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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo analisa a relação entre o esvaziamento das áreas centrais e intervenções artísticas. A partir de um estudo de caso em Bauru-SP, elaboramos um guia dos espaços que pode contribuir para o resgate das histórias apagadas.

english
El artículo analiza la relación entre el vaciado de espacios centrales y las intervenciones artísticas. Basándonos en un estudio de caso en Bauru-SP, creamos una guía de espacios que pueden contribuir al rescate de historias borradas.

español
The paper analyzes the relationship between the vacating of central areas and artistic interventions. Based on a case study in Bauru-SP, we created a guide to spaces that can rescue deleted stories.


how to quote

FRASCARELI, Marina Biazotto; MORAIS, Lívia Zanelli de. Guia de telas de projeção para histórias apagadas. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 259.01, Vitruvius, dez. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.259/8335>.

Do apagamento de histórias

O que está através das paredes ruindo? Uma pele (in)visível, que se pudesse, relataria memórias? Este artigo, desdobramento de uma pesquisa iniciada em 2017, aborda a relação entre esvaziamento das áreas centrais históricas e as intervenções de arte na escala da arquitetura e urbanismo como potencial alerta sobre a condição de abandono e apagamento (1) das histórias guardadas nestes lugares. O problema, parte da cultura urbana e arquitetônica de muitas cidades médias brasileiras (que, portanto, se amplia no território para além da metrópole paulistana), coincide com a proposta de reconstrução da 13ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, especialmente por meio dos eixos corpos e memória. Nesse sentido, o texto desenvolve reflexões sobre possibilidades de percepção e ocupação de áreas históricas abandonadas e subutilizadas a partir de intervenções artísticas que podem apontar problemas urbanos com múltiplas camadas de significados.

Tal temática é relevante por estabelecer debates sobre os espaços em processo de apagamento para além da memória coletiva, mas também pelo desaparecimento físico. Falamos a partir de uma cidade de porte médio e as áreas centrais de várias destas cidades, apesar de compostas por complexas redes de infraestrutura e serviços, encontram-se subutilizadas e permeadas por vazios. Há uma degradação progressiva das estruturas urbanas: dos edifícios, dos espaços públicos e das zonas comerciais nas cidades ― correspondente ao esvaziamento das áreas centrais como consequência de um modelo de expansão difuso e de baixa densidade, devido ao crescimento urbano que opera em condições quase irrestritas e indeterminadas.

Deste modo, o objetivo central deste artigo, como parte de um preâmbulo da 13ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, é realizar um levantamento dos espaços em processo de apagamento em centros históricos, em prol de um resgate de histórias, apontando possibilidades de usos por meio de intervenções artísticas ― uma reconstrução ― tendo como estudo de caso a cidade de Bauru (São Paulo).

Se esse tipo de intervenção urbana tem caráter pontual, sem intenções de englobar o todo, cada ação específica provoca contínuas rearticulações, gerando possibilidades para novas funções e novos sentidos para os locais. Assim sendo, discutimos outras maneiras (para além dos grandes projetos e obras de renovação urbana) de intervir (artisticamente), gerando resultados positivos em curto prazo e proporcionando arte acessível por meio de ações extramuros (tão fundamentais em tempos pandêmicos e de sucessivas crises).

Das transitoriedades urbanas

Ana Fani Carlos (2) trabalha com a hipótese de que a produção do espaço é indissociável à produção da vida. Ou seja, a concretização do processo espacial se constitui na vida ordinária por meio das relações sociais que produzem lugares. Subsequente a esse processo de pensamento, evidencia-se a função da produção do espaço na reprodução da sociedade contemporânea. Diante do sistema econômico capitalista, esta prática de produção valida o próprio espaço como mercadoria. Segundo Carlos, esta circunstância traz à tona a subordinação do espaço em duplo caráter, “o espaço fica subordinado à lei do valor que o qualifica como um valor de uso e de troca, condicionando seu acesso à existência da propriedade e à dinâmica do mercado” (3).

