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architexts ISSN 1809-6298


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CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Afinal quem tinha mesmo razão era Luís Saia. Nota sobre a primitiva torre da capela jesuítica do Embu. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 255.05, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.255/8232>.

Volto uma vez mais à capela jesuítica do Embu agora para dizer, com base em estudo de gente mais competente do que nós, que a capela de Nossa Senhora do Rosário, construída pelo Padre Melchior de Pontes no início do século 18, tinha sim uma torre.

A pesquisa comprobatória é da historiadora Angélica Brito Silva e consta de sua dissertação de mestrado O aldeamento jesuítico de mboy: administração temporal (séculos XVII-XVIII), defendida recentemente na Universidade de São Paulo (1).

Angélica se propôs a reconstituir a história da capela desde os seus primórdios, em meados do século 17, momento em que o casal Fernão Dias e Dona Catarina Camacho declara (27 de junho de 1668) que “na sua fazenda de Boy tinha hua Igreja da Virgem do Rozario muito bem aparamentada,” provida com o seu patrimônio em terras e gado. Faziam uso, primeiramente, do “vínculo de capela, uma modalidade de “morgadio muito utilizado à época pela elite colona paulista (2). Porém resolveram dispô-la; primeiramente doando-a aos frades carmelitas; depois reformularam a doação após o ingresso do filho padre Francisco de Morais a Companhia de Jesus (3), transferindo-a ao Colégio de Santo Inácio da Vila de São Paulo mediante o compromisso de manter a festa anual à Senhora do Rosário e conservação de seu altar – práticas que, salienta a historiadora, seriam mantidas após à expulsão dos jesuítas, em meados do século 18.

Anoto que Angélica não se preocupa em fazer distinção entre o que vem a ser capela e igreja. Trata-as indistintamente. As antigas capelas jesuíticas de Nossa Senhora do Rosário do Embu e de Nossa Senhora da Escada, assim como as Carapicuíba e de Itapetininga são referidas apenas como igrejas, seja do período jesuítico propriamente dito ou posterior. Afinal, essa é uma questão que não a preocupou, pois com o que descobriu pouco importa chama-la de capela ou igreja é para ela irrelevante; enquanto para mim, assim especulava, poderia ser a explicação para o que estava a investigar.

Assim, diz Angélica, “a igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde atualmente funciona o Museu de Arte Sacra dos Jesuítas, é na verdade uma segunda igreja construída em novo local e que não existem vestígios materiais do antigo templo mencionado no testamento de Catarina Camacho em 1668” (4).

A construção dessa segunda e definitiva igreja teria ocorrido na virada do século 17 para o 18 quando o padre jesuíta Belchior de Pontes era o superior do aldeamento.

Angélica vale-se das narrativas sobre o Padre Belchior de Pontes (5) para estabelecer o momento de fundação da igreja ressaltando o aspecto hagiográfico dos relatos de Padre Manoel Fonseca, que, de acordo com interpretação do historiador Michel Certeau (6), fixa o acontecimento histórico à imagem do religioso milagroso associando-o ao local onde ocorreu a construção da igreja, tornando-o “produto e o signo de um advento” (7) de dupla significação, histórica e religiosa.

Embora seja desconhecida a data exata da construção deste novo templo – Angélica baseia-se nos dados biográficos de Padre Melchior de Pontes – sugere que a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário tenha sido realizada pelo padre Belchior de Pontes entre os anos de 1700-1705.

Quanto à ornamentação artística da igreja, Angélica atribui ao Padre José de Moura, cuja execução teria se estendido até 1735. Diz ela: “Temos fortes indícios para crer que o padre José de Moura tenha sido o responsável pela ornamentação dos altares da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e, juntamente com seu irmão, também tenha se dedicado à produção e comercialização de imagens, no período em que esteve a frente do aldeamento de Mboy” (8). Mas pouco esclarece sobre as pinturas dos forros.

Em 1759 os padres da Companhia de Jesus foram expulsos. Passaram as capelas dos aldeamentos à responsabilidade do Bispado de São Paulo e a outras Ordens Religiosas. A partir daí, as antigas capelas jesuíticas são aprovisionadas por “párocos para o atendimento espiritual das populações indígenas e a conservação dos templos” (9).

Sobre a capela de Nossa Senhora do Rosário propriamente dita, esclarece a historiadora, não há muitas informações; acrescentando que os relatos sobre períodos posteriores continuam escassos. Mesmo assim a literatura histórica denuncia “dificuldades e períodos de relativo abandono, tendo sobrevivido graças aos seus párocos e paroquianos dedicados à sua conservação” (10).

Daí acolher de bom grado o relato do episódio que narramos no artigo “Considerações acerca d’O nariz torcido de Lucio Costa" (11), ao tomarmos conhecimento das arbitrariedades do Imperador Dom Pedro I quando de sua passagem por Embu, ocorrida no ano de 1827, por meio da qual acabamos descobrindo que a capela possuía sim uma torre (12). Ao contrário do que se poderia imaginar, concluímos, pouco depois, que essa torre não seria a original da capela. Novas pesquisas documentais permitiram localizar um conjunto de documentos, muito fragmentado, de leitura quase impossível, parcial apenas, mas que nos levou a interpretar que a torre da capela fora construída entre os anos de 1813-1826 (13). Os responsáveis pela obra da torre: os Capitães Joaquim Pedrozo de Oliveira e Manoel Pedrozo de Oliveira, com a aquiescência do pároco, Padre Alexandre Gomes de Azevedo.

