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research

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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo busca problematizar o ensino de arquitetura no contexto da reconstrução de sentido para a urbanidade, expondo a experiência de ensino e aprendizado no curso de Arquitetura e Urbanismo da Faap.

english
The article seeks to problematize the teaching of architecture in the context of the reconstruction of meaning for urbanity, exposing the teaching and learning experience in the Architecture and Urbanism course at Faap.

español
El artículo busca problematizar la enseñanza de la arquitectura en el contexto de la reconstrucción de sentido para la urbanidad, exponiendo la relación enseñanza y aprendizaje en el curso de Arquitectura y Urbanismo Faap.


how to quote

COLONELLI, Eduardo Argenton; COELHO JR, Marcio Novaes; GRINOVER, Marina. Laboratório de projeto. Experiência didática de desenho na cidade existente. Arquitextos, São Paulo, ano 22, n. 259.05, Vitruvius, dez. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/22.259/8340>.

"Ao arquiteto de hoje seja talvez reservada uma tarefa quase anônima, de participação direta. Como os grandes construtores de Catedrais, riscar na areia dos canteiros os mínimos detalhes (mesmo se controlados por computers) acompanhando em silêncio a realização de um serviço coletivo”.
Lina Bo Bardi, 1989 (1)

A supressão do espaço público e o acirramento das desigualdades sociais (2), vividos com o necessário confinamento durante a pandemia Covid-19, expõem a trágica condição das cidades no Brasil e de muitos países do globo. Como garantir distanciamento, confinamento, salubridade se o cotidiano de muitos acontece em espaços exíguos e precários, se o ganha pão de tantos de nós depende da rua e do contato vital entre cidadãos? Como reconstruir a relação com o ambiente urbano diante de tantas mazelas que a força capital construiu e que a pandemia reforçou?

Este ensaio busca refletir sobre a formação de arquitetas e arquitetos no contexto das cidades existentes (3) cuja crise de sentido está aguçada pela pandemia Covid-19. Ao problematizar a complexidade do ambiente urbano existente, com suas ambivalências expressas em seu constructo e em seu cotidiano vivente, estudantes ensaiam possibilidades de reconstrução, de transformação, numa direção inclusiva que reconhece valores e deficiências da cidade real. As atividades didáticas das disciplinas de Projeto no 4º ano do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Armando Álvares Penteado ― Faap, têm constituído um laboratório fértil de investigação pelo projeto de outros modos de pensar e fazer cidade. Convocando outros campos disciplinares que também examinam a cidade e sua cultura, o projeto de arquitetura dialoga com a arte, a geografia, com a antropologia e a etnografia, além das engenharias, para promover um pensamento crítico sobre o meio urbano elaborando desenhos de edifícios que necessariamente investigam a relação entre o público e o privado na cidade contemporânea. As propostas ativam a relação entre o construído e os espaços livres buscando uma cidade inclusiva seja com o meio seja com a vida humana cotidiana.

Este olhar simultâneo acaba por promover uma compreensão transversal e múltipla dos problemas arquitetônicos, que demanda uma atitude coletiva, seja na reflexão entre pares, seja na relação entre conhecimentos científicos e empíricos. Uma proposta pedagógica que busca formar um profissional apto a reconhecer a vocação coletiva da arquitetura e do urbanismo e que, necessariamente, exige uma atitude de escuta atenta e uma ativa operação de síntese em concordância com as diferentes condicionantes do lugar. Mas, sobretudo a dimensão possível de ação pela reconstrução impõe um pensamento em diferentes camadas de implicação da arquitetura. Seja na escala urbana, seja na escala da construção, seja na escala das atividades humanas, os projetos articulam esses diferentes âmbitos. Para este grupo de professores a arquitetura é uma profissão política, cuja ética humanista resgata a vocação artística dos construtores de cidade diante dos desafios do mundo contemporâneo.