Nesse sentido, é relevante destacar o processo contraditório por trás de novas aparências que caracterizam a paisagem urbana; o sujeito como consumidor, que busca espaços renovados; o urbano como mapa fragmentado e descontínuo, resultante de um processo de produção do espaço atravessado pela lógica capitalista. O entendimento da atual crise urbana deve considerar como urgência o debate sobre as lógicas do apagamento e a busca das forças residuais que ainda constituem este espaço.

No Brasil, o processo de urbanização foi impulsionado no século 20, a partir da industrialização, de modo acelerado e desordenado. Há um padrão de urbanização caracterizado na reprodução de eixos de expansão horizontal impulsionado pelo planejamento econômico, territorial e pelas políticas de financiamento e produção habitacional e de infraestruturas, principalmente de sistemas de circulação e de saneamento (4). A disponibilidade de crédito a juros subsidiados impulsiona a produção de imóveis novos, permitindo à classe média construir novos bairros e novas centralidades gerando, além de expansão horizontal, o esvaziamento dos centros tradicionais ― o ajuste espacial de David Harvey (5) que pode ser ilustrado com o ciclo constante de criação de localidades nas franjas das cidades capazes de absorver os excedentes de capital.

Já para a população de menor renda, a alternativa do loteamento ou conjunto habitacional consagrou um modelo hegemônico, promovido por preços mais baixos dos terrenos na periferia. Este modo de operação com os mercados habitacionais impulsionando uma expansão centrífuga contribui para o esvaziamento das áreas centrais e consequente abandono de edifícios com relevância histórica que tradicionalmente estão localizados nestas áreas. A expansão urbana dispersa e seu produto, o vazio urbano, demandam significativos recursos públicos, além dos impactos ambientais e sociais da transformação de terra rural em urbana ― e para além do aumento das distâncias físicas a serem percorridas no cotidiano, há o acirramento das desigualdades e da segregação socioespacial.

Conforme Giulio Carlo Argan (6), a crise urbana foi atravessada por um processo de apagamento do conceito de historicidade derivado da destruição dos tecidos urbanos devido à especulação imobiliária ― soma-se ainda, a produção de arquitetura banal e descontextualizada e a crise do objeto como fonte de valor. Em consonância com Ana Fani Alessandri Carlos (7), esse espaço urbano atual (ao longo do tempo) foi produto de relações sociais que carregam o sujeito e a sociedade. A autora afirma que frente ao processo morfológico fugaz, os signos que caracterizam e embasam a vida na cidade se transformam constantemente e a história acumulada perde o valor mais profundo perante o dever da acumulação do capital.

“A constante renovação ― transformação do espaço urbano através das mudanças morfológicas ― produz constantes transformações nos tempos urbanos da vida, nos modos e tempos de apropriação/uso dos espaços públicos e privados. Os lugares vão se transformando de forma irreversível com o aplainamento da história contida neles, tornando-os iguais a tantos outros, colocando a sociedade em relação direta com um espaço destituído da memória (como produto da constituição da identidade revelada por uma história vivida enquanto prática socioespacial)” (8).

A partir desse cenário de memoricídio (9), Giselle Beiguelman (10) discute o direito à memória em contraposição às ações políticas de apagamento do passado. Segundo a autora, a história do Brasil carrega o extermínio da memória como apagamento desde as origens da colonização ― apagamento este que reverbera até os dias de hoje. Aqui, fica evidente o valor de resgatar a cidade do passado a fim de buscar referenciais identitários em um movimento que torna possível a produção do significativo: fixar imagens e discursos que friccionam uma certa identidade urbana, coleção de sentidos e formas de representação e reconhecimentos que pormenorizam as histórias. “O passado aí é uma espécie de vibração, de corrente que se propaga pelo presente ― apesar dele e a despeito dele” (11). Em concordância com Soraia Ansara (12), Giselle Beiguelman (13) ainda sinaliza que o processo que constitui a memória é um ato de enfrentamento contra o esquecimento e evidencia a importância e a necessidade de se elaborar ‘políticas de memória’ que se contraponham às ‘políticas de esquecimento’ (14) estabelecidas ao longo da história.