A torre não seria portanto original.

Mediante o que conseguíamos ler e transcrever dos documentos descobertos, chegávamos ao que nos pareceu ser a única conclusão possível: a torre fora construída em tempo ulterior – o que dava completa razão a Antonio Luiz Dias de Andrade, ou seja, de que ela jamais existira no projeto original da capela.

Dessa forma, diz Angélica,” tomamos conhecimento que o antigo Diretor da aldeia teria sido o responsável por erguer a tão controvertida torre remodelada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan no século 20, algo que o instituto julgava se tratar de um exemplar do período jesuítico” (14).

Angélica anuncia assim a notícia sobre a reforma da capela após as tempestades ocorridas em Embu no inverno de 1813 que destruíram parcialmente os antigos edifícios do conjunto jesuítico, e cita, em nota de rodapé, o artigo de Antonio Luiz Dias de Andrade, “O nariz torcido de Lucio Costa” (15).

Diante porém da importância desse artigo, julgo necessário, mesmo que suscintamente, apresentar o teor e os pressupostos de que partiu para desenvolver suas considerações acerca dos trabalhos de restauro efetuados na capela jesuítica do Embu, em especial seus argumentos questionando a reconstituição de sua torre pelo Serviço do Iphan em 1939-41, concluindo, ao final, como afirmou seu preclaro orientador, que o projeto original da capela não possuía torre alguma (16).

Imperioso reconhecer que esse artigo representou um esforço de investigação considerável e seus resultados de elevado nível crítico responsáveis por colher uma visão não só ampla como de profundidade analítica incontestável, após compulsar vasta documentação do Iphan, de São Paulo e do Arquivo Central no Rio de Janeiro, compreendendo ofícios e pareceres trocados entre Luís Saia responsável pela obra de restauro e Lucio Costa na orientação dos trabalhos, bem como as palestras de Rodrigo Melo Franco de Andrade por meio das quais procurava definir os critérios das intervenções restaurativas que deveriam seguir os arquitetos restauradores do Iphan em todo o país. Por meio da análise desses critérios, defendidos pela Direção do órgão, e a prática adotada pelos arquitetos restauradores, Antonio Luiz Dias de Andrade encontrou pontos de contradição que teriam conduzido, no caso do Embu, os arquitetos Luís Saia e Lucio Costa a criarem, com base em ideais da arquitetura modernista, propugnados e praticados à época, protótipos da arquitetura colonial que teriam aplicado nos monumentos. Aponta, desse modo, a contradição em que teriam caído; e mais grave ainda, ao inverterem a proposição dialógica, teriam concebido tipos ideais aplicáveis a exemplares da arquitetura colonial susceptíveis de intervenção restaurativa, de que a capela jesuítica do Embu constituiria o paradigma, e a torre o elemento de maior valor simbólico desse contraditório percurso.

Vale lembrar que esse artigo de Antonio Luiz repercutiu amplamente, tanto internamente no Iphan como estimulou numerosos acadêmicos a se alinharem à crítica desferida aos métodos praticados pelo Serviço do Iphan, gerando dezenas de outros artigos e fornecendo material teórico a novas teses de mestrado e doutoramento defendidas nas faculdades de arquitetura brasileiras, que acabariam por forjar uma imagem bastante negativa dos citados arquitetos restauradores e do próprio Serviço do Iphan.

Porém cabe lembrar mais uma vez as palavras do historiador de Arte Erns Gombrich: o “conhecimento de história jamais é composto”, isto é, definitivo, imutável. “Há sempre novos fatos a serem descobertos que podem alterar nossa imagem do passado”. Pois bem, graças à pesquisa de Angélica Brito Silva, é possível novamente revisitar o passado, recompô-lo, reapresentar a questão e dar nova interpretação, aliás bem menos complexa do que inicialmente aparentava.

Angélica, embora tenha optado por não se envolver diretamente na questão, ao estender todavia suas pesquisas ao arquivo da Superintendência do Patrimônio da União, acabaria por localizar num importante documento – Autos de Inventário e Sequestro dos bens que se acharam na Aldeia de Mboy – o dado que parece pôr um termo final à querela entre os dois antigos restauradores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan e a crítica acadêmica.

E ao apresenta-lo, contraria tanto a hipótese de Antonio Luiz Dias de Andrade, que, repito, concluiu em seu artigo de que a torre jamais terá existido no projeto jesuítico original, como também se contrapôs à nossa argumentação de que a torre só passaria a existir a partir de 1813-26.

Ledos enganos. Pois diz a historiadora com angelical simplicidade:

“Não obstante, a título de informação, no inventário da aldeia, de 1759, há menção da existência de uma torre com seus sinos”.

E destaca os termos do documento:

“Quatro sinos na Torre, hum dos quaes dis peza seis arrobas e meya, outro de quatro arrobas e vinte e huã livras que está quebrado, e huã garrida que peza vinte e três livras, e outro antigo se não sabe” (17).