Laboratório de projeto

A experiência de ensino e Aprendizagem que desejamos compartilhar está inserida no Projeto Pedagógico mais amplo da Faap que busca repensar o papel da profissão na cultura urbana ao mesmo tempo em que formula temáticas de investigação acadêmica multidisciplinares. Diante da oportunidade institucional na qual a Faap passa a ser um Centro Universitário, o curso de Arquitetura e Urbanismo, associado a Escola de Artes, está reestruturando suas práticas de ensino desfrutando da diversidade disciplinar que a instituição contém. Os diálogos entre cursos promovem um debate constante entre formação especializada e fundamentos gerais.

De acordo com o Projeto Pedagógico da Faculdade Armando Álvares Penteado ― Faap (4), o curso de arquitetura está estruturado em dez semestres, cada um organizado conceitualmente a partir de uma ação comum ligada ao campo da arquitetura e do urbanismo. Há, portanto, uma horizontalidade que promove a articulação disciplinar a cada semestre e o estudante realiza trabalhos interconectados nos diferentes campos do conhecimento.

Os exercícios de projeto do 7º semestre e projeto do 8º semestre da Faap tem como ação central "Estruturar a Cidade" e "Pensar a Cidade", articulando uma temática integrada no ano curricular sobre a cidade existente. Ações sobre as questões do projeto que são mais complexas que a resolução somente do problema do edifício. O (a) estudante, na maturidade da etapa de finalização de suas habilidades, deve ser capaz de articular conhecimentos oriundos de escalas diferentes do problema arquitetônico. Estruturar significa encontrar os elementos que sustentam determinado argumento, determinado sentido de território, determinado edifício, certo tipo de material, significa compreender e portanto, pensar sobre a cidade existente. Lidar com estas diferentes aproximações do campo da arquitetura necessariamente implica em articular o espaço. Desta forma, a cidade é o contexto fundamental porque contém a multiplicidade de "artefatos" que caracterizam as ações humanas nos diferentes momentos de sua história, como postulou Giulio Carlo Argan (5). Articulamos a arquitetura da cidade, assim como Aldo Rossi, para quem:

"Arquitetura da cidade pode se entender por dois aspectos diferentes: no primeiro caso a cidade a um grande artefato, uma obra de engenharia e de arquitetura, mais ou menos grande, mais ou menos complexa, que cresce no tempo; no segundo caso, podemos nos referir a entornos mais limitados da cidade inteira, a fatos urbanos caracterizados por uma arquitetura própria, portanto, por uma forma própria" (6).

A cidade, deste modo, é também texto, e pode ser lido em suas diferentes escalas de significado, seja este campo alargado de sua totalidade, seja a expressão de sua vizinhança, em âmbito local, cotidiano, de edifícios e vivências miúdas diante da enormidade de seu território. A cidade existente é plural neste sentido midiático, assim como elaborou Lucrécia Ferrara, a cidade tem a possibilidade de ser um lugar de mediação, da experiência de troca e de elaboração de seus significados para além das forças majoritárias (7). Deste modo, ler a cidade, reconhecer este campo complexo de características, sejam morfológicas, sejam culturais e semióticas, são ações de um pensamento estruturante do processo de análise projetual. A cidade enquanto paisagem cultural (8) e enquanto ambiente da vida humana convoca elementos da geografia, alarga o sentido do meio com o qual os estudantes vão trabalhar. De acordo com o geógrafo Milton Santos, a paisagem pode ser entendida como o continente da história dos homens no lugar, o registro material de um palimpsesto que ampara a vida presente, palco para o espaço social das relações humanas (9). Trabalhamos com a cidade existente e seus valores culturais, econômicos, materiais, sociais para aproximar a noção de estrutura, dada a complexidade do habitar urbano.

Mas sendo uma disciplina de projeto de edifício é importante notar que nossa hipótese é que este artefato, o edifício, é o articulador destas camadas aqui descritas. Esta relação edifício, cidade e sociedade constitui a premissa dos exercícios de projeto pois há uma valorização da ideia de lugar, muito próxima da proposição de Christian Norberg-Schultz (10) diante da necessária reestruturação da cidade existente que ele formulou nos anos 1950. Introduzimos com estes postulados a ideia de identidade e a ideia de movimento identitário diante dos diferentes momentos históricos para pensar a cidade contemporânea numa clara adesão a fenomenologia e a compreensão de valores simbólicos do meio urbano. Do ponto de vista do projeto de arquitetura a ideia de continuum sedimentada em nossa arquitetura nacional (11), que explora as diferentes formas de realizar a transição entre dentro e fora, interior e exterior, também se apresenta como premissa de estudo que articula as categorias aqui examinadas de cidade, edifício e sociedade.