Das renovações e intervenções urbanas

No que pese a diferença entre os gestos de renovação urbana e intervenção urbana, ressaltamos que a intenção aqui não é comparar as ações, nem considerar substituições, mas sim, possibilidades outras, especialmente diante do atual contexto pandêmico.

De acordo com Malcom Miles (15), na década de 1980 a manifestação prevalecente nas cidades da Europa Ocidental e da América do Norte legitimava que a renovação urbana de base cultural forneceria soluções para problemas urbanos associados à desindustrialização ― à medida que a produção industrial foi transferida para os países do Sul, o desemprego aumentava no Norte, as fábricas eram abandonadas e as centralidades urbanas se encontravam em decadência. Em parte, os edifícios abandonados tornam-se objetos de consumo e renovação após o período de obsolescência do uso, alterando sua função original também pelo fato da política urbana condenar sua substituição ― percepção esta que se alinha à necessidade de preservação histórica e memorial na busca por referenciais identitários, um contraponto aos movimentos homogeneizantes da globalização.

Neste cenário, a cidade cultural apropria-se da cidade de produção material na proliferação de um estilo de vida da cultura do consumo. Apesar da cidade cultural ser método de revitalização, reabilitação e reapropriação, esta regeneração dos centros degradados e zonas de desindustrialização pode acontecer somente nos médio e longo prazos em virtude de serem grandes intervenções estruturais. Sem garantias de sucesso, é capaz de gerar processos de gentrificação. A renovação de base cultural pode ser uma resposta à desindustrialização, mas conforme a produção imaterial domina a imagem projetada nas marcas das cidades, estas tendem à despolitização com um futuro guiado pelo mercado e um otimismo artificial.

“O interesse que o capital tem na construção da cidade é semelhante à lógica de uma empresa que visa ao lucro. O que temos visto, nos últimos trinta anos, é a reocupação da maioria dos centros urbanos com megaprojetos. Muitos desses projetos associam a urbanização ao espetáculo. Invariavelmente, entre as consequências dos megaeventos estão as remoções de pessoas de algumas áreas” (16).

Neste contexto, a arquitetura passa a ser elemento central nos espaços de exposição, atrai público para contemplação de suas formas plásticas e materialidades ― vide exemplo do Museu Guggenheim de Bilbao. Esta influência midiática das renovações de base cultural é contestada por parte da sociedade artística que não tem acesso aos circuitos museológicos e que é responsável pela disseminação de arte mais acessível demandando, para isso, ações extramuros. À margem dos circuitos museológicos e, a fim de proporcionar arte acessível, a busca por novos espaços para prática artística toma impulso. Há uma evolução dos processos da land art (17) e dos trabalhos propostos em site-specific (18), nos quais ocorrem ocupações pulverizadas pelas cidades.

“Impõe-se então a estratégia artística ― radicalmente oposta à que marcou na origem a especificidade de um sítio ― que consiste em abandonar a pesquisa formal em favor da contextualização das obras. Aqui, cada artista reage numa situação de exposição em relação ao trabalho do outro e aceita as contaminações, interferências e sobre determinações que possam daí resultar” (19).

Colocada esta alternativa da cidade ao museu, os itinerários urbanos se fortalecem em uma retomada contrária ao modelo do flâneur, tornando importante o debate sobre as intervenções artísticas em prol da ocupação da cidade. Sobre as intervenções urbanas, Fontes afirma que “apesar de temporárias, elas, paradoxalmente, têm um impacto sobre os lugares que pode ser duradouro” (20). Para a mesma autora, a intervenção temporária acontece na esfera do transitório, do pequeno, das relações sociais, da participação, interação e subversão, a partir de situações existentes. Ainda, tem o papel de acelerar aproximações, busca espaços democráticos e gera debates sobre as transitoriedades e apagamentos. É possível visualizar o campo das artes como dispositivo de reflexão e produção de moldes identitários. Nesse sentido, entendemos que estas intervenções podem tensionar ações que contrapõem os tradicionais mapas turísticos ― aqueles que reforçam o ‘desconhecido’ no urbano.