A capela de Nossa Senhora do Rosário contava então no ano de 1759 com cerca de meio século de existência, estava inteiramente ornada interna e externamente e, diversamente de sua congênere de Guararema, na Aldeia de M’Boy nela figurava um elemento distintivo, uma torre.

Assim Angélica nos fornece o dado primordial, com o qual é possível concluir, de forma cabal e definitiva, que a planta original da capela jesuítica do Embu, edificada pelo Padre Melchior de Pontes, continha já uma torre. E, por mais paradoxal que agora nos pareça, esse dado permite também afirmar que Luís Saia e Lucio Costa, arquitetos restauradores do Serviço do Iphan, acertaram quando se propuseram a restaurar, ou, para usar os termos da historiadora, a remodelar a torre que, como acabamos de ver, existia sim na capela desde sempre.

Os Autos de Inventário de 1759 comprovam a existência de uma torre na capela, meio século depois de sua edificação, no momento da expulsão dos jesuítas e provam também que constituía elemento do projeto original da capela, pois que executado no período jesuítico; enfim já presente na capela em 1700-1705.

Ora essa torre, pelo que se pode deduzir das informações dos Autos de Inventário da capela de Nossa Senhora do Rosário do Embu, não devia ser uma dessas improvisações de que se valia de qualquer abertura, de uma simples janela ou de um prolongamento de parede, frontal ou lateral, ou mesmo independente da capela, que permitisse fixar um sino para o chamamento dos devotos, e assim cumprir ordinariamente a função de torre. Não. Seria uma torre de verdade, e de proporção razoável, pois, como se lê no documento apresentado por Angélica Brito Silva, comportava quatro sinos de considerável peso.

Pode não ser comum admitir um erro sem revelar contrariedade. Confesso, porém, minha alegria pelo sucesso da pesquisa de Angélica, pela valiosa contribuição que traz para a elucidação dessa polêmica questão.

E não me vexo em dar a mão à palmatória.

É necessário refletir diante do embaraço e das dificuldades, pesar as próprias palavras e, neste caso, reler os documentos que apresentei nos artigos anteriores (18) e interpreta-los à luz dessa nova informação descoberta.

O que, por outro lado, significa que a torre que Luís Saia buscou reconstituir em 1939-41, com a supervisão de Lucio Costa, existira muito tempo antes do período que pensei ter sido construída; presente já em 1700-1705 na capela jesuítica de Nossa Senhora do Rosário do Embu, constituía elemento de sua fachada primitiva, muito embora, tenha sido arruinada em 1813 e reconstruída nos anos seguintes pelos capitães Pedrozo de Oliveira e pelo padre Alexandre Gomes de Azevedo (1814-1826) (19).

É preciso também colocar em relevo um importante aspecto da polêmica questão: a fotografia (20) que forneceu a imagem mais antiga que se conhecia da torre, e por meio da qual foi restaurada em 1939-41. Guardaria semelhança à torre primitiva, essa agora descoberta pela historiadora Angélica, construída lá trás em 1700-1705, quando padre Melchior de Pontes edificou a capela?

Capela de Nossa Senhora do Rosário antes da restauração
Foto Herman Graeser, 1937 [Acervo Iphan SP]

Talvez Angélica faça uso do termo mais adequado para abordar a questão. Ela evita a palavra restauração; prefere falar em remodelação da torre. Porque, em princípio, tratava-se disso mesmo. O Serviço do Iphan, depois de eliminar a torre que apresentava, no dizer de Mário de Andrade, “aquele aspecto desconexo de chapéu de palha que abobalhava a sua fachada” (21), já havia decidido construir uma “torre com feição antiga. Valia-se da pretensão de retomar o monumento um “aspecto mais tradicional, que era a intenção declarada desde o início (22). A decisão de destruir a chapéu de palha já estava tomada, porém.

A orientação teórica e metodológica propugnada por Lucio Costa embutia um princípio: o de que a restauração de monumentos históricos deveria levar em conta o “espírito do tempo, conceito vago em princípio, porém a ser operado no curso dos procedimentos de restauro (23) – de sorte a definir a configuração que melhor correspondesse à época da edificação da capela, o início do século 18. Para os arquitetos restauradores do Sphan, reconstituir sua feição primitiva, consistia, portanto, em procedimentos complexos de investigação, estudo e desvelamento das formas primitivas do monumento, coetâneas à época da construção da capela. Nada indica de que partissem de uma ideia, de uma abstração, do que devesse ser o monumento em sua primitiva configuração. Esta deveria ser formada ao final das operações, como resultado das prospecções e análises dos elementos e das formas desveladas, relacionadas por sua vez com o material colhido em depoimentos, documentos, iconografia etc., enfim, como produto desse procedimento metodológico.

Até o início de 1940, Luís Saia pôs-se a investigar o monumento, despojando-o dos elementos novos que se sobrepuseram aos do arcabouço primitivo, valendo-se sobretudo de seu tirocínio, discernimento técnico e de sua sensibilidade artística e colhendo informações e iconografia na busca por uma solução adequada. Daí a importância do testemunho do sr. José Gobertino, que conhecera a torre antes de sua provavelmente primeira reformulação, na década final do século 19, e principalmente a descoberta da foto retratando a feição mais antiga da capela– a já mencionada do folheto da empresa de colonização –, que lhes proporcionou condição para observar, mesmo à distância, a silhueta da torre antiga e assim definir sua configuração antiga, vindo de encontro com o parecer de Lucio Costa, mediante a qual foi então remodelada, satisfazendo plenamente a pretensão de conferir à capela uma feição antiga, colonial (24).