A cidade de São Paulo, em sua extensão, apresenta, assim, diferentes laboratórios de projetos: tecidos latentes de (re)estruturação. A temática geral dos verbos pousa sobre os bairros do entorno do centro histórico pois, como lugares desta cidade complexa, carregam ainda as dimensões simbólicas de memória, de história, de nossas desigualdades e dos planos e políticas públicas que resultaram em certa estrutura urbana mais qualificada, seja pelo sistema de mobilidade, seja pelo conjunto de equipamentos públicos. Esta cidade convive com lugares de exceção, bens materiais reconhecidos como patrimônio e um tecido ordinário, impregnado de valores cotidianos, também fundamentais para a noção de identidade, fundamento da reestruturação orgânica que buscamos explorar nos trabalhos dos estudantes. Estruturar e pensar a cidade é também encontrar as razões de ser da cidade existente, suas virtudes e seus conflitos e agir propositivamente sobre ela.

Nos semestres de Pandemia, a prática do ensino remoto em certa medida viabilizou a continuidade de formação dos estudantes, mas são evidentes os prejuízos para os cursos onde a prática presencial diante dos objetos de estudo é fundamental para a compreensão e apropriação do conhecimento. No caso da arquitetura há, certamente, uma perda no domínio técnico da realidade com a qual se estabelece um campo de investigação. O desenho, a cidade, os edifícios, os espaços livres, os canteiros de obra e a urbanidade cotidiana de suas comunidades, que são matéria prima para a grande maioria dos estudos em arquitetura e urbanismo, não puderam ser acessados diretamente por boa parte dos estudantes, professores e pesquisadores. Ao mesmo tempo, a diversificação de plataformas digitais de contato com profissionais e colegas em diferentes lugares, proporcionou o encontro e o diálogo entre pares distantes fisicamente. A pandemia, ao mesmo tempo que expôs a profunda desigualdade também de acesso digital, mostrou ferramentas que podem ser incorporadas no estudo das relações urbanas que ainda não tinham sido experimentadas. Os desafios da cidade existente estão também relacionados à compreensão destas perdas e a elaboração de hipóteses de incorporação das novas plataformas de conexão social que são desterritorializadas, mas profundamente atadas a modos culturais, de gênero, de classe, de raça e ainda, são geracionais.

Didáticas de compreensão e ação pelo projeto

Os exercícios de projeto começam examinando os bairros que constituem o perímetro em torno do centro histórico da cidade de São Paulo. Resultantes da primeira fase de sua expansão territorial, como vimos, são portadores de forte conteúdo histórico, memórias e significados simbólicos além de conterem infraestrutura importante quanto ao transporte público, saneamento, serviços e equipamentos urbanos. Eles respondem às premissas que estão colocadas na investigação da disciplina: são estratégicos na reestruturação da cidade, possuem condições potenciais de transformação e, ao mesmo tempo, emanam a vitalidade urbana em atividades setoriais, diversidades socioculturais e heterogeneidade morfológica e de ocupação. A partir da leitura da escala do bairro, os estudantes definem um recorte menor que possibilite a ocorrência de propostas de intervenção. São aspectos relevantes nessa escolha: o significado histórico, a inserção na estrutura urbana, os movimentos perceptíveis de transformação, estagnação, degradação e subaproveitamento, pois estes tópicos se apresentam como categorias que estimulam os estudos sobre as possibilidades de intervenções amplas e diversificadas.