Para Nelson Brissac Peixoto, o urbano pode ser definido como “um horizonte saturado de inscrições, depósitos em que se acumulam vestígios arqueológicos, antigos monumentos, traços de memória e o imaginário criado pela contemporaneidade” (21). Soma-se a isso, a cidade como lugar de encontros e debates e, portanto, espaço político e cultural. Nesse sentido, tomamos intervenção artística urbana, para este artigo em específico, a denominação de manifestação da arte contemporânea realizada em espaço urbano que tem como um de seus objetivos tensionar as discussões políticas e culturais presentes envolvendo a sociedade. Quanto às potencialidades da arte nesta esfera urbana, podemos considerar especialmente a retomada de espaços invisíveis a partir de intervenções que explicitam os processos de apagamento de histórias ― novas projeções

As intervenções urbanas, quando temporárias, tiram partido da condição dinâmica e não duradoura dos eventos e relações contemporâneos e, por este modo de operação mutável, extrapolam o olhar que se perde no conjunto de informações cotidianas. Conforme John Chase, Margaret Crawford e John Kaliski, para além do desenho formal e do planejamento oficial, o “urbanismo cotidiano” também atua na formação da cidade (22).

Ainda sobre o reconhecimento e retomada destes lugares invisíveis, La Varra utiliza o termo Post-it City (23) para definir uma rede de espaços não apropriados, ignorados ou abandonados pelos usos atuais da cidade formal. Como o post- it, que interfere e se destaca em relação à um padrão, reativa espaços de encontro retomando o tecido urbano de décadas passadas, edifícios abandonados, lotes vazios e outros vazios urbanos de modo temporário e alternativo. Ainda, os usos e intervenções espontâneos e informais são formas de resistência aos padrões da cidade contemporânea, ao espetáculo e ao consumismo. O post-it também assume seu caráter provisório e “Mesmo após o término do uso temporário, o local da temporalidade permanece como uma tela de projeção sobre a qual podem ser feitas novas projeções” (24) ― o mapa de levantamento do estudo de caso apresentado na sequência revela estas ‘telas de projeção’. Se o post-it ilustra o caráter momentâneo destas ações, Fontes define o ‘urbanismo temporário’ como alternativa ao planejamento urbano, onde atividades temporárias ocupam pontos do planejamento não definidos, enquanto outros planos não são implementados em uma ‘pré-transformação’ do espaço (25).

Sobre alternativas ao planejamento com base em intervenções temporárias, o trabalho de Eduardo Srur, Acampamento dos Anjos (26), coloca em evidência uma lógica de resistência, um movimento de contrapoder, a fim de questionar instituições artísticas e estruturas sociais por meio de uma ação poética. O artista utiliza como tela de projeção a obra de um hospital inacabado localizada na Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo. O edifício, pertencente a um órgão estadual e abandonado por mais de uma década, foi anteparo da intervenção artística que buscou reativar poeticamente e espiritualmente um edifício que deveria salvar vidas e se encontrava em situação de abandono. O artista fixou barracas de camping coloridas, verticalmente na fachada do edifício ― uma intervenção em uma obra pública, um grande volume de concreto visualmente incômodo, disposto na paisagem urbana que chama atenção para diversos problemas coletivo.

Outra obra constituída por meio do entrelaço com a arte e com a política, produzida no espaço público, que explicita maneiras outras de perceber a cidade-abandono, é uma projeção do coletivo Bijari para o Valongo Festival Internacional de Imagem (27). Desde 2016, o Festival acontece em um bairro histórico da cidade de Santos, configurando-se como uma importante referência de práticas artísticas e construção de saberes. O coletivo Bijari colabora com o desenvolvimento de uma atividade provocativa, uma projeção capaz de conectar diferentes mídias do Festival. Para além da tarefa expositiva, a intervenção abre espaço também para a denúncia de uma arquitetura em processo de apagamento, anunciando a presença de ruínas do bairro histórico e sua potente inscrição no resgate de parte da memória de uma cidade.