É bom porém ressaltar os dados ultimamente acrescidos ao conhecimento que se tem sobre ela, antes e depois da descoberta da historiadora Angélica Brito Silva, pois a descoberta de Angélica Brito Silva acrescenta um dado fundamental a esse cenário, que lhe confere maior exatidão e projeta panorama mais largo ao detectar a existência da torre no derradeiro ano do período jesuítico (1759), pois o inventário lista e descreve tudo o que os padres da Companhia haviam feito e incorporado ao patrimônio da capela até aquele ano.

Ora, isso faz com que a razão troque novamente de lado, deixe os críticos e retorne aos autores do restauro. Senão vejamos.

Em vista de tudo o que foi exposto, o conhecimento que agora se tem a respeito da capela e especialmente acerca da polêmica questão de sua torre pode ser assim formulado:

  • Graças à pesquisa de Angélica Silva Brito é possível afirmar com segurança que a torre da capela de Nossa Senhora do Rosário do Embu existia em 1759, e que sua construção deva corresponder à época da edificação da capela pelo Padre Melchior de Pontes, isto é, em 1700-1705. Era, portanto, elemento constitutivo do projeto original da capela jesuítica (essa primitiva torre foi arruinada cerca de um século depois, na tempestade de 1813);
  • A torre foi reconstruída logo depois, entre 1814 e 1826 pelos Capitães Pedrozo de Moraes e o Padre Alexandre Gomes de Azevedo (hipótese a conjecturar: essa reconstrução pode tê-la modelado com feição igual ou semelhante à torre original de 1700-1705);
  • A torre de 1814-26 permaneceu até ser desfeita na última década do século 19 (hipótese 2: essa torre do início do século 19 teria sido a que foi registrada na foto, s/d, estampada no folheto da Empresa de Colonização Sul Paulista);
  • Entre o final do século 19 e o início do 20 foram construídas outras torres, com novas configurações, (sendo a última, a “chapéu de palha” como a chamou Mário de Andrade) esta última, por sua vez, foi destruída pelo Sphan em 1939-40.
  • Para e, por fim, os arquitetos Luís Saia e Lucio Costa, com base nas prospecções, depoimentos e análise da foto descoberta (a do folheto referido), reconstruírem a torre com uma configuração próxima à imagem referida, restituindo à capela uma feição mais antiga ou tradicional, que era o propósito desde início anunciado.

Diante desse novo quadro, é possível afirmar:

  • Que a torre restaurada pelos arquitetos Luís Saia e Lucio Costa em 1939-1941 encontra, finalmente, o documento que lhe confere a fundamentação histórica que a Crítica acadêmica reclamava; e
  • que a torre restaurada pelos ditos arquitetos dispõe d’ora em diante de uma, digamos, “Certificação de Origem Comprovada”, a qual restitui legitimidade à ação restaurativa do Serviço do Iphan bem como recobra o valor e o mérito enquanto procedimento técnico de preservação e valorização do monumento.
  • Por conseguinte, não é mais possível aceitar como verdadeira a afirmação de que a torre “jamais teria existido no projeto original da capela”.

Constata-se também que, embora ainda persistam, diminuíram um bocado as lacunas de conhecimento acerca dessa importante capela jesuítica paulista, tornada monumento nacional a oitenta anos atrás (25).

Lógico, ainda persiste a questão de sua configuração; refiro-me especificamente à feição primitiva da torre. Mas, convenhamos, essa é matéria que seguirá polêmica, a menos que noutra pesquisa se descubra uma inesperada iconografia que revele sua verdadeira configuração original.

Mesmo assim, ainda me vejo na obrigação de acrescentar algumas considerações. Em meu artigo “Afinal, a primitiva capela jesuítica do Embu tinha ou não tinha torre?” fiz interpretação que agora se revela inteiramente equivocada. Dissemos então concordar com Antonio Luiz Dias de Andrade por duas razões: a primeira, por pensarmos ter descoberto que a torre da capela fora somente construída no início do século 19 e, a segunda, por decorrência dessa mesma descoberta, por nos vermos obrigados a aceitar sua interpretação de que o projeto da primitiva capela jamais teria uma torre. Os dados que reunira não me permitiam outra interpretação.

Devo também dizer que a descoberta da historiadora Angélica Brito Silva me faz muito feliz por entender agora, com muito mais convicção, que os arquitetos Luís Saia e Lucio Costa não erraram. Afinal estavam certos! mesmo desconhecendo todo esse conjunto de informações só agora descoberto. Especialmente Luís Saia. Tino investigativo, perspicácia na análise nos interstícios da capela, nas frinchas e nos formatos que ficaram gravados na estrutura e nas paredes de taipa do vetusto edifício, de certo denunciavam elementos e formas primitivas que soube perceber e restaurar, como nos relatava Mário de Andrade em seus artigos escritos à época das obras de restauração (26). Seja lá enfim o que o terá encontrado que o convenceu pela reconstituição da torre segundo os critérios que elaborou junto com Lucio Costa.