Esses ensaios projetuais têm como princípio ver a cidade nos termos colocados por Rossi e Ferrara (12) a partir de olhares aproximados para o ambiente urbano focando aspectos do cotidiano, as dinâmicas da vida urbana, as atividades, a mobilidade, o perfil da população e seus aspectos socioculturais. Este olhar tem caráter etnográfico, busca estabelecer um perímetro e reconhecer as dinâmicas sócio espaciais que caracterizam a comunidade habitual do lugar, seja porque mora, seja porque trabalha ou usufrui dos serviços urbanos, um olhar de perto e de dentro como formulou José Carlos Magnani (13). Mas também esta aproximação provoca um olhar atento para as desigualdades socioterritoriais e as vocações ontológicas para sua reestruturação.

Essas leituras são, portanto, o suporte das indagações e a da busca por possíveis respostas ou soluções a partir do projeto e do desenho. Neste sentido, algumas estratégias são estimuladas nas trocas e conversas entre professores e estudantes como a articulação de ações do todo e da parte, do coletivo e do espaço público; a abordagem de novos programas na escala do desenho urbano e do edifício; a valorização das virtudes do lugar e das possibilidades de dissolução dos problemas (urbanos, sociais e ambientais). Há ainda, no âmbito do curso, um diálogo horizontal de caráter interdisciplinar que promove a integração de diferentes disciplinas como urbanismo, tecnologia, história da arquitetura e da cidade, técnicas retrospectivas.

Mapa cartográfico da Mooca
Disciplina de Projeto 7, 2021 [Acervo Faap]

As oficinas de leituras têm aproveitado tanto dinâmicas tradicionais, como seminários e apresentações de resumos, como também espaços de elaboração colaborativa, resultando em cartografias coletivas envolvendo todo o grupo de estudantes.

Estas disciplinas de projeto entendem a produção da arquitetura como uma atividade de detecção e resolução de problemas (14) em um processo dialético de precisão e erudição. Durante o semestre, estabelecemos um processo permanente de avaliação através de um conjunto de etapas que ao mesmo tempo que aprofundam, revisam o trabalho em desenvolvimento. As dinâmicas de trabalho se revezam entre atividades em grupo e em dupla para que a discussão coletiva possa trazer a reflexão individual como prática. Os conteúdos de diferentes escalas são abordados em momentos transversais, trazendo, para o problema de projeto, a questão urbana e construtiva.

O trabalho é desenvolvido utilizando as ferramentas de detecção de problemas como a cartografia, as visitas de campo, os diagnósticos e levantamentos, os debates e a sistematização de trabalhos referência com ênfase para a crítica. Para a investigação das hipóteses, o desenho é a principal ferramenta, bem como os modelos físicos e virtuais. A ênfase deve ser o desenho como ferramenta diagramática e de representação técnica.

O desenvolvimento das ideias, consubstanciado pelo desenho, está assim comprometido com a percepção das escalas de intervenção, os sistemas construtivos e a materialidade envolvida, o detalhe e a linguagem arquitetônica.

Neste sentido, a participação dos alunos é grande, valorizando tanto o saber acumulado quanto aquele em formulação, a partir do olhar intermediado por um pensamento que estabelece valores críticos sobre a realidade. Os programas funcionais adotados, por exemplo, são desenvolvidos pelos alunos como uma das atividades didáticas e como consequência da análise crítica do lugar e sua vitalidade urbana. As estratégias de intervenção são articulações entre as virtudes e conflitos no existente.

As disciplinas não estão organizadas por temas ou programas funcionais, mas pelo conceito de cidade existente que leva o estudante a identificar problemas e potenciais que resultam na elaboração da arquitetura do programa (15). Os usos dos novos edifícios ou das requalificações do existente são estratégias fruto de uma avaliação simultânea das condicionantes e do estudo aprofundado de teorias urbanas para intervenções em tecido consolidado. A articulação de conceitos como densidade habitacional, patrimônio material e imaterial, mobilidade urbana, industrialização, modulação e seriação apresentam-se como fundamentais para articular a arquitetura que se organiza em diversas escalas de significado.