A galeria de arte a céu aberto em Salvador, Movimento Urbano de Arte Livre ― M.U.R.A.L. (28), apresenta possibilidades singulares. O projeto cultural (29) concebe um leque de ‘telas’ e painéis para ativar espaços em processo de apagamento ou pouco valorizados na capital baiana, na região histórica da Cidade Baixa, contribuindo para outras percepções sobre a região e a história da cidade.

Os três exemplos de intervenções citados apontam questões políticas e sociais e buscam resgatar experiências entre espaços urbanos e arte. Este tipo de ação emancipa questionamentos daqueles que vivem a cidade. Apesar de existir correlações entre as denúncias, cada intervenção pontuada carrega um nível de camadas de complexidade a serem absorvidas, sem contanto, esgotar os questionamentos comuns.

Do retorno aos limites na cidade sem limites

Como artigo empírico, apresentamos uma pesquisa que foi a campo ― anterior à pandemia Covid-19, um processo cartográfico vivenciado pelo corpo e que observou o ir e vir desconectado dos corpos nos espaços apagados, para coletar e analisar dados quantitativos e qualitativos a partir do estudo de caso na cidade de Bauru SP. Para comprovar o potencial do centro histórico desta cidade como área repleta de infraestrutura e histórias foi realizado um levantamento que compreendeu 182 quadras, 3.257 lotes, 49 ruas e 1.234 fotografias, destacando seis categorias de análise em vazios urbanos: glebas e lotes vazios, lotes subutilizados, edifícios subutilizados, edifícios históricos (tombados ou não) em uso e edifícios históricos subutilizados. A partir dos dados coletados foram elaborados mapas que denunciam, juntamente com o levantamento fotográfico, a situação de abandono do centro histórico de Bauru, local, portanto, apto a receber intervenções artísticas nas “telas de projeção” citadas por Robert Temel (30) com potencial de transformação da atual condição de apagamento das memórias. Entende-se, aqui, o vazio urbano como espaços que não foram concebidos como espaços livres públicos, sem ocupação e sem uso, áreas abandonadas, espaços residuais que, por sua improdutividade, têm caráter negativo no tecido urbano, porém com grandes possibilidades de transformação (fundos de vale e antigos leitos ferroviários). Já o termo subutilizado define imóveis e lotes que têm uso e/ou ocupação, ainda que parciais e temporários, porém em processo de deterioração, ociosidade, obsoleto. A partir deste discernimento conceitual, foi desenvolvido um banco de dados com informações sobre os vazios/imóveis/lotes, originando um diagnóstico quantitativo de cada categoria na área.

Imagem aérea destacando a região central de Bauru
Elaboração Marina Frascareli

Estação Central de Bauru, atualmente desocupada
Foto das autoras

Hotel Milanese, atualmente desocupado
Foto das autoras

Bauru é uma cidade de porte médio localizada no centro-oeste paulista fundada no fim do século 19 em terras originalmente ocupadas principalmente pelos povos Kaingang e Guarani. No início do século 20, a cidade começou a ganhar infraestrutura e o incremento populacional aconteceu especialmente com a chegada da ferrovia, sendo a cidade um importante entroncamento ferroviário por décadas. Com o extermínio dos povos nativos (que chamamos de primeiro apagamento, concluído há um século), o patrimônio considerado histórico está majoritariamente ligado ao desenvolvimento da ferrovia na região central.

Estação Paulista, atualmente desocupada
Foto das autoras

No fim dos anos 1970, Bauru, que nessa época já era chamada de “cidade sem limites”, dava sinais de um longo processo de espraiamento urbano com a inauguração dos núcleos habitacionais implantados pela Companhia de Habitação Popular de Bauru ―Cohab Bauru, principalmente nas zonas Leste e depois Norte da cidade. A partir dos anos 1990, observamos a expansão da zona Sul, que ocorre de modo acelerado nos anos 2000 com a implantação dos loteamentos de acesso controlado destinados à população de renda mais alta, no claro e evidente processo de ajuste espacial (31) à brasileira: as classes mais favorecidas economicamente abandonam o centro, antes local da burguesia fundadora da cidade e agora deteriorado (segundo apagamento, em trânsito), na busca pelos ‘condomínios’ valorizados pela expansão do capital.

