de quadras tradicionais;

b) Edificações horizontais de porte médio: corresponde ao tipo de quadra em que o número de lotes não é expressivo, sendo composta por poucos lotes de grandes dimensões ou mesmo se constituindo em um único lote;

c) Edificações horizontais de grande porte: correspondem a quadras em a maior parte é ocupada por edificações com grandes dimensões, como grandes galpões industriais ou mesmo shoppings centers de bairro totalmente inseridos em uma quadra;

d) Vertical: caracteriza-se pelo predomínio de construções com mais de quatro pavimentos;

e) Encraves urbanos: corresponde a um trecho de território urbano, que pela sua dimensão propicia descontinuidade do tecido urbano e/ou a malha viária do entorno;

f) Espaços livres públicos ocupados: todos os logradouros ocupados formalmente, seja pelo Poder Público ou não, com escolas, creches etc.; ou ainda informalmente, por favelas etc,

Resultados

Foram desenvolvidos para os nove municípios do Alto Tiete Cabeceiras as seguintes cartografias mencionadas: a) mapa de distribuição das faixas de renda sobre o território municipal; b) mapa indicando a localização das quadras urbanas que se transformaram entre 2006 e 2016; c) Localização dos Aglomerados Subnormais (IBGE, 2010) e Aglomerados Precários (CEM, 2013); d) Identificação dos Aglomerados Subnormais (IBGE, 2010) e Aglomerados Precários (CEM, 2013) que surgiram no período estudado (após 2005); d) Empreendimentos do MCMV por faixas de renda e e) Identificação o localização dos tipos morfológicos das edificações adotados no período entre 2006 e 2016.

Distribuição das diferentes faixas de renda sobre a região do Alto Tietê Cabeceiras
Elaboração dos autores a partir de dados do IBGE, 2010

As combinações de precariedades causadas pelo processo de segregação urbana se refletem nas áreas periféricas caracterizadas: por uma demanda habitacional latente, pela dificuldade de acesso ao emprego, pela precariedade da infraestrutura urbana, assim como, pela precariedade da mobilidade urbana que resulta na dificuldade de acessos à equipamentos e serviços públicos e às áreas com maior oferta de empregos. Essa cartografia possibilita identificar as localizações das diferentes faixas de rendas monetárias sobre o território urbano de forma a reforçar a tese da existência da segregação espacial urbana.

Por ser uma área periférica da Região Metropolitana de São Paulo, observa-se a preponderância de faixas de renda que variam até 5 salários mínimos. Lembrando que se trata da renda do “responsável pelo domicílio”. Identificam-se também apenas dois pontos de concentração com rendas altas, acima de dez salários mínimos: a) em Arujá – nos condomínios localizados ao sul da rodovia Presidente Dutra e b) em Mogi das Cruzes – nos condomínios localizados junto a borda do limite municipal entre as rodovias SP056 – Estrada de Santa isabel e a SP088 – Rodovia Pedro Eroles. Essas altas rendas podem ser observadas também presentes de forma dispersa nas áreas mais consolidadas, junto aos centros, dos municípios de Guarulhos e Mogi das Cruzes.

Tipos de transformações ocorridas entre 2006 a 2016 na região do Alto Tietê Cabeceiras
Elaboração dos autores a partir de dados do Google Earth

Através da sistematização dos dados que documentam as transformações morfológicas das quadras urbanas nos municípios que compõe a região do Alto Tietê Cabeceiras, foi possível identificar que embora as transformações no espaço urbano estejam mantidas por forças econômicas diversas, é sob a atuação do mercado imobiliário que as transformações se mostram mais presentes por meio de novos empreendimentos como condomínios de médio e alto padrão, nas áreas de “adição” e “consolidação”. As áreas de “substituição” , mais presentes juntos aos centros urbanos, observa-se a predominância do processo de verticalização onde ocorre a substituição de sobrados ou galpões por edifícios de vários pavimentos.

O resultado sugere uma forte relação entre o tipo de transformação (Adição, Consolidação ou Substituição) e o valor do solo. Nas áreas com maior valor do solo predomina a presença de processos de verticalização ou mudança de uso (substituição), já nas áreas de menor valor do solo costuma-se identificar a maior presença de novos parcelamentos (adição) e em todas a área urbana percebe-se o processo paulatino de supressão dos vazios urbanos (consolidação) sendo que estes são menos presentes nas áreas centrais, já consolidadas.

Aglomerados subnormais e aglomerados precários
Elaboração dos autores a partir de dados do IBGE, 2010 e da base cartográfica do CEM/Cebra

A aplicação em 2013 do método de Marques et al sobre as bases de dados do censo de 2010 resultou no mapeamento disponibilizado pelo Centro de Estudos da Metrópole – CEM (12) que foi incorporado na base cartográfica da presente pesquisa. Entretanto analisando o município com maior atenção nota-se que os setores urbanos precários, acrescentados pela aplicação do método do CEM gera a inclusão de áreas que não atendem a denominação de assentamentos precários. Observa-se em Guarulhos a inclusão do setor censitário do aeroporto e de outros setores ocupados por galpões industriais. Assim como os próprios autores do método alertam: deve-se complementada com dados locais.