Luís Saia, caderno de obra. Prospecto da torre da capela jesuítica do Embu, 1940 [Acervo Iphan SP]

O certo é que hoje podemos dizer com muito mais segurança e convicção, Luís Saia não errou ao restaurar a torre, pois ela havia existido sim no projeto primitivo da capela jesuítica do Embu, como comprova a informação descoberta por Angélica Brito Silva.

Luís Saia pode ter cometido equívocos em outras obras de restauração, como a da Câmara e Cadeia de Atibaia (27), mas no caso da torre da capela do Embu, com o conhecimento que hoje reunimos, impossível contestar o acerto e a legitimidade do seu restauro.

Lógico que persiste a questão da feição primitiva da torre. Mas, convenhamos, essa é matéria que seguirá polêmica, a menos que noutra eventual pesquisa se descubra uma inesperada iconografia que revele sua configuração original e se dê por encerrada a discussão.

Se acaso interessasse minha opinião de historiador, minha sensibilidade me induziria a propor uma configuração que julgo mais ajustada ao “espírito do tempo”: uma torre com telhado de quatro águas, semelhante à da capela de Santo Antonio, como aliás Luís Saia chegou a propor.

Aspecto da fachada com a torre, após a restauração
Foto Herman Graeser, 1941 [Acervo Sphan]

Mas, independentemente da forma que prevaleceu (a de Lucio Costa), do ponto de vista técnico, buscavam os restauradores do Serviço do Iphan uma solução compatível com o sistema construtivo vigente à época de sua construção, que implicava numa configuração que restituísse a unidade do conjunto arquitetônico primitivo. Desse modo a forma plástica pretendida deveria corresponder ao “estilo” da época de sua construção, remodelando não somente a torre mas todos os demais elementos que haviam se desnaturado por reformas e/ou reconstruções de períodos posteriores. E, é bom lembrar, procuraram fazer baseados na observação e no estudo de construções coetâneas, ou do que delas havia restado. É desse modo que entendo devam ser analisados os pareceres e as discussões entre os arquitetos-restauradores do Serviço do Iphan que definiram a configuração do conjunto, e de modo especial da torre – elemento de dimensão e formato singelos porém de primordial função estética.

Folheto da Empresa de Colonização Sul Paulista com foto antiga da capela, s/d porém [Acervo Iphan SP]

Ao contrário de outras áreas, São Paulo conservou pouquíssimos monumentos antigos. Restaram alguns, isolados e maltratados, adulterados ou em ruínas, nas cidades ou fora delas, a tempo encontrados por Mário de Andrade e Luís Saia e salvos pelo Serviço do Iphan. A restauração representou, para nós paulistas, a maneira de recuperarmos nosso patrimônio histórico, permitiu que o remodelássemos segundo os critérios então anunciados; trabalhos devidamente registrados em documentação valiosa – projetos, relatórios, ofícios, prospectos, fotos e anotações registradas nos cadernos de obras ou em pastas – que permitiu inclusive, é bom salientar, a sua análise crítica pelos pesquisadores, acadêmicos ou não.

E, por consequência, ao se proporem os arquitetos restauradores do Sphan a recuperar os elementos e as feições mais antigas da capela, com a pretensão sim de configurá-los o mais próximo possível aos originais perdidos, e depois de despi-la dos elementos novos adquiridos no tempo, livrá-la dos adereços, dos “mostrengos” como falava Mário de Andrade, ou, como diria Aloïs Riegl, das “novidades” que rompem a “unidade estilística original”, maculam sua “antiguidade” ou violam o seu “valor histórico”, fizeram-na recuar no tempo, reconstituindo-a o mais próximo possível à sua configuração original, à mais antiga ou tradicional, própria do tempo dos jesuíticas.

Foto (reprodução) da capela, 1908 [Acervo Iphan SP]

E não é que dentre as referências a esses elementos repostos e remodelados em 1939-41 uma jovem historiadora descobre, cerca de oitenta anos depois da ação restaurativa de Luís Saia e Lucio Costa, um documento que comprova a existência desse elemento – a torre – no estertor do período jesuítico, no ano em que os padres da companhia são dela retirados. Lá estava a torre, com seus benditos quatro sinos (28), e talvez um deles, o quebrado, remanescesse dos primórdios de sua história, ainda do tempo do casal bandeirante, quiçá trazido da primitiva capela seiscentista.

Enfim, a torre existiu mesmo, de fato, elemento componente do projeto jesuítico primitivo da capela construída por Padre Belchior de Pontes. Portanto, ela não foi inventada, nem foi produto da imaginação dos arquitetos restauradores do Sphan como se argumentou inicialmente e que, depois de aceito, novos pesquisadores, mestrandos e doutorandos, rumaram por essa perspectiva, desdobrando o conceito operado por Antonio Luiz Dias de Andrade – o paradigma – por noções análogas, como “modelo abstrato” (29), relacionando-os da mesma maneira à “arquitetura modernista” da qual eram também protagonistas os arquitetos do Sphan; enfim responsabilizaram-nos por um plano astucioso, que, desvendado, passam de criticados a negados, o restauro dos monumentos é assim rejeitado por boa parte da Academia, caem os seus protagonistas em desprestígio, assim reputados por terem engendrado (?) um “falso patrimônio” e, mais grave ainda, sob o manto do Estado Novo getulista, o que permitiu imputá-los com viés arrogante (30) e antidemocrático, senão pior.