Prancha etapa de leitura estratégica da cidade, bairro do Bom Retiro
Elaboração Aline Souza, Maria Luiza Freire e Vivian Vivan [Acervo Faap, 2020]

Prancha etapa de leitura estratégica da cidade, bairro do Bom Retiro
Elaboração Clara Bernardes e Giulia Montone [Acervo Faap, 2020]

A primeira síntese projetual é o estabelecimento de estratégias de intervenção traduzidas em um Plano de Massa, que reconhece e identifica valores sobre a preexistência e define diretrizes a partir de relações espaciais e da intervenção cautelosa, buscando articular as questões da construção e do desenho urbano.

Prancha etapa de plano de massa, bairro Bairro da Liberdade
Elaboração Guilherme Seror e Luiza Sawaya [Acervo Faap, 2021]

Prancha etapa de plano de massa, bairro da Liberdade
Elaboração Guilherme Seror e Luiza Sawaya [Acervo Faap, 2021]

Na sequência, a partir desta elaboração em grupo, são constituídas duplas para o desenvolvimento dos projetos propostos no Plano, cujos programas são definidos com o reconhecimento de demandas e potenciais do lugar. O desenvolvimento desses projetos não perde a referência do plano inicial, que continua sendo atualizado à medida que novas decisões são tomadas.

Prancha etapa de proposta arquitetônica, bairro do Bom Retiro
Elaboração Aline Souza, Maria Luiza Freire e Vivian Vivan [Acervo Faap, 2020]

Prancha etapa de proposta arquitetônica, bairro do Bom Retiro
Elaboração Clara Bernardes e Giulia Montone [Acervo Faap, 2020]

O trabalho segue, desde o início, com a constituição de seminários a partir de cada síntese que são as etapas de entregas, onde são apresentadas, discutidas e compartilhadas questões e proposições. Também organizamos seminários temáticos a partir de provocações que os próprios trabalhos suscitam. O objetivo dessas dinâmicas coletivas e colaborativas é construir um conhecimento compartilhado. Entre essas atividades, como forma de ampliar a cultura arquitetônica constitui-se, de forma coletiva, uma Biblioteca de Repertório, compartilhada e acessível aos alunos. A partir dos trabalhos de análise e estudo de projetos de referência relacionados com os problemas e questões a serem enfrentadas nos trabalhos, a biblioteca sistematiza projetos exemplares de inserção urbana, programas funcionais e partidos espaciais até sistemas construtivos e materialidades.

Prancha etapa de proposta arquitetônica, bairro do Bom Retiro
Elaboração Aline Souza, Maria Luiza Freire e Vivian Vivan [Acervo Faap, 2020]

Prancha etapa de proposta arquitetônica, bairro do Bom Retiro
Elaboração Clara Bernardes e Giulia Montone [Acervo Faap, 2020]

As disciplinas provocam e estimulam a autonomia dos alunos nas escolhas e decisões desde a definição das estratégias de intervenção, os lugares dos projetos, a definição e detalhamento dos programas funcionais e a definição dos sistemas construtivos. Do mesmo modo a avaliação dos trabalhos valoriza o processo de desenvolvimento diante das etapas sucessivas e graduais de aprofundamento em método dialético (16). Entendemos que é necessário no curso como um todo, mas especificamente nas disciplinas finais, o incentivo a emancipação intelectual, no sentido mesmo dado por Ranciére sobre o valor da experiência e não a verdade como propósito do ensino (17).

Prancha etapa de detalhamento, bairro do Bom Retiro
Elaboração Aline Souza, Maria Luiza Freire e Vivian Vivan [Acervo Faap, 2020]

Prancha etapa de detalhamento, bairro do Bom Retiro
Elaboração Clara Bernardes e Giulia Montone [Acervo Faap, 2020]

Nesse processo de aprendizagem propomos aos estudantes a realização da autoavaliação dos trabalhos como forma de desenvolver a autonomia crítica e aprofundar a conceituação e justificativas das decisões projetuais assumidas. Com revisões sucessivas, o desenvolvimento do projeto é concebido como um processo dialético, analítico e projetual, estruturado em etapas de análises e sínteses das relações das partes e do todo, dos sistemas construtivos, da constituição dos espaços e da linguagem da arquitetura. Essa dinâmica estimula a compreensão do trabalho como um processo complexo e contínuo de desenvolvimento e crítica, questionando cada passo com relação ao todo, a partir dos objetivos e premissas estabelecidas, ao invés de um processo simples e direto, numa única direção.

