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interview ISSN 2175-6708

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Entrevista do arquiteto português José Barbedo com o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, ocorrida em São Paulo, em 2018.

how to quote

BARBEDO, José. A arquitetura como insurgência. Conversa com Paulo Mendes da Rocha. Entrevista, São Paulo, ano 22, n. 086.04, Vitruvius, jun. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/22.086/8108>.


Baía de Montevidéu, maquete. Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
Foto divulgação [Centre Pompidou]

O toque do telefone do escritório precipitou o fim da conversa. De relance foi-me dito ainda, que o mais jovem não tem o direito de indagar o mais velho sobre certas questões para as quais buscamos, por vezes, respostas impossíveis: “Sobre essas questões, nós não temos idade, elas são constantes da existência humana”.

Talvez eu arriscasse responder então, que o essencial será reconhecer que os termos fundamentais do confronto entre o homem e o mundo são sempre os mesmos. Buscar o “essencial” na arquitetura, passa por não escamotear esses termos fundamentais, que permanecem como uma luta sem repouso entre a vontade do homem e a realidade que o esmaga. Nesta tensão que resulta da consciência do homem no mundo, não há lugar para a renúncia a uma luta obstinada contra a gravidade, a opressão, a injustiça e a violência, já que a sua resignação põe em causa a sua própria existência.

A contribuição fundamental de Paulo Mendes da Rocha neste contexto mais amplo, está no enquadramento ontológico da arquitetura, que pode ser lida a partir da identificação dos seus elementos constitutivos essenciais: a paz como condição básica das construções humanas, um sentido espacial da justiça como busca da dimensão justa das coisas (enquanto problema de proporção do ser no mundo), e a liberdade como fundação primordial do gesto criativo.

O discernimento destes princípios é bastante central no seu discurso, que se pode observar em permanente relação dialética com uma conceção dinâmica do conhecimento, rejeitando qualquer tipo de apriorismo determinista. É a partir desta dialética que a sua obra pode ser lida como um contributo para reencontrar um sentido e uma profundidade da arquitetura, enquanto discurso ético-prático ancorado na realidade do seu tempo, a que Paulo Mendes gosta de chamar de “andamento da vida”. Este sentido não corresponde a nenhum código moral prescritivo, mas antes ao reconhecimento da justa medida em que o arquiteto se posiciona perante a sua circunstância, no confronto permanente com os constrangimentos estruturais que condicionam a sua ação.

No extenso percurso profissional de Paulo Mendes da Rocha, toda a sua obra é marcada por uma visão ampla dos horizontes humanos, traduzida em representações tectónicas que resultam em arquitetura fluente para falar da cidade desejada. É esta força ilocucionária da sua arquitetura que constitui uma das suas marcas distintivas, e que ainda carece de um exame mais profundo. Nas obras mais ilustrativas do seu pensamento, as transformações que cada arquitetura indicia, podem ser interpretadas a partir da metalinguagem sedimentada na coisa construída, através da qual a ideia dessa coisa se assume como uma espécie de metáfora política: é no que sua arquitetura diz sobre o processo e o modo de fazer a cidade, que se pode encontrar a macroestrutura decisiva do seu sentido. Esta é uma tarefa para a investigação teórica em torno da sua obra, que poderá contribuir para uma melhor compreensão desta no que respeita às possibilidades da sua descodificação formal e significado.

Entre outros aspetos menos compreendidos, as suas propostas para a cidade do Tietê carecem de um melhor entendimento pela crítica, como é equivocadamente feita na leitura de um dos comentadores da sua obra (15). Não se trata como este crítico afirma, de um projeto técnico tendente a se reduzir a uma solução de logística, mas muito mais que isso, trata-se de um gesto político – um gesto que não se assemelha à mera repetição de erros do colonialismo, como Paulo Mendes da Rocha observa criticamente sobre a construção de Brasília.  Ao invés de uma visão determinista que imagina a cidade ideal como um produto acabado na sua monumentalidade simbólica, a proposta da cidade do Tietê resulta de uma leitura estratégica da geografia que pretende tocar o território com a economia de meios necessária para acolher e servir de suporte a um conjunto de fluxos espaciais mapeados pelo arquiteto num contexto muito mais alargado de dimensão continental.

Uma constante na arquitetura de Paulo Mendes da Rocha pode ser observada na forma como esta exprime simultaneamente uma afirmação das possibilidades de ação do arquiteto, e uma resposta aos constrangimentos práticos que limitam essa mesma ação. A expressão desta contradição parece ter um papel enquanto método de projeto, que também resulta num determinado testemunho material e simbólico capaz de pôr em evidência as tensões próprias da constante dinâmica de transformação do mundo. Neste sentido, é no resgate da noção do poder simbólico da arquitetura enquanto discurso transversal sobre as possibilidades do presente, em oposição a uma restrição da prática do arquiteto ao seu campo disciplinar, que se encontra um dos traços mais definidores do legado de Paulo Mendes da Rocha. A afirmação destas possibilidades encontra testemunho tanto nas suas obras mais iconográficas, expresso na poética subjetiva do grande gesto, como de forma mais discreta nas suas últimas grandes obras públicas, através das respostas que formula aos problemas ditados por um determinado enunciado ou programa.

É nesta transversalidade necessária à realização dessa potência da arquitetura, que Paulo Mendes da Rocha afirma que é preciso gozar de uma liberdade total para a realização da autonomia de pensamento necessária ao ato criativo –  no plano mental que considera ser o único espaço verdadeiramente privado, onde essa liberdade no seu sentido mais radical, é materializada em intenção lúcida, ou seja, intenção que não ignora os limites práticos de atuação possível num determinado contexto. E é dessa intenção que nasce do entendimento da sua condição concreta, que permite ao arquiteto projetar a semente de algo novo no mundo. E se cada semente depende das condições que esta encontra no chão da história, ela representa também, como Paulo Mendes da Rocha enfatiza, um “nascer para continuar” sempre renovado no tempo e no espaço onde o problema ético da arquitetura se joga. É neste sentido de continuidade que podemos entender a arquitetura enquanto campo ampliado de ação coletiva, com base no reconhecimento de valores fundados em elementos constitutivos essenciais do ser humano, que Paulo Mendes da Rocha generosamente nos ensina a ver.

notas

15
PISANI, Daniele. Paulo Mendes da Rocha – obra completa. Barcelona, Gustavo Gili, 2013.

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086.04
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