Ora se não é o Benedito! (31)

Agora, esse patrimônio – restaurado – é o que nos acostumamos a ver e a conviver; com ele nos identificamos; gostamos dele e o apreciamos esteticamente; o amamos e o reverenciamos como patrimônio nosso; e por meio dele afirmamos nossa nacionalidade. Pois não eram senão esses os propósitos que Mário de Andrade tinha em mente quando, com base na experiência e resultados colhidos no “seu” Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, com os cursos de Etnografia e Folclore nele desenvolvidos, na projetada “Missão de Pesquisas Folclóricas ao Nordeste Brasileiro”, atendeu o pedido do ministro Capanema, elaborou o anteprojeto para criação do órgão federal de preservação, exatamente para pôr em prática ações que permitissem identificar e conhecer o patrimônio artístico nacional para então resgatá-lo e preservá-lo para os brasileiros?

Capela de Nossa Senhora do Rosário de Embu, após a restauração
Foto Herman Graeser, 1941 [Acervo Iphan SP]

É a recuperação dessa perspectiva que saúdo agora, e que o dado descoberto por Angélica Brito Silva de certa maneira possibilita-me evocar e celebrar, pois permite reafirmar os fundamentos e os propósitos dos tempos iniciais do Patrimônio, com aquele sabor meio romântico, cheio de graça e poesia de quando Mário de Andrade ainda estava à frente dos trabalhos do Serviço do Iphan paulista. Era ele que determinava o passo e o compasso das ações, concebia e programava os trabalhos, e embora guardasse distância respeitosa dos saberes e fazeres dos colegas, a eles por vezes devesse torcer um pouco o nariz também quando, assim me parece, modesta e silenciosamente discordava do purismo conceitual e muito rigor metodológico aflorar entre os colegas arquitetos na avaliação e seleção dos monumentos que, no seu entender, mereciam tombamento (32).

Para Mário de Andrade “Artístico” é conceito generoso, abarca todo o labor criativo humano, passado e presente, assim largo e universal, supremo e soberano, pois compreende e dilui-se por todas as formas de Arte, até mesmo pela arrojada e presunçosa Arquitetura, que a todas acolhe e dispõe cada qual no espaço, também lhe deve reverência; e não o contrário como já se praticava no Serviço do Iphan (33).

Resgatar e fruir essa noção marioandradeana é maneira não apenas de reverberar em nossas consciências a importância do trabalho criativo, artístico e intelectual, como também maneira de ver, sentir, perscrutar, organizar, elaborar, dispor e pôr em ação o nosso conhecimento sobre o patrimônio histórico e artístico do país, que nos serve para avivar nosso sentimento de brasilidade e assim nos confortar e animar, nos fortalecer e servir de encorajamento para o que teremos de enfrentar daqui para frente.

Tempestades, como a de 1813 que se abateu sobre a capela jesuítica do Embu, são em geral muito destrutivas, mas podem servir como móbil de reação, como se viu pela ação de sua comunidade à época. Com o IPHAN cada vez mais enfraquecido, vendo encolher seu quadro técnico sem a reposição necessária, com orçamento diminuto e sem perspectiva de melhora imediata, com a expectativa de verem depreciados seu papel e importância no cenário cultural (entendo a extinção do Ministério da Cultura como efeito sintomático desse decaimento, a despeito dos esforços realizados em contrário e dos múltiplos interesses que representa, inclusive econômicos), caberá a quem permanecer no IPHAN deixar de lado eventos comemorativos inócuos e inconsequentes, laudatórios e egoístas, e que a nada conduzem, arregaçar as mangas e resistir; determinados, todavia, a lutar e produzir, e para isso valerá muito se inspirar naqueles que criaram o Instituto, que definiram sua missão e os encargos concernentes à proteção e valorização do patrimônio cultural do país, as obras e realizações daquele período inicial, do “tempo heroico”, pois, mais do que promover festividades e distribuir medalhas, merecem ser revisitadas e estudadas por nós técnicos se desejarmos seguir atuando com a qualidade e o respeito que merecemos.

notas

1
SILVA, Angélica Brito. O aldeamento jesuítico de Mboy: administração temporal (sécs. XVII-XVIII). Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU USP, 2018.

2
Sobre Vínculo de Capela e Morgadio, ver: INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Considerações acerca de um monumento. São Paulo, Publicação da 9ª Superintendência Regional do Iphan, 1997, nota 15, p. 43-44.

3
SILVA, Angélica Brito. Op. cit., p. 57.

4
Idem, ibidem, p. 207. Grifo do autor.

5
FONSECA, Manoel. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes SJ. Lisboa, 1752.

6
CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Tomo 1: Artes de fazer. São Paulo, Vozes, 1980. In SILVA, Angélica Brito. Op. cit.

7
SILVA, Angélica Brito. Op. cit., p. 210-211.

8
Idem, ibidem, p. 217.

9
Idem, ibidem.

10
Idem, ibidem.

11
CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Considerações acerca d’O nariz torcido de Lucio Costa. Arquitextos, São Paulo, ano 15, n. 180.04, Vitruvius, mai. 2015 <https://bit.ly/3BmdNaj>.