Bauru Park, atualmente desocupado
Foto das autoras

Se Bauru, como tantas outras cidades brasileiras, vive uma urbanização difusa, de baixa densidade, com esvaziamento dos centros que abrigam parte relevante das histórias da cidade tendo a arquitetura como aparato, listamos, a partir do levantamento in loco, 410 “telas de projeção”, além do grande vazio indicado em verde, para potenciais intervenções urbanas que podem contribuir para a reversão do apagamento de memórias. Deste total, 53% são edifícios subutilizados, 28% são lotes subutilizados, 2,6% são edifícios históricos subutilizados, 14,4% são lotes sem ocupação e 1,4% são edifícios históricos utilizados.

As 410 telas de projeção na área central de Bauru
Elaboração Marina Frascareli

A partir desta lista de vazios urbanos foi elaborado um impresso (32), versão preliminar do Guia das telas de projeção para histórias apagadas. Um material para incentivar o conhecimento e reconhecimento de lugares históricos por parte da população, ampliando a percepção sobre a memória da cidade antes que seja completamente apagada. Considerando que as telas são interligadas pelo espaço público, que é, por si só, político, este torna-se lugar bastante apropriado para debater perdas de cultura e identidade, pois contém uma grande diversidade de perspectivas que o fazem tão potente. Ainda, a utilização do pré-guia foi sugerida via caminhadas e uso de transporte público e, por isso, também lista as paradas e linhas de ônibus necessárias para o percurso pelos locais de histórias apagadas.

Pré-guia com localização dos edifícios históricos com versão impressa no canto inferior direito
Elaboração Marina Frascareli

É a partir deste reconhecimento dos lugares, suas histórias e a condição atual destes que intervenções urbanas podem acontecer nas telas de projeção. Mas, antes mesmo de colocar intervenção artística como enfrentamento de políticas de apagamento, o caminhar em questão já emergia com capacidade interventiva frente aos arranjos que desencarnam a urbanidade.

Assim, após o difícil ano pandêmico de 2020, que minou oportunidades de trabalho de tantos artistas e o contato com arte pela população em geral (cenário que se prolonga terrivelmente em 2021), o pré-guia é estendido para a comunidade artística como Guia das telas de projeção para histórias apagadas (já que, neste período, o caminhar fica em segundo plano) ― uma possibilidade de reconstruções nos espaços livres, a partir deste preâmbulo da 13ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo.

Pré-guia com lista das linhas e paradas de ônibus
Elaboração Marina Frascareli

Considerações

A partir das pesquisas e análises realizadas para elaboração do guia, destacamos algumas observações:

A degradação e apagamento de histórias nas áreas centrais de cidades de porte médio brasileiras, especialmente no caso de Bauru, tem relação com a expansão do capital que amplia suas fronteiras na cidade e se reestrutura geograficamente, seguido por um processo de desvalorização do centro histórico. Desse modo, novas configurações espaciais surgem como meio de absorção do capital excedente, na lógica do ajuste espacial como solução temporária para as crises. Em tempos de pandemia, nota-se a fuga e potencialização do esvaziamento do centro e a busca pelas novas configurações espaciais afastadas a partir de um entendimento equivocado de que são espaços verdes/naturais/livres, permanecendo nas áreas abandonadas os corpos mais vulneráveis.

As possíveis intervenções urbanas, além de denunciar os apagamentos aqui narrados, podem iluminar possibilidades de transformação e reativar o uso do espaço público, contribuindo para a reversão das histórias apagadas e da degradação urbana decorrente do esvaziamento das áreas centrais.