Portanto, para atingir os objetivos da pesquisa, que necessita da localização dos assentamentos precários pretende-se levantar os dados das prefeituras e fazer uma revisão bibliográfica de pesquisas cientificas que tiveram como objetivo a localização dos assentamentos precários nos municípios ou regiões metropolitanas estudadas. Entende-se que para uma pesquisa que queira abrangem a diversidade dos municípios brasileiros deverá se trabalhar por meio de estudos de casos representativos dos diferentes contextos.

Aglomerados subnormais e aglomerações precárias identificados como existentes a partir de 2005
Elaboração dos autores a partir de dados do IBGE, 2010 e da base cartográfica do CEM/Cebra

No cruzamento do mapa de Aglomerados Subnormais (IBGE) e Aglomerações Precárias (CEM) com o mapa de transformação morfológica das quadras foi possível identificar os aglomerados subnormais ou precários, que surgiram a partir de 2006. Interessante notar que, em Guarulhos os setores subnormais mais recentes se localizam mais próximos das áreas centrais. O modelo de transformação da paisagem existente, considerando a correlação de forças entre seus agentes, induz as ocupações irregulares da população de baixa renda.

Por meio da análise cartográfica comparando os produtos desenvolvidos pela pesquisa é possível identificar ainda que, nos municípios de Suzano e Itaquaquecetuba, nas duas margens Rio Tietê ocorrem distintos padrões de urbanização reforçando a segregação socioespacial existente.

Mapa de tipologia das transformações
Elaboração dos autores a partir de dados do Google Earth

O resultado sugere uma forte relação entre o tipo de transformação (adição, consolidação ou substituição) e o valor do solo. Nas áreas com maior valor do solo predomina a presença de processos de verticalização ou mudança de uso (substituição), já nas áreas de menor valor do solo costuma-se identificar a maior presença de novos parcelamentos (adição) e em toda a área urbana percebe-se o processo paulatino de supressão dos vazios urbanos (consolidação) sendo que estes são menos presentes nas áreas centrais, já consolidadas.

Considerações finais

A cartografia desenvolvida possibilita um aprofundamento no entendimento do processo de ocupação e pode ajudar na identificação das estratégias de localização da classe trabalhadora de baixa renda na cidade. Os mapas isolados não revelam o processo, entretanto com o cruzamento das informações entre mapas passa-se a constatar algumas características da região estudada, como, por exemplo, a constatação do fato do surgimento de assentamentos precários na última década tenham ocorrido mais próximos do centro, enquanto os empreendimentos, para essa mesma faixa de renda, tenham ocorridos distantes do centro.

O artigo apresenta também a dificuldade da pesquisa em identificar a totalidade dos assentamentos precários sem levantamento de dados locais. Para se avançar em uma pesquisa mais abrangente, que aborde os diferentes contextos nacionais, será necessário estabelecer estratégias para enfrentar essa dificuldade. Em uma primeira aproximação, em função da experiência de pesquisa aqui apresentada, pensa-se em elencar estudos de casos representativos de cada padrão de distribuição das faixas de renda do responsável pelo domicílio. Estes padrões foram identificados após a confecção e análise de 166 mapas de distribuições das faixas de renda (13). Parte-se da hipótese que a oportunidade de empregos para o morador de um assentamento precário esteja fortemente relacionada à mobilidade e acesso à cidade. A análise dos diagnósticos dos Planos Locais de Habitação desenvolvidos a partir de 2006 pode auxiliar no levantamento histórico de dados locais.

Por fim cabe salientar que além dos resultados na forma de produtos cartográficos a presente pesquisa possibilitou a capacitação da equipe de trabalho, por meio das atividades de iniciações científicas, mestrados e doutorados onde foi apreendido os instrumentos, testadas as categorias de análises e entendido os limites dos métodos propostos.

notas

NA – Este artigo foi originalmente apresentado no evento Enanparq 2020

inédito; ou (uma versão mais simples foi apresentada para o ENANPARQ 2020, entretanto nem se sabe se será aprovado)

1
CARDOSO, Adauto Lucio. Assentamento Precário no Brasil: discutindo Conceitos. Cadernos do CEAS: Revista crítica de humanidades, v. 0, n. 230, 17 jun. 2016, p. 25–39 <https://bit.ly/3jn7LR2>.

2
MAGNOLI, Miranda M. Esmeralda Martinelli. Espaços livres e urbanização: uma introdução a aspectos da paisagem metropolitana. [s.l.] FAU USP, 1982; SANTOS, MILTON. O espaço do cidadão. 7ª edição. São Paulo, Edusp, 2014.