12
Idem, ibidem. Neste artigo apresento documento, que citava a existência de dois sinos na capela: “ex senão quando, esta manhã pela volta do meio dia, apresentasse hum Indio, e logo depois deste vierão os mais, em nº de seis – ou sete, e abertamte. me dicerão, que não querião levar o Sino, além de q~ já eu tinha previsto este acontecimto. porqto. quando eu cheguei ao Convento, já não achei o dito Sino, o qual havendo-o eu mandado descer da torre logo, q~ recebi a Portaria de S. Magde. Imperador, e polo na portaria da parte de dentro pª qdo. fosse ocasião, estar prompto”. APSP Ordem 5599 – Vigários e Bispos. Carta do Vigário Colado da Igreja de MBoy Alexandre Gomes de Azevedo, datada de 27 de Junho 1827.

13
CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Afinal, a primitiva capela jesuítica do Embu tinha ou não tinha torre? Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, out. 2015 <https://bit.ly/38moZHw>.

14
O Diretor que alude era Joaquim Pedrozo de Oliveira, que iniciou a obra da torre em 1814, conforme anotamos em nosso artigo “Afinal, a primitiva capela jesuítica do Embu tinha ou não tinha torre?” (op. cit.).

15
ANDRADE, Antonio Luiz Dias. O nariz torcido de Lucio Costa. Sinopses 18, FAU USP, dez. 1992.

16
“Antonio Luiz Dias de Andrade, analisando fotografias [de Washington Luís, 1908] concluiu que o projeto original não possuía sineira alguma”. LEMOS, Carlos C.; MORI, Victor Hugo. Iphan Patrimônio. 70 anos em São Paulo. São Paulo, Iphan, 2008, p. 64.

17
Somente os dois primeiros sinos equivaleriam a um peso próximo a 150 quilos. E tenho impressão de que o sino antigo devesse ser bastante grande, de modo a impedir a aferição de seu peso. Angélica em nota (41), acrescenta a fonte de onde retirou os dados: “1759, dezembro. 2. Autos de Inventário e Sequestro feito nos bens que se acharam na Aldeya de Mboy. Cota: Superintendência do Patrimônio da União/SP, Setor de Incorporações, caixa 3, Sitio Mutinga”.

18
CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Considerações acerca d’O nariz torcido de Lucio Costa (op. cit.); CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Afinal, a primitiva capela jesuítica do Embu tinha ou não tinha torre? (op. cit.).

19
Idem, ibidem.

20
Foto encontrada no folheto da Empresa de Colonização Sul Paulista. Cf. Arquivo Iphan SP (reproduzida adiante).

21
“Perdeu aquele ar desconexo de chapéu de palha, que abobalhava a sua fachada, readquirindo uma graça, uma humildade macia, que o branco da cal e o azul intenso das janelas e portas ainda fazem mais encantadora”. ANDRADE, Mário de. Será o Benedito!, n. 182, São Paulo, 2ª quinz. mai. 1941 [rotogravura]. Apud CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Afinal, a primitiva capela jesuítica do Embu tinha ou não tinha torre? (op. cit.).

22
“Ainda nestes primeiros dias de 1940, já habituados os operários e feitas as experiências importantes, serão atacados os trabalhos de reforma da fachada principal, quando se alcançaria finalmente o propósito de todas as operações: Dentro de poucos meses, a igreja e convento viverão renascidos num aspecto mais tradicional, protegidos da ruína definitiva”. ANDRADE, Mário de. Op. cit., p. 44. Grifo do autor.

23
Repito aqui as palavras de Lucio Costa no Compromisso de Brasília para melhor circunstanciar a questão dos procedimentos de restauração: “O problema da recuperação e restauração de monumentos, [...] é extremamente complexo. Primeiro porque depende de técnicos qualificados cuja formação é demorada e difícil, pois requer, além do tirocínio de obras e de familiaridade com os processos construtivos antigos, sensibilidade artística, conhecimentos históricos, acuidade investigadora, capacidade de organização, iniciativa e comando a, ainda, finalmente desprendimento. Segundo por implica em providências igualmente demoradas, como o inventário histórico-artístico do que existia na região, o estudo da documentação recolhida”. COSTA, Lucio. Compromisso de Brasilia. 1º encontro dos overnadores de Estado, Secretários Estaduais da Área Cultural, Prefeitos de Municipios Interessados, Presidentes e Representantes das Instituições Culturais, abr. 1970.

24
Por sua vez contestada por Antonio Luiz, devido à distância de onde a foto foi tirada e a evidente imprecisão da imagem.

25
IPHAN. Nº do Processo: 0180-T-38. Livros de Tombo: Belas Artes: Nº inscr. 221, vol. 1, f. 038, data: 21/10/1938; Histórico: Nº inscr. 111, vol. 1, f. 020, 21 out. 1938.

26
ANDRADE, Mário de. Op. cit.

27
Chamo porém a atenção de que a documentação reunida na pasta do monumento contém informação de que inicialmente se utilizou da taipa de pilão para o erguimento do edifício, sistema ainda muito utilizado em São Paulo até a primeira metade do século 19, porém já associado a outros materiais desde o último quartel do 18, como à pedra de cantaria ou ao tijolo e à alvenaria que permitiam soluções plásticas mais elaboradas que afinal acabaram por configurar o edifício da Câmara e Cadeia de Atibaia ao término de sua construção. Sobre o uso da pedra de cantaria associada à taipa de pilão, veja: CERQUEIRA, Carlos Gutierrez. Tebas – Vida e atuação na São Paulo Colonial e o parecer: Igreja de S. Francisco (Ordem Terceira) de S. Paulo <https://sites.google.com/site/resgatehistoriaearte/home>.