O guia, por sua vez, pode fundamentar debates entre população, artistas e poder público em prol de um resgate de memórias, revelando questões históricas e possibilidades de intervenção, uso e ocupação das cidades. Importante destacar que a relevância histórica não considera apenas as histórias contadas, nesse sentido as intervenções artísticas têm papel fundamental para revelar as memórias soterradas pelas histórias dos vencedores, “é o que nos resta para resistir à barbárie representada pelo memoricídio e pelo revisionismo, que afetam políticas governamentais, instituições, povos, fatos científicos e a própria história” (33) ― para uma reversão do apagamento de histórias e conexões memórias/corpos.

notas

1
Considera aqui, sob a luz das discussões de Soraia Ansara (2008) e Giselle Beiguelman (2019), apagamento como condição resultante de políticas do esquecimento. Para além de políticas que impedem o acesso, são políticas que invisibilizam os espaços. Em ANSARA, Soraia. Políticas de memória X políticas do esquecimento: possibilidades de desconstrução da matriz colonial. Revista Psicologia Política, v. 12, n. 24, São Paulo, p. 302, 2012 <https://bit.ly/3GaD8GC>; BEIGUELMAN, Giselle. Memória da amnésia: políticas do esquecimento. São Paulo, Edições Sesc, 2019, p. 70.

2
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A virada espacial. Mercator. Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, 2015.

3
Idem, ibidem.

4
ROLNIK, Raquel et al. O Programa Minha Casa Minha Vida nas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas: aspectos socioespaciais e segregação. Cadernos Metrópole, São Paulo, Universidade Federal de São Paulo, 2015.

5
"The term ‘fix’ has, however, a double meaning. A certain portion of the total capital becomes literally fixed in some physical form for a relatively long period of time (depending on its economic and physical lifetime). There is a sense in which social expenditures also become territorialized and rendered geographically immobile through state commitments. (In what follows, however, I will exclude social infrastructures from explicit consideration since the matter is complicated and would take too much text to elucidate). Some fixed capital is geographically mobile (such as machinery that can easily be unbolted from its moorings and taken elsewhere) but the rest is so fixed in the land that it cannot be moved without being destroyed. Aircraft are mobile but the airports to which they fly are not”. Em HARVEY, David. The ‘new’ imperialism: accumulation by dispossession. Socialist Register, v. 40, 2004, p. 65.

6
ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. São Paulo, Martins Fontes, 2014, p.15.

7
CARLOS, Ana Fani Alessandri. Op. cit.

8
Idem, ibidem.

9
BEIGUELMAN, Giselle. Op. cit., p. 216.

10
Idem, ibidem, p. 70.

11
Idem, ibidem, p. 70.

12
ANSARA, Soraia. Op. cit.

13
BEIGUELMAN, Giselle. Op. cit., p. 70.

14
ANSARA, Soraia. Op. cit., p. 301.

15
MILES, Malcom. Op. cit.

16
HARVEY, David. Urbanização incompleta é estratégia do capital. Federação Nacional dos arquitetos e urbanistas, Porto Alegre, 26 nov. 2013<https://bit.ly/3rGU4Rc>.

17
Para Ben Tufnell, land art é a arte como parte do mundo, a arte não como uma adição, mas vinculada ao mundo. Em TUFNELL, Ben. Land Art. Londres, Tate Publishing, 2006, p. 23.

18
Segundo Miwon Kwon, nos anos 1960, um movimento nomeado site-specific surge como contraponto ao papel da instituição na arte, de modo que o objeto de arte passa a ser ponderado em relação ao seu contexto – uma inversão ao moderno no qual a arte tinha fim em si própria. Em KWON, Miwon. One Place After Another. Site-specific art and locational identity. London, The MIT Press, 2002, p. 86.

19
PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. São Paulo, Editora Senac, 2004, p. 21.

20
FONTES, Adriana Sansão. Intervenções temporárias marcas permanentes na cidade contemporânea. Arquitetura Revista, v. 8, 2012. p. 32.