Para continuar a conversa

Como modo de encerramento deste artigo, propomos alguns tópicos que foram aqui apresentados, mas que certamente podem motivar uma avaliação contínua tanto do ensino e da aprendizagem como das próprias responsabilidades e propósitos mesmo da profissão no cenário atual de reconstrução de sentido da cidade e de seus espaços e artefatos existentes.

Vivenciamos a prática coletiva no desenvolvimento dos trabalhos com foco na formação profissional voltada para a inserção de arquitetos (as) em equipes de trabalho, compreendendo a arquitetura como uma atividade coletiva. Neste sentido, a vocação para o diálogo, onde saber ver o ouvir a realidade e o outro demanda a atitude de conversar nos diferentes momentos do trabalho, de provocar consensos para os problemas e as soluções. Uma postura interna à equipe criativa e externa na apresentação de soluções para comunidade, cliente, governo que exige abertura e habilidade para dialogar com o outro na discussão da cidade existente.

No processo de desenvolvimento dos trabalhos, há uma ênfase na busca pela reconstrução cautelosa, baseada na leitura sensível do contexto, avaliando a realidade do lugar, buscando virtudes reconhecidas nas cidades com qualidade de vida, mas sobretudo, potencialidade a serem descobertas onde fica explícita a valorização das permanências nos processos de reconstrução. Deste modo, a questão de projeto que se coloca como fundamental é uma ação pelas possibilidades como um fio da navalha, que está nas diferentes escalas de abordagem. Ela diz de uma atitude inquieta que busca o que é possível, o que é necessário, o que é suficiente, o que são os vínculos, a eficiência máxima da intervenção, com o mínimo de gasto de energia ambiental e social, a economia e a racionalidade. Buscamos projetar para reconstruir lugares com a eficiência que avalia a potencialidade dos recursos, um modo também de entender a sustentabilidade.

Podemos dizer que há o entendimento de uma prática de projeto, um certo lugar da arquitetura na sociedade e do papel do(a) arquiteto(a): uma prática inserida e comprometida com a realidade, um(a) arquiteto(a) que trabalha de modo colaborativo e dialógico com todos os atores.

notas

NA ― Agradecemos a colaboração e o consentimento na utilização das imagens dos trabalhos de autoria das alunas e alunos aqui nomeados para este artigo.

1
BARDI, Lina Bo. Palestra na FAU USP, 14 abr. 1989. Transcrição, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. In GRINOVER, Marina (org.). Lina por escrito. São Paulo, Cosac Naify, 2009.

2
BEIGUELMAN, Giselle. Coronavida: pandemia, cidade e cultura urbana. São Paulo, Editora da Cidade, 2020

3
Este termo é objeto de estudo, entre outros, do grupo de pesquisa da FAU USP liderado pela professora Regina Meyer ― Laboratório de Urbanismo e da Metrópole ― LUME ― e encontra fundamento nas proposições teóricas desde a segunda metade do século 20 quando enfrentaram-se outros modos de analisar e agir sobre a cidade que não a sua leitura funcional ou da necessária terra arrasada para pensar o desenho urbano. Ver MEYER, REGINA. Memorial do Concurso para Professor Titular do Departamento de História e Fundamentos da FAU USP. São Paulo, FAU USP, 2006.

4
FUNDAÇÃO ARMANDO ÁLVARES PENTEADO. Projeto pedagógico, curso de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, FAAP, 2021 <https://bit.ly/3pDRAjC>. Para cada semestre o curso tem definido um verbo organizador. No caso do 4º ano os verbos são: Estruturar o território e Pensar a metrópole.

5
ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como história das cidades. São Paulo, Martins Fontes, 1993.