28
Pois, acaso lá não estivessem esses abençoados sinos, não haveria motivo para os inventariantes subirem à torre e registrarem a sua existência na capela.

29
GONÇALVES, Cristiane Souza. Restauração arquitetônica: a experiência do Sphan em São Paulo 1936-1975. São Paulo, Annablume, 2005. Em seu livro a autora critica os restauros dos monumentos: Capela e Sítio de Santo Antonio (São Roque; Capela jesuítica de São Miguel SP, Câmara e Cadeia de Atibaia SP e Fazenda Pau d’Alho, São José do Barreiro.

30
Como não convivi com eles, só os vi “de passagem” numa e noutra oportunidade, não posso testemunhar em favor daqueles que relatam dificuldades de relacionamento em razão do caráter ou temperamento desses dois pioneiros restauradores do Sphan.

31
É complicado, ao meu ver, defender essa ideia de paradigma como prática deliberada dos arquitetos restauradores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Fosse de fato verdadeira, o “modelo” que teria sido forjado pelos arquitetos restauradores para a capela do Embu, teria sido também aplicado à de Guararema, a capela de Nossa Senhora da Escada. Daí sim, indiscutível o uso do suposto paradigma como propósito e prática institucional, pois o veríamos incorporado, revestindo o outro exemplar de mesma tipologia. Mas, não. Isso não ocorreu e nem há documento que possa nos levar a crer que houvessem suposto um tal propósito. E o desenho de Luís Saia da capela do Embu sem torre, descoberto por Antonio Luiz Dias de Andrade? Indicaria por ventura este paradigma ao reverso? Não. Ao meu ver, o desenho deve ser compreendido como uma das etapas de análise, como elemento de elaboração do objeto pesquisado, prospecto necessário aos estudos comparativos entre esses exemplares, uma prática que se deveria requerer a qualquer arquiteto que se proponha a analisar o monumento com objetivo de restaurá-lo. Prática que deve ser incorporada ao trabalho cotidiano dos arquitetos do Instituto, combinada às pesquisas de caráter historiográfico dos monumentos selecionados para serem restaurados, cuja execução cabe aos historiadores realizar. Essa é uma proposta que venho defendendo a alguns anos entre meus colegas de trabalho em São Paulo, sobretudo com os mais novos, ávidos por se envolverem em trabalhos de restauro.

32
Percebo manifestação dessa silenciosa e respeitosa discordância no ofício que Rodrigo Melo Franco de Andrade envia a Mário de Andrade, em março de 1942, respondendo ao pedido que lhe havia feito sobre o tombamento das pinturas do padre Jesuíno do Monte Carmelo da igreja da Ordem Terceira do Carmo paulistana. Nele, diz o Diretor: atendendo à vossa sugestão, providenciarei para inscrevê-las o mais breve possível nos livros de Tombo a que se refere o artigo 4º do Decreto-Lei nº 25 de 30 de novembro de 1937. Mas esclarece que o tombamento requeria manifestação da chefia paulista: Para esse efeito, porém, faltam a esta sede diversos esclarecimentos e dados que solicitei, nesta data, ao dr. Luís Saia. O processo de tombamento, embora iniciado, jamais foi informado, e permaneceu sobrestado até 1988 quando demos prosseguimento, com base nos estudos de Mário de Andrade. PADRE JESUÍNO DO MONTE CARMELO. Publicação N. 14 Sphan, 1945, sendo efetivamente tombado somente em 1986, junto com outras pinturas acrescidas ao processo, identificadas e analisadas no mencionado estudo.

33
Ao que incluo também a conhecida posição de Lucio Costa contrária a participação de historiadores, negando a contribuição da pesquisa histórica, por exigir muito tempo de investigação, de maturação de ideias e de interpretação, refutando desse modo a colaboração do historiador nos projetos de restauração; conduta que não foi adotada por Luís Saia, ele próprio um grande leitor de livros e artigos historiográficos, assíduo consulente e colaborador das instituições de pesquisa histórica, de início consulente costumeiro de Sérgio Buarque de Holanda. Ajustou, entre outras iniciativas, nos anos 1970, termo de colaboração com o Setor de Documentação do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH USP dirigida por Eurípedes Simões de Paula onde eu trabalhava e pude colaborar no arranjo da antiga documentação pública de São Luiz do Paraitinga SP. Isso sem falar da prática que instituiu na Regional paulista do Iphan, segundo depoimentos dos técnicos mais antigos que com ele conviveram, de reunir e estimular estudantes de História e Sociologia, da mesma forma como fazia com os de Arquitetura, contratando-os para desenvolver projetos de pesquisa dos monumentos paulistas.

sobre o autor

Carlos Gutierrez Cerqueira é formado em História (FFLCH USP, 1975) e Técnico em Pesquisa da Superintendência Regional do Iphan SP desde 1983.

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