3
FAORO, Raimundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 5ª edição. São Paulo, Globo, 2012; MEIRELLES, Hely Lopes. Direito municipal brasileiro. São Paulo, Malheiros Editores, 2009; ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei : legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo. [s.l.] Studio Nobel/Fapesp, 1997.

4
LAMAS, José M. Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. 1ª edição. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian & Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 2004.

5
DENALDI, Rosana. Políticas de urbanização de favelas: evolução e impasses. São Paulo, FAU USP, 2003; SAMORA, Patrícia Rodrigues; ZUQUIM, ‪Maria de Lourdes. Desafios da urbanização de assentamentos precários em São Paulo. In ZUQUIM, ‪Maria de Lourdes; MAZO, Liliana María Sánchez; MAUTNER, Yvonne (org.). Barrios populares Medellín: favelas São Paulo. 1ª edição. São Paulo, FAU USP, 2017, p. 66–77; SILVA, ‪Jonathas Magalhães Pereira da. Plano Sócio Espacial da Rocinha – plano, projetos e obra: conflitos e contradições. In D’OTTAVIANO, Camila; ZUQUIM, Maria de Lourdes (org.). Práticas recentes de intervenção urbana em áreas informais na América Latina. 1ª edição. São Paulo, FAU USP, 2014, p. 149-186.

6
SINGER, Paul. O uso do solo urbano na economia capitalista. In MARICATO, Erminia (org.). A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial. 1ª edição. São Paulo, Alfa-Omega, 1979, p. 21-36. VILLAÇA, Flavio. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo, Studio Nobel/Fapesp/Lincoln Institute, 2001.

7
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Aglomerados subnormais, 2010 <https://bit.ly/2UL4KQe>.

8
SILVA, Jonathas; RIBEIRO, Ana; SEADE, Juliana. Transformações da forma urbana ocorridas entre 2005 e 2016: nos munícios de Florianópolis – SC e Fortaleza – CE. Anais do XIII Colóquio Quapá-SEL: Os sistemas de espaços livres e as transformações na paisagem: políticas e projetos, Santa Maria, FAUSP, 2018; PEGORARO, Rafael Lopes; MACEDO, Silvio Soares. Transformação na forma urbana brasileira: estudo de dois centros urbanos. Anais do XI Colóquio Quapá-SEL, Salvador, UFBA, 2016

9
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Op. cit.

10
FERREIRA, Maria Paula; MARQUES, Eduardo Cesar Leão; FUSARO, Edgard Rodrigues. Assentamentos precários no brasil: uma metodologia para estimação e análise. In MORAIS, Maria da Piedade; KRAUSE, Cleandro; LIMA NETO, Vicente Correia (org.). A problemática dos assentamentos precários no Brasil urbano e suas interfaces. 1ª edição. Brasília, Ipea, 2016, p. 53-74.

11
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Op. cit.

12
MARQUES, Eduardo; BITTAR, Mariana; CAZOLATO, Donizete; FUSARO, Edgard; WALDVOGEL, Daniel. Diagnóstico dos assentamentos precários nos municípios da Macrometrópole Paulista, Segundo Relatório. FFLCH-USP, 2013 <https://bit.ly/3y6LPOd>.

13
SILVA, Jonathas Magalhães Pereira da; ROMERA, Camila Galli; GONÇALVES, Ana Carolina Vieira. Transformação, forma urbana e localização de renda: identificação de padrões nas cidades brasileiras. Revista Risco, v. 17, 2019, p. 86-113.

sobre os autores

Jonathas Magalhaes Pereira da Silva é professor doutor do Posurb ARQ PUC Campinas. Como consultor atuou na coordenação técnica do Plano Sócio Espacial da Rocinha RJ; de 11 planos participativos da região serrana do ES; de projetos urbanos dos corredores de transporte em SP, do Master Plan para CDHU SP, do Plano de Saneamento para Paragominas – PA, do Plano de Infraestrutura da Unifesp Campus São Paulo, entre outros.

Isabella Freitas da Silva Oliveira é graduanda em Arquitetura Urbanismo (FAU PUC Campinas). Desenvolveu um plano do Iniciação Científica (2018-2019) e está desenvolvendo um segundo plano (2019-2020), ambos com bolsa da reitoria da PUC Campinas.

Thaina Isabela Silva é graduanda em Arquitetura Urbanismo (FAU PUC-Campinas). Desenvolveu um plano do Iniciação Científica (2018-2019) e está desenvolvendo um segundo plano (2019-2020), ambos com bolsa da reitoria da PUC-Campinas.

Camila Garcia Kuhl é graduanda em Arquitetura e Urbanismo (FAU PUC Campinas). Desenvolveu um plano do Iniciação Científica (2018-2019), com bolsa da reitoria da PUC Campinas e está desenvolvendo um segundo plano (2019-2020), com bolsa do CNPq.

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