6
ROSSI, Aldo. A arquitetura da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 15.

7
FERRARA, Lucrécia. Cidade, meio, mídia e mediação. MATRIZes, v. 1, n. 2, São Paulo, FAU USP, 2008, p. 39-53 <https://bit.ly/3y1BFiW>.

8
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Recomendação n. R (95) 9 ― Sobre a conservação integrada das áreas de paisagens culturais como integrantes das políticas paisagísticas. In Cartas patrimoniais. Rio de Janeiro, Iphan, 2000.

9
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo, Hucitec, 1996, p.82.

10
NORBERG-SCHULZ, Christian. O fenômeno do lugar. In NESBITT, Kate (org.). Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica (1965-1995). São Paulo, Cosac Naify, 2006.

11
Desde os anos 1990 há um corpo teórico que formula a ideia de continuidade entre interior e exterior, público e privado, cidade e edifício no desenho da arquitetura nacional cujo texto seminal foi o artigo sobre o MUBE da historiadora Sophia Telles. Ver TELLES, Sophia S. Museu da Escultura. AU ― Arquitetura e Urbanismo, ano 6, n. 32, out./nov. 1990.

12
ROSSI, Aldo. Op. cit. e FERRARA, Lucrécia. Op. cit.

13
MAGNANI, José Guilherme Cantor. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Revista Brasileira de Ciências e Sociologia, v. 17, n. 49, São Paulo, jun. 2002, p. 12.

14
O ensino de projeto tem se valido de um alargamento da prática profissional onde podem se desenvolver habilidades não somente responsivas, como comumente se estabelece a relação profissional da arquitetura onde a tarefa do projeto é responder a uma demanda colocada. Mas desde o final do século 20 que o estudo do papel do desenho como ferramenta de elaboração de problemáticas urbanas e espaciais tem contaminado os diferentes cursos ligados a arquitetura e o design, alargando as competências profissionais. Entender o desenho como ferramenta política e criativa está na base de estudos como de Arturo Escoba, Luis Antonio Rivera Diaz e Alejandro Tapia. ESCOBAR, Arturo. Autonomía y Diseño, la realización de lo comunal. Popayán, Editorial de la Universidad de Cauca, 2016; DIAZ, Luis Antonio Rivera. La evaluación de la educación del diseño en México. Ciudad México, COMAPROD, 2018; TAPIA, Alejandro. La astucia del diseño. In Departamento de Teoría y Análisis da Universidad Autónoma Metropolitana-Xochimilco, México, 2020 [a ser publicado pela Ars Optika Editores, 2021].

15
Em geral, os cursos de projeto de edificações se estruturam, metodologicamente, em ateliês-estúdios de desenho com exercícios ligados a um programa: habitação, equipamento, mobilidade, edifício misto ou complexo. Buscamos explorar a ideação do programa ou tema a partir da leitura territorial, inclusive incentivando a construção de programas específicos, num exercício que chamamos de "arquitetura do programa".

16
Tanto as etapas de avaliação (definição de estratégias, plano de massa, estudos preliminares, sistemas construtivos e projeto final) como seus critérios têm uma correspondência que varia conforme a etapa. Adotamos as seguintes rubricas: estruturação urbana: relação edifício-cidade; conceituação do projeto: concepção / partido / programa; organização funcional e espacial; raciocínio construtivo: conceito estrutural / sistemas e materialidade; apresentação: desenho/ expressão / linguagem; modelo volumétrico – físico e digital; memorial – conceitual/ justificativo/descritivo. Ver FUNDAÇÃO ARMANDO ÁLVARES PENTEADO. Op. cit.