21
PEIXOTO, Nelson Brissac. Op. cit., p. 13.

22
CHASE, John; CRAWFORD, Margaret; KALISKI, John. Everyday Urbanism. New York, The Monacelli Press, 1999, p. 181.

23
LA VARRA, Giovanni. Post-it City: el último espacio público de la ciudad contemporánea. In PERAN, Martí. Post-it City: ciudades, 2008, passim.

24
TEMEL, Robert. The Temporary in the City. In HAYDN, Florian; TEMEL, Robert. Temporary urban spaces: concepts for the use of city spaces. Basel, Birkhäuser, 2006, p. 55-62.

25
FONTES, Adriana Sansão. Op. cit., p. 35.

26
Ver Eduardo Srur. Acampamento dos Anjos, 2002 <https://bit.ly/3pDqRnA>.

27
Ver Bijari. Design. Expografia Valongo, 2018 <https://bit.ly/32UDAdA>.

28
Ver: M.U.R.A.L – Movimento Urbano Arte Livre. Circuito de Arte Vertical, Salvador <https://bit.ly/3orFISn>.

29
Projeto da Trevo Produções, contemplado pelo edital Arte em Toda a Parte – Ano III, da Fundação Gregório de Matos, da Prefeitura de Salvador.

30
TEMEL, Robert. Op. cit., p. 55-62.

31
HARVEY, David. The ‘new’ imperialism: accumulation by dispossession (op. cit.).

32
Em 2017, este material foi transformado em folheto e distribuído no calçadão da Rua Batista de Carvalho, importante rua de comércio, localizada na área do levantamento. Os números do levantamento também foram divulgados em página de rede social.

33
ANSARA, Soraia. Op. cit.; BEIGUELMAN, Giselle. Op. cit.

sobre as autoras

Lívia Zanelli de Morais é doutora pela FAU USP (2020); mestre pelo IAU USP (2015); arquiteta e urbanista graduada pela FAU USP (2005). Pesquisadora do grupo Pensamento Crítico e Cidade Contemporânea (FAU USP), desenvolve estudos em Arquitetura e Urbanismo, tendo publicações sobre os temas: produção de arquitetura e urbanismo contemporâneos, teoria e crítica de arquitetura e urbanismo, projetos experimentais, habitação multifamiliar. Lecionou na Universidade do Sagrado Coração e trabalhou em escritórios de arquitetura, entre eles Bjarke Ingels Group.

Marina Biazotto Frascareli é graduada pela Universidade do Sagrado Coração em Arquitetura e Urbanismo (2017) e aluna especial no Programa de Pós-Graduação no Instituto de Arquitetura e Urbanismo, IAU USP (2021). Interessa-se pelas linhas de pesquisa relacionadas à arte, ativismo, política, arquitetura, cidade contemporânea e performance. Além da área acadêmica, atua no desenvolvimento de projetos arquitetônicos residenciais, comerciais e de arquitetura de interiores.

preâmbulo

O presente artigo faz parte de Preâmbulo, chamada aberta proposta pelo IABsp e portal Vitruvius como ação para alavancar a discussão em torno da 13ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, prevista para 2022. As colaborações para as revistas Arquitextos, Entrevista, Minha Cidade, Arquiteturismo, Resenhas Online e para a seção Rabiscos devem abordar o tema geral da bienal – a “Reconstrução” – e seus cinco eixos temáticos: democracia, corpos, memória, informação e ecologia. O conjunto de colaborações formará a Biblioteca Preâmbulo, a ser disponibilizada no portal Vitruvius. A equipe responsável pelo Preâmbulo é formada por Sabrina Fontenelle, Mariana Wilderom, Danilo Hideki e Karina Silva (IABsp); Abilio Guerra, Jennifer Cabral e Rafael Migliatti (portal Vitruvius).

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259.01 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)
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Rebuilding new sea cartographies. The Azorean case

Inês Vieira Rodrigues

259.05 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Laboratório de projeto

Experiência didática de desenho na cidade existente

Eduardo Argenton Colonelli, Marcio Novaes Coelho Jr and Marina Mange Grinover

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