17
Ver: RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante. Cinco lições sobre emancipação intelectual. Belo Horizonte, Autêntica, 2015.

sobre os autores

Eduardo Argenton Colonelli é arquiteto e urbanista (1978) e mestre (2004) pela FAU USP. Professor adjunto de projetos na FAU Faap desde 1998; professor de projetos na Escola da Cidade desde 2005; sócio do Escritório Paulistano de Arquitetura e 2° lugar no Prêmio Mies van der Rohe de Arquitectura Latino Americana (2000) pela coautoria do Projeto da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Marcio Novaes Coelho Jr. é arquiteto e urbanista (FAU Mackenzie, 2000), mestre (2004) e doutor (2010) pela FAU USP, com bolsa-sanduíche Capes/Daad no Departamento de Sociologia Urbana da Universidade Técnica de Berlim. Sócio do escritório Sguizzardi-Coelho Arquitetura e arquiteto do Condephaat de 2003 a 2007. Atualmente é professor de Projeto Arquitetônico e Técnicas Retrospectivas, além de orientar trabalhos de conclusão de curso na Faap.

Marina Mange Grinover é arquiteta e urbanista (1993), mestre (2010) e doutora (2015) pela FAU USP; pós-doutoranda (2021) pela mesma instituição, selecionada pelo Edital PART de retenção de talentos USP (2020) e professora titular de projeto da Faap. É também sócia do escritório Base Urbana Arquitetos, autora de Uma ideia de arquitetura, escritos de Lina Bo Bardi (Annablume, 2018) e organizadora de Lina por escrito (Cosac Naify, 2009).

preâmbulo

O presente artigo faz parte de Preâmbulo, chamada aberta proposta pelo IABsp e portal Vitruvius como ação para alavancar a discussão em torno da 13ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, prevista para 2022. As colaborações para as revistas Arquitextos, Entrevista, Minha Cidade, Arquiteturismo, Resenhas Online e para a seção Rabiscos devem abordar o tema geral da bienal – a “Reconstrução” – e seus cinco eixos temáticos: democracia, corpos, memória, informação e ecologia. O conjunto de colaborações formará a Biblioteca Preâmbulo, a ser disponibilizada no portal Vitruvius. A equipe responsável pelo Preâmbulo é formada por Sabrina Fontenelle, Mariana Wilderom, Danilo Hideki e Karina Silva (IABsp); Abilio Guerra, Jennifer Cabral e Rafael Migliatti (portal Vitruvius).

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259.05 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)
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259

259.00 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

O espaço democrático e os concursos de arquitetura

Fabiano Sobreira and Maria Carolina Schulz

259.01 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Guia de telas de projeção para histórias apagadas

Marina Biazotto Frascareli and Lívia Zanelli de Morais

259.02 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

O conceito das subprefeituras e a gestão democrática da cidade (1989-1992)

Pedro Henrique Herculano Correia and Ana Paula Koury

259.03 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Para (re)construir a democracia, purgar o Doi-Codi

Deborah Neves

259.04 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

The ocean as a terrain vague of the twenty-first century

Rebuilding new sea cartographies. The Azorean case

Inês Vieira Rodrigues

259.06 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Arborização com foco no conforto térmico é elemento essencial do planejamento urbano

Júlia Wilson de Sá Roriz, Loyde V. de Abreu-Harbich and Karla Emmanuela Ribeiro Hora

259.07 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Recortar, nomear e repensar o espaço

Um convite ao pensamento ecológico e ao planejamento sistêmico em Medellín, Colômbia

Eunice Sguizzardi Abascal and Carlos Abascal Bilbao

259.08 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Considerações sobre memória, lugar e identidade a partir de reminiscências do Tatuapé e Jardim Têxtil

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259.09 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Tiny Eco House

Métodos e elementos alternativos aplicados a construção e integração com a natureza

Elton Judson de Queiroz Fonseca and Adriana Carla de Azevedo Borba

259.10 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Cidade, paisagem e democracia

Sobre a arte de habitar

Hulda Erna Wehmann

259.11 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Regimes de negociação entre o público e o privado

Jaime Solares Carmona

259.12 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

Uma reflexão acerca da qualidade luminosa das habitações e a saúde de seus ocupantes

Raphaela W. da Fonseca and Fernando O. R. Pereira

259.13 13ª Bienal + Vitruvius (Preâmbulo)

O tempo, a escala e a memória

A criança na cidade

Audrey Migliani, Eneida de Almeida and Maria Isabel Imbrunito

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